Eu observo, a cada dezembro, um fenômeno curioso nas pessoas ao meu redor. A correria pelas lojas, as listas intermináveis de presentes, os compromissos sociais que se acumulam, e, no meio de tudo isso, uma pergunta silenciosa que poucos ousam formular: para quê tudo isso? O Natal, essa celebração milenar que atravessou séculos e civilizações, parece ter perdido algo essencial em algum momento do caminho. Mas o que, exatamente, ficou para trás?
Não me refiro à dimensão religiosa, embora ela seja fundamental para milhões de pessoas. Falo de algo mais profundo, que antecede qualquer credo específico: a capacidade humana de reconhecer o dom da existência e de orientar a vida em direção a algo maior que o próprio ego. Gratidão e propósito, duas palavras que, juntas, podem reconfigurar completamente nossa experiência natalina.
A Gratidão Como Fundamento da Existência Humana
Aristóteles, na sua Ética a Nicômaco, já identificava a gratidão como uma das virtudes que distinguem o homem magnânimo do homem pequeno. Para o filósofo grego, ser grato não é simplesmente retribuir um favor, é reconhecer que nossa existência é, em grande medida, um presente recebido. Nascemos em dívida com a vida, com aqueles que nos precederam, com a própria ordem do cosmos que nos sustenta.
Confundimos gratidão com educação social. Dizemos “obrigado” automaticamente, como quem executa um protocolo, sem que a palavra toque as camadas mais profundas da consciência. A verdadeira gratidão, porém, não é um gesto exterior, é uma disposição interior que transforma a maneira como percebemos a realidade.
Tomás de Aquino desenvolveu essa intuição aristotélica com profundidade notável. Para o Doutor Angélico, a gratidão pertence à virtude da justiça, pois reconhece uma dívida real, ainda que impagável, para com aqueles que nos beneficiaram. O ser humano grato não é aquele que simplesmente sente uma emoção passageira de contentamento; é aquele que ordena toda a sua vida a partir do reconhecimento de que recebeu mais do que poderia merecer.
Você já parou para considerar quantas condições precisaram se alinhar para que você estivesse lendo estas palavras agora? A cadeia de eventos que liga o Big Bang à sua existência individual é de uma complexidade vertiginosa. Os estoicos chamavam isso de amor fati — o amor pelo destino, a aceitação radical de tudo aquilo que nos trouxe até o momento presente.
O Propósito: A Bússola que Orienta a Gratidão
A gratidão, contudo, corre o risco de se tornar passividade se não for acompanhada de propósito. Viktor Frankl, o psiquiatra vienense que sobreviveu aos campos de concentração nazistas, demonstrou com sua própria vida que o sentido é a força mais poderosa que habita o coração humano. Em Em Busca de Sentido, ele escreve: “Aquele que tem um ‘porquê’ para viver pode suportar quase qualquer ‘como’.”
O Natal, em sua origem, é precisamente isso: a celebração de um propósito que irrompe na história. Independentemente de convicções religiosas pessoais, o arquétipo natalino carrega uma mensagem universal, a de que a esperança pode nascer nas circunstâncias mais improváveis, de que a luz persiste mesmo quando as trevas parecem absolutas.
Vivemos na época mais abundante da história humana, com acesso a confortos que reis medievais jamais sonharam, e no entanto os índices de depressão e ansiedade nunca foram tão altos. O que nos falta não é mais; é direção. Temos os meios, mas perdemos os fins.
Nassim Taleb, em suas reflexões sobre antifragilidade, observa que os sistemas mais robustos são aqueles que se fortalecem com o estresse, mas apenas quando esse estresse está a serviço de algo significativo. Uma vida sem propósito é uma vida que se fragmenta diante das adversidades; uma vida orientada por um sentido profundo é uma vida que converte cada obstáculo em oportunidade de crescimento.
A Sabedoria dos Antigos e a Crise Contemporânea
Os gregos antigos distinguiam três formas de vida: a vida de prazer (bios apolaustikos), a vida política (bios politikos) e a vida contemplativa (bios theoretikos). Cada uma delas representa uma resposta diferente à pergunta fundamental: o que é uma vida bem vivida?
O consumismo natalino contemporâneo é uma versão degenerada da vida de prazer. Não se trata do prazer genuíno que acompanha a contemplação da beleza ou o convívio com pessoas amadas, mas de uma busca compulsiva por estímulos cada vez mais intensos e cada vez menos satisfatórios. É o que os economistas comportamentais chamam de “esteira hedônica”, corremos sem sair do lugar.
