Tenho refletido, com crescente preocupação, sobre um fenômeno que se alastra silenciosamente pelos corredores das organizações contemporâneas. O burnout empresarial, essa exaustão que consome não apenas indivíduos, mas culturas corporativas inteiras, tornou-se a epidemia invisível do nosso tempo. Não se trata apenas de cansaço; é o esgotamento da própria capacidade de encontrar sentido no trabalho. Pergunto-me: estamos preparados para reconhecer que proteger uma empresa significa, antes de tudo, proteger as almas que a constituem? O burnout não surge do nada, ele germina onde a dignidade humana é tratada como variável secundária, onde a pressa substitui o propósito.
A Anatomia do Esgotamento: Raízes Filosóficas de um Mal Moderno
A palavra burnout evoca a imagem de uma chama que se extingue por falta de combustível. Mas a metáfora é imperfeita. O que testemunhamos nas organizações não é a ausência de combustível, é o excesso dele. Pessoas queimando reservas que não possuem, consumindo-se para alimentar máquinas que nunca se saciam.
Aristóteles, na Ética a Nicômaco, ensinava que toda virtude reside no equilíbrio entre dois extremos. O trabalho virtuoso encontra-se entre a preguiça e a laboriomania. Nosso tempo, porém, canonizou o excesso como virtude. Chamamos de “comprometimento” o que frequentemente é compulsão; celebramos como “dedicação” o que muitas vezes constitui fuga de si mesmo.
Santo Tomás de Aquino compreendia que o ser humano não é instrumento, mas fim em si mesmo. Quando transformamos colaboradores em “recursos humanos” , note a desumanização implícita na expressão, já demos o primeiro passo rumo à patologia organizacional. O burnout é, em última análise, a revolta da natureza humana contra sua instrumentalização.
Os Sinais que Antecedem o Colapso: Uma Fenomenologia do Esgotamento
Como psicanalista, aprendi a reconhecer que os sintomas mais eloquentes são frequentemente os mais silenciosos. O burnout não irrompe, ele se insinua. Manifesta-se primeiro como irritabilidade difusa, depois como cinismo protetor, finalmente como apatia completa.
Freud identificava na repetição compulsiva um dos mecanismos mais insidiosos da psique. O colaborador em processo de esgotamento repete comportamentos autodestrutivos não por escolha, mas por incapacidade de fazer diferente. Trabalha mais horas precisamente porque sua produtividade declina; isola-se dos colegas quando mais necessita de conexão; nega o problema com a mesma intensidade com que o vivencia.
Os sinais corporativos são igualmente reveladores: aumento do absenteísmo, rotatividade elevada, queda na qualidade das entregas, conflitos interpessoais recorrentes. Mas há um indicador que raramente medimos e que considero o mais significativo: o desaparecimento da alegria. Quando o riso some dos corredores, quando as conversas se tornam estritamente funcionais, quando a criatividade cede lugar à mera conformidade, o organismo empresarial já adoeceu.
A Responsabilidade da Liderança: Entre o Cuidado e a Coragem
Proteger uma empresa do burnout exige dos líderes uma virtude que parece paradoxal no mundo corporativo: a vulnerabilidade. Como dizia meu professor de filosofia na PUC, “não há autoridade genuína sem autenticidade”. O líder que mascara suas próprias fragilidades autoriza, tacitamente, que todos façam o mesmo. Cria-se então uma cultura de aparências onde ninguém pode ser humano.
A primeira responsabilidade da liderança é estabelecer limites, e respeitá-los. Enviar e-mails às onze da noite comunica mais do que qualquer discurso sobre equilíbrio. Cancelar sistematicamente férias ensina mais do que qualquer programa de bem-estar. As pessoas não ouvem o que dizemos; observam o que fazemos.
Viktor Frankl, sobrevivente de Auschwitz e fundador da logoterapia, demonstrou que o ser humano suporta quase qualquer como quando possui um porquê. O burnout prospera onde o propósito definha. Cabe à liderança não apenas distribuir tarefas, mas cultivar significado. Conectar cada função à missão maior; demonstrar como o trabalho individual contribui para algo que transcende a mera lucratividade.
Há também a coragem de dizer não, às demandas irrealistas do mercado, às pressões por resultados imediatos, à tentação de sacrificar pessoas em nome de números. Proteger colaboradores frequentemente significa protegê-los de nós mesmos, de nossa própria ansiedade transmutada em urgência artificial.
Estruturas de Proteção: Do Discurso à Prática Organizacional
Palavras sem estruturas são ornamentos vazios. A proteção contra o burnout exige arquiteturas organizacionais deliberadas.
Primeiramente, a revisão honesta das cargas de trabalho. Muitas empresas operam com quadros subdimensionados, distribuindo entre dez pessoas o trabalho de quinze. O lucro de curto prazo torna-se prejuízo de longo prazo, em afastamentos, processos trabalhistas, perda de talentos, deterioração da marca empregadora.
Em segundo lugar, a criação de espaços de escuta. Não me refiro a pesquisas de clima anônimas que raramente geram mudanças concretas, mas a canais genuínos onde o sofrimento possa ser nomeado sem represálias. A psicanálise ensina que nomear o mal já constitui o início da cura. Organizações que permitem a palavra franca adoecem menos.
Terceiro, a flexibilidade como princípio, não como exceção. A pandemia demonstrou que o trabalho remoto é viável; que horários rígidos são frequentemente arbitrários; que a produtividade pode coexistir com a autonomia. Retroceder a modelos anacrônicos por mera inércia ou desconfiança é desperdiçar uma lição duramente aprendida.
Por fim, o investimento em formação de lideranças. Promovemos técnicos competentes a gestores de pessoas sem prepará-los para a complexidade da tarefa. Liderar exige competências que não se aprendem espontaneamente: escuta empática, comunicação não-violenta, gestão de conflitos, reconhecimento de sinais de adoecimento.
Conclusão: O Humano como Medida da Empresa
Simone Weil, filósofa e mística francesa, escreveu que “a atenção é a forma mais rara e mais pura de generosidade”. Proteger uma empresa do burnout é, fundamentalmente, um exercício de atenção, atenção às pessoas que a constituem, aos sinais que emitem, às necessidades que calam.
Não existe empresa saudável composta por pessoas adoecidas. O lucro sustentável brota de culturas que honram a dignidade humana, não que a exploram. A produtividade genuína emerge do engajamento, não do medo; da inspiração, não da coerção.
O burnout empresarial é sintoma de uma desordem mais profunda: o esquecimento de que organizações existem para servir à vida, não o contrário. Recuperar essa verdade simples é o primeiro passo para a cura. E frequentemente, o esgotamento nasce de uma raiz ainda mais insidiosa, aquela compulsão pela velocidade que corrói nossa capacidade de estar presentes. Para compreender essa conexão essencial, convido você a ler : A Doença da Pressa Que Está Destruindo Sua Produtividade e Saúde.
Como bem sintetizou o filósofo Martin Buber: “Todo encontro verdadeiro é um encontro com o Tu eterno”. Que nossas empresas sejam espaços de encontro genuíno, e não apenas de transação utilitária.
Este conteúdo reflete os estudos científicos de Juvenil Alves nas áreas de filosofia, teologia, humanidades, literatura, psicanálise e desenvolvimento humano.
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