Harari, Leão XIV e o encontro improvável diante da Inteligência Artificial
Por Juvenil Alves Ferreira Filho — Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista
Humanidades · Julho de 2026
Prólogo — O encontro que parecia impossível
Durante séculos, a tradição religiosa e o secularismo moderno pareceram caminhos que não se cruzam. Um funda o mundo sobre a revelação; o outro, sobre a dúvida metódica. Um vê no homem a imagem de um Criador; o outro, o resultado provisório de forças cegas. Habituamo-nos a tratá-los como paralelas: podem correr lado a lado por toda a extensão da história, observar-se de longe, discutir, mas jamais se tocar.
Há encontros de ideias, porém, que só se tornam possíveis quando a história produz um perigo grande o bastante para obrigar adversários filosóficos a olhar para o mesmo abismo.
Foi o que aconteceu diante da Inteligência Artificial.
De um lado, Yuval Noah Harari, historiador israelense, um dos representantes mais lúcidos de uma antropologia inteiramente secular. Do outro, o Papa Leão XIV, que em sua primeira encíclica, a Magnifica Humanitas, colocou a salvaguarda da pessoa humana no centro do magistério da Igreja para a era das máquinas. Dois homens que discordam sobre quase tudo o que é essencial — a origem da vida, a natureza da alma, o sentido do cosmos, a existência do livre-arbítrio. Se os sentássemos à mesma mesa para discutir o que é o homem, o desacordo seria completo.
E, no entanto, quando o assunto passa a ser a máquina que aprende, decide e escreve, os dois começam a dizer, com vocabulários distintos, a mesma coisa. Este ensaio é sobre esse ponto de contato — e sobre o que ele revela a respeito de nós.
I. Harari: o homem como animal narrativo e hackeável
Para medir a distância que separa os dois pensadores, é preciso primeiro reconstruir a visão de Harari em seus próprios termos, sem caricatura.
Harari não escreve como historiador de arquivo. Em Sapiens, ele propôs uma explicação para o domínio humano sobre o planeta que dispensa qualquer noção de propósito. O Homo sapiens não venceu por ser o mais forte, nem por ter, individualmente, o maior cérebro. Venceu porque foi a única espécie capaz de cooperar em grande número e de forma flexível — e essa cooperação nasceu de uma capacidade singular: a de inventar e acreditar em ficções compartilhadas.
Deuses, nações, direitos, dinheiro, empresas: para Harari, nada disso existe no mesmo sentido em que existe uma pedra ou um rio. São construções que só têm força porque milhões de pessoas concordam, tacitamente, em tratá-las como reais. A religião, nessa leitura, não é o registro de uma revelação, mas a mais duradoura das tecnologias sociais — o que permitiu que estranhos confiassem uns nos outros e erguessem impérios.
Em Homo Deus, Harari radicaliza. Se o humano é um arranjo de processos bioquímicos moldados pela seleção natural, então aquilo que chamamos de vontade livre talvez seja apenas o nome que damos a reações que não escolhemos. Daí a sua expressão mais desconfortável: somos “animais hackeáveis”. No momento em que um sistema conhecer os nossos mecanismos internos melhor do que nós mesmos — cruzando o que o corpo revela com o que o comportamento denuncia —, ele poderá antecipar e induzir as nossas decisões.
Em Nexus, o foco se desloca da biologia para a informação. A história humana é relida como uma longa cadeia de redes que transmitem, filtram e distorcem aquilo que uma sociedade toma por verdadeiro. E é aqui que a Inteligência Artificial aparece com um estatuto novo. Para Harari, ela não é mais uma ferramenta na linhagem da roda, da imprensa ou da bomba. Todas essas exigiam uma mão e uma intenção humanas para agir. A IA, pela primeira vez, é capaz de tomar decisões e de gerar narrativas por conta própria. A capacidade de processar informação e de produzir sentido separou-se, enfim, da consciência que sempre a acompanhou.
Harari não fala como profeta. Fala como alguém que descreve um sistema e vê, na sua lógica interna, um risco: o de que a espécie entregue, por conveniência, o comando das suas próprias narrativas a agentes que não partilham da sua experiência.
II. Leão XIV: a pessoa como imagem de Deus diante da máquina
No extremo oposto está o Papa Leão XIV, e é preciso apresentá-lo também com fidelidade ao que efetivamente escreveu.
