Tenho refletido, ao longo de décadas de estudo teológico entre Roma e São Paulo, sobre o poder das palavras — especialmente em matéria de fé. Uma única expressão mal escolhida pode obscurecer verdades que levaram séculos para ser clarificadas. O termo “Corredentora” aplicado a Maria é exemplo paradigmático dessa perigosa ambiguidade linguística. Por que uma palavra que pretende honrar a Virgem acabou gerando controvérsia teológica de tamanha magnitude? O que está realmente em jogo quando atribuímos à Maria um papel que pode ser interpretado como equivalente ao de Cristo?
A Armadilha Linguística do Prefixo “Co-“
A primeira dificuldade com “Corredentora” reside na própria estrutura da palavra. O prefixo latino “co-” pode significar tanto subordinação quanto coordenação, dependendo do contexto. Quando dizemos “coautor”, geralmente implicamos igualdade de contribuição. “Copiloto” sugere função complementar, mas de categoria semelhante. “Corréu” indica participação no mesmo nível de responsabilidade jurídica.
Teologicamente, os defensores do termo argumentam que “co-” aqui significa apenas “com”, indicando cooperação subordinada de Maria na obra redentora de Cristo. Ela teria cooperado de modo único — pelo seu “sim” na Anunciação, pela presença ao pé da cruz, pela fidelidade total ao plano divino. Essa cooperação seria real, mas absolutamente dependente e derivada da graça de Cristo.
O problema é que a linguagem não obedece sempre às intenções dos teólogos. Como aprendi nas aulas de filosofia da linguagem na Gregoriana, as palavras têm vida própria na consciência dos falantes. Para o fiel comum, sem formação teológica especializada, “Corredentora” soa perigosamente próximo de “outra redentora” ou “redentora junto com Cristo”. A sutileza da subordinação se perde; a impressão de igualdade permanece.
Santo Agostinho, em De Doctrina Christiana, já advertia que o pregador deve escolher palavras não apenas teologicamente precisas, mas pastoralmente claras. Não adianta ter razão técnica se a comunicação gera confusão prática. “Corredentora” falha nesse teste agostiniano: é tecnicamente defensável com múltiplas ressalvas, mas pastoralmente arriscada pela ambiguidade inerente.
O Risco de Obscurecer a Mediação Única de Cristo
O núcleo da objeção teológica ao título “Corredentora” está na doutrina da mediação única de Cristo. São Paulo é categórico: “Há um só Deus, e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1Tm 2,5). Essa afirmação não é periférica; é central para a soteriologia cristã. Cristo não é um entre vários salvadores; é o único Salvador. Sua obra redentora é completa, perfeita, suficiente.
O Concílio de Trento, respondendo aos reformadores, reafirmou essa unicidade sem ambiguidade. A salvação vem exclusivamente dos méritos de Cristo. Nenhuma criatura — nem mesmo Maria — acrescenta algo à obra redentora já consumada na cruz. Quando Jesus declara “Está consumado” (Jo 19,30), não deixa margem para complementações posteriores.
Aqui surge a questão delicada: como afirmar a cooperação única de Maria sem sugerir que Cristo precisava dela para completar a redenção? A teologia católica tradicional responde distinguindo entre causa principal (Cristo) e causa instrumental subordinada (Maria e os santos). Cristo redime; Maria coopera na aplicação dessa redenção pela intercessão e pelo exemplo. É cooperação real, mas absolutamente dependente.
O termo “Corredentora”, porém, não carrega essa distinção claramente. Ao colocar o prefixo “co-” junto ao substantivo teologicamente carregado “redentora”, cria-se impressão de compartilhamento da função salvífica em si — não apenas de cooperação na sua aplicação. É aí que o termo se torna, nas palavras de Bento XVI, “equívoco”, e nas de Francisco, “loucura”.
Quando ensinava cristologia no seminário, sempre enfatizava aos alunos que a clareza doutrinal não é luxo acadêmico; é caridade pastoral. Confundir os fiéis sobre a mediação de Cristo não é honrar Maria; é prejudicar ambos.
A Perspectiva Ecumênica: Barreiras Desnecessárias
Uma dimensão frequentemente negligenciada no debate sobre “Corredentora” é seu impacto ecumênico. O diálogo entre católicos e protestantes já enfrenta obstáculos históricos profundos. A mariologia é um dos temas mais sensíveis. Adicionar títulos marianos que sugerem divisão da obra redentora com Cristo equivale a construir muros onde deveríamos construir pontes.
Lutero, em seus escritos iniciais, mantinha profunda veneração mariana. Aceitava a virgindade perpétua e defendia a Imaculada Conceição. Calvino honrava Maria como a “Mãe de Deus” no sentido cristológico. A ruptura não foi sobre honrar Maria; foi sobre o temor de que essa honra obscurecesse Cristo e comprometesse o sola Christus — somente Cristo salva.
O título “Corredentora” confirma precisamente os piores temores protestantes. Para um evangélico ou reformado, esse termo parece contradizer frontalmente 1 Timóteo 2,5 e Atos 4,12 (“Não há salvação em nenhum outro”). Por mais que teólogos católicos expliquem as nuances, a palavra em si soa como negação da suficiência de Cristo.
Na minha experiência dialogando com pastores protestantes ao longo dos anos — especialmente durante meu período como deputado federal, quando mediei várias questões inter-religiosas —, percebi que muitos estariam dispostos a reconhecer o papel especial de Maria como primeira discípula e mãe da Igreja. Mas “Corredentora” é linha vermelha intransponível para eles. Não por sectarismo, mas por zelo cristológico legítimo.
