Acompanho o Vaticano desde 1978, desde aquele outubro histórico quando Karol Wojtyla foi eleito e mudou para sempre a dinâmica do papado. São quase cinco décadas observando, analisando, correspondendo com minhas fontes dentro daquela instituição tão fechada e fascinante. E posso dizer sem medo: entre 2005 e 2025, não assistimos apenas à sucessão de papas. Vivemos uma ruptura, um colapso do padrão intelectual do pontífice.
Quando olho para Bento XVI, Francisco e Leão XIV, vejo três perfis distintos, mas o que me preocupa não são as diferenças, é a direção da trajetória: do acadêmico ao administrador, passando por algo que nem sei bem como classificar. Minha hipótese, que venho construindo com base em dados quantitativos que coletei ao longo dos anos e em conversas com o Cardeal Fisher, minha principal fonte no Vaticano, é clara: não houve um simples “declínio” da produção teológica papal. Houve uma quebra. O papado deixou de ser ocupado por intelectuais para se tornar uma função gerencial nas mãos de padres comuns.
Aliás, devo confessar: tanto eu quanto o Cardeal Fisher erramos no prognóstico da eleição de Prevost. Mostra como até quem está próximo pode ser surpreendido pelos rumos que o Colégio de Cardeais toma.
Deixe-me explicar o que os números revelam sobre essa queda.
A Era do Teólogo: O Último Papa-Professor
Joseph Ratzinger, que conhecemos como Bento XVI, é provavelmente o último Papa-professor no sentido que eu vi em Pio XII e, de certa forma, em Paulo VI. Quando falo isso, não estou exagerando. Os números comprovam uma linhagem que se encerra com ele.
Antes mesmo de chegar ao trono de Pedro, Ratzinger já havia construído um monumento intelectual impressionante. Duas teses acadêmicas, ambas monumentais: o doutoramento em 1953 e a habilitação em 1957. Sua produção resultou em 16 volumes de obras completas, conhecidas como Opera Omnia, uma das maiores bibliotecas teológicas individuais do século XX. Durante seus quase quarenta anos como Prefeito da Doutrina da Fé, entre 1966 e 2005, Ratzinger produziu nada menos que 2.105 documentos.
E o que ele fez quando se tornou Papa? Continuou pensando e escrevendo. Três encíclicas e quatro exortações apostólicas durante o pontificado. Mas o que mais me impressiona é que ele escreveu, já como Papa, a Trilogia “Jesus de Nazaré” em três volumes. Uma obra teológica pessoal, densa, acadêmica. Isso é algo que dificilmente veremos novamente.
O pontificado de Bento XVI representa o cume da erudição teológica dentro da cátedra de Pedro. Mas aqui está o paradoxo: toda essa densidade teórica coincidiu com crises administrativas e falhas graves de comunicação. Ratzinger era um gênio intelectual e um desastre administrativo. O Vaticano sangrava em escândalos de gestão. E foi exatamente isso que o Colégio de Cardeais usou como justificativa para mudar radicalmente de perfil em 2013.
O Argentino e a Catástrofe Intelectual
Jorge Mario Bergoglio, que escolheu o nome Francisco, não simboliza uma virada. Simboliza uma ruptura. E, na minha avaliação crítica, uma catástrofe para a tradição intelectual da Igreja.
Quando olho para sua formação antes do papado, vejo o vazio: nenhuma tese concluída. Havia apenas um projeto sobre Romano Guardini que nunca foi finalizado. Bergoglio era, do ponto de vista intelectual, um padre comum. Não produziu absolutamente nada de relevância teológica ou filosófica antes de chegar ao trono de Pedro. Nenhuma contribuição para o desenvolvimento do conhecimento da Igreja, nada que se compare remotamente ao que Ratzinger, Pio XII ou mesmo Paulo VI construíram.
E o que ele fez como Papa? Inaugurou o que chamo, sem nenhum eufemismo, de “magistério da entrevista”. A doutrina deixou de ser aquele texto denso e estruturado para se tornar algo dialogado, fluido, oral, mediático. Os números do pontificado mostram isso com clareza brutal.
Durante seu tempo como Papa, Francisco escreveu quatro encíclicas, sendo que uma delas, Lumen Fidei, foi na verdade herdada de Bento XVI e apenas finalizada por ele. Produziu sete exortações apostólicas. Mas aqui está o dado que revela tudo: mais de 15 livros-entrevista, que se tornaram seu principal meio de magistério.
