No momento, você está visualizando Hans Urs von Balthasar

Hans Urs von Balthasar

Gostou? Compartilhe:

O Teólogo da Glória que Morreu às Vésperas da Púrpura

Tributos Teológicos · Março de 2026 · Mês de São José

Há uma categoria de homens que a história trata com perversidade característica: os que foram grandes demais para uma época, pequenos demais para uma instituição, e chegaram ao reconhecimento oficial com dois dias de atraso. Hans Urs von Balthasar pertence a esse clube seleto e cruel. Morreu em 26 de junho de 1988, dois dias antes de João Paulo II presidir a cerimônia na qual ele seria criado Cardeal. A viola já estava afinada. O concerto nunca aconteceu.

Esse detalhe biográfico não é uma anedota. É um símbolo, e ilumina, de modo involuntário, toda a trajetória do homem. Balthasar passou décadas à margem do reconhecimento institucional da Igreja que amava com fidelidade desconcertante, construindo em silêncio uma das obras teológicas mais monumentais do século XX, enquanto outros, de menor envergadura intelectual, acumulavam títulos, prefeituras e assembleias sinodais. Quando a Igreja finalmente foi bater à sua porta com a barreta cardinalícia, ele já havia saído pela outra.

Escrevo este tributo como o terceiro desta série de março de 2026, depois de Joseph Ratzinger e Gianfranco Ravasi. Não é coincidência que Balthasar apareça ao lado dos dois: foi amigo íntimo e cofundador de revista com Ratzinger, e partilha com Ravasi a convicção de que a beleza é porta de entrada para o sagrado. Mas os supera a ambos em uma coisa: a ousadia dramática do pensamento. Balthasar não apenas escreveu sobre o teatro de Deus na história, ele também viveu esse teatro, com todos os seus atos, suas viradas e suas quedas.

E é precisamente nesse ponto que este tributo me toca de forma particular. Ao longo da vida, sofri o que chamo, sem vergonha, de reveses: momentos em que o chão cedeu sob os pés, em que o projeto parecia encerrado, em que a instituição voltou as costas. Quem conhece Balthasar conhece essa música. Ele a tocou durante décadas. E não parou de compor. É por isso que ele não é apenas um nome nesta série, mas um espelho.

A Formação de um Gigante

Nascido em 12 de agosto de 1905 em Lucerna, na Suíça alemã, Hans Urs von Balthasar cresceu em um ambiente de alta cultura germânica e católica. A família pertencia à aristocracia intelectual renana; seu nome completo inclui von, e isso não é um detalhe decorativo. Era meio que lia, escutava e debatia, e Balthasar bebeu disso até a medula, com a absorção voraz de quem já sabe, desde cedo, que o mundo das ideias será sua morada permanente.

Estudou literatura e filosofia em Viena, Berlim e Zurique. Doutorou-se em literatura alemã em Zurique, em 1928, com o estudo Apokalypse der deutschen Seele, depois publicado em três volumes, uma panorâmica da escatologia na literatura de língua alemã, de Lessing a Heidegger. Já era evidente que se tratava de um espírito fora do padrão: não um especialista que aprofunda uma vala, mas um pensador que alarga o horizonte.

Em 1929, entrou na Companhia de Jesus. Os anos de formação jesuítica o colocaram diante de nomes que o marcariam para sempre: estudou com Erich Przywara, o filósofo da analogia entis, e com Henri de Lubac, o jesuíta francês que mais tarde seria feito cardeal e que exerceria, como Balthasar, uma influência silenciosa e profunda sobre o Concílio Vaticano II. Ambos estavam convictos de que o retorno aos Padres da Igreja era a alternativa necessária ao neoescolasticismo árido, e ambos pagaram um preço institucional por essa convicção antes que o Concílio os reabilitasse. A Companhia lhe deu os melhores mestres. Mas não lhe deu a cátedra que esses mestres o haviam preparado para ocupar.

