A vingança dos filósofos: por que a Inteligência Artificial foi bater à porta de Aristóteles

A vingança dos filósofos: a inteligência artificial e o retorno de Aristóteles e da ética das virtudes — ensaio de Juvenil Alves
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Os laboratórios que prometiam substituir o pensamento humano agora recrutam quem pensa há cerca de vinte e quatro séculos — e há uma lição, e uma armadilha, nesse retorno

por Juvenil Alves Ferreira Filho — Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista

Humanidades · Julho de 2026

Durante duas décadas, o conselho dado ao jovem foi o mesmo, repetido como salmo em toda mesa de família: deixe a filosofia para os fins de semana e aprenda a programar. As humanidades eram tratadas como um luxo — belas, inúteis, um caminho seguro para o subemprego. Quem quisesse comer do próprio trabalho que fosse para o código.

Pois o código virou-se contra os seus profetas. No dia 5 de julho de 2026, o New York Times publicou uma reportagem de Benjamin Wallace sob um título que é quase um veredicto: “A vingança dos formados em filosofia”. E o que ela relata teria soado, há dez anos, como anedota: os grandes laboratórios de Inteligência Artificial — as mesmas empresas que se anunciaram capazes de automatizar o pensamento — estão recrutando filósofos.

Vale gastar alguns minutos com essa reviravolta, porque ela diz mais sobre nós do que sobre as máquinas.

O fato, antes da interpretação

Convém separar o que é notícia do que é desejo, e começo pelo que se pode verificar.

Não se trata de boato. Segundo o levantamento apresentado pelo New York Times, a Anthropic e a Google DeepMind mantêm, cada uma, ao menos meia dúzia de profissionais com formação filosófica em seus quadros — nomes como Amanda Askell, Iason Gabriel e Robert Long. Iason Gabriel, filósofo formado em Oxford que trabalha na Google DeepMind, resume o motivo com simplicidade: quando se olha a sério para a Inteligência Artificial, as perguntas filosóficas estão em toda parte.

David Chalmers, um dos principais filósofos contemporâneos da consciência e professor da Universidade de Nova York, afirmou à reportagem que a procura por filósofos com formação em Inteligência Artificial já estaria superando a oferta. Dias depois, porém, fez uma ressalva que convém não esconder: referia-se à demanda global por essa especialização — sobretudo a acadêmica —, e não apenas às contratações dos laboratórios de tecnologia. A distinção importa, e o próprio texto que escrevo depende dela: há uma procura intelectual real, mas ela ainda não configura, por si só, um amplo mercado empresarial.

Um dado ilustra a inversão melhor do que qualquer argumento: números do Federal Reserve de Nova York, divulgados em 2026 com base no mercado de trabalho de 2024, apontaram desemprego de 5,1% entre recém-formados em filosofia nos Estados Unidos, contra 7% entre os de ciência da computação. O número não prova que a filosofia tenha virado carreira mais segura — prova menos e diz mais: desmonta a velha caricatura segundo a qual o diploma técnico garantia o pão e o filosófico levava ao subemprego.

E há um detalhe que, para mim, vale a reportagem inteira. A Anthropic, responsável pelo sistema Claude, confiou à filósofa Amanda Askell a autoria principal de uma extensa “constituição” destinada a orientar os valores, o comportamento e aquilo que a empresa chama de caráter do modelo. A nova Constituição de Claude deslocou o centro de gravidade das listas de regras para valores, disposições de caráter e julgamento contextual.

A afinidade com a ética das virtudes de Aristóteles é forte — é assim que eu a leio —, embora o documento não se declare aristotélico e continue a conservar prioridades e restrições rígidas para condutas intoleráveis. É uma interpretação minha, não um rótulo da própria empresa: o que me salta aos olhos é o deslocamento da aplicação mecânica de uma regra para a formação de um agente capaz de julgamento diante do caso concreto. O que mudou não foi o abandono das regras, mas a pretensão de que a regra, sozinha, bastasse.

Detenho-me aqui, porque o ponto é grave e belo. Depois de uma longa cultura tecnocientífica que tantas vezes tratou a metafísica e a filosofia moral como resíduos de outra época, foi a mais avançada das tecnologias que voltou a bater na porta do velho mestre de Estagira — aquele que ensinou que a virtude não é um catálogo de mandamentos, mas uma disposição estável da alma, forjada pelo hábito e guiada pela prudência. A máquina, para ser confiável, precisou reaproximar-se daquilo que Aristóteles e, depois dele, Tomás de Aquino souberam: que agir bem não é consultar uma tabela, é ter caráter.

Por que a filosofia — e não apenas a engenharia

A pergunta natural é: por que a técnica, no auge do seu poder, sente falta justamente daquilo que dispensara?

Porque há perguntas que nenhum algoritmo resolve, e que a Inteligência Artificial, longe de encerrar, reabriu com força inédita. O que é a consciência, e pode uma máquina que responde de fato compreender? Quando um sistema “decide”, quem responde pela decisão — e o que significa responder por algo? Onde termina a inteligência que calcula e começa a dignidade da pessoa?

