Ortega y Gasset: ideias se têm; nas crenças, se está

José Ortega y Gasset e a distinção entre ideias e crenças: as mudanças que importam acontecem no chão em que pisamos — ensaio de Juvenil Alves
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Por que as mudanças que importam não acontecem nas opiniões, mas no chão em que pisamos

por Juvenil Alves Ferreira Filho — Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista · Formação Tomista

Humanidades · Julho de 2026

Há semanas em que os assuntos se procuram uns aos outros. Nesta, examinei uma pesquisa que mediu o que os brasileiros pensam sobre impostos e Estado, e conversei com um livro que ensina a ler o dilúvio diário de estatísticas. Faltava o filósofo capaz de dizer o que essas duas coisas — as opiniões medidas e os dados lidos — têm por baixo. Ele existe, escreveu sobre isso em 1940, e formulou a distinção numa frase que considero das mais úteis de todo o século XX: as ideias, nós as temos; nas crenças, nós estamos.

O filósofo é José Ortega y Gasset, e o pequeno grande livro é Ideas y creencias, escrito no exílio, na década em que a Europa demonstrava tragicamente a diferença entre uma coisa e outra. Vale gastar alguns minutos com essa distinção — porque ela ilumina, como poucas, o momento que atravessamos.

O que Ortega viu

Ideias são tudo aquilo que pensamos, formulamos, defendemos e debatemos: opiniões, teorias, teses, programas. Nós as produzimos, as sustentamos com argumentos e, exatamente por isso, sabemos que podem ser contestadas — quem argumenta admite, no gesto mesmo de argumentar, que a coisa comporta dúvida. As crenças são outra realidade. Nelas não pensamos: pensamos a partir delas. São o solo silencioso sobre o qual toda a vida se apoia. Ninguém “opina” que a rua estará lá quando sair de casa; ninguém “defende a tese” de que o chão sustentará o próximo passo. Conta-se com isso — e contar-com, dizia Ortega, é o modo de presença mais profundo que uma convicção pode ter. A crença autêntica é invisível como a saúde: só aparece quando falta.

Dessa distinção, Ortega extraiu a lei histórica que me interessa: as mudanças que importam não são as de ideias, são as de crenças. Opiniões trocam de lugar todos os dias, e o mundo segue o mesmo. Mas quando um povo deixa de estar numa crença — quando o solo racha —, tudo o que estava construído sobre ela estremece, por mais sólidas que pareçam as instituições de superfície. O homem, escreveu ele, é o ser que precisa saber a quê ater-se; quando as crenças entram em crise, a vida vira naufrágio, e as ideias são as tábuas a que o náufrago se agarra para, com sorte e tempo, construir chão novo.

O chão que a semana revelou

Releia agora, com os olhos de Ortega, os dois assuntos que abriram esta semana. A pesquisa de opinião parece medir ideias — percentuais de concordância, preferências declaradas. Mas o que os seus números mais profundos registram é outra coisa: um deslocamento de crença. Durante décadas, o brasileiro esteve na crença de que o tributo, ainda que pesado, voltaria em alguma forma de amparo — era o chão tácito do pacto social. O que a série histórica mostra não é uma opinião nova vencendo um debate; é um solo cedendo devagar, ano após ano, até que a maioria já não conta com o retorno como quem conta com a rua ao sair de casa. Ideias mudam em debates; crenças mudam em silêncio — e são estas que movem a história.

E os dados? As regras para bem lê-los — a vigilância sobre os próprios vieses, a atualização honesta diante da evidência — operam admiravelmente no andar das ideias. Mas Ortega nos obriga a descer um lance de escada: por baixo de toda leitura de dados há crenças que escolhem, antes de qualquer gráfico, o que olhamos e o que nem nos ocorre olhar. O a priori de que parte cada leitor não é uma opinião que ele tem; é um chão em que ele está. Por isso a educação estatística, sozinha, não pacifica os debates: pessoas com os mesmos números continuam chegando a conclusões opostas, porque não divergem nas ideias — divergem no solo.

