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O Poder do Recomeço: Reflexões para o Novo Ano

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Eu observo, ano após ano, um fenômeno curioso nestes dias de dezembro. Milhões de pessoas começam a renovar promessas, escrever listas de metas e acreditar genuinamente, que algo mágico acontecerá quando o calendário mudar para janeiro. Mas aqui está a verdade que poucos querem ouvir: o recomeço verdadeiro não depende de uma data. Ele nasce de uma decisão interior, silenciosa, muitas vezes dolorosa.

Como filósofo de formação tomista e estudioso da alma humana há décadas, aprendi que recomeçar não é apagar o passado. É integrá-lo. E se você chegou até aqui buscando respostas sobre como transformar 2026 em algo diferente, permita-me guiá-lo por uma reflexão mais profunda do que qualquer lista de resoluções poderia oferecer.

Por Que Recomeçar É Tão Difícil?

O filósofo Aristóteles já dizia que somos aquilo que repetidamente fazemos. Essa sentença carrega uma verdade incômoda: nossos hábitos nos definem muito mais do que nossas intenções. Pesquisas da Universidade de Scranton indicam que apenas 8% das pessoas que fazem resoluções de Ano Novo as cumprem. Que abismo existe entre o desejo e a realização?

Ponto cego frequente: confundimos vontade com capacidade. Queremos mudar, mas continuamos operando com os mesmos padrões mentais, as mesmas rotinas, os mesmos ambientes. É como esperar colher trigo onde plantamos espinhos.

O psicanalista Jacques Lacan nos lembra que o sujeito é efeito de sua própria história. Não escapamos de quem fomos. Mas — e aqui reside a esperança — podemos ressignificar essa narrativa. O passado não muda; nossa relação com ele, sim.

Um empresário de São Paulo me procurou certa vez, não para questões jurídicas, mas para uma conversa franca. Tinha construído um império, perdido quase tudo em uma crise, e agora, aos 58 anos, perguntava-se se ainda havia tempo. “Juvenil”, disse ele, “sinto que desperdicei minha chance.” Respondi com uma pergunta: “Chance de quê, exatamente?”

Ele ficou em silêncio. Nunca tinha formulado com clareza o que realmente queria.

O Mito do Recomeço Perfeito

Nossa cultura vende a ilusão de que recomeçar significa partir do zero, como se pudéssemos formatar a mente como um disco rígido. Essa fantasia é sedutora, mas perigosa. Ela nos faz desprezar a experiência acumulada, inclusive os fracassos, como se fossem peso morto.

Quer saber a verdade? O recomeço mais poderoso não é aquele que ignora as cicatrizes. É aquele que as transforma em sabedoria.

Tomás de Aquino, na Suma Teológica, distingue entre o arrependimento estéril — aquele que apenas lamenta — e a contrição verdadeira, que gera movimento. O primeiro paralisa; o segundo liberta. Aplicado à vida prática, isso significa que olhar para 2025 com autopiedade é inútil. A pergunta produtiva não é “onde errei?”, mas “o que esse erro me ensinou sobre quem sou e quem quero ser?”.

Fique de olho nesta armadilha: a busca pela perfeição no recomeço frequentemente mascara o medo de agir. Enquanto planejamos o momento ideal, a vida passa. Como escreveu o filósofo Nassim Taleb, “a melhor forma de verificar se você está vivo é checar se você gosta de variações”. O recomeço exige abraçar a incerteza, não eliminá-la.

Os Três Pilares do Recomeço Consciente

Ao longo de décadas estudando filosofia, psicanálise e observando a condição humana em suas mais diversas manifestações, identifiquei três elementos presentes em todo recomeço genuíno.

1. Clareza de Propósito

Não há vento favorável para quem não sabe aonde vai. Essa máxima atribuída a Sêneca permanece atual. Antes de definir metas para 2026, pergunte-se: qual é o sentido que busco? Metas sem propósito são tarefas burocráticas. Propósito sem metas é devaneio.

Um estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology demonstrou que pessoas com senso claro de propósito vivem, em média, sete anos a mais. Não se trata apenas de longevidade física, mas de vitalidade existencial.

2. Aceitação Radical do Presente

Recomeçar não significa fugir do agora. Paradoxalmente, exige encará-lo com honestidade brutal. Quem você é hoje — com suas limitações, medos, contradições — é o único ponto de partida possível. Negar isso é construir sobre areia movediça.

