“Que sei eu?” perguntou ele em 1576. A pergunta ainda não tem resposta. E é por isso que Montaigne continua vivo
por Juvenil Alves
Em poucas palavras: Michel Eyquem de Montaigne (1533–1592) — magistrado, diplomata, prefeito de Bordeaux e pensador do Périgord — inventou o ensaio moderno ao transformar sua própria vida, com todas as suas contradições e doenças, em matéria filosófica. Sua divisa “Que sais-je?” não é ceticismo paralisante: é vacina contra o fanatismo. Num século em que franceses se massacravam em nome de certezas teológicas, Montaigne propôs a dúvida como política de sobrevivência — e como única forma honesta de conhecimento. Este ensaio percorre sua vida, sua amizade com La Boétie, sua leitura dos canibais do Brasil e o legado que chegou a Shakespeare, Pascal, Nietzsche e à psicanálise.
Há uma cena que me parece a mais reveladora da vida de Montaigne. Em 1571, quando completa 38 anos, ele se retira para a torre circular de seu castelo no Périgord e manda inscrever nas vigas do teto uma declaração que é ao mesmo tempo renúncia e programa: cansado da servidão da corte e dos cargos públicos, decide consagrar o resto de seus dias à liberdade, ao repouso e às Musas. Ali, cercado pelos livros que colecionou, começa a escrever aquilo que chamará, com hesitação, de essais — ensaios, tentativas, exercícios de si mesmo.
A imagem da torre isolada é parte real e parte ficção que ele próprio cultivou. O homem que ali escrevia era o mesmo que continuaria a viajar pela Europa, a negociar em segredo entre o Rei Henrique III e o protestante Henrique de Navarra, a servir dois mandatos como prefeito de Bordeaux durante uma epidemia de peste. Montaigne construiu a lenda do eremita filósofo enquanto vivia, muito praticamente, no centro das tempestades do seu tempo.
Isso é já uma lição sua: a filosofia não acontece à margem da vida. Ela acontece dentro dela, entre a cólica nefrética e a negociação política, entre a morte do amigo e o diálogo com o cativo tupinambá.
O filho do latim e a escola que odiou
A educação de Montaigne foi um experimento humanista radical que seu pai, Pierre Eyquem, conduziu com convicção e alguma extravagância. Antes que o menino soubesse falar, um preceptor alemão que não conhecia uma palavra de francês foi contratado para conviver exclusivamente com ele. O latim foi a primeira língua de Montaigne — não como disciplina, mas como idioma materno. Aos seis anos, ao entrar no Collège de Guyenne em Bordeaux, ele já lia os clássicos.
O que encontrou no colégio o marcou pelo avesso: punição corporal, memorização mecânica, alunos curvados sobre textos que não entendiam. Anos depois, escreverá o que talvez seja a frase mais citada de todo o Renascimento pedagógico: “Saber de cor não é saber: é reter aquilo que foi dado à guarda da própria memória.” E acrescentará que prefere uma cabeça bem-feita a uma cabeça bem-cheia — não para depreciar o conhecimento, mas para distinguir erudição de juízo.
Depois do colégio, seguiu para o Direito — e foi magistrado no Parlement de Bordeaux por treze anos. Ali, na câmara onde se decidiam vidas, conheceu a crueldade institucionalizada: a tortura como instrumento de prova, as confissões arrancadas da dor que os juízes tomavam por verdade. O ceticismo de Montaigne tem cheiro de tribunal.
La Boétie: porque era ele, porque era eu
Em 1557, no Parlement de Bordeaux, Montaigne encontrou Étienne de La Boétie. A amizade que se formou entre os dois tem o estatuto de um dos grandes laços da história intelectual. La Boétie era prodígio — jurista, poeta, autor do Discurso da Servidão Voluntária, texto inflamado que perguntava por que os povos obedecem a tiranos que dependem deles para existir.
A amizade durou seis anos. Em 1563, La Boétie morreu de disenteria, com trinta e dois anos. Montaigne esteve ao lado dele. E ficou com a ferida aberta que os Ensaios tentam, em certo sentido, velar.
No capítulo “Da amizade”, ele escreve a frase que dispensa qualquer comentário: “Se me pressionam para dizer por que o amava, sinto que isso não pode ser expresso a não ser respondendo: porque era ele, porque era eu.” É a formulação mais honesta e mais filosófica do amor entre dois seres — a recusa de qualquer razão exterior que não seja a coincidência de duas existências.
Havia planejado colocar o Discurso da Servidão Voluntária no centro do Livro I. Mas os panfletários protestantes se apoderaram do texto para justificar a sedição contra a monarquia católica. Montaigne recuou, substituiu o texto do amigo por poemas e alegou que a obra fora um exercício de juventude — protegendo, à sua maneira, a memória de La Boétie de acusações de traição. Política e afeto, como sempre em Montaigne, são inseparáveis.