Robert Francis Prevost, nascido em Chicago e formado em matemática, frade agostiniano e por muitos anos missionário no Peru, escolheu o nome Leão em referência deliberada a Leão XIII, autor, em 1891, da Rerum Novarum — a encíclica que fundou a doutrina social moderna da Igreja diante da Revolução Industrial. A escolha do nome foi, ela própria, um argumento: assim como o antecessor enfrentou a questão social do trabalho fabril, o novo Leão se propõe a enfrentar a questão social do nosso tempo, que ele identifica na revolução digital. A Magnifica Humanitas não abalou a geopolítica; reposicionou o magistério social da Igreja diante da Inteligência Artificial.
A encíclica trata da salvaguarda da pessoa humana na era da IA. E seu ponto de partida é o oposto exato do de Harari. Onde o historiador vê um animal que inventou ficções úteis, o Papa vê a pessoa como imago Dei — criada à imagem de Deus, e por isso dotada de uma dignidade que não deriva da sua utilidade, do seu rendimento ou da sua capacidade de processar dados. Essa dignidade é igual em todos e não se negocia.
Na herança agostiniana que forma o Papa, o homem tem uma interioridade que nenhum cálculo finito preenche, e uma liberdade que é a condição mesma da vida moral. Aquilo que certas correntes tecnológicas tratam como falha a corrigir — o limite, a fragilidade, o luto, o arrependimento — é, nessa visão, o terreno próprio da experiência humana, não um defeito de fabricação.
Daí uma das palavras mais fortes da encíclica, e que o próprio Papa reconheceu ser forte: é preciso “desarmar” a Inteligência Artificial. Ele mesmo esclareceu o sentido, para que não houvesse mal-entendido: desarmar não significa recusar a tecnologia, mas impedir que ela domine a humanidade. Libertá-la, nas palavras do documento, das lógicas que a transformam em instrumento de dominação, exclusão ou morte, para que sirva ao bem comum. Não é o gesto de quem teme a máquina. É o gesto de quem se recusa a entregar a ela o lugar que pertence à pessoa.
III. O abismo entre os dois
Antes de mostrar onde se encontram, é honesto medir a distância que os separa. Ela é real e não deve ser suavizada.
O primeiro desacordo é sobre a liberdade. Para Harari, o livre-arbítrio é, na melhor das hipóteses, uma descrição imprecisa de processos que não controlamos. Para Leão XIV, a liberdade moral é o núcleo da pessoa; sem ela, não há responsabilidade, não há culpa, não há amor — a vida humana se reduziria a um mecanismo.
O segundo é sobre o sentido. O universo de Harari não tem direção: é estatístico, indiferente, e seguiria o seu curso caso a humanidade se extinguisse. A história de Leão XIV tem um destino; caminha para algo, e o homem é parte de um propósito que o excede.
O terceiro é sobre o lugar do humano. Pela lógica evolutiva de Harari, não há razão objetiva para considerar o Homo sapiens superior a outras formas de inteligência que venham a surgir, inclusive as inorgânicas; a nossa eventual substituição seria apenas mais um capítulo. Leão XIV afirma o contrário — não uma “superioridade” no sentido bruto, mas a primazia da pessoa humana sobre a técnica: a máquina é obra das mãos do homem e deve servi-lo, jamais ocupar o seu lugar.
São três divergências de fundo, e não de detalhe. Um parte de baixo — da biologia, da evolução, das redes de informação, da vulnerabilidade do animal humano. O outro parte de cima — da criação, da consciência, da dignidade da pessoa. Tudo indicava que suas conclusões sobre a Inteligência Artificial fossem igualmente opostas.
Não são.
IV. A convergência: quando a técnica deixa de ser ferramenta
O que impressiona não é que dois pensadores se preocupem com a IA — quase todos se preocupam. É que dois pensadores tão distantes cheguem aos mesmos quatro pontos, e quase pela mesma ordem de gravidade.
A. A delegação da decisão humana à máquina
Ambos recusam a frase que serve de anestésico ao debate público: a de que a tecnologia é neutra.
Harari argumenta que os sistemas de IA já produzem decisões cujo caminho os próprios criadores não conseguem reconstruir — a opacidade da chamada caixa-preta. O risco que ele descreve não é a rebelião da máquina, mas a abdicação do homem: seduzidos pela conveniência, transferimos a sistemas que não entendemos escolhas que definem vidas — quem recebe crédito, quem é investigado, quem é contratado. A cada delegação, um pouco da nossa agência migra para fora de nós.
Leão XIV chega ao mesmo alerta pela outra encosta. A encíclica afirma que a tecnologia não é neutra: ela assume o rosto de quem a concebe, financia, regula e utiliza. Delegar o discernimento moral à máquina é, para o Papa, uma abdicação — porque a máquina não tem consciência, não se arrepende, não conhece o peso de uma vida. O que Harari descreve como perda de agência, o Papa nomeia como renúncia à responsabilidade. Chegam ao mesmo lugar: há decisões que perdem o seu sentido quando deixam de ser humanas.