A sabedoria bíblica de Salomão ecoa aqui: “Há tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de dançar.” Aceitar o tempo presente, seja ele de luto ou celebração, é condição para atravessá-lo.

3. Ação Incremental

Grandes transformações raramente acontecem em saltos dramáticos. Elas se constroem em pequenos atos diários, quase invisíveis. O autor James Clear, em Atomic Habits, calcula que uma melhoria de 1% ao dia resulta em crescimento de 37 vezes ao longo de um ano. A matemática do progresso é contraintuitiva: consistência supera intensidade.

Mas aqui está o problema: nossa mente busca gratificação imediata. Preferimos a ilusão do grande gesto à disciplina do pequeno passo. Recomeçar exige renunciar a essa armadilha.

O Papel da Dor no Recomeço

Nenhuma reflexão sobre recomeço seria completa sem abordar o que ninguém quer discutir: a dor como catalisadora.

Em minha trajetória como estudioso da psicanálise, observei um padrão recorrente. As pessoas que mais profundamente se transformaram não foram aquelas que evitaram o sofrimento, mas aquelas que o atravessaram com consciência. A dor, quando não é negada nem dramatizada, funciona como um professor implacável.

Viktor Frankl, psiquiatra sobrevivente de Auschwitz, cunhou uma frase que carrego comigo: “Quem tem um ‘porquê’ enfrenta qualquer ‘como’.” O sofrimento sem sentido destrói. O sofrimento integrado a um propósito maior transforma.

Tomei conhecimento, há alguns anos, da história de uma professora do interior de Minas Gerais. Após perder o marido e enfrentar uma doença grave, ela decidiu — aos 62 anos — cursar Filosofia. “Não quero morrer sem entender por que vivi”, disse-me ela em uma palestra. Hoje, aos 70, leciona para jovens universitários. Seu recomeço não apagou a dor. Deu a ela um destino.

Dezembro: O Mês do Balanço

Estamos naquele período peculiar do ano em que o tempo parece se comprimir. Os dias de dezembro carregam uma urgência estranha, a sensação de que algo precisa ser concluído antes que a página vire. Aproveite essa energia, mas não se deixe escravizar por ela.

O balanço de fim de ano não deveria ser um tribunal onde você se condena. Deveria ser um inventário honesto, feito com a mesma compaixão que você ofereceria a um amigo querido. O que funcionou em 2025? O que não funcionou? E pergunta crucial, o que você aprendeu sobre si mesmo?

Fique de olho: a autocrítica excessiva não produz mudança. Produz paralisia. A neurociência já demonstrou que o cérebro aprende melhor quando reconhecemos pequenas vitórias do que quando nos flagelamos por derrotas.

Recomeçar É um Ato de Coragem

A sociedade contemporânea celebra o novo, mas raramente honra o processo de deixar ir. Recomeçar implica luto. Luto de quem éramos, de projetos que não vingaram, de versões de nós mesmos que precisam morrer para que outras nasçam.

O filósofo Martin Heidegger falava do ser-para-a-morte não como mórbido fatalismo, mas como convite à autenticidade. Saber que nosso tempo é finito deveria nos libertar da procrastinação existencial. Quantos recomeços adiamos esperando condições ideais que nunca chegam?

Reflexão Final: 2026 Começa Quando Você Decidir

Permita-me ser direto: 1º de janeiro é uma convenção arbitrária. O calendário gregoriano, adotado em 1582, é uma construção humana. Culturas diferentes celebram o ano novo em datas distintas. O que isso nos ensina? Que o tempo cronológico é menos importante que o tempo interior.

Seu recomeço pode acontecer hoje, ainda em dezembro. Pode acontecer em março, em agosto. Pode acontecer agora, enquanto lê estas palavras. A única condição é uma decisão genuína, seguida de ação consistente.

Aristóteles encerrava suas reflexões éticas com um chamado à eudaimonia, a vida florescente, realizada. Não se trata de felicidade superficial, mas de viver em acordo com nossa natureza mais elevada. Esse é o convite que deixo para você neste limiar de ano: não busque apenas metas para 2026. Busque sentido. O resto virá como consequência.

Que este seja o ano em que você deixa de esperar permissão para começar.

Este conteúdo reflete as reflexões de Juvenil Alves, filósofo, teólogo, psicanalista e jurista.

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