O vício do sofrimento

Ensaio filosófico sobre o vício do sofrimento — Freud, Lacan, Hegel e Viktor Frankl.
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Eugênia não reclama. Não é que ela não sofra — é que ela aprendeu, em alguma fibra que não se aprende em livros, que o sofrimento não precisa de cultivo para existir, e que cultivá-lo não o diminui.

Ela é armênia. Filha de uma família que veio ao Brasil depois do genocídio de 1915 — um dos crimes mais metódicos do século XX. Vieram sem muito, começaram do começo, e foram construindo com uma tenacidade que não é otimismo ingênuo nem negação da dor. É outra coisa: uma recusa em deixar a dor ocupar o lugar do condutor. Minha esposa e companheira de jornada, tenho observado essa diferença com admiração e, devo admitir, com certa desconfortável clareza sobre mim mesmo.

Ela me fala, às vezes, do vício do sofrimento. E quando ela fala, eu me reconheço.

Escrevo este texto a partir desse reconhecimento. Não como quem já saiu do problema, mas como quem o identificou — o que, na ordem das coisas, é o primeiro passo.

Existe um tipo de sofrimento que não precisa de causa proporcional. Qualquer fricção serve: o trânsito, a reunião que correu mal, a frase que o outro disse de um jeito que não convinha, a injustiça antiga que a memória não larga. Quem tem o vício conhece o mecanismo: a mente vai buscar o que dói, mesmo quando não há urgência, mesmo quando o dia poderia ser outro.

Não se trata de fraqueza no sentido vulgar. Trata-se de um hábito psíquico com raízes fundas, mecanismo próprio — e que a psicanálise, a neurociência e a tradição espiritual descreveram, cada qual com sua linguagem, antes de nós sabermos nomear.

Freud foi um dos primeiros a levar esse paradoxo a sério. Em 1920, depois de décadas de clínica, ele escreveu Além do Princípio do Prazer para tratar de uma contradição que não conseguia ignorar: por que há pessoas que repetem, compulsivamente, aquilo que as faz sofrer? Soldados que revivem o trauma nos sonhos. Pacientes que reconstroem os mesmos vínculos destrutivos. Crianças que encenam a partida da mãe no brinquedo, vezes sem conta. Ele chamou esse fenômeno de compulsão à repetição — e a sua conclusão foi perturbadora: há algo no psiquismo que pode encontrar, na experiência dolorosa, uma forma obscura de equilíbrio. O sujeito não escolhe conscientemente a dor. Mas a reedita porque algo nele precisa dela, porque encontrou nela um modo de funcionar que, por mais destrutivo que seja, tem a vantagem de ser conhecido. A mudança, nessa economia estranha, é mais aterrorizante do que a dor.

Lacan deu um passo a mais. O que ele chamou de gozo não é o prazer que busca equilíbrio, mas a satisfação paradoxal encontrada exatamente onde dói. Há casos em que a insatisfação permanente cumpre função estrutural: mantém o desejo em movimento e protege o sujeito de enfrentar o que encontraria se algum dia parasse. A queixa pode ser, ela mesma, aquilo de que o sujeito não quer abrir mão. Isso não é uma sentença sobre quem reclama — é uma estrutura possível, que a clínica reconhece, e que ilumina algo que o senso comum não alcança.

Hegel havia descrito o mesmo, com palavras diferentes: o sujeito que denuncia a injustiça do mundo de uma posição de pureza imaculada, sem jamais reconhecer que sua própria inércia alimenta aquilo de que se queixa. Chamou isso de Bela Alma. Lacan fez disso diagnóstico clínico. O que torna o conceito perturbador não é julgamento moral — é espelho. A posição de vítima pura pode ser, ela mesma, uma forma de evitar o encontro com a própria responsabilidade.

O cérebro, por sua vez, colabora com esse mecanismo de um modo que não é fácil de reverter. O ser humano foi moldado para prestar mais atenção ao negativo do que ao positivo — detectar o predador importava mais do que saborear a fruta. Esse viés tem sentido evolutivo. O problema surge quando ele é deliberadamente alimentado. Pesquisas sobre ruminação mostram que revirar mentalmente experiências dolorosas ativa e reforça os circuitos associados à ameaça. A neuroplasticidade, que deveria ser um recurso de adaptação, trabalha então contra o sujeito: o hábito da queixa reconfigura literalmente as redes que processam a experiência. O estado de alerta crônico eleva o cortisol — e o excesso prolongado de cortisol está associado a alterações no hipocampo, a região que regula memória e resposta emocional. O reclamante crônico não cultiva apenas um mau hábito. Remodela o substrato pelo qual poderia, um dia, sair do ciclo.

São Tomás de Aquino, na Summa Theologiae, descreveu algo parecido com uma precisão que surpreende quem o lê pela primeira vez. Ele chamou de acídia não a preguiça comum, como o senso comum simplificou, mas uma tristeza específica: a tristeza diante do bem espiritual. O acídico não é quem não quer trabalhar. É quem experimenta fastio diante da bondade, irritação diante do que é elevado, incapacidade de repousar no que é bom. O mundo pesa — não porque seja mau, mas porque o bem exige algo que ele não quer dar. Das entranhas dessa tristeza nascem a dispersão mental, a fuga para prazeres fúteis e a amargura ressentida contra a existência — o descontentamento permanente sem causa suficiente.

