Mircea Eliade e o Sagrado: abertura de uma série que comecei em 1978

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Por que retomo agora, aos 67 anos, os estudos sobre o sagrado que datilografei aos dezenove

por Juvenil Alves Ferreira Filho — Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista · Formação Tomista

Humanidades · Série Mircea Eliade: O Sagrado — Abertura · Julho de 2026

Há coisas que a gente começa quando jovem sem saber que está começando.

Em 1978, eu tinha dezenove anos e datilografava, em papel de máquina, numa IBM de esfera — grande novidade da época, com sua fita de apagar e suas esferas intercambiáveis de fontes —, os manuscritos de um jovem professor, prestes a ser ordenado sacerdote, já formado em filosofia, teologia e psicologia.

Ele preparava seus primeiros estudos sobre um autor cujo nome eu ainda mal sabia pronunciar: Mircea Eliade.

Esse professor era André Eduardo Guimarães — depois Padre André Eduardo Guimarães — que anos mais tarde defenderia, na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, uma tese que se tornou referência importante nos estudos brasileiros sobre o sagrado eliadiano: O Sagrado e a História — Fenômeno Religioso e Valorização da História à Luz do Anti-historicismo de Mircea Eliade, defendida em Roma em 1989 e publicada no Brasil pela EDIPUCRS em 2000.

Naquele tempo, eu não sabia que participava, com meus dedos jovens sobre as teclas, da gestação material de uma obra. Sabia apenas que datilografava textos difíceis, para um professor de quem fui aluno e a quem admirava sem compreender inteiramente.

Ele lecionava no Seminário Santo Antônio, em Juiz de Fora, e também na PUC-MG. Eu o conhecia nesse ambiente de aulas, leituras, manuscritos, conversas e perguntas que talvez fossem maiores do que a minha idade.

Eram páginas sobre o sagrado e o profano, o mito, a hierofania, o homo religiosus — um vocabulário que eu ia aprendendo enquanto batia à máquina, letra por letra, sem saber que o levaria comigo pela vida toda.

Hoje, aos 67 anos, longe daqueles corredores, decidi voltar a escrever sobre isso — e, num certo sentido, a datilografar de novo, ainda que agora com dedos mais lentos sobre um teclado silencioso.

Abro aqui, na categoria Humanidades deste blog, uma série que se chamará Mircea Eliade: O Sagrado, e que pretendo publicar sem pressa, a partir de textos e leituras que venho acumulando desde aquele ano de 1978.

Esta página é a porta de entrada. A ela remeterão todos os textos que virão.

A pergunta do Arcebispo

Preciso registrar, antes que a série avance, uma cena que me acompanha há quase cinquenta anos e que voltará em textos futuros.

Servi como acólito e cerimoniário na ordenação sacerdotal de André Eduardo Guimarães. Foi Dom Geraldo Maria de Morais Penido quem o ordenou. Eu estava no altar, ao lado do celebrante, e ouvi dele mesmo, com meus próprios ouvidos, a pergunta que dirigiu ao ordinando antes da ordenação.

O Arcebispo perguntou-lhe, em substância, se ele conseguiria ser padre no sentido pastoral pleno — sendo tão culto, tão intelectual, tão dado ao estudo como era.

Não era uma pergunta hostil. Era uma pergunta da maior lucidez pastoral.

Um bispo experiente sabe que a cultura, quando cresce desproporcional à vocação concreta, pode virar um peso silencioso. E sabe que a vocação sacerdotal, entregue a um espírito verdadeiramente intelectual, exige uma síntese pessoal que ninguém pode fazer no lugar do candidato.

Padre André foi ordenado, exerceu o seu sacerdócio, tornou-se professor, defendeu a tese em Roma, escreveu, orientou, formou gerações — e partiu prematuramente, antes que eu, já adulto, pudesse lhe fazer as perguntas que na juventude eu ainda não sabia formular.

Uma delas era exatamente a do Arcebispo, por outro ângulo: como aquele homem articulava, intimamente, o seu amor pela filosofia e pela psicologia — ele lia Freud com seriedade — e a sua vocação para o sacerdócio pastoral?

Uma hipótese para acompanhar toda a série

Formulo agora, para o leitor, uma hipótese de trabalho.

Não é conclusão. É ponto de partida. E proponho que o leitor a carregue comigo ao longo dos próximos textos.

Mircea Eliade talvez tenha oferecido ao Padre André uma linguagem para reconciliar, dentro de si, o intelectual moderno e o sacerdote católico — e talvez seja essa uma das razões pelas quais ele o estudou com tanta insistência.

