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2026: Um Novo Capítulo Começa

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Reflexões sobre recomeços, escolhas e a arte de escrever nossa própria história

Há uma pergunta que paira no ar quando o ano se aproxima do fim. Ela surge em conversas de corredor, em eventos, em mensagens que chegam tarde da noite. Raramente é verbalizada por completo, mas está lá, latente, quase palpável: “É possível recomeçar?”

A resposta, que a filosofia grega nos ensinou há mais de dois milênios, é devastadoramente simples: não apenas é possível, como é inevitável. A questão verdadeira, aquela que deveria nos tirar o sono, não é se teremos a chance de um novo capítulo, é se teremos a coragem de escrevê-lo com as próprias mãos. Que capítulo é esse, afinal, que 2026 nos convida a inaugurar?

O Mito do Tempo Perdido

Aristóteles, em sua Ética a Nicômaco, estabeleceu uma distinção que me persegue há décadas: a diferença entre chronos — o tempo que passa — e kairós — o tempo oportuno, o momento certo para a ação. Vivemos obcecados pelo primeiro, contando segundos, minutos, anos, enquanto o segundo nos escapa como areia entre os dedos.

A sociedade contemporânea nos vendeu a ideia de que existe algo como “tempo perdido”. Que os anos que dedicamos a caminhos que não deram certo, a relacionamentos que se dissolveram, a projetos que fracassaram, foram desperdício. Nada poderia estar mais distante da verdade.

Quantas histórias existem de pessoas que, aos 50, 60 ou 70 anos, decidiram abandonar carreiras consolidadas para seguir caminhos completamente diferentes? Um executivo que se torna professor. Um advogado que vira artesão. Um industrial que abraça a filosofia. A sociedade os chama de loucos. O tempo, invariavelmente, os chama de corajosos.

A sabedoria que essas pessoas carregam é simples, mas revolucionária: não perderam décadas, ganharam décadas de experiência que agora lhes permitem ensinar, criar e viver de formas que nenhum iniciante jamais poderia.

Confundimos trajetória com destino. Cada desvio, cada tropeço, cada aparente retrocesso é, na verdade, matéria-prima para o próximo capítulo. O problema não é o caminho percorrido, é a relutância em continuar caminhando.

A Coragem de Ser Iniciante Novamente

Mas aqui está o problema: recomeçar exige uma virtude que a idade adulta sistematicamente nos rouba, a humildade de ser aprendiz novamente. Nassim Taleb, em Antifrágil, argumenta que sistemas verdadeiramente resilientes não apenas resistem ao caos, eles se fortalecem com ele. O mesmo vale para seres humanos.

2026 não é apenas um número no calendário. É um convite para abraçar o desconforto do não-saber. Para aceitar que, independentemente de quantos títulos acumulamos, quantas batalhas vencemos, quantos reconhecimentos conquistamos, existe sempre um território inexplorado à nossa frente.

Há uma pergunta que deveria nos perseguir: “Quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?” O silêncio que essa pergunta provoca é revelador. A maioria de nós construiu vidas tão otimizadas para a segurança que eliminamos completamente o espaço para o novo.

Quer saber o melhor? O novo não precisa ser grandioso. Não precisa ser uma mudança de carreira, uma revolução existencial, uma ruptura dramática com o passado. Às vezes, o novo capítulo começa com gestos quase imperceptíveis: uma conversa adiada por anos, um livro que juntava poeira na estante, um hobby abandonado na juventude.

Tomás de Aquino escreveu que “a humildade é a fundação de todas as virtudes”. Não porque nos diminui, mas porque nos abre. Ser humilde diante do futuro não é confessar fraqueza, é reconhecer que ainda há muito a descobrir, muito a viver, muito a se tornar.

O Peso das Histórias que Contamos a Nós Mesmos

Freud nos ensinou que grande parte do sofrimento humano vem não dos eventos em si, mas das narrativas que construímos sobre eles. Somos, antes de tudo, contadores de histórias, e a história mais importante é aquela que sussurramos para nós mesmos na escuridão da madrugada.

Quantas pessoas passam anos, às vezes décadas, se definindo por um único fracasso? Carregam uma falência, um divórcio, uma demissão como se fossem sentenças perpétuas. O momento em que conseguem reescrever essa narrativa, transformando o “eu falhei” em “eu aprendi”, é o momento em que a vida começa a mudar. Não em anos, mas em meses. Às vezes, em dias.

Não percebemos o poder das histórias que nos contamos porque elas se tornaram invisíveis de tão repetidas. São como o ar que respiramos, onipresentes e, por isso mesmo, ignoradas. Mas cada vez que dizemos “eu sempre fui assim”, “isso não é para mim”, “já passou minha hora”, estamos escrevendo um capítulo de derrota antes mesmo de a batalha começar.

