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‘Direitos humanos não são relevantes para o negócio’: o histórico da FIFA com governos autoritários

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O histórico do Catar em relação aos tratamento de direitos humanos tem gerado protestos contra a realização da Copa do Mundo de futebol no país desde o anúncio da escolha do anfitrião, 12 anos atrás.

Geraram revolta não apenas a postura do país quanto aos direitos da população LGBT (homossexualidade é crime no país) e das mulheres, mas também pelo esquema de trabalho para estrangeiros que levantaram os estádios e que foi considerado desumano e análogo à escravidão pela Anistia Internacional.

A postura da FIFA, que organiza o campeonato, diante da monarquia absolutista que governa o Catar também gerou inúmeros protestos.

A FIFA costuma impor uma série de regras aos anfitriões, que muitas vezes entram em conflito com a legislação local. No Catar, no entanto, a FIFA aceitou sem reclamar a proibição de venda de bebidas alcoólicas nos estádios anunciada pela monarquia dois dias antes do início do torneio e proibiu os jogadores de fazerem manifestações durante as partidas.

Na quarta-feira (23/11), jogadores da Alemanha taparam as próprias bocas durante a foto oficial do primeiro jogo do time em protesto contra a proibição. Muitos integrantes do time queriam usar a braçadeira com as cores do arco-íris “One Love”, de apoio à causa LGBT, mas seu uso foi proibido pela entidade.

“A Fifa não se importa com direitos humanos, isso não é relevante para o negócio“, afirma o historiador do futebol Flávio de Campos, professor de História da USP e coordenador do Ludens, núcleo interdisciplinar de pesquisas sobre jogos. “Ela é muito pragmática no sentido de realizar as atividades e os eventos independente dessas questões.”

Campos se refere não somente à Copa do Catar, mas ao fato da FIFA de se relacionar sem problemas com governos autoritários e que ferem direitos humanos desde os primeiros campeonatos.

Entenda o histórico da entidade com governos autoritários.

A Copa de 1978 na Argentina

 

Em 1978, a Argentina era governada por uma brutal ditadura militar que havia chegado ao governo dois anos antes através de um golpe militar. Mas a FIFA decidiu realizar a Copa no país mesmo assim.

“Havia um mundial transcorrendo enquanto a tortura era praticada em grande volume na Argentina”, diz Flávio de Campos. “Não existe nenhum limite do que um governo pode fazer desde que o negócio esteja dando dinheiro, desde que se alimente esse complexo econômico.”

O clima político no país era bastante conturbado, com inúmeros protestos sendo feitos pelas Mães da Praça de Maio, que buscavam seus filhos desaparecidos.

A organização do torneio foi marcada por muitos problemas e polêmicas. Muitos estádios ficaram prontos no último minuto, com gramados recém-plantados se soltando durante os jogos. O governo foi acusado de favorecer o time da Argentina, já que os jogos dos anfitriões aconteceram todos em Buenos Aires, com os adversários precisando viajar pelo país.

A escolha da Argentina tinha acontecido anos antes, mas diante dos crimes da ditadura, o então chefe da Fifa, João Havelange, foi pressionado para mudar a sede do torneio para a Europa, o que não aconteceu.

A mudança não seria algo impossível, afirma Campos, tanto que aconteceu algumas copas depois, em 1986, quando a Colômbia desistiu de receber o Mundial e a Copa foi realizada no México.

A realização do torneio não aconteceu sem protestos.

Houve uma forte campanha pelo boicote da Copa, explica Mateus Gamba Torres, professor de história da Universidade de Brasília. “Houve bastante protesto internacional. Alguns jogadores boicotaram, não foram. E outros, que foram, participaram das manifestações da Praça de Maio”, afirma Torres.

“O time da Holanda, que foi para a final, afirmou que se ganhasse não iria receber a taça das mãos do Videla (o ditador em 1978)”, diz o historiador. O campeonato acabou sendo vencido pelo time da casa — e a taça não foi entregue pelo ditador.


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