Nenhuma dessas perguntas é apenas um problema de engenharia. Todas têm dimensões técnicas, mas nenhuma se resolve unicamente pela técnica, porque envolvem conceitos de responsabilidade, dignidade, finalidade, consciência e bem. São problemas de sempre — os que a filosofia formula desde os gregos e a teologia aprofunda desde os Padres da Igreja. A máquina que classifica um rosto não demonstrou saber o que é um rosto no sentido em que uma pessoa o reconhece; o sistema que otimiza um resultado não dá evidência de compreender o bem que supostamente persegue. Quanto mais poderosa a ferramenta, mais urgente a pergunta que ela não sabe fazer sobre si mesma — e é para essa pergunta que os filósofos foram convocados. A técnica descobriu, tarde, que precisava de alguém que soubesse pensar o fim, e não apenas o meio.

Era o que eu vinha sustentando, em outro registro, num ensaio recente sobre a convergência improvável entre um historiador secular e um Papa diante da Inteligência Artificial: a de que estamos diante de sistemas capazes de desempenho intelectual sem consciência demonstrada — cálculo sem juízo próprio, informação sem sabedoria, eficiência sem responsabilidade moral. A reportagem do Times mostra que a própria indústria, à sua maneira, começou a admiti-lo. Não por conversão filosófica: por necessidade prática. Que é, aliás, o modo como as grandes verdades costumam voltar — pela porta dos fundos da urgência.

A vingança que também é uma armadilha

Aqui, porém, o filósofo precisa fazer o que melhor sabe: suspeitar da boa notícia. Seria impróprio da própria filosofia comemorar sem examinar.

Porque há uma segunda leitura dos fatos, e ela é sóbria. Numa análise publicada no Daily Nous, o filósofo Aaron Kagan, com a colaboração de Charles Lassiter, examinou uma fotografia do mercado tirada no fim de junho de 2026: mil oitocentas e quinze vagas então abertas em onze laboratórios de Inteligência Artificial. Nenhuma exigia diploma ou credencial em filosofia. Embora cerca de um quarto mencionasse termos como ética, segurança, alinhamento ou governança, a proporção caía para perto de 5% quando se retiravam as declarações institucionais genéricas e se consideravam apenas as funções em que esse trabalho era substantivo. Kagan cunhou para o fenômeno uma imagem que ficou — no original, um “job market deepfake”, que se pode verter como uma “miragem do mercado de trabalho”: a impressão, fabricada por manchetes verdadeiras mas desproporcionais, de que se abriu uma avenida onde há apenas uma trilha estreita.

É preciso, aqui, a mesma honestidade que cobro dos outros. O levantamento não prova que filósofos sejam incapazes de concorrer às vagas — muito trabalho filosoficamente relevante aparece sob outros títulos: pesquisador de segurança, analista de políticas, especialista em governança. Prova, isso sim, que ainda não existe uma carreira empresarial ampla e reconhecível chamada “filósofo de Inteligência Artificial”. E há um contraponto que a euforia não menciona: no mesmo período em que a imprensa anunciou a volta dos filósofos, o número de diplomas de graduação em filosofia nos Estados Unidos caiu pelo terceiro ano seguido — uma retração acumulada de cerca de 15% entre 2021 e 2024.

As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e é preciso a honestidade de segurar as duas. Sim, os laboratórios contrataram pensadores de primeira linha para questões genuínas. E, não, isso não fez da filosofia um novo caminho farto de emprego. Uma dúzia de contratações de prestígio não é um mercado; é um símbolo. E os símbolos, quando lidos como promessas, enganam.

Há aqui uma tentação que a tradição sabe nomear. Quando uma empresa exibe a sua filósofa como se exibe um selo de qualidade, corre-se o risco do que hoje se chama, com feiúra, de “verniz ético” — usar a aparência da reflexão moral para ornamentar decisões que continuam a ser tomadas por outros critérios. A filosofia vira enfeite: convidada para a fotografia, dispensada da deliberação. E não há desperdício maior de um filósofo do que contratá-lo para não o ouvir.

O que a técnica ainda não comprou

Chego, então, à distinção que me parece decisiva, e que separa a vingança verdadeira da vingança de fachada.

Uma coisa é a técnica usar a filosofia — extrair dela ferramentas, vocabulários, comitês, documentos que tranquilizem o público e as autoridades. Outra, muito diferente, é a técnica submeter-se à filosofia — aceitar que há fins que ela não pode perseguir, poderes que não deve concentrar, decisões que não pode delegar a quem não responde por elas. A primeira é cosmética. A segunda seria conversão.

E a segunda não se compra com salário. Um laboratório pode contratar o melhor especialista em ética das virtudes e, ainda assim, continuar a operar pela única virtude que o mercado reconhece, que é a eficiência. Pode — para usar a imagem, e não uma descrição literal de qualquer empresa — encomendar para a sua máquina uma constituição inspirada na linguagem das virtudes e reger a si mesmo por Maquiavel. A pergunta que precisa ser levada além da reportagem é esta: os filósofos foram chamados para pensar, ou para assinar?