“Que sei eu?” — A dúvida como ética
Em 1576, Montaigne mandou cunhar uma medalha. De um lado, uma balança em equilíbrio perfeito. Do outro, a pergunta: Que sais-je? — Que sei eu?
A frase tem contexto. Montaigne havia se aprofundado na leitura de Sexto Empírico, o grande compilador do ceticismo pirrônico grego. O pirronismo propunha a epoché — a suspensão do juízo diante de qualquer afirmação que ultrapassasse os limites do verificável. Se duas posições se equilibram na balança e nenhuma pode ser definitivamente provada, a sabedoria está em não se comprometer com nenhuma.
Isso poderia soar como covardia intelectual. Em Montaigne é o oposto. A dúvida é uma posição moral. Num país onde católicos e huguenotes se matavam em nome de certezas teológicas absolutas — onde o Massacre de São Bartolomeu, em 1572, havia deixado milhares de mortos em Paris em uma única noite —, o homem que dizia “não sei” era o único que não tinha motivo para queimar o vizinho.
O ensaio mais longo e mais denso de toda a obra, a “Apologia de Raimond Sebond” (Livro II, capítulo 12), é uma obra-prima da ironia filosófica: Montaigne defende a teologia natural de Sebond — que pretendia provar Deus pela razão pura — demolindo completamente a capacidade da razão humana de provar qualquer coisa. Se a razão é cega, falha e governada pelos humores e pelos costumes locais, ninguém tem o direito de queimar o semelhante em nome de uma convicção que essa mesma razão falha nunca poderia verificar.
“Afinal, é colocar as próprias conjecturas a um preço bem alto assar um homem vivo por causa delas” — escreve ele ao comentar os processos de bruxaria. A frase foi escrita em 1588. Poderia ter sido escrita ontem.
Os canibais do Brasil e o espelho invertido
Em 1562, em Rouen, Montaigne encontrou três guerreiros Tupinambá que haviam cruzado o Atlântico para ser apresentados ao rei Carlos IX. O filósofo conversou com eles — ou tentou, por meio de um intérprete que Montaigne julgava medíocre demais para captar as nuances. O que ouviu e o que lera nos relatos da França Antártica, nas obras de Jean de Léry e André Thevet, condensou no capítulo “Dos Canibais” (Livro I, capítulo 31).
A tese do capítulo é formulada em uma frase: “Cada qual chama de barbárie aquilo que não é de seu uso.” Mas o argumento vai mais fundo. Montaigne descreve a antropofagia ritual dos Tupinambá — prisioneiros que cantam enquanto enfrentam seus captores — não para romantizar o “bom selvagem”, mas para voltar o espelho contra a Europa. Os massacres das Guerras de Religião, os homens despedaçados vivos, os corpos lançados aos cães em nome da piedade cristã — esses são os verdadeiros bárbaros. A crueldade europeia não tem a desculpa da virtude guerreira; tem a pretensão da santidade.
Montaigne influenciou Shakespeare diretamente: a fala do conselheiro Gonzalo em A Tempestade, descrevendo uma sociedade utópica sem leis e sem propriedade, é quase uma transcrição poética de “Dos Canibais”. A imagem do Brasil chegou ao Globe Theatre via Périgord.
Marie de Gournay: a filha de aliança
Em 1588, em Paris, Montaigne conheceu Marie de Gournay, jovem intelectual que havia lido os Ensaios e os amava com a intensidade que ele próprio reservara a La Boétie. Ela o chamaria de pai por adoção; ele a chamaria de filha de aliança.
Quando Montaigne morreu, em setembro de 1592, foi Marie de Gournay quem assumiu a responsabilidade de editar a obra póstuma. A edição de 1595 — que incorporou as anotações que ele havia feito nas margens de seu exemplar, as allongeails — foi durante séculos acusada de adulterar o texto original, suavizar as ousadias céticas, corrigir o que devia ter sido deixado intacto. A acusação, como a historiografia recente demonstrou, carregava um viés misógino explícito. Os estudos atuais mostram que Gournay trabalhou com rigor filológico notável, provavelmente baseada em manuscritos hoje perdidos. Ela não domesticou Montaigne: preservou-o.
Há um paradoxo bonito nisso: o filósofo que fez do eu a matéria da filosofia dependeu de uma mulher para que esse eu sobrevivesse além de sua morte.
O corpo, a doença e a alegria
A partir de 1578, a cólica nefrética — pedras nos rins, herdadas do pai — começa a dominar a existência corporal de Montaigne. As crises são violentas. Ele as descreve com uma franqueza que desconcerta leitores formados na tradição filosófica que tende a evitar o corpo: as dores, as evacuações, os hábitos, a relação com os médicos de quem desconfia.
