Por que Padre André escolheu Mircea Eliade? A pergunta que fiz em 1978

Por que estudar Mircea Eliade: a pergunta que Juvenil Alves fez ao Padre André Eduardo Guimarães em 1978 — série Mircea Eliade: O Sagrado
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Série Mircea Eliade: O Sagrado — III · Eu era seu aluno, datilografava seus textos e não entendi a resposta. Quase cinquenta anos depois, vou procurá-la na obra que ele deixou

por Juvenil Alves Ferreira Filho — Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista

Humanidades · Série Mircea Eliade: O Sagrado — III · Julho de 2026

Eu era aluno de André Eduardo Guimarães quando lhe fiz uma pergunta que, hoje percebo, era grande demais para a minha idade.

Como contei na abertura desta série, eu tinha dezenove anos e datilografava os seus manuscritos naquela IBM de esfera que era a grande novidade do tempo — a fita de apagar que perdoava os erros, a esfera de fontes que girava veloz antes de bater o tipo. Ainda me lembro do papel preso ao rolo e da cadência quase ritual com que uma ideia passava do manuscrito para a página. Ele lecionava no Seminário Santo Antônio, em Juiz de Fora, e dava aulas também na PUC-MG. E foi nesse ambiente, entre uma lauda e outra, que lhe perguntei por que havia “bandeado” para o lado de Mircea Eliade.

A palavra era minha — juvenil, imprecisa, talvez até injusta. Mas a pergunta era verdadeira. Havia tantos autores mais próximos da tradição, tantos nomes menos problemáticos, tantos caminhos mais seguros para um filósofo a caminho do sacerdócio. Por que, então, Eliade?

Ele talvez tenha julgado que eu não entenderia a resposta. Ou talvez tenha respondido, e fui eu que não a entendi — o que, aos dezenove anos, dá rigorosamente no mesmo. O fato é que a pergunta ficou. Passaram-se quase cinquenta anos; ele já não está aqui para que eu a refaça; resta-me procurar a resposta na obra que deixou. E talvez seja este o modo certo de procurá-la. Porque, como ele gostava de lembrar em aula, é de desafio que vive o filósofo.

Uma pergunta cedo demais

Toda pergunta tem a sua hora, e eu fiz a minha antes da hora — antes da minha hora, quero dizer. Para entender uma escolha intelectual é preciso ter feito algumas; aos dezenove anos, eu apenas datilografava as escolhas dos outros. Via as palavras estranhas passarem do manuscrito ao papel — hierofania, arquétipo, homo religiosus — e intuía que havia ali um mundo, mas não sabia ainda que perguntas aquele mundo respondia. O aluno vê o professor escolher um autor como quem vê um homem entrar por uma porta: registra o gesto, não adivinha a casa.

Hoje tenho a idade que ele não chegou a ter, li os livros que ele datilografou primeiro, e posso ao menos reconstruir a paisagem em que a escolha foi feita.

O autor menos confortável

Porque a escolha, convém dizer com clareza, não era óbvia — era quase desafiadora. Para um professor de seminário com o talento do Padre André, a biblioteca da Igreja abria avenidas seguras. O caminho natural era Tomás de Aquino: todo seminário respirava tomismo, e comentar a Summa é carreira para muitas vidas, aplaudida por todas as autoridades. Havia Agostinho, o doutor da interioridade — o interlocutor católico perfeito para quem amava, como ele, a filosofia e a psicologia ao mesmo tempo. Havia até a via mais discreta e comovente de Santa Teresinha, a doutora da confiança, sob medida para a vocação pastoral que o Arcebispo, na cena que narrei na abertura, quis conferir nele.

Aquino, Agostinho, Teresinha: caminhos iluminados, de dentro da casa. E ele atravessou a fronteira para estudar um romeno de Bucareste que ensinava em Chicago — que não era católico, não era teólogo, vinha da história das religiões e carregava, da juventude, uma biografia política que ainda hoje rende controvérsia e que esta série não vai esconder quando chegar a sua vez. Escolha assim, num homem daquela seriedade, é confissão involuntária: diga-me o autor a que dedicaste os teus anos, e eu saberei que pergunta te tirava o sono.

