Por que o homem moderno precisa caminhar?

Caminho de pedras entre árvores verdes névoa manhã Santiago de Compostela Juvenil Alves.
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Rumo a Santiago: a peregrinação de Juvenil Alves no Ano Santo de 2027 · Post 1 de 40

por Juvenil Alves

Em poucas palavras: em agosto de 2027, Juvenil Alves partirá do Porto para fazer o Caminho de Santiago de Compostela. Até lá, este blog dedicará 40 posts ao Apóstolo Tiago, ao Caminho e ao que essa peregrinação milenar ainda tem a dizer ao homem contemporâneo. Esta é a abertura da série.

Prefere ouvir? O episódio está abaixo, ouça também no Spotify.

Há perguntas que a vida faz em voz baixa durante anos. Um dia, param de sussurrar e exigem resposta.

Uma dessas perguntas me encontrou há algum tempo e não me deixou mais em paz: e se você parasse? E se, por algumas semanas, você trocasse o escritório pela estrada, o processo pela pedra, o argumento pela caminhada silenciosa? E se você fosse a Santiago?

Decidi ir. Em agosto de 2027, partirei do Porto e farei o Caminho Português até Santiago de Compostela. São aproximadamente 240 quilômetros a pé, entre Portugal e a Galícia, culminando na Praça do Obradoiro — justamente no Ano Santo Compostelano, quando a Porta Santa da Catedral estará aberta e a indulgência plenária concedida aos peregrinos que chegarem com fé.

Mas antes de calçar a bota e dar o primeiro passo, decidi fazer outra caminhada: a do pensamento. Durante os próximos meses, este blog dedicará 40 textos ao Apóstolo Tiago, ao Caminho de Santiago, à sua história, à sua teologia, à sua literatura, aos seus mistérios e às suas controvérsias. Cada post é uma etapa de preparação interior. Quando eu chegar ao Obradoiro, quero que você já conheça cada pedra desse caminho.

O que o Caminho oferece que o mundo moderno não tem

Vivemos numa civilização que confundiu velocidade com progresso. Confundiu barulho com vida. Confundiu a agenda cheia com a existência plena. O resultado está nos consultórios, nas farmácias, nos divórcios silenciosos, nas carreiras que chegam ao topo e encontram o vazio.

Viktor Frankl, sobrevivente de Auschwitz e fundador da logoterapia, ensinou que o ser humano pode suportar quase qualquer sofrimento desde que tenha um porquê. O problema da modernidade não é a dor. É a falta de sentido. É o sofrimento sem direção, o esforço sem destino, a velocidade sem horizonte.

O Caminho de Santiago existe há mais de mil anos exatamente como resposta a essa condição. Não a uma condição moderna — a uma condição humana. O homem medieval que partia de Paris ou de Lisboa carregando pecados, dívidas e medos não era estruturalmente diferente do executivo contemporâneo que parte de São Paulo ou Belo Horizonte carregando ansiedade, burnout e perguntas sem resposta. A estrada é a mesma. A sede também.

A peregrinação é, antes de tudo, uma escola de silêncio. Você caminha. A paisagem passa. O corpo dói. Os pensamentos, aos poucos, param de gritar e começam a falar. O que você precisava ouvir estava dentro de você o tempo todo — mas o ruído do mundo não deixava.

O Homo Viator: o homem como viajante

A tradição cristã tem um conceito que me acompanha desde os tempos do seminário: Homo Viator — o homem viajante. Para a teologia, o ser humano, enquanto habita este mundo, é um peregrino em direção à sua pátria definitiva. Não pertence inteiramente a nenhum lugar desta terra. Está sempre a caminho.

Santo Agostinho o disse com a precisão que só a experiência pessoal dá: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.” A inquietação não é doença. É vocação. É o sinal de que fomos feitos para mais do que aquilo que qualquer sucesso humano pode oferecer.

O Caminho de Santiago materializa essa intuição teológica. Quando um homem larga a mochila de couro do executivo, veste a mochila de tecido do peregrino e coloca os pés na estrada, algo de profundo acontece. Ele não abandona a vida. Ele a encontra no único lugar onde ela pode ser encontrada: no movimento, no despojamento, no silêncio que a estrada impõe.

