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Retrospectiva 2025: Lições Para Levar Adiante

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Eu olho para 2025 como quem contempla um espelho rachado, cada fragmento revela uma verdade diferente, mas nenhum deles mente. Este ano que caminha para o fim não foi apenas um calendário de eventos; foi um campo de provas para a condição humana. Fomos testados na paciência, desafiados na esperança, confrontados com nossas próprias contradições.

Heráclito de Éfeso já nos alertava: “Ninguém entra no mesmo rio duas vezes, pois nem o rio é o mesmo, nem a pessoa”. O Brasil de janeiro não é o mesmo de agora. E nós, que atravessamos esses meses, também não somos os mesmos. A questão que se impõe é: o que aprendemos com a travessia?

Neste artigo, convido você a uma reflexão que vai além dos números e das manchetes. Quero explorar as lições perenes que 2025 nos ofereceu, aquelas que permanecerão válidas independentemente do que 2026 nos reserve.

O Ano em que a Incerteza Virou Certeza

Passamos a vida tentando eliminar a incerteza, quando deveríamos aprender a dançar com ela. 2025 nos ensinou, às vezes de forma brutal, que o controle é uma ilusão reconfortante, mas ainda assim, uma ilusão.

O cenário global permaneceu instável. Tensões geopolíticas, oscilações econômicas, transformações tecnológicas aceleradas. Quem construiu sua vida presumindo estabilidade encontrou-se perdido; quem cultivou adaptabilidade, prosperou. A lição de Heráclito ecoa através dos séculos: a única constante é a mudança.

A Sabedoria de Sócrates no Século XXI

Sócrates ficou famoso pela declaração: “Só sei que nada sei”. Durante séculos, filósofos debateram se isso era humildade genuína ou ironia refinada. Depois de 2025, creio que a resposta é mais prática: reconhecer os limites do próprio conhecimento é a condição para aprender.

Quantas previsões de especialistas falharam este ano? Quantos cenários “garantidos” se desfizeram? O problema não é que os especialistas sejam incompetentes, é que a realidade é mais complexa do que qualquer modelo pode capturar. A arrogância epistêmica cobra seu preço cedo ou tarde.

Sócrates praticava a maiêutica, a arte de fazer perguntas que ajudam o interlocutor a descobrir verdades por si mesmo. Talvez essa seja a habilidade mais valiosa que podemos cultivar: não a de dar respostas prontas, mas a de formular as perguntas certas.

O Tempo: Nosso Recurso Mais Mal Administrado

Você não pode gerenciar o tempo, só pode gerenciar suas escolhas dentro dele. O tempo flui independentemente da sua vontade. 2025 tem exatamente 365 dias, nem um a mais, nem um a menos. A diferença entre quem aproveita e quem desperdiça está nas decisões tomadas em cada um deles.

Sêneca, o estoico romano, escreveu há dois milênios: “Não é que tenhamos pouco tempo, mas que desperdiçamos muito”. A observação permanece dolorosamente atual. Passamos horas em redes sociais, em reuniões improdutivas, em preocupações com problemas que nunca se materializaram, e depois reclamamos que o dia é curto.

Quer saber o melhor? A consciência sobre o uso do tempo é reversível. Cada manhã oferece uma página em branco. Ainda há dias em 2025; o futuro de 2026 ainda é rascunho.

A Brevidade da Vida

Sêneca dedicou um tratado inteiro a esse tema, De Brevitate Vitae, Sobre a Brevidade da Vida. Sua tese central: a vida não é curta; nós é que a encurtamos. Desperdiçamos anos inteiros em ocupações que não nos realizam, em relacionamentos que nos drenam, em ambições que não são verdadeiramente nossas.

2025 nos oferece inúmeros momentos de escolha. Oportunidades de reconciliação que deixamos passar. Conversas importantes que adiamos. Decisões que sabemos necessárias mas evitamos por medo. O tempo não espera, ele aparece e desaparece, indiferente à nossa prontidão.

Mas aqui está o problema: só reconhecemos o valor do tempo em retrospecto. Só percebemos que era a hora certa quando ela já passou. A sabedoria consiste em desenvolver a sensibilidade para identificar esses momentos enquanto ainda presentes.

O Paradoxo da Conexão Desconectada

Nunca estivemos tão conectados tecnologicamente, e tão isolados existencialmente. 2025 aprofunda essa contradição. A inteligência artificial avança a passos largos, prometendo resolver problemas que sequer sabíamos ter. As redes sociais continuam a fragmentar nossa atenção e polarizar nossas opiniões.

O ser humano é essencialmente social. Nossa realização depende da vida em comunidade, das relações autênticas, do pertencimento. A tecnologia deveria facilitar isso; em muitos casos, está sabotando. Substituímos profundidade por quantidade, presença por performance, intimidade por exibição.

Os consultórios de psicologia e psicanálise em 2025 transbordam de pacientes com queixas semelhantes: solidão em meio à multidão, ansiedade permanente, sensação de vazio apesar de vidas aparentemente bem-sucedidas. Não é coincidência, é sintoma.