2026 é uma página em branco. E páginas em branco são assustadoras precisamente porque nos confrontam com a responsabilidade radical de escolher o que escrever. Não há mais desculpas do tipo “o ano já começou errado” ou “vou esperar o próximo ciclo”. O momento é agora. A caneta está em suas mãos.

Entre a Prudência de Salomão e a Ousadia de Davi

Aqui reside um dos paradoxos mais belos da sabedoria antiga: a necessidade de equilibrar prudência e coragem. Salomão, o rei sábio, nos ensina a ponderar, calcular, medir consequências. Davi, o pastor que enfrentou gigantes, nos lembra que há momentos em que a ação precede o plano perfeito.

O novo capítulo que 2026 nos oferece não é uma aposta cega. Não é abandonar tudo em nome de um sonho etéreo. É algo mais sutil e, por isso mesmo, mais difícil: é a arte de dar o próximo passo mesmo quando não podemos ver o caminho inteiro.

Peter Drucker, o pai da administração moderna, costumava dizer que “a melhor maneira de prever o futuro é criá-lo”. Mas criar o futuro não significa controlá-lo. Significa participar ativamente de sua construção, aceitando que o resultado final será sempre uma dança entre nossa vontade e as circunstâncias que não escolhemos.

Tenho visto, ao longo de mais de quatro décadas de vida profissional, que os recomeços mais bem-sucedidos compartilham uma característica comum: não negam o passado, mas também não são reféns dele. Honram a jornada percorrida enquanto mantêm os olhos firmemente voltados para o horizonte.

A Filosofia do Primeiro Passo

Lao Tsé, o sábio chinês, deixou-nos uma das verdades mais citadas e menos praticadas da história: “Uma jornada de mil milhas começa com um único passo.” O que raramente se comenta é que esse primeiro passo é, invariavelmente, o mais difícil.

Não porque exija mais esforço físico ou mais recursos materiais. Mas porque exige uma decisão interior: a decisão de abandonar o conforto do conhecido pelo desconforto do possível. De trocar a certeza do presente pela incerteza de um futuro melhor.

Angela Duckworth, psicóloga que dedicou sua carreira a estudar o que separa pessoas bem-sucedidas das demais, descobriu que não é talento, não é inteligência, não é sorte. É grit, uma combinação de paixão e perseverança que se manifesta, sobretudo, na disposição de continuar mesmo quando os resultados demoram a aparecer.

2026 testará seu grit. Testará sua capacidade de manter a direção quando ventos contrários soprarem. Testará sua resiliência diante de obstáculos que ainda nem consegue imaginar. Mas também oferecerá recompensas que, neste momento, são igualmente inimagináveis.

O Direito de Reescrever a Própria História

Como filósofo e estudioso da condição humana, tenho uma convicção inabalável: cada pessoa carrega dentro de si o direito inalienável de se reinventar. Não uma vez. Não duas. Quantas vezes forem necessárias.

Esse direito não está escrito em nenhuma constituição. Não depende de autorização de ninguém. Não expira com a idade nem se esgota com os erros cometidos. É um direito existencial, anterior a qualquer norma jurídica, mais fundamental que qualquer liberdade civil.

Mas direitos não exercidos são como músculos atrofiados: existem em potência, mas não em ato. E o direito de recomeçar, mais do que qualquer outro, exige exercício constante. Exige a disposição de, todos os dias, acordar e escolher conscientemente quem queremos ser.

Viktor Frankl, sobrevivente de Auschwitz e fundador da logoterapia, escreveu que “entre o estímulo e a resposta há um espaço. Nesse espaço está nosso poder de escolher nossa resposta. Em nossa resposta está nosso crescimento e nossa liberdade.”

2026 trará estímulos que você não escolheu. Trará desafios, perdas, frustrações, reviravoltas. O que você fará com esse espaço entre o que acontece e como você reage? Essa é a verdadeira pergunta. Esse é o verdadeiro teste.

Escreva com Tintas que Não Desbotam

Um novo capítulo está prestes a começar. Não porque o calendário determina, mas porque você decidiu que será assim. Não porque as circunstâncias são favoráveis, mas porque a decisão de recomeçar é sempre interior, sempre pessoal, sempre soberana.

O passado é prólogo, como ensina Shakespeare. Não é destino. Não é condenação. É apenas o cenário sobre o qual a próxima cena será encenada. E o roteiro, meu caro leitor, está nas suas mãos.

Escreva com coragem. Escreva com autenticidade. Escreva sabendo que haverá rasuras, que haverá parágrafos inteiros jogados fora, que haverá momentos em que a página parecerá demasiado branca, demasiado assustadora. Escreva assim mesmo.

O Direito não é uma barreira, é um mapa. E a vida, como um texto bem escrito, revela seu sentido apenas para quem tem a paciência e a coragem de chegar até o ponto final.

2026 espera por você. Que capítulo você vai escrever?

Este conteúdo reflete as reflexões de Juvenil Alves, filósofo, teólogo, psicanalista e jurista.

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