A reforma tributária brasileira está saindo do papel. E se há uma categoria que sente essa mudança na pele — e na rotina —, essa categoria é a dos contadores. Não falo aqui de pânico, mas de preparação consciente. Depois de décadas operando num sistema fragmentado, com cinco tributos sobre consumo que mais confundiam do que esclareciam, chegamos ao IVA dual: CBS e IBS unificando a lógica, mas exigindo nova alfabetização fiscal.
Trabalho há 40 anos com direito tributário e posso garantir: toda grande reforma traz, primeiro, insegurança; depois, oportunidade. A questão é saber em qual desses dois campos você vai se posicionar. Neste artigo, quero compartilhar uma visão prática e estratégica sobre como os contadores devem se preparar para essa transição — não apenas tecnicamente, mas conceitualmente. Porque não basta aprender a operar o novo sistema; é preciso entender sua filosofia. E compreender como isso afeta a vida real das empresas que confiaram seus números a você.
O Que Muda na Prática do Contador
A primeira mudança é conceitual: sai a lógica cumulativa, entra a não-cumulatividade plena. Parece óbvio, mas não é. Durante anos, empresários e contadores conviveram com um sistema que permitia — e até incentivava — o planejamento pelo lado da opacidade. PIS, COFINS, ICMS, ISS e IPI tinham regras próprias, prazos distintos, bases de cálculo que variavam conforme o estado ou a atividade.
Com a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços, de competência federal) e o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços, de estados e municípios), essa fragmentação dá lugar à transparência forçada. A sistemática de débito e crédito será unificada. O split payment — recolhimento automático no momento da transação — vai reduzir drasticamente a margem para erros ou “ajustes criativos”.
Vale observar: a tecnologia será protagonista. Sistemas como o futuro Comitê Gestor do IBS vão cruzar informações em tempo real. O contador que ainda opera com planilhas desatualizadas ou que demora a migrar para ERPs integrados está, literalmente, ficando para trás.
A Transição Não Será Instantânea — E Isso É Estratégico
A reforma prevê um período de transição de 2026 a 2032. Esse não é um detalhe burocrático; é uma janela de adaptação. Durante esses anos, os tributos antigos conviverão com os novos, em alíquotas decrescentes até a extinção completa. Isso significa que, por um tempo, o contador terá de dominar dois mundos: o velho e o novo.
A tentação será adiar a adaptação. “Ainda tenho tempo”, dirão alguns. Mas quem conhece a dinâmica legislativa brasileira sabe que os detalhes da regulamentação virão aos poucos — e quem esperar pela certeza total nunca sairá do lugar.
Minha recomendação: comece agora a mapear os clientes por setor. Identifique quais atividades terão alíquotas reduzidas (saúde, educação, transporte coletivo) e quais enfrentarão a alíquota padrão, estimada entre 26% e 28%. Antecipe os impactos no fluxo de caixa dessas empresas. Prepare simulações. Mostre cenários.
Porque o contador moderno não é apenas um operador de obrigações acessórias. É um conselheiro estratégico. E essa transição é a oportunidade perfeita para consolidar esse papel.
Capacitação Contínua: O Novo Imperativo
Confesso que vejo com preocupação a resistência de alguns profissionais à atualização. Não é arrogância; é medo. Medo de não conseguir acompanhar. Medo de parecer desatualizado. Mas a verdade é simples: quem não se atualiza, desaparece.
A reforma tributária exige familiaridade com conceitos que, até agora, eram secundários na rotina contábil brasileira. O creditamento integral, por exemplo, vai demandar compreensão fina da cadeia produtiva de cada cliente. O regime específico para determinados setores (como construção civil, combustíveis e serviços financeiros) exigirá interpretação aguçada das leis complementares que ainda estão sendo desenhadas.
Recomendo três frentes de ação imediata:
Cursos e certificações específicas sobre IVA, CBS e IBS. Instituições como CRC, Fenacon e até universidades federais já estão oferecendo formações direcionadas.
Participação em grupos de estudo com outros contadores. A troca de experiências acelera o aprendizado e reduz a insegurança. Ninguém precisa saber tudo sozinho.
Leitura constante da legislação em construção. Acompanhe os projetos de lei complementar, as notas técnicas da Receita Federal e dos estados. Essa vigilância ativa faz toda a diferença.
O Lado Humano da Reforma: Seu Cliente Está Assustado
Por fim, um ponto que nem sempre aparece nos debates técnicos: o impacto emocional da reforma sobre os empresários. Especialmente os pequenos e médios, que não têm departamentos jurídicos robustos.
Seu cliente está preocupado. Ele lê manchetes sobre aumento de carga tributária, sobre complexidade, sobre riscos de autuação. E ele vai buscar respostas em você. Não subestime essa dimensão. O contador que souber traduzir a reforma em linguagem acessível, que souber acalmar sem iludir, que souber planejar sem prometer milagres, esse contador vai ganhar a confiança definitiva de sua carteira.
Eu sempre digo: a lei tributária é fria, mas as pessoas que lidam com ela são humanas. E é na humanização do atendimento que mora a diferença entre um profissional técnico e um profissional essencial.
Conclusão: Preparação É Vantagem Competitiva
A reforma tributária não é uma ameaça; é uma reorganização do jogo. E em todo jogo reorganizado, quem se prepara primeiro larga na frente. Os contadores têm, neste momento, uma responsabilidade e uma oportunidade históricas. Responsabilidade de conduzir seus clientes pela transição com segurança. Oportunidade de se consolidarem como parceiros estratégicos indispensáveis.
Não espere pela perfeição regulatória. Ela não virá. Comece agora: estude, simule, capacite-se, dialogue. A reforma já começou — e você precisa estar pronto antes que ela bata à porta do seu escritório.
E lembre-se: mudanças dessa magnitude testam nossa capacidade de adaptação. Como dizia Heráclito, “a única constante é a mudança”. Que saibamos transformá-la em crescimento.
Para entender em detalhes a mecânica de cálculo do novo sistema, confira o guia completo sobre IVA Dual: Como Calcular o Novo Imposto da Reforma Tributária.
AVISO
Este conteúdo tem caráter informativo e educacional, não constituindo consultoria jurídica, contábil ou tributária específica. Para orientação personalizada sobre sua situação, consulte um profissional habilitado.
Precisa de orientação jurídica especializada sobre a reforma tributária?
Entre em contato com nosso escritório e agende uma consulta. Vamos analisar juntos como a nova legislação impacta sua empresa e construir uma estratégia fiscal segura para o futuro.
Siga nossas redes e fique por dentro de assuntos como esse e muito mais!
Instagram
Spotify
Linkedin
Whatsapp