O efeito na filosofia é profundo. Os primeiros ensaios repetem o adágio estoico: “Filosofar é aprender a morrer.” A morte como treinamento da vontade, como exercício de desprendimento. Mas a doença muda tudo. O corpo que dói é o mesmo corpo que existe, e existir tem mais peso do que qualquer abstração sobre a morte.
O último capítulo dos Ensaios, “Da experiência” (Livro III, capítulo 13), é o testamento filosófico. Ali Montaigne declara a falência de todo conhecimento que não passa pelo corpo individual, pela história concreta de cada existência. E termina com a frase que, a meu ver, é a mais bela da filosofia do Renascimento:
“É uma perfeição absoluta, e quase divina, saber gozar lealmente do próprio ser.”
Não é hedonismo. É reconhecimento. A vida que acontece — com suas dores e seus prazeres, seus encontros e suas perdas — é a única vida que existe. Aprendê-la fielmente é o trabalho de uma existência inteira.
O Montaigne que Pascal detestou e Nietzsche amou
A posteridade de Montaigne é uma história de amores e ódios produtivos.
Pascal o admirou e o repeliu com igual intensidade. No Entretien avec M. de Saci, reconhece o poder do ceticismo para curar a presunção humana. Mas nos Pensamentos ataca: “O tolo projeto que ele tem de se pintar!” Para Pascal, a aceitação serena de Montaigne diante da mortalidade e a ausência de angústia pela salvação eram sinais de condenação espiritual. O homem que não treme diante de Deus é para Pascal mais perigoso que o ateu declarado.
Nietzsche, ao contrário, encontrou em Montaigne a centelha de uma independência livre e pagã. A honestidade radical de não forçar a própria experiência nos moldes do dever moral, a recusa do Tu Deves absoluto, a alegria do ser — tudo isso Nietzsche leu nos Ensaios como prelúdio vitalista de sua própria crítica à metafísica.
E a psicanálise? Montaigne não era seu precursor no sentido metodológico. Mas o homem que observou sua mente movendo-se por “átomos e impulsos que se governam sem mim” antecipou, com precisão fenomenológica, o que Freud chamaria de descentramento do ego. O sujeito que Montaigne descobriu ao escrever sobre si mesmo não era transparente para si próprio — era opaco, contraditório, movido por forças que a consciência não governava. É um ancestral legítimo da psicanálise moderna.
O que Montaigne diz a 2026
Há uma pergunta que vale formular diretamente: por que ler Montaigne agora?
Não pela erudição. Não para coletar citações. Mas porque vivemos num tempo de certezas ruidosas. A polarização que dilacera sociedades em todo o mundo tem na estrutura da certeza — “eu sei, você erra” — seu combustível mais eficiente. Montaigne não propõe que todas as opiniões são iguais. Propõe que todas as opiniões são falíveis — incluindo as suas.
A dúvida de Montaigne não é indiferença. Ele condena a tortura, a crueldade, a mentira com firmeza. Mas sua condenação vem de dentro da experiência, não de uma convicção absoluta deduzida de um princípio que ele julgasse incontestável. É uma ética de dentro para fora — fundada no que a experiência ensina, não no que o sistema exige.
“Cada homem traz em si a forma inteira da condição humana.” Essa frase, que abre a reflexão mais íntima dos Ensaios, é ao mesmo tempo a mais humilde e a mais ambiciosa das afirmações: o menor dos homens ordinários, examinado com atenção, contém tudo o que há de universal no humano.
Montaigne examinou um homem ordinário — ele mesmo — e produziu uma obra que quatro séculos de leitores não esgotaram. A pergunta que ficou escrita na medalha de 1576 continua sem resposta definitiva. É precisamente isso que a torna filosófica.
Pontos principais
- A tese de Juvenil Alves neste ensaio: Montaigne não é o filósofo da dúvida paralisante — é o filósofo da dúvida produtiva. Sua pergunta “Que sei eu?” não cancela a ética; funda uma ética mais honesta, porque recusa o direito de machucar o outro em nome de certezas que a razão humana nunca pode garantir.
- Os Ensaios não são um sistema: são a cartografia de um intelecto em movimento, estratificados em três camadas textuais (1580, 1588, 1595 póstuma com Marie de Gournay) que os estudiosos ainda debatem — e que mostram que Montaigne reescrevia a si mesmo com a mesma franqueza com que escrevia sobre si mesmo.
- A amizade com La Boétie e a doença (cólica nefrética) são os dois grandes motores biográficos dos Ensaios: a perda do amigo abre o abismo da linguagem; a doença converte a filosofia da morte numa filosofia da vida encarnada.