Onde ainda diferem: Harari teme a irrelevância; Leão XIV teme o pecado da omissão. O primeiro fala em perda de controle; o segundo, em perda de alma.
B. As armas autônomas e a decisão letal
É no terreno militar que as duas vozes soam mais próximas.
Harari é um crítico contumaz das armas autônomas. Quando um algoritmo decide, sem freio humano, quem vive e quem morre, a velocidade do conflito ultrapassa a capacidade humana de deliberar; um erro estatístico pode desencadear uma escalada em segundos, cedo demais para que alguém interrompa. Automatizar a morte é remover do ato mais grave a hesitação que o torna humano.
A encíclica é, nesse ponto, categórica. Leão XIV escreve que não existe algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável, e trata como ultrapassada a própria doutrina clássica da guerra justa diante de conflitos conduzidos por máquinas. Uma arma que decide sozinha rebaixa o limiar moral do recurso à violência, tornando o conflito mais rápido e mais impessoal.
Aqui a convergência é quase literal: o gatilho da morte não pode ser entregue ao cálculo. O ser humano precisa permanecer no controle da decisão letal, com todo o peso que ela carrega. Um chega a isso pela sobrevivência da espécie; o outro, pela santidade da vida. A conclusão é a mesma.
C. A concentração de dados, trabalho e poder econômico
A terceira convergência é sobre quem fica de fora.
Harari alerta há anos para dois fenômenos ligados: a formação de uma vasta camada de pessoas economicamente deslocadas pela automação de funções cognitivas, e a concentração, em poucas empresas, do comportamento e da biometria de toda a humanidade — uma espécie de colonialismo de dados, em que regiões inteiras se tornam meras fornecedoras da matéria-prima que alimenta os modelos.
Leão XIV, formado na experiência das periferias, chega ao mesmo diagnóstico pela via da justiça social. A Magnifica Humanitas denuncia que a adoção puramente comercial da IA tende a ampliar as desigualdades e a desumanizar as relações. E o faz com uma imagem que nenhum relatório técnico ousaria: a das crianças e adolescentes que trabalham em condições perigosas na extração das terras raras necessárias aos processadores — corpos consumidos, escreve o Papa, para que o fluxo do cálculo não se interrompa. Onde Harari fala em classe deslocada, o Papa fala na dignidade do trabalho e no clamor dos que não têm voz quando as decisões são tomadas.
A diferença de tom é reveladora. Harari descreve um processo; Leão XIV acusa uma injustiça. Mas ambos apontam para o mesmo risco: uma tecnologia que, deixada ao controle de poucos, esmaga os mais vulneráveis. E não são vozes isoladas: em julho de 2026, mais de duzentos economistas e pesquisadores — entre eles quinze laureados com o Nobel — subscreveram um alerta segundo o qual a transformação econômica trazida pela IA pode superar a da Revolução Industrial em escala e velocidade, exigindo respostas urgentes contra a demissão em massa e a concentração de renda.1 O dado é notável: o mesmo temor que a encíclica formula em linguagem moral encontra, no campo secular e técnico, uma confirmação empírica.
D. A erosão da verdade e a captura da linguagem
O ponto mais fundo de contato é também o mais sutil. A civilização não se sustenta apenas sobre coisas materiais; sustenta-se sobre a linguagem — sobre a possibilidade de dizer o que é verdadeiro e ser compreendido.
Harari mostra como a IA generativa, ao dominar a linguagem, adquire a capacidade de fabricar realidades: imagens falsas indistinguíveis das verdadeiras, discursos sob medida, uma névoa em que o cidadão comum já não separa o real do sintético. E observa o mecanismo que agrava tudo: sistemas otimizados para prender a atenção descobrem que a indignação e o medo são as iscas mais eficazes. O resultado é a erosão da base comum de fatos sem a qual nenhuma deliberação coletiva é possível.
Leão XIV aborda o mesmo pesadelo com preocupação pastoral. Ele teme uma cultura da desinformação e da polarização, e teme, sobretudo, que máquinas capazes de responder qualquer coisa em segundos apaguem nas novas gerações o desejo de fazer as grandes perguntas — que a facilidade da resposta pronta seque a inquietude que move o espírito. Para um Papa agostiniano, a verdade liberta e o simulacro aprisiona.
