Tenho considerado ultimamente sobre a forma como construímos nossas bibliotecas pessoais. Yuval Noah Harari e Jared Diamond tornaram-se, nos últimos anos, portas de entrada quase obrigatórias para quem busca compreender a trajetória humana em perspectiva histórica e antropológica. São autores importantes, sem dúvida — mas será que esgotam as possibilidades de leitura sobre quem somos e de onde viemos?
A resposta é não. Há territórios intelectuais igualmente ricos, talvez menos celebrados pela mídia, mas capazes de nos oferecer lentes diferentes para enxergar a condição humana. Proponho aqui cinco trilhas de leitura que dialogam com os temas de Harari e Diamond, mas avançam por caminhos próprios — alguns mais áridos, outros mais líricos, todos profundos. São autores que nos convidam não apenas a compreender a história, mas a habitá-la com narrativas mais densas e existencialmente transformadoras.
1. Lynn Hunt e a invenção dos direitos humanos
Quando pensamos na história da humanidade, tendemos a procurar grandes revoluções tecnológicas ou eventos demográficos. Lynn Hunt, historiadora da Universidade da Califórnia, nos lembra que há uma revolução silenciosa e igualmente decisiva: a invenção da empatia como valor político. Em A Invenção dos Direitos Humanos, Hunt investiga como, no século XVIII, romances epistolares (como Pamela e Clarissa) ensinaram leitores europeus a se colocarem no lugar do outro — e como isso pavimentou o caminho para declarações de direitos universais.
Não se trata de história das ideias no sentido abstrato, mas de uma arqueologia afetiva: como sentimentos coletivos moldam instituições? A tese de Hunt é fascinante e desafiadora: a compaixão pode ser historicamente datada. Isso nos obriga a perguntar: o que mais, em nossa vida moral, é contingente e não eterno?
2. Mary Beard e o cotidiano do poder romano
Se Harari nos dá panoramas amplos, Mary Beard — classicista de Cambridge — nos ensina a olhar de perto. Em SPQR: Uma História de Roma, Beard reconstrói a república e o império romanos não como épicos de conquista, mas como laboratórios de convivência humana. Ela nos mostra escravos que se tornaram filósofos, mulheres que influenciaram imperadores, conflitos entre classes sociais que ecoam até hoje.
O que torna Beard indispensável é sua recusa à grandiloquência. Roma, em suas páginas, não é um monumento — é uma cidade barulhenta, suja, cheia de contradições. Aprendi com ela que a história não se faz apenas com heróis e datas, mas com graffiti em paredes de Pompeia e piadas de mau gosto em tabuletas de cera. A vida comum importa tanto quanto os editos imperiais.
3. Carlo Ginzburg e os silêncios da históri
Há uma diferença entre saber o que aconteceu e compreender como as pessoas comuns viveram o que aconteceu. Carlo Ginzburg, historiador italiano, é mestre nessa segunda arte. Em O Queijo e os Vermes, ele reconstrói o mundo mental de Menocchio, um moleiro friulano do século XVI processado pela Inquisição por suas ideias cosmológicas heterodoxas.
Ginzburg pratica o que chama de “micro-história”: a partir de documentos judiciais esquecidos, ele revela não apenas a vida de um homem, mas todo um universo cultural de resistência, criatividade popular e tensão entre ortodoxia e dissidência. É uma forma de fazer história que exige paciência de detetive e sensibilidade de romancista. Seu método nos ensina que os grandes processos históricos só fazem sentido quando encarnados em pessoas reais, com nomes, medos e esperanças.
4. Karen Armstrong e a história da compaixão
Se Diamond analisa a geografia e os germes, Karen Armstrong — ex-freira católica transformada em historiadora das religiões — analisa o sagrado como força civilizatória. Em Uma História de Deus e Doze Passos para uma Vida de Compaixão, Armstrong mapeia a emergência da “Era Axial” (800-200 a.C.), período em que, quase simultaneamente, surgiram Buda, Confúcio, os profetas hebraicos e os filósofos gregos.
Armstrong não escreve como apologeta, mas como fenomenóloga: ela busca entender o que essas tradições têm em comum — e descobre que todas, à sua maneira, fizeram da compaixão o eixo da vida ética. Sua obra é um antídoto à superficialidade contemporânea sobre religião. Ela nos lembra que, antes de serem sistemas de crenças, as grandes tradições espirituais foram laboratórios de humanização.
5. Amartya Sen e as raízes plurais da modernidade
O último nome que proponho é de um economista-filósofo: Amartya Sen, Nobel de 1998. Em Identidade e Violência, Sen contesta a ideia de que civilizações sejam blocos monolíticos em choque — tese popularizada por Samuel Huntington e, de certa forma, presente em narrativas simplistas sobre “Ocidente versus Oriente”.
Sen argumenta que toda civilização é internamente plural, e que a modernidade não é invenção exclusiva da Europa. Ele mostra, por exemplo, como a tradição democrática indiana é anterior à colonização britânica, e como a ciência árabe medieval foi decisiva para o Renascimento europeu. Sua obra é um convite à humildade intelectual: nossas categorias de análise (Ocidente, Oriente, civilização) são mais frágeis do que gostaríamos de admitir.
Conclusão
Estas cinco trilhas não esgotam as alternativas a Harari e Diamond, mas abrem portas para leituras mais específicas, mais lentas, talvez mais exigentes — e, por isso mesmo, mais recompensadoras. Como dizia Ítalo Calvino, “um clássico é um livro que nunca terminou de dizer o que tinha para dizer”. Estes autores escrevem assim: não para nos dar respostas definitivas, mas para nos ensinar a fazer perguntas melhores.A história humana não é uma narrativa única, nem uma marcha linear rumo ao progresso. É um tecido de vozes, silêncios, erros e tentativas — um bordado imperfeito que só faz sentido quando olhamos de perto, com paciência e reverência. Para uma análise mais aprofundada sobre os métodos e as diferenças entre esses dois pensadores contemporâneos, recomendo a leitura de Nexus: a retórica de Harari diante da evidência de Diamond.
AVISO FINAL
Este conteúdo reflete os estudos científicos de Juvenil Alves nas áreas de filosofia, teologia, humanidades, literatura, psicanálise e desenvolvimento humano.
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