Por que eu vou

Vou a Santiago porque sou católico e a peregrinação ad limina — ao limiar do túmulo apostólico — tem a dimensão sacramental que a Igreja sempre lhe reconheceu. Vou porque o Ano Santo de 2027 é uma janela rara: a Porta Santa aberta, a indulgência oferecida, o mundo inteiro convergindo para aquela praça.

E vou porque quero levar, nesta caminhada, os leitores deste blog.

O que virá nesta série

Nos próximos meses, este blog percorrerá o Caminho antes de eu percorrê-lo com os pés.

Falaremos de quem foi o Apóstolo Tiago — o filho do trovão, o primeiro mártir do apostolado, aquele que a tradição carregou do Oriente Próximo até o extremo ocidental do mundo conhecido. Falaremos da descoberta do túmulo no século IX, da catedral que nasceu no lugar onde havia apenas um bosque e uma chuva de estrelas. Das Bulas papais, do Códice Calixtino, dos templários e dos piratas, dos reis que fizeram o Caminho descalços e dos escritores que o fizeram com os pés no chão e os olhos na alma.

Falaremos de Paulo Coelho, de Martin Sheen, de Hape Kerkeling. Do esoterismo que o Caminho atrai e das razões pelas quais isso não é motivo de escândalo, mas de reflexão. De meio milhão de peregrinos por ano e do que esse número diz sobre o nosso tempo.

E no final, em agosto de 2027, contarei como foi. O que a estrada me disse. O que a chegada ao Obradoiro significou. O que o Apóstolo sussurrou.

Até lá, caminhemos juntos — cada terça-feira, um post. Cada post, uma etapa.

Bom Caminho.


Rumo a Santiago · Post 1 de 40 · Humanidades · Belo Horizonte, outubro de 2026 · juvenilalves.com.br

Quem escreve

Juvenil Alves - jurista, teólogo, filósofo, psicanalista e escritor.

Nasceu em Abaeté, no interior de Minas Gerais. É filho de Juvenil Alves, alfaiate, e de Isabel Amélia, servente escolar. Foi nesse ambiente simples que aprendeu, desde cedo, o valor do trabalho, da disciplina, da educação e da responsabilidade.

Sua formação intelectual começou pela Filosofia  e pela Teologia e, mais tarde, encontrou no Direito o espaço emq ue essas reflexões passaram a dialogar diariamente com a vida concreta das pessoas, das empresas e das instituições. Desde então, nunca deixou de percorrer esse cruzamento.

Ao longo de mais de quatro décadas de atuação profissional, construiu uma carreira dedicada ao Direito Tributário e Empresarial, assessorando empresas, famílias e organizações em questões de alta complexidade. Paralelamente, manteve um estudo permanente das Humanidades, formando uma biblioteca construída ao longo de quase cinquenta anos de leituras, pesquisas e anotações.

Neste blog, reúne essas duas experiências. Escreve sobre Direito Tributário, Direito Empresarial, Reforma  Tributária, Filosofia do Direito, Filosofia, Teologia, Psicanálise, Liderança, Ética, Humanidades e Neurodiversidade. Não para oferecer respostas prontas, mas para investigar as ideias, os príncipios e os fundamentos que orientam as decisões humanas.

Os ensaios publicados aqui dialogam com autores clássicos e contemporâneos e procuram aproximar o pensamento filosófico da realidade jurídica, empresarial e social. Muitos deles integram projetos editoriais em desenvolvimento e servirão de base para futuras obras.

Este espaço nasceu da convicção de que a técnica, quando separada das Humanidades, empobrece o pensamento; e de que a Filosofia, a Teologia, a Psicanálise e o Direito continuam oferecendo instrumentos indispensáveis para compreender o ser humano, as instiuições e os desafios do nosso tempo.

Sem fórmulas. Sem juridiquês.

O conteúdo chega em dois formatos: leia quando quiser no blog ou ouça quando puder no podcast, disponível no Spotify.

Bem-vindo ao Assunto Tributário e Muito +

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