Recordo-me de uma conversa com um empresário do interior de Goiás, homem que construiu um patrimônio considerável ao longo de décadas de trabalho árduo. Ele me confessou, com uma sinceridade desarmante, que os Natais de sua infância pobre, quando a ceia se resumia a arroz, feijão e uma galinha caipira, eram incomparavelmente mais felizes que as celebrações opulentas de sua maturidade. “Doutor”, ele me disse, “naquela época a gente não tinha nada, mas tinha tudo.”
Que tributo é esse que pagamos à sociedade de consumo? O preço não se mede apenas em dinheiro, mede-se em atenção fragmentada, em relações superficiais, em uma incapacidade crescente de simplesmente estar presente.
O Natal como Exercício de Presença
A palavra “presente” carrega uma ambiguidade reveladora em português. Presente é aquilo que damos; presente é também aquilo que somos quando estamos inteiramente aqui, agora, sem a mente vagando pelo passado ou projetando-se no futuro. Talvez o maior presente que possamos oferecer, e receber, seja precisamente a presença.
Freud observou que o ser humano moderno sofre de uma incapacidade crônica de fruir o momento presente. Estamos sempre em outro lugar, perseguindo fantasmas de satisfação que se dissipam no instante em que parecem ao alcance da mão. A psicanálise, em certo sentido, é uma tentativa de reconciliar o sujeito com seu próprio tempo, de libertá-lo das repetições compulsivas que o mantêm prisioneiro de um passado que não passa.
O Natal oferece uma oportunidade rara de ruptura com esse ciclo. É um tempo em que as rotinas se suspendem, em que os ritmos habituais cedem lugar a algo diferente. Mas aqui está o problema: se preenchermos esse vazio com mais ruído, mais atividade, mais consumo, teremos desperdiçado a chance que a própria estrutura do tempo nos concede.
A gratidão e o propósito não custam nada. São gratuitos, disponíveis a qualquer um que se disponha a cultivá-los. Não dependem de circunstâncias externas, de sucesso financeiro, de reconhecimento social. São, nas palavras de Marco Aurélio, “bens que ninguém pode tirar de nós”.
Uma Meditação para o Tempo Natalino
Proponho um exercício simples, mas potencialmente transformador. Reserve alguns minutos, de preferência pela manhã, antes que as demandas do dia se imponham. Sente-se em silêncio e percorra mentalmente as últimas vinte e quatro horas. Identifique três coisas pelas quais você pode ser genuinamente grato, não de forma abstrata, mas concreta, específica, sensorial.
Em seguida, pergunte-se: qual é o propósito que orienta minha vida neste momento? Não o propósito grandioso que talvez um dia eu venha a realizar, mas o propósito desta semana, deste dia, desta hora. Como tenho dito em palestras sobre filosofia prática, o sentido da vida não é uma descoberta que fazemos uma vez por todas, é uma construção diária, paciente, artesanal.
Salomão, o rei sábio de Israel, escreveu no Eclesiastes que há tempo para tudo debaixo do céu. O Natal é, por excelência, o tempo da renovação, não apenas do calendário, mas da alma. É o convite a nascer de novo, a deixar para trás aquilo que já não serve, a abraçar possibilidades que ainda não se revelaram.
Conclusão: O Natal que Escolhemos Viver
O verdadeiro significado do Natal não está nos presentes que compramos, nas decorações que penduramos ou nas ceias que preparamos. Está na qualidade de atenção que oferecemos àqueles que amamos, e a nós mesmos. Está na coragem de pausar, de respirar, de reconhecer que a vida, com todas as suas imperfeições, é um dom extraordinário.
Gratidão sem propósito é sentimentalismo; propósito sem gratidão é voluntarismo. Juntas, essas duas disposições formam o alicerce de uma existência autenticamente humana, uma existência que não se mede pela quantidade de bens acumulados, mas pela profundidade das relações cultivadas e pelo legado que deixamos para aqueles que virão depois de nós.
Que este Natal seja, para você, um tempo de redescoberta. Não do novo, mas do essencial, daquilo que sempre esteve ali, esperando ser reconhecido. Como escreveu T.S. Eliot: “Não cessaremos de explorar, e o fim de toda nossa exploração será chegar onde começamos e conhecer o lugar pela primeira vez.”
O Natal não é uma data no calendário. É uma escolha que fazemos, ou deixamos de fazer, a cada momento.
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