O sagrado contra o reducionismo

Minha primeira aproximação de resposta — e sublinho que é aproximação de quem busca, não veredicto de quem sabe — começa por notar contra quem se lutava naquela década. Os anos setenta não atacavam a fé de dentro da casa; atacavam-na de fora, com as armas novas das ciências humanas. Freud reduzia a religião a ilusão nascida do desamparo; a sociologia a explicava como função do grupo; certo historicismo a dissolvia em produto datado, verdade de ontem a caminho do museu. Contra essas artilharias, os mestres da casa não bastavam: citá-los era pregar aos convertidos. Quem quisesse defender o sagrado precisaria descer ao terreno do adversário — o terreno da ciência da religião — e sustentar a luta com as regras de lá.

Eliade oferecia exatamente isso. Não pedia ao leitor ato de fé nenhum; pedia honestidade fenomenológica diante dos dados que a humanidade inteira fornece. E dos dados extraía a tese que sustenta toda a sua obra: o sagrado é irredutível — não se deixa dissolver em psicologia, em sociologia, em história, porque é um modo próprio e originário de o homem estar no mundo. O homo religiosus não é um doente a curar nem um primitivo a superar: é o homem em sua estatura inteira. Para um padre que lia Freud a sério — que não o desprezava, e por isso mesmo sentia o peso do golpe —, Eliade era o contragolpe da mesma envergadura: um cientista da religião demonstrando, no idioma da ciência, que a religião não é sintoma.

E o Padre André não estava sozinho nessa frente, nem Eliade era o seu único aliado. Ele estudava também Paul Ricoeur — o filósofo que ensinou a atravessar os mestres da suspeita em vez de contorná-los, e sobre quem já escrevi nesta seção, em Quando a Suspeita Vira Sistema. Não é coincidência: Eliade e Ricoeur, por caminhos distintos — a fenomenologia do sagrado num, a hermenêutica do símbolo no outro —, defendiam a mesma cidadela: a de que o símbolo religioso dá o que pensar, e não apenas o que diagnosticar. Um professor que datilografava os dois nomes na mesma máquina estava, tudo indica, montando um arsenal coerente.

O ponto difícil: história e anti-historicismo

Mas há uma camada mais funda, e é nela que mora, creio, o coração da escolha — porque bate exatamente no título da tese que ele defenderia em Roma: o anti-historicismo. Eliade apontava, contra o espírito do tempo, para aquilo que no homem religioso resiste ao calendário: o arquétipo, o rito, o eterno retorno. Só que aqui a escolha revela sua coragem, porque para um cristão essa tese é ao mesmo tempo remédio e problema. O cristianismo não vive apenas do mito que retorna: vive de uma história da salvação — de eventos que aconteceram uma vez, num tempo datável, e que não podem ser dissolvidos em arquétipo sem que a fé deixe de ser o que é.

Padre André não escolheu Eliade por ser fácil. Escolheu, tudo indica, porque Eliade o obrigava a enfrentar a tensão que um sacerdote intelectual não podia evitar: como reconhecer a força universal do sagrado sem reduzir a religião à psicologia, à sociologia ou à história — e, ao mesmo tempo, como salvar a história, sem a qual o cristianismo deixaria de ser cristianismo. A tese dele, sobre o fenômeno religioso e a valorização da história à luz do anti-historicismo eliadiano, é o enfrentamento dessa tensão pelo próprio título.

Escolher Eliade não era aderir a Eliade

O que me leva ao ponto que a maturidade me permite ver e que os meus dezenove anos não viam: estudar um autor não é filiar-se a ele. Padre André não “virou eliadiano” — estudou Eliade para pensar com ele, contra ele e além dele, que é o único modo sério de estudar quem quer que seja. A palavra que usei na pergunta — “bandeou” — errava exatamente aí: supunha bandos, adesões, trincheiras. O professor que eu tinha diante de mim não trocava de bando; examinava as armas de todos. É por isso, aliás, que a sua leitura de Eliade pôde ser simultaneamente devotada e crítica — devotada ao que o romeno via, crítica ao que ele não conseguia ver.

