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Os Riscos do Planejamento Tributário com a Inteligência Artificial

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A IA Não Conhece o Homem Por Trás da Empresa, E Isso Pode Custar Caro

Em mais de 40 anos de advocacia tributária, aprendi uma lição que nenhum algoritmo jamais aprenderá: antes de olhar o CNPJ, é preciso olhar o CPF. Antes de analisar a dívida, é preciso entender quem deve. Antes de montar uma estratégia tributária, é preciso conhecer o homem ou a mulher que está por trás do negócio.

A Inteligência Artificial chegou ao mundo tributário com promessas sedutoras: respostas em segundos, textos de lei na ponta dos dedos, simulações instantâneas. E sim, ela cumpre parte dessas promessas. Mas há um risco que poucos estão enxergando: a IA não erra por falta de informação técnica, ela erra por excesso de confiança em dados isolados.

 O Que a IA Faz Bem, e Onde Ela Para

Não tenho problema nenhum em reconhecer: a IA é uma ferramenta de consulta. Mas eu a uso muito pouco. Por quê? Porque ela costuma inventar leis. Já vi isso várias vezes. Inventa jurisprudência também, cita decisões que simplesmente não existem. Como tenho senso crítico e décadas de prática, sei separar as invenções do que é aproveitável. Mas imagine você, que não é da área jurídica, que ora me vê, escuta ou lê. Como vai saber o que é real e o que é fabricação do algoritmo?

O problema começa quando alguém, empresário, contador ou até advogado inexperiente, confunde consulta rápida com decisão estratégica.

Planejamento tributário não é apenas saber o que a lei diz. É saber como ela será interpretada pela fiscalização, pelo juiz, pelo desembargador. É entender o histórico da empresa, o perfil do sócio, a relação com fornecedores, a situação patrimonial da família, os planos de sucessão, o apetite ao risco.

A IA não tem acesso a nada disso. E o mais grave: ela não sabe que não tem.

 Por Que o Planejamento Tributário Exige Olhar o Homem Primeiro

Tomás de Aquino, filósofo que estudo há décadas, dizia que o homem é o resultado de todas as coisas. Essa frase pode parecer distante do mundo dos tributos, mas não é. Ela traduz com perfeição o que a experiência me ensinou.

Quando um empresário entra no meu escritório com uma dívida tributária, eu não pergunto primeiro qual é o valor ou qual o tributo. Eu pergunto:

  • De onde você veio?
  • O que te trouxe até aqui?
  • Para onde você quer ir?
  • O que você precisa resolver agora, e o que pode esperar?
  • Como você toca seu negócio no dia a dia?
  • Quem depende de você?

Essas perguntas não aparecem em nenhum prompt de IA. E são elas que definem se o melhor caminho é um parcelamento, uma ação judicial, uma transação tributária, uma reorganização societária ou, em alguns casos, simplesmente esperar o momento certo.

A IA não tem maturidade para isso. E arrisco dizer, não terá nunca.

 O Risco Real: Decisões Certas Tecnicamente, Mas Desastrosas na Prática

Já vi empresários que seguiram orientações “tecnicamente corretas” de ferramentas automatizadas e, no fim, perderam tudo. Não porque a informação estava errada. Mas porque ela estava desconectada da realidade daquele negócio, daquele momento, daquele homem.

Um exemplo que ilustra bem: a IA pode sugerir que determinado regime tributário é mais vantajoso com base nos números apresentados. Mas ela não sabe que o empresário tem uma extrema crise familiar e sucessória, que a empresa será alvo de uma cisão em seis meses, que há um litígio societário em curso ou que o sócio está emocionalmente esgotado e precisa de uma solução simples, não da solução ótima.

Planejamento tributário não é matemática pura. É engenharia humana.

 A IA Como Ferramenta, Nunca Como Decisora

Uso inteligência artificial no meu dia a dia? Uso. Para pesquisas, para organizar informações, para acelerar tarefas operacionais. Mas jamais delego a ela uma decisão que envolva o destino de uma empresa ou de uma família.

A diferença entre usar a IA como ferramenta e usá-la como decisora é a diferença entre um bisturi na mão de um cirurgião e um bisturi na mão de um robô sem contexto clínico.

O cirurgião sabe onde cortar, quando parar, o que preservar. Ele conhece o paciente. Sabe de suas alergias, seus medos, sua história. O robô só conhece o procedimento-padrão.

No tributário, o procedimento-padrão pode ser a ruína.

