Uma conversa com Tim Harford e Hélio Schwartsman — e com Pascal, que fundou a estatística e conhecia o seu limite
por Juvenil Alves Ferreira Filho — Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista · Formação Tomista
Humanidades · Julho de 2026
Hélio Schwartsman dedicou, em sua coluna na Folha de S.Paulo, algumas linhas generosas a um livro que merece a atenção de qualquer leitor sério: How to Make the World Add Up, de Tim Harford — o mesmo economista britânico que transformou conceitos áridos em best-seller mundial com O Economista Clandestino. O novo livro quer ensinar o leitor comum a sobreviver ao dilúvio diário de estatísticas: os percentuais, as médias, os gráficos e os rankings que desabam sobre nós a cada manhã de jornal.
O que o colunista destaca — e é aqui que a conversa me interessa — é uma inversão elegante: as dez regras que Harford formula para navegar o mundo dos dados operam menos com matemática do que com psicologia. O problema, na maior parte das vezes, não está no modo como os números são produzidos, mas no modo como nós os lemos. Schwartsman chama essa abordagem, com precisão, de bayesiana: trata-se de vigiar as crenças com que chegamos aos dados, e de atualizá-las com honestidade diante da evidência.
Leio a coluna e assinto com a experiência de quem passou quatro décadas cercado de números que se ofereciam como verdades acabadas — índices de êxito, estatísticas fiscais, planilhas de economia prometida, percentuais de teses “vitoriosas”. Aprendi, nos tribunais e fora deles, exatamente o que Harford sistematiza: o número raramente mente sozinho. Quem o faz mentir é o olhar que o seleciona, o desejo que o recorta, o medo que o amplifica. Antes de perguntar “o que dizem os dados?”, o leitor maduro pergunta “o que eu estou querendo que eles digam?”. É a mais incômoda das perguntas — e a mais barata das auditorias.
O fundador da estatística sabia onde ela termina
Mas quero levar a conversa um passo além do ponto em que a coluna a deixa — para trás, na história, e para cima, na hierarquia das questões. Porque há uma ironia luminosa que o leitor de Harford talvez não perceba: a ciência que ele ensina a ler nasceu, em boa medida, das mãos de um homem que dedicou a segunda metade da vida a demonstrar que ela não basta.
No verão de 1654, Blaise Pascal trocou cartas com Pierre de Fermat sobre um problema de mesa de jogo — como dividir com justiça as apostas de uma partida interrompida. Daquela correspondência nasceu a teoria das probabilidades: pela primeira vez, a incerteza tornou-se calculável, e o futuro, mensurável. Tudo o que hoje chamamos de estatística, risco, inferência — a matéria-prima do livro de Harford e do raciocínio bayesiano que Schwartsman elogia — descende daquelas cartas.
Pois o mesmo Pascal, poucos anos depois, escreveria que o coração tem razões que a razão desconhece — frase quase sempre mal lida como elogio do sentimento contra o pensamento, quando é o contrário: é a constatação técnica, feita pelo maior calculador do seu século, de que os primeiros princípios de qualquer conhecimento não são demonstrados, são recebidos. O homem que inventou a máquina de calcular concluiu, examinando a própria invenção, que o cálculo se mecaniza — e que, portanto, a dignidade humana não mora no cálculo. Os números descrevem o mundo com potência crescente; dar sentido ao mundo, porém, pertence a outra ordem — e entre uma ordem e outra, Pascal diria, a distância é infinita.
O que os dados não dizem — e a honestidade de sabê-lo
Nicolau de Cusa, dois séculos antes de Pascal, ofereceu a imagem que uso até hoje para pensar essa fronteira: o polígono inscrito no círculo. Multiplique os lados do polígono indefinidamente — ele se aproximará do círculo sem jamais coincidir com ele. Assim são os dados diante do real: aproximações cada vez mais finas, indispensáveis, admiráveis — e estruturalmente incompletas. A sabedoria estatística mais alta não é acumular casas decimais; é saber, com lucidez, o que a medição não mede. O Cusano chamou essa lucidez de douta ignorância, e ela continua sendo a diferença entre o especialista que serve à verdade e o que apenas impressiona plateias.
Há ainda um terceiro convidado que esta conversa pede, e o leitor habitual desta seção o conhece: Paul Ricoeur. Porque os dados também podem ser lidos sob a hermenêutica da suspeita, que examinei neste blog — aquela disposição que não pergunta o que a evidência mostra, mas apenas que interesse ela esconde. O leitor armado de suspeita sistemática é tão cego quanto o ingênuo: um acredita em tudo, o outro desacredita de tudo, e nenhum dos dois lê. A regra bayesiana que Schwartsman aplaude é, no fundo, uma ética da leitura: chegar aos números com crenças declaradas, deixá-las ser corrigidas, e não terceirizar ao dado a decisão que é nossa. Porque nenhum teorema escolhe valores; nenhuma base de dados responde para que viver. Bayes atualiza probabilidades — não fins.
A tarefa que começa quando as contas fecham
Volto, então, ao título da coluna que motivou este texto: como dar sentido ao mundo. A resposta que quatro décadas de números e de livros me ensinaram é que a pergunta está corretamente formulada — sentido é algo que se dá, não que se extrai. Os dados, bem lidos com as regras de Harford e a vigilância bayesiana de Schwartsman, entregam o mundo em estado descritivo: tamanhos, frequências, correlações, riscos. É muito — e é pouco. O sentido começa exatamente onde a planilha termina: na ordem das razões do coração, no que Pascal chamaria de outra grandeza, na decisão sobre o que fazer com o que os números mostram.
Por isso este blog mantém, lado a lado, as duas estantes: a técnica, onde os números do Direito e da economia são lidos com o rigor que merecem, e a das Humanidades, onde se pergunta o que tudo isso significa. O leitor que quiser acompanhar a segunda pergunta encontrará em breve, na série Filósofos de Minha Escola, um ensaio inteiro dedicado justamente ao matemático que fundou a estatística e se ajoelhou diante do que ela não alcança. Harford ensina a fazer o mundo somar. Pascal lembra que, somado o mundo, resta a pergunta que nenhuma soma responde — e que é exatamente ali que começamos a ser humanos.
Juvenil Alves Ferreira Filho Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista · Formação Tomista
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