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Nexus: a retórica de Harari diante da evidência de Diamond

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Por Juvenil Alves – Blog O Assunto Tributário

Nota pessoal do autor
Nasci leitor em Abaeté. Entre 1965 e 1970, a biblioteca pública tinha mais romantismo do que prateleira — ou talvez fosse o que havia. Li A Viuvinha, de José de Alencar, O Guarani, Tibicuera e lia com gosto o Padre Zezinho. Depois vieram o Seminário da cidade de Luz, Juiz de Fora e outros cursos; assim cheguei a Kierkegaard. Se alguém me pedir um livro para a vida, digo Dom Quixote; se puderem ser dois, acrescento Grande Sertão: Veredas. Dito isso, tirei um tempo para ler o israelense Harari. Desta vez, não o vi com tanta assertividade.

Começo pelo que aproxima os autores, antes de sublinhar o que os separa. Harari e Diamond partem da mesma pergunta antiga: por que algumas sociedades avançam sobre outras? A ambição é legítima e necessária. O descompasso aparece um passo à frente: Diamond demonstra; Harari declara. Um confia no método, no dado que suporta o mapa; o outro prefere a imagem vigorosa, a frase que arregala os olhos. Há espaço para os dois — mas nem sempre no mesmo livro.

Essa diferença de método contamina a arquitetura. Em Nexus, a passagem da Suméria a Gutenberg, de Gutenberg a deepfakes, é como caminhar por salas elegantes sem a dobradiça que liga uma porta à outra. O leitor vê muitas vitrines e pouca oficina. Em Armas, Germes e Aço, ao contrário, uma página convoca a seguinte: de produtividade agrícola para excedente populacional; de excedente para cidade; de cidade para escrita; e daí para a formação de impérios. Aqui, em Harari, o colar é bonito, mas o fio cede.

Antes de intensificar a crítica, registro uma justiça que me parece indispensável. O que funciona em Nexus é a clareza. Harari escreve como quem acende luz de teto: o quadro aparece inteiro, sem pedantismo. Para o leitor não iniciado, isso é porta de entrada. Também reconheço o olfato cívico do autor: ele fareja, sem timidez, onde Estado, tecnologia e mercado se chocam. O problema não é a campainha que toca; é a ausência de escada para descer as etapas. Alerta sem degraus vira eco.

E é justamente aqui que o tom sobe e a substância baixa. A insistência em uma IA quase “alienígena”, capaz de derrubar pilares civilizacionais “em uma geração”, cria sensação de urgência — mas não oferece sinalização de saída. Um alerta útil deveria vir com métrica e custo, cronograma e gargalo. Em Nexus, a sirene toca; a rota de fuga fica no “depende”. É o velho gesto de gritar “fogo!” no cinema e, em seguida, ir tomar café.

A isso se soma um déjàvu difícil de ignorar. Tópicos que encantaram em Sapiens retornam com “IA” no lugar de “religião”; intuições de Homo Deus reaparecem com menos fôlego. Não desmereço a habilidade de síntese, mas a década que passou cobra musculatura empírica. Repetição sem régua vira refrão.

Quando a retórica tenta resolver o que a análise não fechou, surge o deus ex machina: a IA com vontade própria, desvinculada de incentivos, instituições e gente de carne e osso. Serve à cena, empobrece a história. E, como todo susto sem projeto, dura o tempo do parágrafo.

→ Leia mais: Nexus quer ser grande narrativa: por que não decola?

Para não ficar apenas no diagnóstico — e honrando a tradição de Braudel (a longue durée), Toynbee (desafio e resposta), Pinker (séries numéricas para temas morais) e mesmo os trabalhos de Barabási (métricas de redes) — proponho um trilho mínimo para o livro que Nexus gostaria de ser.

O que Nexus poderia ter sido (com trilho e régua)

  1. Um mapa de densidade de dados que se possa contestar. Construir um índice territorial por km² combinando infraestrutura (backbone, 5G, IXs), produção/consumo (tráfego, armazenamento) e capacidade de cómputo (GPUhours, datacenters). Comparar megalópoles e vazios rurais. Onde a informação se adensa, que instituições emergem?
  2. Métricas de rede com hipóteses falsificáveis. Medir grau, centralidade, modularidade de redes públicas/privadas; deixar hipóteses claras:
  • H1: Centralização de plataformas → concentração de renda setorial.
  • H2: Descentralização regulada de dados → queda nos custos de transação para PMEs. Hipóteses boas aceitam apanhar e, se precisarem, cair.
  1. Quase-experimentos reais. Usar mudanças regulatórias (proteção de dados, open banking/finance) como choques exógenos; explorar quedas de grandes plataformas ou interrupções de cabos como natural experiments. O mundo fornece o laboratório; falta coletar.
  2. Contrafactuais à moda de Diamond. “E se X país tivesse adotado portabilidade de dados em 2015? Qual o efeito em 2020 na formação de firmas intensivas em IA?” Sem contrafactual, a história perde profundidade; sem números, o contrafactual vira ficção.
  3. Políticas com preço e prazo. → Mercados/tributação de dados em sandboxes; → Literacia algorítmica escalonada por faixa etária, com avaliação padronizada; → Transparência técnica (relatórios de risco, auditorias independentes) por porte de modelo; → Governança: registro de grandes modelos, model cards, avaliação de impacto.
    Política pública se mede como qualquer projeto: custo, indicador, cronograma e quem responde.

→ Aprofunde-se: Medir antes de profetizar: um trilho mínimo para estudar redes de informação

Conclusão — medição antes da profecia

Nexus pretende a grande narrativa da era digital. Entrega diagnóstico vívido e prosa acessível, mas perde tração quando troca evidência por especulação. Se você busca uma estrutura para entender por que sociedades divergem, releia Diamond (e, para ampliar, visite Braudel e Toynbee). Se quer profecias de IA, assista Black Mirror. Se quer as duas coisas juntas, cobre — de autores e de nós mesmos — a disciplina de medir antes de profetizar.

Harari, aqui, brilha mais como cronista do perigo do que como arquiteto de explicações testáveis. E eu, leitor de Abaeté a Kierkegaard, sigo preferindo régua a megafone.

→ Amplie sua leitura: Para além de Harari e Diamond: 5 trilhas de leitura

Explicativo do autor
Sou leitor inveterado de Jared Diamond e reconheço que compará-lo a Yuval Noah Harari pode soar desparelho. Ainda assim, como leitor crítico e descompromissado com escolas ou modas intelectuais, a referência me pareceu útil para situar Nexus no mapa das “grandes narrativas”. Este texto não é um parecer acadêmico; é a impressão honesta de quem lê há décadas e gosta de medir ideias pelo seu lastro empírico. Peço licença aos que pensarem diferente — a boa leitura vive do dissenso civilizado.

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