Ordenado sacerdote em 1936, deveria ter seguido a carreira acadêmica que seus dons exigiam. Desejava lecionar em Frankfurt; os superiores decidiram por uma missão apostólica diferente e o enviaram para a pastoral universitária em Basileia. Foi o primeiro revés: silencioso, institucional, revestido da elegância fria das grandes ordens religiosas quando redirecionam seus melhores homens para funções que não escolheram. Ele aceitou. E foi em Basileia, naquele destino que não escolheu, que a história deu a virada que mudaria tudo.

A Mística que Mudou Tudo

Em 1940, numa daquelas coincidências que só retroativamente revelam sua necessidade, Balthasar converteu ao catolicismo uma médica suíça de origem protestante chamada Adrienne von Speyr. Essa frase simples contém uma das histórias mais extraordinárias da espiritualidade católica do século XX, e também o germe da segunda, e mais profunda, de suas rupturas com a ordem.

Adrienne não era uma convertida comum. Era uma mística de calibre raro: recebia estigmas, experimentava visões e, sobretudo, ditou a Balthasar, ao longo de décadas, uma série de comentários bíblicos e obras espirituais que somam mais de sessenta volumes publicados postumamente. Balthasar foi, ao mesmo tempo, seu diretor espiritual, seu secretário e seu interlocutor teológico mais íntimo, numa relação sem paralelo exato na história da espiritualidade moderna. Ele próprio declarou que sua obra e a de Adrienne formam “uma unidade que não pode ser separada”.

Para quem olha de fora, a relação entre os dois é desconcertante: um teólogo jesuíta de formação clássica, rigoroso e erudito, entregando décadas de sua vida à escuta de uma mística leiga. Mas Balthasar nunca hesitou diante dessa aparente contradição. Via em Adrienne não o exotismo do fenômeno carismático, mas a experiência viva daquilo que a teologia apenas pode descrever, a kénosis, o esvaziamento de Deus que se revela na Cruz. O que Balthasar formulava com precisão dogmática, Adrienne havia experimentado no corpo e na alma. Para ele, os dois lados eram necessários: sem a experiência, a teologia é esquema; sem o esquema, a experiência é caos.

Juntos, em 1945, fundaram o Instituto São João, uma comunidade laica secular, com votos, que buscava viver a vida apostólica fora das estruturas monásticas tradicionais. Era um projeto pioneiro, corajoso e, inevitavelmente, problemático para a Companhia de Jesus. Para fundar o Instituto com aprovação canônica, Balthasar precisava do aval dos superiores jesuítas. Não o obteve. A escolha colocada diante dele era brutal em sua simplicidade: a Companhia ou Adrienne e o Instituto. Balthasar escolheu Adrienne. Em 1950, pediu dispensa dos votos e saiu da Companhia de Jesus, uma saída que não foi infâmia pública, mas representou ruptura profunda para um homem que havia consagrado vinte anos àquela espiritualidade.

A Companhia perdeu um de seus maiores talentos intelectuais do século. E ele saiu sem cátedra, sem prebenda, sem título universitário. Padre diocesano de Basileia, com um instituto que poucos levavam a sério. Tinha 45 anos. E sua obra teológica mais importante ainda estava por escrever.

A Catedral sem Cátedra

O que acontece quando um teólogo de gênio perde a cátedra, a proteção institucional e a legitimidade acadêmica, e decide, mesmo assim, escrever? No caso de Balthasar, aconteceu a maior síntese teológica do século XX.

Entre 1961 e 1987, ele construiu uma trilogia em quinze volumes que reescreveu a totalidade da teologia a partir de três categorias filosóficas que os gregos chamavam de transcendentais, as propriedades do ser que pertencem a tudo o que existe: o belo, o bem e o verdadeiro. Nenhum teólogo antes havia tentado reorganizar sistematicamente a fé cristã a partir dessas três categorias. Balthasar tentou. E chegou até o fim.

Herrlichkeit — A Glória do Senhor (sete volumes, 1961–1969) é a teologia da beleza. Deus se revela primeiramente como beleza, não como argumento racional nem como imperativo moral, mas como forma que arrebata. O testemunho da Revelação é, antes de tudo, estético: Cristo não é primeiramente uma tese a ser provada, mas uma forma que se impõe.

