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Frank Gehry: O Arquiteto que Desafiou a Gravidade nos Deixou

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Frank Gehry faleceu em 5 de dezembro de 2025, aos 96 anos, e com ele partiu uma visão de mundo que transformou cidades inteiras em galerias a céu aberto. Eu acompanhei a trajetória desse canadense naturalizado americano por décadas, mesmo sendo advogado, sempre cultivei uma admiração profunda pela arquitetura como expressão da condição humana.

Por que um tributarista dedicaria tempo a estudar curvas de titânio e volumes desconstruídos? Porque Gehry representava algo que transcende disciplinas: a coragem de romper paradigmas. Aristóteles nos ensinou que “a arte completa o que a natureza não pode terminar”, e Gehry levou essa premissa às últimas consequências, moldando edifícios como se fossem esculturas vivas, desafiando não apenas a gravidade, mas as convenções de seu tempo.

Neste artigo, compartilho reflexões sobre o legado desse visionário que transformou a forma como entendemos espaço, matéria e emoção.

O Menino que Construía Cidades com Sucata

Frank Owen Goldberg nasceu em Toronto, em 28 de fevereiro de 1929, numa família de imigrantes judeus poloneses. Sua avó, Leah Caplan, teve papel fundamental em despertar sua vocação: passavam horas construindo cidades imaginárias com restos de madeira da loja de ferragens do avô. Aqueles momentos aparentemente triviais moldaram uma mente que, décadas depois, redesenharia horizontes urbanos em cinco continentes.

Gehry enfrentou antissemitismo nos Estados Unidos dos anos 1950. Foi isso que o levou a mudar seu sobrenome de Goldberg para Gehry, uma decisão que o acompanhou por toda a vida, às vezes com arrependimento. Essa experiência de marginalização talvez explique sua afinidade por formas que não se encaixam, estruturas que parecem não pertencer ao seu entorno mas que, paradoxalmente, o transformam.

Após graduar-se em arquitetura pela Universidade do Sul da Califórnia e estudar planejamento urbano em Harvard, Gehry estabeleceu seu escritório em Los Angeles em 1962. Los Angeles, cidade de reinvenções constantes, ofereceu o terreno fértil para uma mente que não aceitava limites.

A Revolução do Desconstrutivismo

Desconstrutivismo. É a corrente arquitetônica que Gehry ajudou a definir nos anos 1980. Ao contrário da simetria clássica e das linhas retas do modernismo, o desconstrutivismo fragmenta, desloca, subverte. Paredes que não são paralelas. Tetos que parecem flutuar. Fachadas que dançam.

O primeiro projeto que colocou Gehry no mapa foi, ironicamente, sua própria casa em Santa Monica, reformada em 1978. Ele envolveu um bangalô comum com chapas de metal corrugado, compensado e cercas de arame. Os vizinhos odiaram. Os críticos ficaram fascinados. A casa se tornou manifesto de uma filosofia que ele chamou de “cheapscape” , a beleza encontrada em materiais considerados vulgares.

Tomás de Aquino escreveu que “a beleza consiste na devida proporção das coisas”. Gehry expandiu essa noção: e se a proporção não precisar ser simétrica? E se o “devido” puder ser redefinido a cada projeto? Suas obras responderam a essas perguntas com titânio ondulante e vidro que reflete o céu como se fosse água.

Gehry foi um dos primeiros arquitetos a usar software de modelagem 3D originalmente desenvolvido para a indústria aeronáutica. Isso permitiu que formas antes impossíveis de calcular se tornassem não apenas possíveis, mas construíveis. A tecnologia serviu à arte, não o contrário.

Bilbao: Quando um Edifício Ressuscita uma Cidade

O Museu Guggenheim de Bilbao, inaugurado em 1997, é provavelmente a obra mais transformadora da arquitetura contemporânea. Gehry tinha 68 anos quando recebeu essa encomenda, uma idade em que muitos profissionais já consideram a aposentadoria.

Bilbao era uma cidade industrial em declínio, com estaleiros abandonados às margens do rio Nervión. As autoridades bascas apostaram alto: contrataram Gehry para criar um edifício que atraísse o mundo. O resultado? Uma sinfonia de volumes fragmentados revestidos em titânio que muda de cor conforme a luz do dia, dourado ao amanhecer, prateado ao meio-dia, rosado ao entardecer.

Philip Johnson, um dos patriarcas da arquitetura moderna americana, visitou o museu ainda em construção e chorou. Declarou ser “o maior edifício do nosso tempo”. O fenômeno ficou conhecido como “Efeito Bilbao”, a capacidade de um único edifício de catalisar a regeneração econômica e cultural de uma região inteira.

Nem todos celebraram. Críticos apontaram que Gehry criava arquitetura espetáculo, mais preocupada com a fotogenia do que com a função. Outros questionaram se esse modelo seria replicável, ou se Bilbao foi exceção que virou regra impossível.