O Concílio Vaticano II, no decreto Unitatis Redintegratio sobre ecumenismo, orienta que a Igreja deve remover obstáculos desnecessários ao diálogo. Títulos marianos problemáticos são exatamente esse tipo de obstáculo. Podemos honrar Maria plenamente sem usar terminologia que afaste nossos irmãos protestantes. Seria prudência ecumênica, não traição à devoção mariana.
A Tradição Viva Não É Estática
Um argumento frequente dos defensores de “Corredentora” é que o termo tem respaldo em parte da tradição teológica e em pronunciamentos papais anteriores. João Paulo II usou-o sete vezes; Pio X concedeu indulgências a orações que o continham. Como, então, justificar seu abandono agora?
A resposta está na compreensão correta da tradição viva. A tradição não é museu de antiguidades intocáveis; é rio vivo que flui através dos séculos, purificando-se e clarificando-se continuamente. Newman, em seu Ensaio sobre o Desenvolvimento da Doutrina Cristã — obra que marcou profundamente minha formação teológica —, mostrou que desenvolvimento autêntico inclui tanto crescimento quanto poda.
Às vezes, a Igreja desenvolve intuições implícitas (como fez com a Imaculada Conceição e a Assunção). Outras vezes, abandona linguagens que se revelaram pastoralmente imprudentes ou teologicamente ambíguas. Isso não é contradição; é maturação orgânica sob a guia do Espírito Santo.
O uso ocasional de “Corredentora” por papas anteriores nunca alcançou status de definição dogmática. Foram pronunciamentos do magistério ordinário, sempre acompanhados de ressalvas teológicas. O fato de João Paulo II usar o termo sete vezes não o torna obrigatório — especialmente quando o próprio Magistério posterior, discernindo melhor suas implicações, decide abandoná-lo.
Santo Tomás de Aquino ensina na Suma Teológica que a prudência é a virtude de julgar corretamente sobre o que fazer ou não fazer em circunstâncias concretas. A prudência eclesial pode legitimamente concluir que um termo, mesmo se defensável abstratamente, deve ser evitado pelos riscos concretos que apresenta. Não é covardia; é sabedoria pastoral.
A Verdadeira Honra de Maria
Há uma ironia profunda nesta controvérsia: os que defendem “Corredentora” julgam honrar Maria, mas podem estar inadvertidamente obscurecendo sua verdadeira glória. A grandeza de Maria não está em ser quase-igual a Cristo, mas em ser a criatura perfeitamente subordinada a Ele. Sua glória reside precisamente em sua humildade.
O Magnificat — cântico de Maria em Lucas 1 — é hino de rebaixamento e exaltação. “Deus olhou para a humildade de sua serva… O Poderoso fez em mim maravilhas.” Maria não reivindica glória própria; reconhece-se receptora de graça. Toda sua grandeza vem de ter dito “sim” total a Deus. Ela é grande porque soube ser pequena.
Quando tentamos elevar Maria ao status de “Corredentora”, podemos estar traindo sua própria espiritualidade. Maria não quer títulos que a coloquem ao lado de Cristo; quer títulos que a mostrem apontando para Cristo. Como João Batista, ela diria: “É preciso que Ele cresça e que eu diminua” (Jo 3,30).
A verdadeira devoção mariana, como ensinou São Luís Maria Grignion de Montfort, consiste em ir a Jesus por Maria — não parar em Maria. Títulos excessivos ou ambíguos criam risco de idolatria invertida: honrar tanto Maria que se esquece de Cristo. Esse seria o pior desserviço que poderíamos fazer à Virgem.
Como dizia minha avó em Abaeté, mulher simples mas de fé profunda: “Maria não quer ser rainha para competir com o Rei; quer ser rainha para levar todos ao Rei.” Essa sabedoria popular captura melhor a mariologia autêntica que muitas dissertações teológicas.
Conclusão: Clareza Doutrinal Como Caridade
A rejeição do título “Corredentora” não é diminuição de Maria; é proteção da clareza cristológica. Como escreveu o Cardeal Newman: “Mil dificuldades não fazem uma dúvida, mas uma ambiguidade pode fazer mil erros.” O termo “Corredentora” é precisamente essa ambiguidade perigosa que pode gerar mil erros de compreensão sobre Cristo e Maria.
A Igreja, em sua sabedoria milenar, escolheu clareza sobre sentimentalismo. Podemos venerar Maria plenamente — como Theotokos, Mãe de Deus; como Imaculada; como Assunta; como Mãe da Igreja e Mãe do Povo Fiel — sem recorrer a terminologia que compromete a centralidade absoluta de Cristo. Essa é prudência teológica, caridade pastoral e fidelidade à Escritura.
Santo Agostinho disse certa vez: “Na essência, unidade; nas coisas duvidosas, liberdade; em tudo, caridade.” O título “Corredentora” pertence às coisas duvidosas. Abandoná-lo é exercício de caridade para com os fiéis que poderiam confundir-se, para com os protestantes que se escandalizariam, e para com a própria Maria, que certamente prefere clareza cristológica a honras ambíguas.
Para compreender o contexto completo desta reflexão teológica, leia: Vaticano Reinterpreta Título de “Corredentora” para Maria em Documento Histórico.
Este conteúdo reflete os estudos científicos de Juvenil Alves nas áreas de filosofia, teologia, humanidades, literatura, psicanálise e desenvolvimento humano.
Dr. Juvenil Alves – Advogado Tributarista, Ex-Deputado Federal, Vaticanista, Filósofo
Observador da Santa Sé desde a eleição de João Paulo II (1978)