Série Mircea Eliade: O Sagrado — III · Eu era seu aluno, datilografava seus textos e não entendi a resposta. Quase cinquenta anos depois, vou procurá-la na obra que ele deixou
por Juvenil Alves Ferreira Filho — Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista
Humanidades · Série Mircea Eliade: O Sagrado — III · Julho de 2026
Eu era aluno de André Eduardo Guimarães quando lhe fiz uma pergunta que, hoje percebo, era grande demais para a minha idade.
Como contei na abertura desta série, eu tinha dezenove anos e datilografava os seus manuscritos naquela IBM de esfera que era a grande novidade do tempo — a fita de apagar que perdoava os erros, a esfera de fontes que girava veloz antes de bater o tipo. Ainda me lembro do papel preso ao rolo e da cadência quase ritual com que uma ideia passava do manuscrito para a página. Ele lecionava no Seminário Santo Antônio, em Juiz de Fora, e dava aulas também na PUC-MG. E foi nesse ambiente, entre uma lauda e outra, que lhe perguntei por que havia “bandeado” para o lado de Mircea Eliade.
A palavra era minha — juvenil, imprecisa, talvez até injusta. Mas a pergunta era verdadeira. Havia tantos autores mais próximos da tradição, tantos nomes menos problemáticos, tantos caminhos mais seguros para um filósofo a caminho do sacerdócio. Por que, então, Eliade?
Ele talvez tenha julgado que eu não entenderia a resposta. Ou talvez tenha respondido, e fui eu que não a entendi — o que, aos dezenove anos, dá rigorosamente no mesmo. O fato é que a pergunta ficou. Passaram-se quase cinquenta anos; ele já não está aqui para que eu a refaça; resta-me procurar a resposta na obra que deixou. E talvez seja este o modo certo de procurá-la. Porque, como ele gostava de lembrar em aula, é de desafio que vive o filósofo.
Uma pergunta cedo demais
Toda pergunta tem a sua hora, e eu fiz a minha antes da hora — antes da minha hora, quero dizer. Para entender uma escolha intelectual é preciso ter feito algumas; aos dezenove anos, eu apenas datilografava as escolhas dos outros. Via as palavras estranhas passarem do manuscrito ao papel — hierofania, arquétipo, homo religiosus — e intuía que havia ali um mundo, mas não sabia ainda que perguntas aquele mundo respondia. O aluno vê o professor escolher um autor como quem vê um homem entrar por uma porta: registra o gesto, não adivinha a casa.
Hoje tenho a idade que ele não chegou a ter, li os livros que ele datilografou primeiro, e posso ao menos reconstruir a paisagem em que a escolha foi feita.
O autor menos confortável
Porque a escolha, convém dizer com clareza, não era óbvia — era quase desafiadora. Para um professor de seminário com o talento do Padre André, a biblioteca da Igreja abria avenidas seguras. O caminho natural era Tomás de Aquino: todo seminário respirava tomismo, e comentar a Summa é carreira para muitas vidas, aplaudida por todas as autoridades. Havia Agostinho, o doutor da interioridade — o interlocutor católico perfeito para quem amava, como ele, a filosofia e a psicologia ao mesmo tempo. Havia até a via mais discreta e comovente de Santa Teresinha, a doutora da confiança, sob medida para a vocação pastoral que o Arcebispo, na cena que narrei na abertura, quis conferir nele.
Aquino, Agostinho, Teresinha: caminhos iluminados, de dentro da casa. E ele atravessou a fronteira para estudar um romeno de Bucareste que ensinava em Chicago — que não era católico, não era teólogo, vinha da história das religiões e carregava, da juventude, uma biografia política que ainda hoje rende controvérsia e que esta série não vai esconder quando chegar a sua vez. Escolha assim, num homem daquela seriedade, é confissão involuntária: diga-me o autor a que dedicaste os teus anos, e eu saberei que pergunta te tirava o sono.
O sagrado contra o reducionismo
Minha primeira aproximação de resposta — e sublinho que é aproximação de quem busca, não veredicto de quem sabe — começa por notar contra quem se lutava naquela década. Os anos setenta não atacavam a fé de dentro da casa; atacavam-na de fora, com as armas novas das ciências humanas. Freud reduzia a religião a ilusão nascida do desamparo; a sociologia a explicava como função do grupo; certo historicismo a dissolvia em produto datado, verdade de ontem a caminho do museu. Contra essas artilharias, os mestres da casa não bastavam: citá-los era pregar aos convertidos. Quem quisesse defender o sagrado precisaria descer ao terreno do adversário — o terreno da ciência da religião — e sustentar a luta com as regras de lá.
Eliade oferecia exatamente isso. Não pedia ao leitor ato de fé nenhum; pedia honestidade fenomenológica diante dos dados que a humanidade inteira fornece. E dos dados extraía a tese que sustenta toda a sua obra: o sagrado é irredutível — não se deixa dissolver em psicologia, em sociologia, em história, porque é um modo próprio e originário de o homem estar no mundo. O homo religiosus não é um doente a curar nem um primitivo a superar: é o homem em sua estatura inteira. Para um padre que lia Freud a sério — que não o desprezava, e por isso mesmo sentia o peso do golpe —, Eliade era o contragolpe da mesma envergadura: um cientista da religião demonstrando, no idioma da ciência, que a religião não é sintoma.