As Obras que Moldaram o Século XXI

Após Bilbao, Gehry nunca mais parou. O Walt Disney Concert Hall, em Los Angeles, inaugurado em 2003, tornou-se ícone da revitalização do centro da cidade. Suas curvas de aço inoxidável refletem o sol californiano como velas infladas pelo vento, não por acaso, Gehry era apaixonado por vela e navegou até os 80 anos.

Há algo poético nisso: um homem que passou a vida desafiando a gravidade encontrava paz no mar, onde as forças da natureza impõem humildade. “Sempre fui pelo otimismo”, disse ele certa vez. “Arquitetura não precisa ser triste.”

Outras obras notáveis incluem a Dancing House em Praga (1996), apelidada de “Fred e Ginger” por evocar dois dançarinos em movimento; o Vitra Design Museum na Alemanha (1989), onde experimentou pela primeira vez as formas que o consagrariam; a Fondation Louis Vuitton em Paris (2014), cujas “velas” de vidro parecem prestes a zarpar do Bois de Boulogne; e o Biomuseo no Panamá (2014), um tributo vibrante à biodiversidade.

Mesmo aos 90 anos, Gehry permanecia ativo. O Guggenheim Abu Dhabi, projetado por ele, está previsto para abrir em 2026, um último legado que o mestre não verá inaugurado.

Críticas e Controvérsias: A Arquitetura Tem Limites?

Gehry não era unanimidade, e talvez não quisesse ser. Críticos o acusavam de criar “arquitetura para a classe alta”, edifícios caros que não serviam aos interesses da maioria. A revista Jacobin publicou análise contundente nesse sentido.

O próprio Gehry alimentou controvérsias. Em 2014, ao receber o Prêmio Príncipe de Astúrias na Espanha, respondeu a um jornalista que o chamou de arquiteto “espalhafatoso” com um gesto obsceno. Aos 85 anos, mantinha o temperamento que sempre o caracterizou.

Também há relatos de edifícios com problemas funcionais, reflexos de luz que superaqueciam calçadas, goteiras em museus, espaços internos difíceis de climatizar. A forma nem sempre dialogava com a função.

Mas cabe uma reflexão: toda grande arte polariza. Picasso foi ridicularizado. Stravinsky causou tumultos na estreia de “A Sagração da Primavera”. O desconstrutivismo de Gehry seguiu tradição semelhante, desconforto inicial que, com o tempo, se transforma em admiração.

Reflexão Final: O que um Advogado Aprende com um Arquiteto

Ao longo de minhas quatro décadas como advogado tributarista, aprendi que estruturas, sejam jurídicas ou físicas, moldam comportamentos. Um sistema tributário mal desenhado estrangula empresas; um edifício mal projetado sufoca quem o habita. Gehry entendia isso intuitivamente: seus espaços internos eram pensados para inspirar, não apenas abrigar.

Há também uma lição sobre coragem. Gehry construiu sua carreira desafiando convenções, algo que ressoa profundamente com minha experiência no contencioso tributário. Quando enfrentamos interpretações abusivas do Fisco ou decisões judiciais que parecem ignorar a legalidade, precisamos da mesma ousadia que ele demonstrava ao apresentar projetos que pareciam impossíveis.

Frank Gehry morreu em Santa Monica, Califórnia, após breve doença respiratória. Deixa sua esposa, Berta Aguilera, com quem estava desde 1975, filhos, e um legado de dezenas de edifícios em quatro continentes.

Bernard Arnault, presidente da LVMH e parceiro de Gehry na Fondation Louis Vuitton, declarou: “Ele permanecerá um gênio da leveza, transparência e graça”. Nancy Pelosi o chamou de “um titã da arquitetura e comunicador do futuro”. São homenagens merecidas a um homem que provou, edifício após edifício, que os únicos limites reais são aqueles que impomos a nós mesmos.

Conclusão: Curvas que Continuarão a Dançar

Frank Gehry nos deixou, mas suas curvas continuarão dançando por séculos. O Guggenheim de Bilbao seguirá refletindo o rio Nervión. O Walt Disney Concert Hall continuará recebendo a Filarmônica de Los Angeles. A Dancing House de Praga permanecerá surpreendendo turistas que dobram a esquina e se deparam com Fred e Ginger de concreto e vidro.

Gehry recebeu o Prêmio Pritzker em 1989, a Medalha Presidencial da Liberdade, o Leão de Ouro da Bienal de Veneza, e dezenas de outras honrarias. Mas seu maior prêmio talvez seja mais simples: em Bilbao, desconhecidos o abraçavam nas ruas. “As pessoas saem e me abraçam”, contou ele. É o que acontece quando sua arte não fica em museus, ela é o museu.

O Direito, como a arquitetura, pode ser prisão ou libertação. Pode sufocar ou elevar. A obra de Frank Gehry nos lembra que sempre há outra forma de fazer as coisas, mais ousada, mais humana, mais viva. E essa é uma lição que transcende disciplinas.

Gehry nos provou que o impossível é apenas o possível que ainda não encontrou quem ousasse tentá-lo.

Este conteúdo reflete as reflexões de Juvenil Alves, filósofo, teólogo, psicanalista e jurista.

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