Da beleza, Balthasar passa ao drama. Theodramatik — Teodramática (cinco volumes, 1973–1983) é talvez a contribuição mais original da trilogia em termos filosóficos. A história da salvação não é um plano administrativo executado de cima para baixo, mas um teatro: Deus e o homem são atores em cena, com papéis, conflitos e liberdade genuína. O desfecho não está escrito na primeira cena. Cristo não é apenas um personagem, mas o Autor que entra em cena e assume o risco do próprio drama. Aqui Balthasar enfrenta frontalmente o problema da liberdade humana e da providência divina, e não o esquiva.

O terceiro movimento fecha o arco. Theologik — Teológica (três volumes, 1985–1987) é a teologia da verdade como fundamento trinitário de tudo o que existe. A lógica do ser é, no fim, a lógica do amor entre o Pai, o Filho e o Espírito. O que parecia uma série de estudos independentes revela, aqui, sua unidade: beleza, bem e verdade são três faces de um mesmo mistério.

Somados, são mais de seis mil páginas de teologia sistemática, escritas por um homem sem cátedra universitária, sem instituto de pesquisa subsidiado, sem bolsistas doutorais. Balthasar escrevia como Mozart compunha: com uma capacidade de trabalho que desconcertava os contemporâneos e uma clareza que contradizia a dificuldade extrema do que tratava. Além da trilogia, produziu estudos monográficos sobre Soloviev, Bernanos, Péguy e Reinhold Schneider; traduziu para o alemão obras de Henri de Lubac e dos Padres da Igreja; e escreveu sobre oração e teologia espiritual com a mesma densidade que reservava para a especulação mais abstrata. Para Balthasar, espiritualidade e teologia nunca foram disciplinas separáveis, mas o anverso e o reverso de uma mesma moeda.

O Homem que Ousou Esperar

Em 1986, Balthasar publicou um livro pequeno em tamanho e enorme em provocação: Hoffen wir, dass alle Menschen gerettet werden?, traduzido para o português como Devemos Esperar que Todos os Homens Sejam Salvos?. A tese central era simples de enunciar e difícil de digerir: não é possível afirmar com certeza que algum ser humano concreto esteja no inferno. A condenação eterna é uma possibilidade real, pois a liberdade humana exige isso, mas a misericórdia de Deus é tão radical que a fé cristã deve cultivar a esperança de que o inferno esteja vazio.

Era preciso ler com atenção para perceber o que Balthasar estava, e o que não estava, dizendo. Ele não pregava o universalismo de Orígenes, a doutrina condenada de que todos serão inevitavelmente salvos. Fazia uma distinção sutil e crucial entre a certeza doutrinária de que a condenação é possível e a esperança teológica de que a misericórdia de Deus é maior do que nossa capacidade de medi-la. A Escritura, afinal, sustenta as duas pontas dessa tensão: Mateus 25,46 fala do castigo eterno com toda a clareza; 1 Timóteo 2,4 afirma que Deus quer que todos os homens se salvem com a mesma clareza. Balthasar não dissolvia essa tensão, recusava-se a amputar um dos polos em favor do outro.

A reação, sobretudo nos ambientes acadêmicos alemães, foi imediata. Teólogos ligados à teologia moral acusaram Balthasar de relativizar a doutrina do inferno, enfraquecer a responsabilidade moral e aproximar-se de um universalismo implícito. Avery Dulles, o jesuíta americano que mais tarde seria criado Cardeal, discutiu a questão com respeito, mas sem condescendência. A acusação central era sempre a mesma: que Balthasar criava uma esperança perigosa que desincentivaria a conversão e esvaziaria a seriedade da liberdade humana diante de Deus.

Quando a controvérsia estava no auge, um homem inesperado tomou partido. Joseph Ratzinger era, naquele momento, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cargo mais sensível da Cúria Romana em matéria de ortodoxia. E foi precisamente esse homem quem saiu publicamente em defesa de Balthasar. Em textos e conferências sobre escatologia, Ratzinger argumentou que a maioria das críticas estava fundada em interpretações equivocadas: Balthasar não ensinava que todos seriam salvos, mas que o cristão pode legitimamente esperar a salvação de todos, sem negar a realidade do inferno. Entre a certeza e a esperança há um abismo teológico, e Balthasar habitava o segundo polo com uma precisão que seus críticos se recusavam a reconhecer. Ao defender Balthasar, Ratzinger mostrou que rigor doutrinário e abertura ao pensamento criativo não são incompatíveis. Dois anos depois, em 1988, seria esse mesmo Ratzinger quem apoiaria com entusiasmo a nomeação de Balthasar ao cardinalato por João Paulo II, completando um arco de fidelidade intelectual que durava décadas.

