Natal e gratidão são palavras que carregam um peso imenso na alma humana. Eu percebo, a cada dezembro que passa, como essa época desperta em nós sentimentos que ficaram adormecidos durante o ano, aquela vontade de abraçar mais, de perdoar velhas mágoas, de olhar para trás e reconhecer as bênçãos que passaram despercebidas. Mas será que realmente compreendemos o significado dessa data? Ou será que nos perdemos entre luzes piscantes e presentes embrulhados, esquecendo a essência que deveria nos mover?
Como filósofo de formação tomista e estudioso da tradição cristã, tenho dedicado anos a refletir sobre os rituais que moldam nossa civilização. O Natal não é apenas uma festa religiosa ou comercial, é um convite à introspecção, à renovação interior e ao reconhecimento de que a vida, com todas as suas dores, ainda é um dom extraordinário.
A Origem do Natal e Seu Significado Perdido
Ponto cego para muitos: o Natal como conhecemos hoje é uma construção que atravessou séculos, absorvendo tradições pagãs, ressignificando festivais romanos e consolidando-se como a celebração central do cristianismo ocidental. A escolha do dia 25 de dezembro não foi acidental, coincide com o solstício de inverno no hemisfério norte, momento em que os dias começam a crescer novamente, simbolizando a vitória da luz sobre a escuridão.
Que celebração é essa, afinal? Para os primeiros cristãos, o nascimento de Jesus representava a irrupção do divino no humano, a promessa de que a condição humana, marcada pelo sofrimento e pela finitude, poderia ser redimida. Santo Agostinho escreveu que “Deus se fez homem para que o homem pudesse se tornar Deus”, uma afirmação que sintetiza a profundidade teológica do evento.
Os dados são impressionantes: segundo pesquisas do Pew Research Center, mais de 2,4 bilhões de pessoas no mundo celebram o Natal de alguma forma. No Brasil, essa data movimenta aproximadamente R$ 65 bilhões em vendas, segundo a Confederação Nacional do Comércio. Mas aqui está o problema: quanto desse movimento reflete genuína gratidão, e quanto é apenas consumismo reflexo?
Gratidão: A Virtude Esquecida na Era da Ansiedade
Aristóteles, em sua Ética a Nicômaco, classificava a gratidão entre as virtudes que tornam a vida em sociedade possível. Para o filósofo grego, ser grato não era apenas uma emoção passageira, mas uma disposição habitual do caráter, algo que se cultiva deliberadamente, dia após dia.
“A gratidão é a memória do coração” — atribuída a Jean-Baptiste Massieu
A ciência moderna confirma o que os antigos já intuíam. Estudos conduzidos pelo Dr. Robert Emmons, da Universidade da Califórnia, demonstram que pessoas que praticam a gratidão regularmente apresentam níveis mais baixos de cortisol, dormem melhor e relatam maior satisfação com a vida. Não se trata de pensamento positivo vazio, é neurociência aplicada.
Tomei conhecimento recentemente de uma história que ilustra bem esse ponto. Um empresário do interior de São Paulo, após enfrentar um ano devastador de perdas financeiras e pessoais, decidiu, na véspera de Natal, escrever uma carta para cada pessoa que havia impactado positivamente sua vida. Não pediu nada em troca, apenas expressou reconhecimento. O efeito foi transformador: das cinquenta cartas enviadas, mais de trinta pessoas responderam, algumas retomando relações que estavam há anos interrompidas.
Renovação: O Convite Que o Natal Nos Faz
Renovação não significa apagar o passado ou fingir que os erros não aconteceram. Significa, antes, integrar as experiências vividas, boas e ruins, numa narrativa que faça sentido e aponte para um futuro com propósito.
Tomás de Aquino, o grande sistematizador da filosofia cristã, ensinava que o ser humano é naturalmente orientado para o bem, mesmo quando erra o alvo. A renovação natalina seria, nessa perspectiva, um retorno à nossa vocação original, a busca pela verdade, pela beleza e pelo amor que nos constitui enquanto seres racionais.