Francisco rebaixou a tradição cultural da Igreja que Ratzinger representava para um nível muito inferior de intelectualidade. O conteúdo pastoral supera o rigor conceitual. A teologia se torna narrativa, quase jornalística, sem nenhum cuidado com a cultura histórica ou teológica que deveria sustentar o magistério papal.
Eu sou dos críticos que discordam frontalmente dessa postura. Se Francisco conseguiu reproduzir o contexto da nova comunicação do século XXI, com suas frases de efeito e seu jeito espalhafatoso nas redes sociais, isso não é mérito. É a confirmação de uma catástrofe. A Igreja Católica não precisava se adaptar dessa forma. Precisava manter sua densidade intelectual e encontrar novos canais, não jogar fora séculos de tradição reflexiva.
E quanto à governança? Francisco não foi melhor que Ratzinger. Mas seu jeito meio espalhafatoso, seu carisma midiático, maquiou bastante suas deficiências em administração. Os problemas continuaram, mas a mídia o adorava. E isso parecia suficiente para muitos.
O Papa-Gestor: A Continuidade da Mediocridade
E então chegamos a 2025. Robert Francis Prevost é eleito e escolhe o nome Leão XIV. Como mencionei, tanto eu quanto o Cardeal Fisher erramos feio no prognóstico dessa eleição. Mas quando vi o resultado, percebi que a linha inaugurada por Francisco estava se consolidando.
Prevost chega ao trono de Pedro como canonista e administrador, não como teólogo. E, assim como Bergoglio, não produziu nada de relevância intelectual antes do papado. Era, do ponto de vista da contribuição ao pensamento católico, outro padre comum.
Olhe para seu currículo: uma tese doutoral em Direito Canônico defendida em 1987, um livro co-autorado sobre regras agostinianas, e cerca de quatro ou cinco artigos internos sobre administração religiosa. É um perfil completamente diferente de Ratzinger, mas tristemente parecido com o de Francisco: ausência de densidade intelectual.
Durante seu pontificado, que ainda está em curso, temos até novembro de 2025 apenas uma exortação apostólica, a Dilexi Te, publicada em outubro. A eleição de Leão XIV representa, na minha visão, a consolidação dessa ruptura que venho descrevendo: o Papa-jurista, cuja vocação é organizar, não pensar ou doutrinar.
A fruta não cai longe do pé. Nem o argentino Bergoglio nem o peruano-americano Prevost produziram qualquer riqueza intelectual em suas vidas anteriores ao papado. Nada que contribuísse para o desenvolvimento do conhecimento teológico, como fizeram Ratzinger, Pio XII e, de certa forma, Paulo VI. Até João XXIII, que era um hábil diplomata, não tinha esse perfil de escritor no sentido que vejo em Joseph Ratzinger. Mas ao menos João XXIII vinha de uma tradição de formação sólida.
Três Perfis, Uma Queda Intelectual
Deixe-me colocar isso de forma mais clara, comparando os três pontificados lado a lado. E quero ser direto: não estou avaliando a pastoral de nenhum deles. Meu foco é exclusivamente a quebra do padrão de intelectualidade que Francisco inaugurou a partir de Ratzinger e que Prevost está seguindo na mesma linha descendente.
Quando olho para o perfil de cada um, vejo Bento XVI como o acadêmico, Francisco como o pastor-comunicador, e Leão XIV como o administrador-canonista. Em termos de formação acadêmica, Bento XVI produziu duas teses monumentais, Francisco não concluiu nenhuma tese formal, e Leão XIV tem uma tese em Direito Canônico.
A produção bibliográfica também conta a história. Bento XVI deixou 16 volumes das Opera Omnia, uma biblioteca teológica impressionante. Francisco produziu mais de 15 livros-diálogo, um formato totalmente diferente. Leão XIV tem apenas uma co-autoria em seu histórico.
As encíclicas mostram a tendência descendente: Bento XVI escreveu três, Francisco escreveu quatro mas uma foi herdada, e Leão XIV até agora não publicou nenhuma. As exortações apostólicas seguem caminho parecido: quatro de Bento XVI, sete de Francisco, e apenas uma de Leão XIV até o momento.