A ruptura com a Companhia, por sua vez, deixou marcas que Balthasar jamais escondeu completamente. A espiritualidade inaciana — o discernimento, os Exercícios Espirituais, a disponibilidade apostólica — nunca deixou de habitar sua obra, mesmo depois que o hábito jesuíta foi trocado pelo colarinho romano simples de um padre diocesano. Ele carregou a Companhia dentro de si mesmo depois de deixá-la. O afastamento teve, porém, uma consequência concreta e dolorosa: durante décadas, a Companhia ignorou sistematicamente sua obra. No mundo acadêmico eclesiástico, a memória institucional é longa, e a indiferença organizada pode ser mais devastadora do que a perseguição declarada. Que esse mesmo homem tenha cofundado com Joseph Ratzinger, em 1972, a revista Communio, que se tornaria o polo mais influente do pensamento católico pós-conciliar não progressista, é uma ironia que a história guardou com cuidado.

Seria desonesto não registrar também que a centralidade de Adrienne von Speyr na obra e na vida de Balthasar continua sendo motivo de reservas sérias entre teólogos respeitáveis. A crítica não se dirige à santidade de Adrienne, cuja figura espiritual continua despertando interesse e reservas no interior da Igreja, mas à metodologia: usar os ditados de uma mística leiga como base para afirmações teológicas de alcance universal é um procedimento que a epistemologia teológica contemporânea trata com cautela justificada. Balthasar estava ciente da objeção e a enfrentou com um argumento que não convenceu a todos: o critério de discernimento não era a origem carismática da experiência, mas sua conformidade com a Revelação e com a Tradição. O debate permanece aberto, o que, para um pensador que nunca quis oferecer respostas fáceis, é talvez o elogio póstumo mais adequado.

Três Modos de Habitar a Beleza

As três figuras desta série de março de 2026 partilham uma convicção central: a beleza pode ser uma porta legítima de entrada no sagrado. Cada um, porém, habita essa convicção de modo inteiramente distinto. É precisamente nessa diferença que os três se iluminam mutuamente, como notas de um acorde que só revela seu sentido pleno quando soado em conjunto.

Ratzinger habita a beleza como ferida da verdade. O belo autêntico arranca o homem de sua mediocridade porque lhe recorda o Infinito. O lugar privilegiado é a liturgia. A função é doutrinária: revelar a objetividade de Deus.

Ravasi a habita como alfabeto da cultura, uma gramática comum entre o crente e o agnóstico. Seu lugar é a praça pública, o Pátio dos Gentios, e sua função é dialógica, criando pontes onde antes havia muros.

Balthasar, por sua vez, habita a beleza como forma que arrebata. Não é ornamento nem argumento, mas Gestalt, uma forma que se impõe e pede resposta. O lugar é a própria estrutura da Revelação. A função é teológica no sentido mais profundo: revelar quem é Deus antes de revelar o que Ele exige.

Há um dado que raramente aparece nas introduções a Balthasar, mas que talvez seja o mais revelador para compreender sua posição na teologia do século XX. Em textos e conferências do final da década de 1970 e início dos anos 1980, Ratzinger chegou a sugerir que a teologia de Balthasar mereceria um estudo inteiro, o que, vindo do Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, não era elogio de cortesia. Era diagnóstico: Balthasar representava algo raro, uma teologia que unia profundidade espiritual, fidelidade à tradição patrística, sensibilidade cultural e erudição literária de alto nível. Em outras palavras, uma resposta possível, talvez a única à altura, à crise intelectual que o Concílio havia desencadeado sem resolver.