 O Que Ninguém Está Dizendo Sobre Planejamento Tributário com IA

Há uma narrativa dominante que precisa ser contestada: a de que a tecnologia vai democratizar o acesso ao planejamento tributário de qualidade.

Isso é meia verdade e meia mentira, no Direito, é mentira inteira.

O que a tecnologia está democratizando é o acesso à informação. Isso é positivo. Mas informação sem interpretação é matéria-prima bruta. E, no tributário, matéria-prima bruta pode explodir na sua mão.

O empresário que confia cegamente numa resposta de IA para tomar uma decisão tributária está correndo um risco que ele nem sequer consegue mensurar. Porque o erro, muitas vezes, só aparece anos depois — numa autuação, numa execução fiscal, numa penhora de bens, numa responsabilização pessoal do sócio.

 O Que Você, Empresário, Deve Observar

Se você está pensando em usar IA para orientar decisões tributárias na sua empresa, faça isso com cautela. Aqui vão algumas orientações práticas:

1. Use a IA para pesquisar, não para decidir. Ela é boa para levantar informações. A decisão final deve passar por um profissional que conhece sua história.

2. Desconfie de respostas prontas. Se a solução parece simples demais, provavelmente está incompleta.

3. Pergunte ao seu advogado ou contador: você conhece minha empresa de verdade? Se ele nunca visitou sua operação, nunca conversou sobre seus planos, nunca perguntou sobre sua família — ele está trabalhando no escuro, com IA ou sem ela.

4. Cuidado com a ilusão de economia. O barato, no tributário, costuma sair muito caro.

5. Lembre-se: a IA não responde por você. Quem assina a declaração, quem responde à fiscalização, quem pode perder o patrimônio é você — não o algoritmo.

Perguntas Frequentes (FAQ)

1. A IA pode me ajudar a entender a legislação tributária?

Sim. Para consultas rápidas sobre textos de lei, portarias e normas, ela é útil e eficiente.

2. Posso confiar na IA para montar meu planejamento tributário?

Não. Planejamento tributário exige análise de contexto, histórico e circunstâncias que a IA não consegue captar.

3. A IA substitui o advogado tributarista?

De forma alguma. Ela pode auxiliar o profissional, mas não substitui a experiência, a intuição e o conhecimento do caso concreto.

4. Qual o maior risco de usar IA para decisões tributárias?

Tomar decisões tecnicamente corretas, mas desconectadas da realidade do negócio — o que pode gerar prejuízos graves anos depois.

5. A IA vai evoluir e resolver esses problemas?

Ela vai evoluir em capacidade de processamento. Mas a compreensão do ser humano, de suas contradições, medos e objetivos, não é uma questão de processamento. É uma questão de sabedoria — e isso não se programa.

 

Conclusão: Tecnologia Sem Sabedoria é Risco

Permita-me dizer: só vai acertar com um problema tributário complexo quem já viveu milhares de casos e tem décadas de experiência. Ironia por ser o meu caso? Não. É pura verdade da vivência.

Eu aprendi com o Bispo de Luz, em Minas Gerais, o poeta Dom Belchior da Silva Neto, que dizia: a sabedoria não é acadêmica. E não é mesmo. A sabedoria vem do tempo, dos erros, das madrugadas estudando um caso que parecia perdido, das vitórias arrancadas nos tribunais, das conversas longas com empresários desesperados que hoje tocam seus negócios em paz. E no meu caso, com muitos erros também, que me amadureceram. Sim, eu já errei muito.

Resumo em tópicos o que você precisa levar deste texto:

  • A IA é excelente para consultas rápidas e levantamento de informações técnicas.
  • Ela não substitui a análise humana, que considera o contexto completo do empresário e da empresa.
  • Planejamento tributário eficaz exige conhecer o homem por trás do negócio: de onde veio, para onde quer ir, o que precisa agora.
  • Decisões tributárias baseadas apenas em dados isolados podem parecer certas, mas gerar consequências desastrosas.
  • Use a IA como ferramenta de apoio, nunca como decisora final.

Em 40 anos de tributário, uma coisa ficou clara: o empresário não precisa de respostas rápidas, ele precisa de respostas certas, dadas por quem entende não apenas a lei, mas a vida.

Se você quer discutir sua situação tributária com profundidade, com alguém que vai olhar primeiro para você e depois para os números, estou à disposição. É assim que sempre trabalhei. É assim que continuarei trabalhando.

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