E o Padre André não estava sozinho nessa frente, nem Eliade era o seu único aliado. Ele estudava também Paul Ricoeur — o filósofo que ensinou a atravessar os mestres da suspeita em vez de contorná-los, e sobre quem já escrevi nesta seção, em Quando a Suspeita Vira Sistema. Não é coincidência: Eliade e Ricoeur, por caminhos distintos — a fenomenologia do sagrado num, a hermenêutica do símbolo no outro —, defendiam a mesma cidadela: a de que o símbolo religioso dá o que pensar, e não apenas o que diagnosticar. Um professor que datilografava os dois nomes na mesma máquina estava, tudo indica, montando um arsenal coerente.
O ponto difícil: história e anti-historicismo
Mas há uma camada mais funda, e é nela que mora, creio, o coração da escolha — porque bate exatamente no título da tese que ele defenderia em Roma: o anti-historicismo. Eliade apontava, contra o espírito do tempo, para aquilo que no homem religioso resiste ao calendário: o arquétipo, o rito, o eterno retorno. Só que aqui a escolha revela sua coragem, porque para um cristão essa tese é ao mesmo tempo remédio e problema. O cristianismo não vive apenas do mito que retorna: vive de uma história da salvação — de eventos que aconteceram uma vez, num tempo datável, e que não podem ser dissolvidos em arquétipo sem que a fé deixe de ser o que é.
Padre André não escolheu Eliade por ser fácil. Escolheu, tudo indica, porque Eliade o obrigava a enfrentar a tensão que um sacerdote intelectual não podia evitar: como reconhecer a força universal do sagrado sem reduzir a religião à psicologia, à sociologia ou à história — e, ao mesmo tempo, como salvar a história, sem a qual o cristianismo deixaria de ser cristianismo. A tese dele, sobre o fenômeno religioso e a valorização da história à luz do anti-historicismo eliadiano, é o enfrentamento dessa tensão pelo próprio título.
Escolher Eliade não era aderir a Eliade
O que me leva ao ponto que a maturidade me permite ver e que os meus dezenove anos não viam: estudar um autor não é filiar-se a ele. Padre André não “virou eliadiano” — estudou Eliade para pensar com ele, contra ele e além dele, que é o único modo sério de estudar quem quer que seja. A palavra que usei na pergunta — “bandeou” — errava exatamente aí: supunha bandos, adesões, trincheiras. O professor que eu tinha diante de mim não trocava de bando; examinava as armas de todos. É por isso, aliás, que a sua leitura de Eliade pôde ser simultaneamente devotada e crítica — devotada ao que o romeno via, crítica ao que ele não conseguia ver.
A pergunta que ficou comigo
Volto, no fim, à cena da máquina de escrever. O menino que perguntou “por que Eliade?” recebeu, sem perceber, uma resposta de cinquenta anos de prazo — porque há respostas que não cabem numa conversa e precisam de uma vida. Esta série é a minha tentativa de honrar o prazo: procurar na obra do Padre André, e na do autor que ele estudou, a resposta que não pude entender em 1978.
E aqui registro um consolo que encontrei no caminho — e que enriquece esta busca mais do que eu esperava. Ao preparar esta série, descobri que não estou sozinho na trilha, nem o meu professor ficou falando sozinho. O Sagrado e a História continuou a circular: vários pesquisadores brasileiros que estudam Eliade citam o Padre André, e alguns o tratam como uma das referências expressivas da recepção do romeno no Brasil — Vitor Chaves de Souza recorre a ele repetidamente ao discutir a ontologia do mito e a irredutibilidade do sagrado; Antônio Vidal Nunes o recomenda expressamente ao tratar do debate entre Freud e Eliade; e há até estudo acadêmico sobre o símbolo em Eliade e Paul Ricoeur que se apoia na sua obra — a mesma ponte entre os dois autores que eu vi ser construída, lauda a lauda, na máquina de escrever do Seminário. Conforta-me sabê-lo: a pergunta que fiz em 1978 não era apenas curiosidade juvenil diante de uma escolha excêntrica. Era a entrada, ainda inconsciente, num problema que outros estudiosos também reconheceram como decisivo — e o professor que me pareceu solitário na travessia deixou, afinal, uma trilha que continua sendo percorrida.
Pode ser que eu encontre a resposta; pode ser que encontre apenas perguntas melhores — as vocações intelectuais, como as outras, têm seus segredos, e um mapa do coração alheio é sempre desenhado do lado de fora. Mas sigo. Porque a pergunta, quase cinquenta anos depois, tornou-se finalmente o que ainda não era quando a fiz: um verdadeiro desafio. E é de desafio que vive o filósofo.
No próximo texto, entraremos enfim na obra: a hierofania, a manifestação do sagrado — o conceito que abre todas as portas de Eliade, e que tantas vezes datilografei sem saber o que carregava.
Juvenil Alves Ferreira Filho Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista
Humanidades · Série Mircea Eliade: O Sagrado — III · Belo Horizonte, julho de 2026 · juvenilalves.com.br