O projeto nunca se concretizou, e o estudo que não saiu do papel tornou-se, assim, um dos maiores elogios involuntários da história da teologia. Ratzinger fez então algo que, retrospectivamente, foi ainda mais significativo: integrou as intuições centrais de Balthasar em sua própria teologia. Quem lê os dois com atenção percebe a dívida que o primeiro tem com o segundo, mesmo quando não há citação direta.

Se Ratzinger foi o “Mozart da Teologia”, pela harmonia dogmática e pela sinfonia sistemática do pensamento, e Ravasi o “Bibliotecário de Alexandria”, a intersecção entre a Palavra revelada e a cultura secular, Balthasar pode ser chamado, com justiça, de “Dramaturgo de Deus”: o teólogo que transformou a história da salvação em um teatro no qual o Infinito arrisca a própria glória pela liberdade do finito.

A Púrpura que Chegou Tarde

Em 29 de maio de 1988, o Papa João Paulo II anunciou oficialmente que criaria Hans Urs von Balthasar cardeal no próximo consistório, marcado para 28 de junho daquele mesmo ano. A nomeação tinha um significado que nenhum comunicado oficial precisava explicar: era o reconhecimento público e solene de que a Igreja havia subestimado, por décadas, um dos maiores teólogos que o século XX produziu. Era a instituição acertando as contas com a história, tarde, mas ainda a tempo.

Para compreender o peso do gesto, é necessário recordar o arco completo. Em 1950, Balthasar saíra da Companhia de Jesus sem cátedra, sem instituto acadêmico, sem o amparo que as grandes ordens religiosas oferecem aos seus. Nos anos seguintes, os periódicos teológicos controlados pelos jesuítas trataram sua obra com o silêncio que as instituições reservam aos que partem sem permissão. Não havia perseguição declarada; havia algo mais eficaz e mais frio: a indiferença organizada. Enquanto isso, Balthasar escrevia, quinze volumes que redefiniam os fundamentos da teologia sistemática, construídos sem bolsistas, sem laboratório, sem o prestígio acadêmico que facilita a recepção de uma obra. Era um homem produzindo, sozinho, o equivalente intelectual de uma catedral.

Balthasar seria criado cardeal-diácono, a categoria reservada pela Igreja precisamente para honrar grandes teólogos e intelectuais que não são bispos e não exercem funções de governo eclesiástico. Não era uma nomeação de administrador. Era o gesto puro de reconhecimento intelectual e espiritual, despido de qualquer função burocrática. João Paulo II e Ratzinger sabiam exatamente o que faziam.

O consistório estava marcado para 28 de junho de 1988. Balthasar morreu em 26 de junho, em sua casa em Basileia. Dois dias antes. A barreta cardinalícia estava pronta. A cerimônia estava agendada. A reparação histórica estava a quarenta e oito horas de se consumar formalmente, e a morte chegou antes. Há uma crueldade nesse detalhe que ultrapassa o biográfico e toca o trágico no sentido grego: não é apenas a morte que interrompe o reconhecimento, mas a proximidade da morte com o reconhecimento. Duas décadas de marginalização, uma nomeação papal que chegou como reparação, e quarenta e oito horas que mudaram o desfecho. É o roteiro que Sófocles teria aprovado.

Mas há também, e isso importa, uma leitura diferente, que não é consolo fácil. A obra não dependia da púrpura. Os quinze volumes existiam antes do anúncio de maio. A Herrlichkeit não se tornou mais verdadeira porque João Paulo II assinou um documento. O que a nomeação fez foi tornar oficial o que a obra já havia provado: que Balthasar construíra algo que sobreviveria a qualquer instituição que o tivesse rejeitado, incluindo aquela que estava prestes a honrá-lo. A glória, como ele próprio ensinava, não depende de quem a reconhece. Depende de ser real.

O que Fica quando a Glória Passa

A influência de Balthasar na teologia contemporânea é ao mesmo tempo enorme e subestimada, o que é, em si mesmo, uma ironia de sabor balthasariano. Enorme porque toda a virada estética na teologia católica das últimas décadas passa, de um modo ou de outro, por sua Herrlichkeit. Subestimada porque sua obra nunca foi domesticada: não produz slogans fáceis, não cabe em manuais simplificados, não gera escolas com logotipo. Balthasar é citado com frequência e lido com profundidade por poucos, o destino de todo pensador que recusa a simplificação sem recusar a clareza.