Por outro lado, a psicanálise nos alerta para os perigos da negação. Freud demonstrou que o material reprimido não desaparece, ele retorna, frequentemente de formas destrutivas. O Natal pode ser, portanto, um momento privilegiado para olhar honestamente para nossas sombras, reconhecer nossos fracassos e, a partir dessa consciência, recomeçar com mais sabedoria.
Práticas Concretas de Renovação
Primeiro, o exercício do exame de consciência, prática milenar que consiste em revisitar, ao final do dia ou do ano, os momentos em que agimos bem e aqueles em que poderíamos ter feito melhor. Não se trata de autoflagelação, mas de autoconhecimento. Segundo, o perdão deliberado, tanto de si mesmo quanto dos outros. Nassim Taleb, o pensador libanês-americano, argumenta que guardar rancor é como beber veneno esperando que o outro morra. Terceiro, a definição de intenções claras para o próximo ciclo, não metas genéricas, mas compromissos específicos e mensuráveis.
Os Riscos Ocultos do Natal Contemporâneo
Seria ingenuidade ignorar as armadilhas que cercam essa época. O endividamento é uma delas: segundo dados do Serasa, janeiro é consistentemente o mês com maior número de brasileiros inadimplentes, reflexo direto dos gastos excessivos de dezembro. Que presente é esse que deixa a família comprometida financeiramente por meses?
Há também o risco da superficialidade afetiva. Encontros familiares que se resumem a trocas de presentes e refeições abundantes, sem conversas genuínas, sem escuta atenta, sem presença verdadeira. O filósofo Martin Buber distinguia entre relações “Eu-Tu” — marcadas pelo reconhecimento do outro como sujeito — e relações “Eu-Isso” — nas quais o outro é reduzido a objeto. Quantos Natais passamos tratando nossos familiares como “isso”?
Além disso, a pressão por felicidade obrigatória pode ser devastadora para quem atravessa lutos, separações ou crises existenciais. A solidão no Natal é estatisticamente associada a picos de depressão e, em casos extremos, a tentativas de suicídio. Se você conhece alguém nessa situação, um telefonema pode fazer mais diferença do que qualquer presente material.
O Natal Como Metáfora da Condição Humana
Na tradição cristã, o nascimento de Jesus é frequentemente representado em uma manjedoura, local destinado a animais, símbolo máximo de humildade. Essa imagem contém uma mensagem perturbadora para nossa época obcecada por status: a verdadeira grandeza não reside no acúmulo de bens ou na ostentação de poder, mas na capacidade de se fazer pequeno para servir aos outros.
Salomão, o rei sábio do Antigo Testamento, após experimentar todas as formas de riqueza e prazer, concluiu que “tudo é vaidade e correr atrás do vento”. Sua sabedoria tardia aponta para uma verdade que o Natal deveria nos recordar: a vida tem sentido não pelo que acumulamos, mas pelos laços que cultivamos e pelo legado que deixamos.
“O Direito não é uma barreira, é um mapa.” Da mesma forma, as tradições natalinas não são prisões, são convites para navegarmos as águas profundas da existência.
Vivemos uma época de desencantamento. A tecnologia nos conecta e nos isola simultaneamente. A abundância material convive com a pobreza espiritual. O Natal surge, nesse contexto, como uma oportunidade de reconexão, consigo mesmo, com os outros e, para os que têm fé, com o transcendente.
Um Convite Para Este Natal
Ao encerrar esta reflexão, convido você a fazer um exercício simples: antes da ceia, reserve quinze minutos de silêncio. Não para planejar o que vai dizer ou para revisar a lista de tarefas pendentes, mas para simplesmente estar presente. Respire fundo. Relembre as pessoas que cruzaram seu caminho neste ano. Agradeça, mesmo que silenciosamente, por cada lição recebida, inclusive as dolorosas.
A renovação não acontece magicamente na virada do calendário. Ela começa com uma decisão interior, um compromisso de viver com mais consciência, mais gratidão e mais amor. O Natal é apenas o pretexto, a transformação é trabalho de uma vida inteira.
Que este Natal seja, para você e sua família, não apenas uma festa, mas um verdadeiro renascimento. Porque, como nos lembra a tradição que celebramos, sempre é possível começar de novo, e essa é, talvez, a mais bela de todas as dádivas.
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