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Nexus: Quando a Ambição Narrativa Sufoca o Sentido

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Tenho pensado sobre um fenômeno curioso que atravessa nosso tempo: livros que prometem desvendar o curso da humanidade, mas que, por excesso de ambição retórica, acabam perdendo o contato com o solo firme da evidência. Nexus, o mais recente projeto de Yuval Noah Harari, ilustra perfeitamente esse problema — quer conectar tudo, quer explicar tudo, quer ser a grande narrativa da era da informação, mas não decola. Por quê? Talvez porque confundamos eloquência com rigor, e sínteses brilhantes com análise profunda. Será que a sedução da grande narrativa nos cegou para a necessidade da evidência sólida?

A Sedução da Síntese Total

Harari construiu sua reputação oferecendo ao leitor contemporâneo exatamente aquilo que ele deseja: uma narrativa totalizante, elegante e acessível sobre a condição humana. Nexus segue essa fórmula — promete explicar como as redes de informação moldaram nossa espécie, desde a revolução cognitiva até a inteligência artificial. O problema não está na ambição, mas no método.

Aristóteles distinguia entre episteme (conhecimento científico demonstrável) e doxa (opinião plausível). Harari opera magistralmente no reino da doxa — suas narrativas são plausíveis, sedutoras, memoráveis. Mas quando confrontadas com o rigor evidencial que caracteriza, por exemplo, o trabalho de Jared Diamond, revelam-se frágeis. Diamond constrói suas teses a partir de dados arqueológicos, linguísticos, ecológicos; Harari constrói as suas a partir de saltos intuitivos e generalizações elegantes.

O Problema da Retórica Sem Lastro

Paul Ricoeur nos ensinou que toda narrativa histórica é, ao mesmo tempo, explicação e compreensão. Mas há uma diferença crucial entre a narrativa que emerge dos dados e aquela que os força a servir uma tese pré-concebida. Nexus sofre deste segundo mal: a tese já está dada — redes de informação como motor da história —, e os exemplos históricos são mobilizados para ilustrá-la, não para testá-la.

Como dizia meu professor na PUC ao comentar a epistemologia tomista: a inteligência deve conformar-se à realidade, não a realidade à inteligência. Santo Tomás insistia que o conhecimento verdadeiro é adequatio rei et intellectus — adequação entre coisa e intelecto. Harari inverte essa relação: a realidade histórica deve adequar-se à sua narrativa sobre redes e informação.

Esse é precisamente o problema que não permite que Nexus decole como obra de referência duradoura. Pode vender milhões, pode dominar listas de mais vendidos, mas não resistirá ao escrutínio do tempo da mesma forma que Armas, Germes e Aço resiste — porque Diamond, com todas as suas limitações, ancora suas teses em evidências verificáveis, não em metáforas sedutoras.

A Fadiga do Leitor Crítico

Há também um problema fenomenológico crescente. O público mais exigente começa a desenvolver anticorpos contra o que podemos chamar de “populismo intelectual” — aquela forma de divulgação que sacrifica o rigor pela viralidade, a nuance pela síntese memorável. Nexus chega num momento em que a própria fórmula Harari já mostra desgaste.

Walter Benjamin alertava sobre a diferença entre informação e experiência autêntica. A informação envelhece rapidamente; a experiência permanece. Os livros de Harari são informação brilhantemente empacotada; os de Diamond são convites à experiência de compreender como o mundo realmente funciona. Um oferece a satisfação imediata do “aha!”; outro, a construção paciente do entendimento.

O que decola, a longo prazo, não é o mais eloquente, mas o mais verdadeiro. Obras como O Terceiro Chimpanzé ou Colapso de Diamond, ou mesmo Os Despossuídos de Ursula Le Guin na ficção especulativa, permanecem porque não temem a complexidade, não forçam conexões artificiais, não precisam vender uma tese única que explique tudo.

A Sabedoria da Limitação Epistêmica

Talvez o maior problema de Nexus seja sua recusa em reconhecer os limites do conhecimento. Harari escreve sobre milênios de história humana com a mesma confiança assertiva com que escreve sobre o futuro da IA. Não há espaço para dúvida, para o “não sabemos”, para o reconhecimento humilde de que algumas conexões podem ser ilusórias.

Santo Tomás de Aquino, em sua monumental Suma Teológica, não temia começar cada questão reconhecendo as objeções a sua posição. Havia nele uma arquitetura intelectual que incluía o contraditório, a dúvida, a limitação. Diamond, mesmo quando erra, mostra seu raciocínio — apresenta dados, admite lacunas, convida o leitor a pensar junto. Harari apresenta vereditos, não raciocínios abertos ao escrutínio.

A verdadeira grandeza intelectual está não em conectar tudo, mas em saber o que pode ser legitimamente conectado. Nexus quer ser a teoria de tudo da história humana; deveria aspirar a ser uma contribuição parcial, testável, refutável. Quer ser profecia; deveria contentar-se em ser hipótese.

Coda: O Retorno ao Rigor

Fechemos com uma reflexão. Em A Estrutura das Revoluções Científicas, Thomas Kuhn nos mostrou que as grandes narrativas científicas não vencem por serem mais eloquentes, mas por explicarem melhor os fenômenos. O paradigma que prevalece é aquele que resolve mais problemas, não o que produz a síntese mais elegante.

Nexus não decola como grande narrativa duradoura porque privilegia a elegância da síntese sobre o rigor da evidência. E o leitor sério, mesmo quando seduzido inicialmente, eventualmente percebe a diferença entre ser impressionado e ser convencido.

Como dizia C.S. Lewis: “A diferença entre um bom livro e um livro ruim é que o bom livro diz tudo o que precisa ser dito, e o livro ruim continua falando depois disso”. Nexus continua falando muito depois de ter esgotado sua evidência — preenchendo o vazio com retórica onde deveria haver silêncio epistêmico.

Para uma análise mais ampla sobre este debate epistemológico, leia: Nexus: a retórica de Harari diante da evidência de Diamond.

AVISO FINAL
Este conteúdo reflete os estudos científicos de Juvenil Alves nas áreas de filosofia, teologia, humanidades, literatura, psicanálise e desenvolvimento humano.

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