O que ele deixou é, antes de tudo, uma pergunta: e se a teologia tivesse começado pelo belo, antes do verdadeiro e do bem? E se a experiência primordial de Deus não fosse uma argumentação racional nem uma obrigação moral, mas a forma de Cristo que se impõe com a autoridade silenciosa do verdadeiro belo? Essa pergunta reconfigurou o mapa da teologia sistemática do século XX, e continua sem resposta definitiva, o que é exatamente o que uma boa pergunta deve fazer.

Sua meditação sobre o Sábado Santo, a descida de Cristo ao inferno como solidariedade radical com os que estão no abismo, é um dos textos mais poderosos da espiritualidade cristã contemporânea. Nela, a kénosis atinge sua profundidade máxima: Deus não apenas morre na Cruz, mas desce ao silêncio absoluto do sem-Deus, para que nenhum ser humano esteja tão perdido que o Filho não o tenha alcançado. É talvez a teologia mais corajosa que o século XX produziu, e veio de um homem que não tinha cátedra para protegê-la.

Das Quedas e da Glória

Recordo-me de uma viagem que fiz certa vez com Eugenia, minha amada esposa, pela Suíça. Percorríamos de carro as estradas que contornam o Lago de Lucerna, entre montanhas que parecem erguer-se como catedrais de pedra. Em algum momento lembrei-me de Hans Urs von Balthasar, filho daquela paisagem. Ele escreveu que “a verdade é sinfônica”, Wahrheit ist symphonisch (1972). E, olhando aquelas montanhas refletidas nas águas do lago, compreendi melhor o que talvez quisesse dizer: a verdade não se apresenta como uma nota isolada, mas como uma harmonia. Talvez não seja coincidência que um dos grandes teólogos da beleza tenha nascido num país cuja própria paisagem parece composta como uma sinfonia.

Guardo da Suíça também uma pequena lembrança que sempre me volta quando penso em Balthasar. Certa manhã de domingo, em Genebra, Eugenia e eu procurávamos rapidamente uma igreja para a missa. Vimos uma torre com uma grande cruz e entramos sem pensar muito, presunção natural de católicos viajantes. Sentamos discretamente entre alguns suíços muito sérios e logo percebi que algo não estava exatamente como em nossas igrejas: não havia imagens de santos nem os sinais familiares da liturgia católica. Ainda assim, saquei do bolso o rosário que costumo trazer comigo e comecei a rezá-lo em silêncio.

Uma senhora ao meu lado, com a disciplina típica daquele país, inclinou-se e pediu que eu o guardasse. Pouco depois entrou um pastor, e não um padre, e compreendi que havíamos aterrissado, sem perceber, em um culto protestante. Passei mais de uma hora ouvindo um sermão em alemão que mal entendi e saí de lá rindo da situação, pensando que ao menos a intenção de cumprir o domingo fora sincera. Talvez o Senhor tenha levado isso em conta.

Recordo o episódio porque ele me faz pensar que, embora eu nunca tenha percebido na Suíça uma presença católica tão visível quanto em países latinos, foi justamente ali que nasceu Hans Urs von Balthasar. Às vezes a geografia religiosa sugere uma coisa e a história revela outra. Afinal, como diz o Evangelho, o Espírito sopra onde quer.

Hoje exerço o direito. A teologia ficou, em certo sentido, no passado da minha formação, mas não na minha maneira de pensar. Sempre que releio Balthasar, percebo algo que o jurista entende imediatamente: a história humana não é um mecanismo automático, é um drama. Liberdade real implica risco real. A teodramática de Balthasar talvez seja a formulação teológica mais sofisticada dessa verdade simples que todo tribunal conhece: as escolhas humanas têm peso, têm consequência e têm história.

Balthasar saiu dos jesuítas aos 45 anos. Construiu os quinze volumes da trilogia sem universidade. Morreu dois dias antes do reconhecimento oficial. E sua obra sobreviveu a tudo isso: sobreviveu à Companhia que o recusou, aos teólogos que o ignoraram, à morte que chegou cedo demais. Isso não é consolo barato. É um dado empírico sobre onde reside a consistência de um trabalho: não na aprovação da instituição, mas na qualidade do que foi construído.