- “Dos Canibais” é o texto mais político de Montaigne: os Tupinambás são o espelho que devolve à Europa civilizada a imagem de sua própria barbárie. Influenciou diretamente Shakespeare e antecipou o que chamaríamos de relativismo cultural — sem cair no relativismo moral.
- A pergunta de 2026: Juvenil Alves costuma propor em conferências que Montaigne é o antídoto filosófico para o tempo de certezas ruidosas — não porque defenda que todas as opiniões são iguais, mas porque lembra que todas as opiniões são falíveis, inclusive as que produzem violência em nome de causas justas.
Perguntas frequentes
Quem foi Michel de Montaigne? Michel Eyquem de Montaigne (1533–1592) foi um pensador francês do Renascimento — magistrado, diplomata e prefeito de Bordeaux — que inventou o ensaio moderno ao transformar sua própria vida em objeto de filosofia. Seus três livros de Ensaios constituem um dos textos fundadores da subjetividade ocidental moderna.
O que são Os Ensaios? São os três livros que Montaigne escreveu e reescreveu ao longo de vinte anos. Não formam um sistema filosófico: são explorações em primeira pessoa sobre a morte, a amizade, a educação, a crueldade, o corpo, o conhecimento e a experiência. O título diz o que são: tentativas, exercícios, ensaios de si mesmo.
O que significa “Que sei eu?” Para Juvenil Alves, é a pergunta mais importante da filosofia moderna: em 1576, depois de se aprofundar no ceticismo pirrônico de Sexto Empírico, Montaigne mandou cunhar uma medalha com uma balança em equilíbrio e a frase “Que sais-je?” (Que sei eu?). Não é ceticismo paralisante — é vacina moral contra o fanatismo. Quem suspende o juízo sobre certezas absolutas não tem motivo para queimar o vizinho.
Quem foi Étienne de La Boétie? Foi o grande amor intelectual de Montaigne — jurista, poeta e autor do Discurso da Servidão Voluntária. Morreram jovem, aos trinta e dois anos, em 1563. A amizade com ele moldou a afetividade e a escrita dos Ensaios. A frase de Montaigne sobre ela — “porque era ele, porque era eu” — é uma das mais belas definições de amor já escritas em prosa filosófica.
O que Montaigne escreveu sobre o Brasil? No capítulo “Dos Canibais” (Livro I, capítulo 31), Montaigne usa relatos da França Antártica e seu encontro com guerreiros Tupinambá em Rouen para submeter a Europa a um julgamento impiedoso. Tema que Juvenil Alves aborda frequentemente em conferências sobre humanismo: Montaigne não romantiza os nativos — usa-os como espelho para mostrar que a barbárie europeia dos massacres religiosos supera qualquer antropofagia ritual.
Por que Marie de Gournay é importante? Foi a jovem intelectual que Montaigne chamou de “filha de aliança” e que, após sua morte, editou a obra póstuma de 1595 — a edição que a maioria dos leitores conhece. Durante séculos foi acusada de falsificar o texto. A historiografia atual demonstrou que o ataque era misógino e injusto: ela trabalhou com rigor filológico, provavelmente a partir de manuscritos perdidos, e é uma das pioneiras do pensamento filológico sistemático na Europa.
O que Montaigne tem a ver com Shakespeare? A tradução inglesa dos Ensaios por John Florio (1603) foi fonte direta para Shakespeare. A fala utópica do conselheiro Gonzalo em A Tempestade é quase uma transposição poética de “Dos Canibais”. O pensamento de um magistrado do Périgord sobre os Tupinambás do Brasil chegou ao palco do Globe Theatre.
Por que ler Montaigne hoje? Para Juvenil Alves, a resposta é simples e urgente: porque vivemos num tempo de certezas ruidosas, e Montaigne é o filósofo que mais honestamente disse que certezas absolutas sobre o que não se pode verificar são o caminho mais curto para a crueldade. Não para paralisar a ação — para temperar o fanatismo com que a ação frequentemente se disfarça de verdade.
Juvenil Alves Ferreira Filho Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista · Escritor
Humanidades · Belo Horizonte, agosto de 2026 · juvenilalves.com.br
Leituras e fontes: Michel de Montaigne, Os Ensaios (edições: Gallimard/Pléiade 2007, org. Jean Balsamo; e PUF 1965, org. Pierre Villey) · Sarah Bakewell, Como Viver: Uma vida de Montaigne em uma pergunta e 20 tentativas de resposta · Jean Starobinski, Montaigne em Movimento (Cia. das Letras) · Philippe Desan, Montaigne: Uma biografia política (Edusp) · Étienne de La Boétie, Discurso da Servidão Voluntária · Rosemary Costhek Abílio (trad.), Os Ensaios (Martins Fontes) · Blaise Pascal, Pensamentos · Friedrich Nietzsche, Considerações Extemporâneas.