Um teme o colapso da democracia; o outro, a morte da vida interior. E, no entanto, ambos defendem a mesma coisa: que a linguagem não se reduza a um instrumento de captura da atenção, porque nela está o que temos de mais próprio.
V. A inteligência sem consciência
Por que dois homens que discordam sobre a origem e o destino do humano concordam com tanta precisão sobre o seu perigo?
Porque o que a Inteligência Artificial coloca diante de nós não é, no fundo, uma questão sobre máquinas. É uma questão sobre uma distinção que a modernidade, ocupada em celebrar o poder de calcular, havia esquecido — e que agora reaparece com toda a força: inteligência não é consciência, cálculo não é juízo, informação não é sabedoria, eficiência não é responsabilidade.
Essa é a categoria que o encontro entre Harari e Leão XIV permite nomear: a inteligência sem consciência.
A máquina pode calcular sem responder por aquilo que calcula. Pode decidir sem arrepender-se da decisão. Pode classificar um rosto sem jamais reconhecê-lo. Pode otimizar um resultado sem amar nada, nem ninguém. Pode produzir linguagem impecável sem estar em busca da verdade. Pode ampliar o poder de quem a possui sem carregar um grama de culpa pelo que esse poder faz.
Toda a inquietação de Harari e toda a gravidade de Leão XIV podem ser traduzidas nessa fórmula. O historiador secular a alcança pela biologia: a consciência foi, na longa história da vida, o que sempre acompanhou a inteligência — e agora, pela primeira vez, elas se separam. O Papa a alcança pela teologia: a consciência é o lugar da pessoa, e uma inteligência que a dispensa não é uma pessoa maior, é um poder sem sujeito.
Não é a inteligência da máquina que assusta os dois. É a sua consciência ausente. Uma potência de decidir sem ninguém, dentro, que responda pela decisão.
VI. O que essa convergência exige de nós
Um encontro dessa natureza não é uma curiosidade intelectual. É uma exigência.
Quando dois pensadores partem de pressupostos incompatíveis e, estudando o mesmo problema, chegam de modo independente à mesma conclusão, não se prova com isso que a conclusão seja certa — a lógica não permite tanto. Mas ganha-se uma indicação séria de que o problema que descreveram é real, e não o efeito de uma ideologia particular. Um pensador secular e um pontífice não têm interesse comum a defender. Se veem a mesma sombra, é razoável suspeitar que a sombra existe.
O que essa convergência exige de nós é concreto, e cada um dos quatro pontos aponta um dever.
Que decisões capazes de marcar uma vida não sejam entregues, sem recurso e sem rosto, a sistemas que ninguém consegue explicar. Que a decisão letal permaneça, em qualquer circunstância, sob responsabilidade humana. Que o poder de calcular o mundo não se concentre a ponto de transformar a maioria em fornecedora silenciosa de dados e a minoria em dona do sentido. E que a linguagem — o tecido em que pensamos e nos reconhecemos — não seja reduzida a isca de atenção.
Nenhuma dessas exigências depende de se aceitar a antropologia de Harari ou a teologia de Leão XIV. Elas se sustentam no ponto em que os dois se tocam: o de que a técnica precisa conservar o homem como medida. No instante em que o perde, deixa de ser instrumento e se torna poder — e um poder que não responde a ninguém é a definição mais antiga da tirania.
Coda — O abismo e o rosto
A máquina calcula. A pessoa responde. A máquina processa. A pessoa se responsabiliza. A máquina simula linguagem. A pessoa busca a verdade.
Se Harari e Leão XIV, partindo de montanhas tão distantes, veem o mesmo abismo, talvez seja porque o abismo já não pertence a uma religião, a uma ideologia ou a uma escola filosófica. Pertence ao humano enquanto tal.
E a pergunta que ele nos devolve é simples e terrível: ainda queremos continuar humanos?
Este ensaio tem um companheiro: “A vingança dos filósofos“, sobre o momento em que a própria indústria da Inteligência Artificial foi bater à porta de Aristóteles.
Nota
O alerta, divulgado em julho de 2026 e organizado pelo economista Anton Korinek (Universidade da Virgínia), foi subscrito por mais de duzentos economistas e pesquisadores, entre os quais quinze laureados com o Prêmio Nobel, e por nomes ligados às próprias empresas de IA. Uma síntese em português está disponível na coluna IAgora?, do UOL Tilt: Temos poucos anos: o alerta radical de 200 economistas sobre o impacto da IA.
Juvenil Alves Ferreira Filho
Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista
Humanidades · Belo Horizonte, julho de 2026 · juvenilalves.com.br