O elo da estante: de Ortega ao Direito

O leitor desta seção já encontrou, sem talvez saber, um filho direto dessa filosofia. Luis Recaséns Siches, de quem já tratei nesta seção, formou-se sob o magistério de Ortega em Madri, e a sua lógica do razoável — a recusa de aplicar a lei como quem opera uma máquina — é a razão vital orteguiana vestida de toga. O direito, ensinava Recaséns, não habita o céu das ideias puras: habita a vida humana concreta, as suas circunstâncias, as suas crenças. Ortega deu a fórmula que sustenta tudo isso desde 1914: eu sou eu e minha circunstância — e se não a salvo, não me salvo eu.

Para quem lida com leis, a lição tem consequência prática e séria. Normas funcionam enquanto repousam sobre crenças. A lei que a sociedade cumpre sem pensar é a que se apoia num chão firme de convicções tácitas; a lei que precisa ser imposta a cada passo é sintoma de que o solo, embaixo dela, já rachou. Legislar sobre crença rachada é construir sobre falha geológica: pode-se erguer o edifício, mas cada abalo cobrará o seu preço em litígio, em desobediência silenciosa, em descrença institucional. Os grandes juristas sempre souberam disso de instinto; Ortega apenas lhes deu o conceito.

Saber em que chão estamos

Termino com a tarefa que o próprio Ortega diria ser a de cada geração: fazer, de tempos em tempos, a agrimensura do próprio chão — perguntar não “o que eu penso?”, pergunta fácil, mas “em que eu estou?”, pergunta que exige coragem. Que crenças me sustentam sem que eu as tenha escolhido? Quais delas ainda aguentam peso, e quais viraram costume oco? O naufrágio, dizia o filósofo, não é o pior dos estados: é o mais lúcido deles, porque obriga a nadar. O pior é afundar acreditando que ainda se pisa em terra.

Ortega y Gasset merecerá, nesta seção, um ensaio inteiro à sua altura — a Revista de Occidente, a rebelião das massas, a razão vital, a Espanha e a Europa. Fica para o seu tempo. Hoje bastava esta chave, que deixo com o leitor como se deixa uma lanterna: ideias se têm; nas crenças, se está. Antes de discutir as primeiras, convém saber onde estamos pisando — porque é do chão, e não das opiniões, que a vida depende.

Juvenil Alves Ferreira Filho Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista · Formação Tomista

Humanidades · Belo Horizonte, julho de 2026 · juvenilalves.com.br

Quem escreve

Juvenil Alves - jurista, teólogo, filósofo, psicanalista e escritor.

Nasceu em Abaeté, no interior de Minas Gerais. É filho de Juvenil Alves, alfaiate, e de Isabel Amélia, servente escolar. Foi nesse ambiente simples que aprendeu, desde cedo, o valor do trabalho, da disciplina, da educação e da responsabilidade.

Sua formação intelectual começou pela Filosofia  e pela Teologia e, mais tarde, encontrou no Direito o espaço emq ue essas reflexões passaram a dialogar diariamente com a vida concreta das pessoas, das empresas e das instituições. Desde então, nunca deixou de percorrer esse cruzamento.

Ao longo de mais de quatro décadas de atuação profissional, construiu uma carreira dedicada ao Direito Tributário e Empresarial, assessorando empresas, famílias e organizações em questões de alta complexidade. Paralelamente, manteve um estudo permanente das Humanidades, formando uma biblioteca construída ao longo de quase cinquenta anos de leituras, pesquisas e anotações.

Neste blog, reúne essas duas experiências. Escreve sobre Direito Tributário, Direito Empresarial, Reforma  Tributária, Filosofia do Direito, Filosofia, Teologia, Psicanálise, Liderança, Ética, Humanidades e Neurodiversidade. Não para oferecer respostas prontas, mas para investigar as ideias, os príncipios e os fundamentos que orientam as decisões humanas.

Os ensaios publicados aqui dialogam com autores clássicos e contemporâneos e procuram aproximar o pensamento filosófico da realidade jurídica, empresarial e social. Muitos deles integram projetos editoriais em desenvolvimento e servirão de base para futuras obras.

Este espaço nasceu da convicção de que a técnica, quando separada das Humanidades, empobrece o pensamento; e de que a Filosofia, a Teologia, a Psicanálise e o Direito continuam oferecendo instrumentos indispensáveis para compreender o ser humano, as instiuições e os desafios do nosso tempo.

Sem fórmulas. Sem juridiquês.

O conteúdo chega em dois formatos: leia quando quiser no blog ou ouça quando puder no podcast, disponível no Spotify.

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