Mas há um dado que inverte essa lógica: os livros-entrevista e autobiografias. Bento XVI produziu apenas um, Francisco explodiu esse formato com mais de 15 publicações, e Leão XIV não tem nenhum ainda.
A ênfase central de cada pontificado também revela a metamorfose. Bento XVI focou na teologia e doutrina, Francisco na comunicação e pastoral, e Leão XIV no Direito Canônico e gestão. Se tivesse que resumir em uma frase o estilo de magistério de cada um, diria: Bento XVI exerceu um magistério teológico, Francisco inaugurou o magistério da entrevista, e Leão XIV caminha para um magistério administrativo.
O Vaticano em Mutação: A Escolha pela Mediocridade
A linha evolutiva é cristalina: do pensador ao gestor, do intelectual ao administrador comum. A densidade doutrinária de Ratzinger cedeu lugar à superficialidade comunicacional de Francisco e, agora, à tecnicidade curial de Prevost.
E aqui preciso ser franco: essa trajetória é uma decadência. Não é “adaptação institucional”, como alguns tentam vender. É a substituição do gênio reflexivo pelo gestor pragmático, do teólogo pelo padre comum.
O Colégio de Cardeais respondeu a cada crise com uma correção equivocada. Ao teólogo que pensava demais e comunicava pouco, elegeram um pastor que falasse mais mas pensasse menos. Ao pastor midiático, elegeram um administrador que não pensa nem comunica.
É uma lógica empresarial aplicada à Igreja. E o resultado é desastroso.
O Preço: A Morte do Pensamento Católico
Como advogado e observador atento do poder institucional há quase cinco décadas, vejo aqui o mesmo fenômeno que acontece em outros sistemas: a substituição gradual do gênio reflexivo pelo gestor pragmático. E isso me entristece profundamente quando se trata da Igreja Católica.
O Vaticano ajustou-se à demanda do tempo. E qual era a demanda? Menos densidade teológica, mais eficiência administrativa. Menos encíclicas profundas, mais tweets. Menos seminários teológicos, mais gestão de crises midiáticas.
Mas o preço é altíssimo: a perda total de densidade intelectual na formulação moral e teológica. A Igreja Católica foi, durante séculos, a mais refinada produtora de pensamento do Ocidente. Estamos assistindo ao momento em que ela abdica de seu “departamento de ideias” para manter funcionando apenas seu “departamento de operações”.
Em última análise, trata-se da eterna tensão entre fé e eficiência, entre o Papa-teólogo que pensa e o Papa-gestor que administra. Mas o que aconteceu nas últimas duas décadas não foi uma tensão saudável. Foi uma escolha deliberada pela mediocridade intelectual.
E essa escolha terá consequências de longo prazo para a capacidade da Igreja de dialogar com o mundo acadêmico, científico e filosófico. Quando você coloca padres comuns no trono de Pedro, você sinaliza que o pensamento não importa mais.
Um Último Pensamento
Se Ratzinger representava o logos, a razão pura e o pensamento estruturado, Francisco representou o abandono do rigor intelectual em nome de uma comunicação superficial, e Prevost consolida essa escolha pela gestão administrativa em detrimento da reflexão teológica.
O Vaticano do século XXI é o retrato de uma instituição que desistiu de equilibrar razão, emoção e governo. Escolheu sacrificar a razão.
O preço dessa escolha não é apenas a rarefação da teologia. É a perda de relevância intelectual da Igreja no mundo contemporâneo. E isso, para quem acompanha o Vaticano desde 1978, é doloroso de testemunhar.
E como Prevost é tímido e limitado do ponto de vista intelectual, não será agora que vai estudar mais. Tanto é assim que em recente decreto sobre Maria de Nazaré, reaplicou estudo que não foi feito por ele, o que mostra sua limitação intelectual. Não há nada de original, nada de novo, apenas a reprodução de material alheio.
Mas o Vaticano sobreviverá, claro. A instituição é maior que seus ocupantes temporários. Trarei em futuros textos histórias de outras épocas em que as contingências eram muito maiores, em que papas enfrentaram desafios que fariam Prevost tremer. E cá estamos em 2025, já perto do Natal, testemunhando mais um capítulo dessa história milenar.
A diferença é que desta vez não estamos testemunhando um capítulo de glória intelectual, mas de sobrevivência administrativa.
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