A resposta não está nos contratos. Está no que acontece quando o filósofo, dentro do laboratório, disser não. No dia em que a reflexão moral custar dinheiro à empresa — e ela obedecer à reflexão, e não ao dinheiro —, então sim se poderá falar em vingança dos filósofos. Até lá, o que há é uma esperança vigilante, que é o único modo adulto de ter esperança.

O velho mestre tinha razão

Encerro onde a notícia, sem querer, nos devolve.

Faz bem à alma ver o mundo redescobrir que Aristóteles é útil — ele, que definiu o homem como o animal que tem logos, palavra e razão, e que fez da prudência a virtude que aplica o princípio ao caso concreto. Faz bem ver a inteligência artificial esbarrar, no seu ponto mais alto, na necessidade daquilo que os antigos chamavam prudência — justamente a capacidade cuja existência genuína numa máquina permanece em aberto — e ir buscá-la em quem, há cerca de vinte e quatro séculos, ensinou que o caráter se forma. As humanidades clássicas — Aristóteles, Agostinho, Tomás de Aquino, Pascal — não voltam ao centro do debate por moda ou por nostalgia. Voltam porque a pergunta que elas sempre fizeram é a pergunta que a técnica, agora, não consegue evitar: para que serve tudo isto, e quem somos nós no meio disso?

A tarefa, contudo, não é humanizar a máquina. É não desumanizar o homem — não reduzir a pessoa a métrica de eficiência, a consciência a cálculo, a sabedoria a informação. Se a chamada dos filósofos ao coração da técnica servir a isso, terá sido providencial. Se servir apenas para dar boa consciência a quem não pretende mudar de rumo, terá sido mais uma astúcia da eficiência, vestida com a túnica da sabedoria.

Fico, por ora, com a lição simples que a manchete carrega sem saber: quem apostou que a técnica dispensaria o pensamento apostou contra a própria condição humana. O código pode escrever código. Mas quem pergunta se ele deveria — essa continua sendo, e continuará sendo, tarefa de gente. De preferência, de gente que leu os antigos.


Juvenil Alves Ferreira Filho Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista

Humanidades · Belo Horizonte, julho de 2026 · juvenilalves.com.br


Leituras e fontes: Benjamin Wallace, “The Revenge of the Philosophy Majors”, The New York Times, 5 de julho de 2026 · Anthropic, “Claude’s Constitution”, 22 de janeiro de 2026 · Federal Reserve Bank of New York, dados sobre o mercado de trabalho de recém-formados, atualizados em 2026 · Aaron Kagan (com Charles Lassiter), “The Philosophy Job Market Deepfake”, Daily Nous, 8 de julho de 2026 · Humanities Indicators, dados sobre diplomas de filosofia nos Estados Unidos, 2026.

Quem escreve

Juvenil Alves - jurista, teólogo, filósofo, psicanalista e escritor.

Nasceu em Abaeté, no interior de Minas Gerais. É filho de Juvenil Alves, alfaiate, e de Isabel Amélia, servente escolar. Foi nesse ambiente simples que aprendeu, desde cedo, o valor do trabalho, da disciplina, da educação e da responsabilidade.

Sua formação intelectual começou pela Filosofia  e pela Teologia e, mais tarde, encontrou no Direito o espaço emq ue essas reflexões passaram a dialogar diariamente com a vida concreta das pessoas, das empresas e das instituições. Desde então, nunca deixou de percorrer esse cruzamento.

Ao longo de mais de quatro décadas de atuação profissional, construiu uma carreira dedicada ao Direito Tributário e Empresarial, assessorando empresas, famílias e organizações em questões de alta complexidade. Paralelamente, manteve um estudo permanente das Humanidades, formando uma biblioteca construída ao longo de quase cinquenta anos de leituras, pesquisas e anotações.

Neste blog, reúne essas duas experiências. Escreve sobre Direito Tributário, Direito Empresarial, Reforma  Tributária, Filosofia do Direito, Filosofia, Teologia, Psicanálise, Liderança, Ética, Humanidades e Neurodiversidade. Não para oferecer respostas prontas, mas para investigar as ideias, os príncipios e os fundamentos que orientam as decisões humanas.

Os ensaios publicados aqui dialogam com autores clássicos e contemporâneos e procuram aproximar o pensamento filosófico da realidade jurídica, empresarial e social. Muitos deles integram projetos editoriais em desenvolvimento e servirão de base para futuras obras.

Este espaço nasceu da convicção de que a técnica, quando separada das Humanidades, empobrece o pensamento; e de que a Filosofia, a Teologia, a Psicanálise e o Direito continuam oferecendo instrumentos indispensáveis para compreender o ser humano, as instiuições e os desafios do nosso tempo.

Sem fórmulas. Sem juridiquês.

O conteúdo chega em dois formatos: leia quando quiser no blog ou ouça quando puder no podcast, disponível no Spotify.

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