Não me comparo a ele; a distância seria cômica. Mas me identifico com a estrutura da experiência: a convicção de que o trabalho intelectual sério é, em si mesmo, um ato de fé. Que a qualidade não pede licença à instituição. Que a glória, no sentido em que Balthasar usa a palavra, com toda a sua densidade teológica, não depende de quem a reconhece, mas de se ela é real.

A forma do belo não precisa de argumentos. Ela se impõe, ou não. E, quando se impõe, é porque tocou algo real.

Isso é Balthasar. A teologia de Balthasar não é feita para explicar Deus; é feita para lembrar que Deus não cabe nas explicações. E por isso ele pertence, com pleno direito, ao lado de Ratzinger e de Ravasi.

Esta série de março de 2026 começou com Joseph Ratzinger, o guardião da doutrina que demonstrou que a fé é intelectualmente coerente. Continuou com Gianfranco Ravasi, o bibliotecário que mostrou que ela é culturalmente fecunda. Chega agora a Hans Urs von Balthasar, o dramaturgo que demonstrou que ela é esteticamente arrebatante.

Juntos, os três formam aquilo que Balthasar teria chamado de sinfonia: não uníssono, mas harmonia — três vozes distintas que revelam, cada uma à sua maneira, a mesma realidade.

São três temperamentos, três ministérios, três modos de amar a mesma coisa. E os três, cada um à sua maneira, foram maiores do que o reconhecimento que receberam em vida, o que, paradoxalmente, é a prova de que fizeram algo que importa. O reconhecimento que chega tarde — ou que não chega — não diminui a obra. Apenas confirma que ela foi construída para durar mais do que a vida de quem a construiu.

Balthasar esperou o cardinalato por semanas. Não chegou a recebê-lo. A Igreja demorou décadas para compreender o que ele havia construído. A catedral que ele ergueu sem cátedra está de pé.

Morreu às vésperas da púrpura. E construiu uma obra cor-de-glória.

Devo registrar, por honestidade e por gratidão, que toda a leitura que fiz de Balthasar nasceu de uma recomendação. Ela veio de Frederico Dattler, meu professor de filosofia no Seminário Santo Antônio, quase conterrâneo de Balthasar naquele sentido amplo em que a cultura germânica cria parentescos que transcendem fronteiras. Exegeta de rara qualidade e pensador muito comentado nos anos 1980, Dattler tinha o dom que os grandes professores compartilham com os grandes teólogos: a capacidade de pronunciar um nome de tal modo que o aluno sente, antes de ler qualquer linha, que há ali algo que não pode ser ignorado. Foi assim com Balthasar. O professor indicou. O aluno foi. E o que encontrou o acompanha até hoje.

Há uma continuidade silenciosa nessa cadeia, de Balthasar a Dattler, de Dattler a mim, e agora deste tributo a quem o lê. É assim que as ideias sobrevivem: não pelos títulos que acumulam, mas pelos professores que as pronunciam em salas de aula onde ninguém imagina, naquele momento, o quanto aquele nome vai durar.

Escrevi este texto porque precisava. Não como exercício acadêmico — nunca fui acadêmico de Balthasar, apenas um leitor assíduo e grato. Escrevi porque há figuras que não se honram apenas admirando em silêncio: exigem que alguém, em algum momento, tome a palavra e diga o nome em voz alta. Março de 2026 pareceu o momento certo. O mês de São José, o homem que construiu em silêncio, que protegeu sem aparecer, que foi essencial sem nunca ser o centro, é o enquadramento mais justo que existe para uma série sobre homens que fizeram o mesmo.

Balthasar foi o último desta série. Não por ser o menor, mas pela razão contrária.

Homenagem escrita em março de 2026 · Mês de São José, patrono da Igreja universal

Siga nossas redes e fique por dentro de assuntos como esse e muito mais!
Instagram
Spotify
Linkedin
Whatsapp


Gostou? Compartilhe:

Deixe um comentário