Eu vejo diariamente histórias que não aparecem nas estatísticas frias nem nos relatórios de mercado. Histórias de mulheres que empreendem não por modismo, mas por necessidade, visão e coragem. Mulheres que transformam adversidade em projeto, insegurança em estratégia e intuição em liderança.
E aqui surge a pergunta inevitável: por que o empreendedorismo feminino ainda precisa provar tanto, mesmo entregando tanto resultado?
Em 2026, falar de mulheres no empreendedorismo não é falar de exceção, é falar de força estrutural. É sobre quem sustenta negócios, famílias e comunidades inteiras, muitas vezes em silêncio. E é exatamente por isso que essas histórias precisam ser contadas.
O Contexto Real do Empreendedorismo Feminino no Brasil
O Brasil está entre os países com maior número de mulheres empreendedoras no mundo. Dados recentes indicam que mais de 10 milhões de mulheres estão à frente de algum negócio próprio. Ainda assim, elas enfrentam obstáculos que não aparecem no CNPJ.
Levantamentos do IBGE continuam mostrando que mulheres empreendedoras, em média, faturam menos que homens em negócios semelhantes. Não por falta de competência, mas por acesso desigual a crédito, redes de apoio e espaços de decisão.
O que observo com frequência é um padrão claro: o crescimento acontece, mas o reconhecimento institucional demora. E isso cobra um preço emocional e estratégico.
Mas aqui está o problema: o sistema ainda subestima a liderança feminina, mesmo quando os resultados são evidentes.
Quando Empreender Não é Escolha, é Sobrevivência
Muitas mulheres não “decidem” empreender, elas precisam empreender.
Seja após uma ruptura profissional, uma maternidade não absorvida pelo mercado ou a ausência de oportunidades reais de ascensão, o empreendedorismo surge como caminho de autonomia.
Dados do Sebrae indicam que uma parcela significativa das mulheres inicia negócios por necessidade. Esse dado, muitas vezes interpretado de forma negativa, esconde uma virtude poderosa: resiliência aplicada.
Aristóteles já dizia que a virtude está no hábito. E essas mulheres transformam o hábito de resistir no hábito de construir.
Quer saber o melhor? Muitas dessas trajetórias evoluem. O que começa como sobrevivência se converte, com método e visão, em empreendimento estruturado.
Histórias Que Não Viram Manchete, Mas Mudam Realidades
No setor de alimentação saudável, um exemplo concreto é o de Maíra Costa, fundadora da Free Soul Foods. A empresa nasceu de uma inquietação pessoal, com produção artesanal e foco absoluto em qualidade nutricional e impacto social.
O crescimento não veio por atalhos. Ao invés de escalar sacrificando princípios, Maíra estruturou um modelo que gera empregos, promove inclusão e responde a um consumidor cada vez mais atento à origem do que consome. Não se trata apenas de vender comida saudável, mas de organizar um ecossistema de valor, onde o lucro não elimina o propósito, convive com ele.
Esse tipo de empreendedorismo feminino demonstra algo que o mercado ainda reluta em aceitar: estratégia e sensibilidade não são opostos. São complementares.
No campo educacional, a história é igualmente reveladora. Regiane Fagotto construiu sua atuação a partir de uma lacuna concreta: a ausência de instrumentos adequados para avaliação e acompanhamento de crianças neurodivergentes no ensino regular.
Como pedagoga e fonoaudióloga, Regiane percebeu cedo que o problema não estava nas crianças, mas na rigidez dos modelos educacionais. A partir disso, passou a liderar iniciativas voltadas à adaptação de provas, planos educacionais individualizados (PEI) e apoio multidisciplinar, oferecendo às escolas meios reais de inclusão, não apenas discursos.
Aqui, empreender foi um ato de responsabilidade social. Criar soluções onde o sistema ainda não alcançou. E isso exige visão, técnica e coragem.
Liderança Feminina: Um Modelo Diferente e Necessário
Além disso, estudos internacionais seguem demonstrando que empresas lideradas por mulheres tendem a apresentar maior diversidade, sustentabilidade e foco no longo prazo. Não é coincidência. É método.
A liderança feminina costuma integrar razão e intuição, dados e pessoas. Em um mundo empresarial cada vez mais complexo, esse equilíbrio deixa de ser diferencial e passa a ser necessidade.
Em 2026, com mercados ainda mais instáveis e decisões de alto risco, a prudência volta ao centro da gestão. E muitas mulheres exercem essa prudência de forma silenciosa, porém decisiva.
Portanto, não estamos falando apenas de inclusão. Estamos falando de eficiência estratégica.
O que Ainda Trava o Crescimento Dessas Mulheres?
Por outro lado, seria ingênuo romantizar o caminho. Existem obstáculos recorrentes:
Acesso limitado a crédito estruturado, sobrecarga emocional e operacional, ausência de mentoria qualificada e, não raras vezes, ambientes que estimulam a autossabotagem.
Um erro comum é acreditar que dar conta de tudo sozinha é sinônimo de força. Não é. Força está em estruturar, delegar e planejar.
Freud já alertava: aquilo que não é elaborado retorna como obstáculo. No empreendedorismo, isso se traduz em negócios promissores que estagnam por falta de estratégia.
Empreender Também é Um Ato Filosófico
Há uma dimensão pouco explorada aqui. Empreender, especialmente para mulheres, é um ato filosófico. É escolher agir apesar do medo. É afirmar valor em um mundo que, muitas vezes, insiste em negá-lo.
Como tenho refletido ao longo dos anos, o trabalho não é apenas meio de renda, é expressão de identidade. Quando uma mulher empreende, ela redefine seu lugar no mundo.
E talvez por isso essas histórias incomodem estruturas engessadas. Porque elas provam, na prática, que o possível é mais amplo do que nos ensinaram.
Conclusão: Inspiração Que Gera Movimento
Mulheres no empreendedorismo não são tendência. São realidade consolidada.
Histórias que inspiram não servem apenas para emocionar, servem para provocar ação.
Se você é uma mulher empreendedora, saiba: sua trajetória importa, mesmo quando ninguém está aplaudindo. Se você convive com uma, observe, aprenda e apoie. O impacto é coletivo.
Como costumo dizer: o Direito não é uma barreira, é um mapa. E o empreendedorismo feminino está redesenhando esse mapa com coragem, estratégia e humanidade.
Este conteúdo reflete as reflexões de Juvenil Alves, filósofo, teólogo, psicanalista e jurista, sobre cultura, liderança e empreendedorismo.
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