Eliade não é um teólogo católico. É um historiador das religiões, com formação filosófica e sensibilidade fenomenológica, que dedicou a vida a demonstrar que a experiência religiosa tem estatuto próprio — que não se reduz a mecanismo psicológico, a construção social ou a projeção humana.

Para um jovem sacerdote que lia Freud e vivia num pós-Concílio ainda inteiramente absorvido na tarefa de dialogar com a modernidade sem se render a ela, Eliade oferecia algo precioso: uma justificativa filosófica sofisticada para permanecer religioso sendo intelectual.

E oferecia, ainda, uma linguagem para redimir a própria rotina pastoral.

Lido à luz de Eliade, o batismo pode ser percebido como uma nova criação; a eucaristia, como o memorial sacramental em que o acontecimento histórico se torna presença litúrgica; a paróquia, como um axis mundi, o eixo em torno do qual um mundo se ordena.

O padre pastor não desce da biblioteca à paróquia: ele reconhece que a paróquia é a biblioteca em ato.

Se essa hipótese se sustentar ao longo dos próximos textos, talvez o Padre André tenha respondido, sem o saber, à pergunta do Arcebispo através de Eliade — não a resposta dita em voz alta na sacristia, mas a resposta escrita, meditada, publicada anos depois.

O que virá

Esta é apenas a abertura.

A cada novo texto da série, farei um link de volta para esta página, para que o leitor que chegar mais tarde saiba de onde parto e por que escrevo.

Nos próximos textos falaremos, sem pressa, de Rudolf Otto e o numinoso; da distinção entre o sagrado e o profano; do mito e do rito; do tempo e do espaço sagrados; do homo religiosus; da crítica de Eliade ao historicismo; e das suas polêmicas, inclusive a controvertida biografia romena de juventude.

E falaremos, quando for pertinente, da leitura que o Padre André fez desse autor.

Não escrevo para especialistas — para eles já há bibliografia de sobra. Escrevo para o leitor comum, curioso, que quer entender por que um homem nascido em Bucareste em 1907 continua a ser lido em Belo Horizonte em 2026.

A pergunta que atravessará toda a série é esta: em que medida Eliade ainda nos conecta ao sagrado?

E o que o sagrado quer de nós, hoje, num mundo que insiste em se declarar inteiramente profano?

Até o próximo texto.

Juvenil Alves Ferreira Filho

Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista · Formação Tomista

Humanidades · Série Mircea Eliade: O Sagrado — Abertura · Belo Horizonte, julho de 2026 · juvenilalves.com.br

Quem escreve

Juvenil Alves - jurista, teólogo, filósofo, psicanalista e escritor.

Nasceu em Abaeté, no interior de Minas Gerais. É filho de Juvenil Alves, alfaiate, e de Isabel Amélia, servente escolar. Foi nesse ambiente simples que aprendeu, desde cedo, o valor do trabalho, da disciplina, da educação e da responsabilidade.

Sua formação intelectual começou pela Filosofia  e pela Teologia e, mais tarde, encontrou no Direito o espaço emq ue essas reflexões passaram a dialogar diariamente com a vida concreta das pessoas, das empresas e das instituições. Desde então, nunca deixou de percorrer esse cruzamento.

Ao longo de mais de quatro décadas de atuação profissional, construiu uma carreira dedicada ao Direito Tributário e Empresarial, assessorando empresas, famílias e organizações em questões de alta complexidade. Paralelamente, manteve um estudo permanente das Humanidades, formando uma biblioteca construída ao longo de quase cinquenta anos de leituras, pesquisas e anotações.

Neste blog, reúne essas duas experiências. Escreve sobre Direito Tributário, Direito Empresarial, Reforma  Tributária, Filosofia do Direito, Filosofia, Teologia, Psicanálise, Liderança, Ética, Humanidades e Neurodiversidade. Não para oferecer respostas prontas, mas para investigar as ideias, os príncipios e os fundamentos que orientam as decisões humanas.

Os ensaios publicados aqui dialogam com autores clássicos e contemporâneos e procuram aproximar o pensamento filosófico da realidade jurídica, empresarial e social. Muitos deles integram projetos editoriais em desenvolvimento e servirão de base para futuras obras.

Este espaço nasceu da convicção de que a técnica, quando separada das Humanidades, empobrece o pensamento; e de que a Filosofia, a Teologia, a Psicanálise e o Direito continuam oferecendo instrumentos indispensáveis para compreender o ser humano, as instiuições e os desafios do nosso tempo.

Sem fórmulas. Sem juridiquês.

O conteúdo chega em dois formatos: leia quando quiser no blog ou ouça quando puder no podcast, disponível no Spotify.

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