A Coragem da Vulnerabilidade

Vulnerabilidade não é fraqueza; é nossa medida mais precisa de coragem. Em um ano que exige tanto de todos nós, quantas vezes temos a coragem de admitir que não sabemos, que não podemos, que precisamos de ajuda?

A cultura contemporânea idolatra a autossuficiência. Pedimos ajuda como quem confessa uma derrota. Choramos escondidos para não parecer fracos. Construímos personas de invencibilidade nas redes sociais enquanto desmoronamos por dentro. 2025 está aí para nos ensinar que essa armadura é mais prisão do que proteção.

Sócrates, novamente, nos oferece orientação. Ele não tinha vergonha de questionar, de admitir ignorância, de mudar de opinião diante de argumentos melhores. A verdadeira força está em reconhecer fraquezas, não em fingir que elas não existem.

Esperança: Não Confunda com Otimismo

Confundimos esperança com otimismo. São coisas distintas. O otimismo é a expectativa de que as coisas darão certo. A esperança é a decisão de continuar agindo mesmo sem garantia de resultado.

Esperança não é a convicção de que algo vai dar certo, mas a certeza de que algo faz sentido, independentemente de como vai acabar. Essa distinção é libertadora. O otimismo pode evaporar diante de evidências negativas; a esperança sobrevive às piores circunstâncias, porque não depende das circunstâncias.

Em 2025, muitos estão perdendo o otimismo. Diante de notícias desanimadoras, de projetos frustrados, de expectativas não cumpridas, o otimismo simplesmente evapora. A esperança, por outro lado, pode sobreviver e florescer mesmo no solo mais árido.

A Resiliência Como Hábito

Resiliência não é insensibilidade ao sofrimento. É a capacidade de absorver o impacto sem perder a direção. É cair sete vezes e levantar oito, como ensina o provérbio. Mas atenção: resiliência não significa aguentar calado, significa processar, aprender e seguir.

2025 testa nossa resiliência coletiva. Alguns estão descobrindo reservas de força que desconheciam possuir. Outros percebem que precisam cultivar essa virtude com mais intencionalidade. A boa notícia é que resiliência pode ser desenvolvida, não é dom inato, é músculo que se fortalece com exercício.

Sêneca recomendava exercícios diários de preparação mental para adversidades. Imaginar cenários difíceis, antecipar perdas, ensaiar respostas. Não por pessimismo, mas por prudência. Quem treina para a dificuldade não é surpreendido quando ela chega.

A Pergunta que Importa: Para Que Você Vive?

Quem tem um porquê para viver pode suportar quase qualquer como. Essa verdade atravessa os séculos e permanece atual. Em meio a tantas demandas urgentes, quantos param para perguntar: o que realmente importa? Para que estou correndo? Se conseguir tudo o que busco, terei uma vida que valeu a pena?

Tomás de Aquino ensinava que “o bem do homem consiste em viver segundo a razão e em vista de um fim último”. Sem clareza sobre esse fim último, corremos o risco de vencer todas as batalhas e perder a guerra. Acumulamos conquistas vazias enquanto negligenciamos o que verdadeiramente preenche a alma.

A filosofia tomista nos convida a ordenar nossas ações em função de um bem maior. Não se trata de renunciar aos bens terrenos, mas de hierarquizá-los corretamente. O problema não é ter ambições, é ter ambições desordenadas.

O Legado Além de Nós Mesmos

Sócrates não deixou obras escritas. Tudo o que sabemos dele vem de seus discípulos, especialmente Platão. Ainda assim, sua influência perdura há mais de dois milênios. O legado não se constrói necessariamente em livros ou monumentos, constrói-se nas vidas que tocamos, nas ideias que plantamos, nos exemplos que deixamos.

O legado que construímos não se mede em patrimônio acumulado ou títulos conquistados. Mede-se nas transformações que provocamos, nas sementes que plantamos mesmo sem garantia de colheita. 2025 está passando. A pergunta que fica é: o que de você está ficando em 2025?

O Que Levar Para a Travessia de 2026

As lições de 2025 podem ser destiladas em princípios simples, embora não fáceis de viver. Primeiro, na linha de Heráclito: abraçar a mudança não é fraqueza, é sabedoria. O futuro permanecerá imprevisível; nossa tarefa é cultivar a flexibilidade para navegá-lo.

Segundo, com Sêneca: o tempo é o único recurso verdadeiramente não renovável. Dinheiro perdido pode ser recuperado; tempo desperdiçado, jamais. As escolhas sobre como investimos nossas horas definem quem nos tornamos.

Terceiro, aprendendo com Sócrates: a vida examinada é o caminho para uma existência com sentido. Fazer as perguntas certas importa mais do que ter respostas prontas. A humildade intelectual abre portas que a arrogância fecha.

E finalmente, seguindo Tomás de Aquino: ordenar a vida em função de um fim último transforma ações dispersas em jornada coerente. Sem esse norte, corremos muito e chegamos a lugar nenhum.

O filósofo não é aquele que tem todas as respostas, é aquele que não desiste de fazer as perguntas certas. Que 2026 nos encontre perguntando melhor, vivendo mais conscientemente, e construindo um legado que transcenda nossa própria passagem.

Este conteúdo reflete as reflexões de Juvenil Alves, filósofo, teólogo, psicanalista e jurista.

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