A pergunta que ficou comigo

Volto, no fim, à cena da máquina de escrever. O menino que perguntou “por que Eliade?” recebeu, sem perceber, uma resposta de cinquenta anos de prazo — porque há respostas que não cabem numa conversa e precisam de uma vida. Esta série é a minha tentativa de honrar o prazo: procurar na obra do Padre André, e na do autor que ele estudou, a resposta que não pude entender em 1978.

E aqui registro um consolo que encontrei no caminho — e que enriquece esta busca mais do que eu esperava. Ao preparar esta série, descobri que não estou sozinho na trilha, nem o meu professor ficou falando sozinho. O Sagrado e a História continuou a circular: vários pesquisadores brasileiros que estudam Eliade citam o Padre André, e alguns o tratam como uma das referências expressivas da recepção do romeno no Brasil — Vitor Chaves de Souza recorre a ele repetidamente ao discutir a ontologia do mito e a irredutibilidade do sagrado; Antônio Vidal Nunes o recomenda expressamente ao tratar do debate entre Freud e Eliade; e há até estudo acadêmico sobre o símbolo em Eliade e Paul Ricoeur que se apoia na sua obra — a mesma ponte entre os dois autores que eu vi ser construída, lauda a lauda, na máquina de escrever do Seminário. Conforta-me sabê-lo: a pergunta que fiz em 1978 não era apenas curiosidade juvenil diante de uma escolha excêntrica. Era a entrada, ainda inconsciente, num problema que outros estudiosos também reconheceram como decisivo — e o professor que me pareceu solitário na travessia deixou, afinal, uma trilha que continua sendo percorrida.

Pode ser que eu encontre a resposta; pode ser que encontre apenas perguntas melhores — as vocações intelectuais, como as outras, têm seus segredos, e um mapa do coração alheio é sempre desenhado do lado de fora. Mas sigo. Porque a pergunta, quase cinquenta anos depois, tornou-se finalmente o que ainda não era quando a fiz: um verdadeiro desafio. E é de desafio que vive o filósofo.

No próximo texto, entraremos enfim na obra: a hierofania, a manifestação do sagrado — o conceito que abre todas as portas de Eliade, e que tantas vezes datilografei sem saber o que carregava.


Juvenil Alves Ferreira Filho Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista

Humanidades · Série Mircea Eliade: O Sagrado — III · Belo Horizonte, julho de 2026 · juvenilalves.com.br

Quem escreve

Juvenil Alves - jurista, teólogo, filósofo, psicanalista e escritor.

Nasceu em Abaeté, no interior de Minas Gerais. É filho de Juvenil Alves, alfaiate, e de Isabel Amélia, servente escolar. Foi nesse ambiente simples que aprendeu, desde cedo, o valor do trabalho, da disciplina, da educação e da responsabilidade.

Sua formação intelectual começou pela Filosofia  e pela Teologia e, mais tarde, encontrou no Direito o espaço emq ue essas reflexões passaram a dialogar diariamente com a vida concreta das pessoas, das empresas e das instituições. Desde então, nunca deixou de percorrer esse cruzamento.

Ao longo de mais de quatro décadas de atuação profissional, construiu uma carreira dedicada ao Direito Tributário e Empresarial, assessorando empresas, famílias e organizações em questões de alta complexidade. Paralelamente, manteve um estudo permanente das Humanidades, formando uma biblioteca construída ao longo de quase cinquenta anos de leituras, pesquisas e anotações.

Neste blog, reúne essas duas experiências. Escreve sobre Direito Tributário, Direito Empresarial, Reforma  Tributária, Filosofia do Direito, Filosofia, Teologia, Psicanálise, Liderança, Ética, Humanidades e Neurodiversidade. Não para oferecer respostas prontas, mas para investigar as ideias, os príncipios e os fundamentos que orientam as decisões humanas.

Os ensaios publicados aqui dialogam com autores clássicos e contemporâneos e procuram aproximar o pensamento filosófico da realidade jurídica, empresarial e social. Muitos deles integram projetos editoriais em desenvolvimento e servirão de base para futuras obras.

Este espaço nasceu da convicção de que a técnica, quando separada das Humanidades, empobrece o pensamento; e de que a Filosofia, a Teologia, a Psicanálise e o Direito continuam oferecendo instrumentos indispensáveis para compreender o ser humano, as instiuições e os desafios do nosso tempo.

Sem fórmulas. Sem juridiquês.

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