Tomás faz uma distinção que importa e que eu não quero passar por cima: ele não condena o lamento. O Livro de Jó está cheio de protesto. Os Salmos conhecem o clamor de quem sofre e pergunta onde está Deus. Essa tradição impede que toda manifestação de dor seja lida como fraqueza moral. O que Tomás examina é outra coisa — não a dor inevitável, não o lamento sincero, mas a tristeza que não nasce da perda, e sim da recusa em aceitar o que foi recebido. E a murmuração que ele condena não é a queixa legítima: é o hábito de corroer vínculos com reclamações que não buscam solução. Age por dentro, envenenando a amizade, desfazendo a coesão comunitária com a constância gota a gota da goteira.

Viktor Frankl chegou ao mesmo território por um caminho que não poderia ser mais diferente. Ele sobreviveu a quatro campos de concentração nazistas, e o que observou nos prisioneiros foi que os que mantinham algum propósito — uma tarefa, uma pessoa amada, uma obra por concluir — resistiam de uma forma que a biologia sozinha não explicava. Seu argumento não era que o sentido basta para superar qualquer coisa — a fome, a violência, as condições materiais têm peso próprio, e ele sabia disso melhor do que ninguém. Era que o sentido pode sustentar o passo seguinte quando tudo o mais desaba. Quem perde o porquê transforma qualquer fricção cotidiana em catástrofe existencial.

Penso que Eugênia sabe isso — não pela teoria, mas pela necessidade. O que ela carrega é o que ela carrega: uma trajetória singular, moldada por uma história que não cabe em generalizações. Não estou dizendo que todos os armênios são assim, nem que o genocídio produz resistência de forma automática — há quem carregue esse peso de outras formas, há silêncios que falam de modos que eu não alcançaria. O que posso dizer é o que observo nela: que a dor não virou identidade, que o sofrimento não ocupou o centro, que a vida foi construída apesar dele — e talvez, em alguma medida, por causa da decisão de não deixar que ele dirigisse.

Ela me ensina isso. Não em forma de lição. Em forma de presença.

Quem reclama cronicamente obtém vantagens concretas que jamais reconhecerá: atenção, dispensa de responsabilidades, controle sobre os outros pela indução de culpa, e a posição confortável de quem atribui o fracasso sempre às circunstâncias. A psicanálise chama isso de ganho secundário — e a palavra que importa é secundário: não é o que o sujeito busca conscientemente. É o benefício que o psiquismo aprende a encontrar, sem que a mente saiba que está buscando. Reconhecer isso não é acusar quem sofre de manipulação. É abrir a possibilidade de uma saída que o autoengano impede.

Não há saída fácil. Qualquer promessa contrária é desonesta.

A saída começa pelo reconhecimento — e esse é, em si mesmo, o passo mais difícil, porque toda a estrutura do sofrimento crônico serve exatamente para que o sujeito jamais precise assumi-lo. Enquanto a culpa for do mundo, do chefe, do governo, do destino, do cônjuge, não há nada a fazer. E não fazer nada é, precisamente, o que o vício exige para sobreviver.

A tradição monástica que Tomás sistematizou propunha a stabilitas como antídoto à acídia: a permanência fiel no lugar de dever, o cumprimento do que precisa ser feito, sem esperar que a vontade apareça antes da ação. Porque a vontade vem depois — não antes. A espera pela disposição certa é, frequentemente, outra forma de adiar.

Frankl não pedia aos sobreviventes que esquecessem a dor. Pedia que encontrassem, dentro dela, um porquê capaz de sustentar o passo seguinte.

E Eugênia, sem citar Frankl nem Tomás, faz a mesma coisa todos os dias: carrega o que é seu, segue, e quando tropeça, não transforma o tropeço em identidade.

Eu escrevo este texto, em parte, para aprender com ela.

Obras mobilizadas

Sigmund Freud, Além do Princípio do Prazer (1920). Sigmund Freud, O Problema Econômico do Masoquismo (1924). Jacques Lacan, O Seminário, Livro VII: A Ética da Psicanálise (1959-1960). G.W.F. Hegel, Fenomenologia do Espírito (1807). Viktor Frankl, Em Busca de Sentido (1946). São Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 35 (De Acedia). Livro de Jó; Salmos (Bíblia Hebraica).

Credencial

Juvenil Alves é advogado, ensaísta e ciclista, com formação no Seminário Santo Antônio e na PUC-MG, onde se dedicou à filosofia e à teologia. Acompanha o magistério e o pensamento filosófico desde a formação. Escreve sobre história, poder e condição humana em juvenilalves.com.br. Pedala quando não está escrevendo.

Quem escreve

Juvenil Alves - jurista, teólogo, filósofo, psicanalista e escritor.

Nasceu em Abaeté, no interior de Minas Gerais. É filho de Juvenil Alves, alfaiate, e de Isabel Amélia, servente escolar. Foi nesse ambiente simples que aprendeu, desde cedo, o valor do trabalho, da disciplina, da educação e da responsabilidade.

Sua formação intelectual começou pela Filosofia  e pela Teologia e, mais tarde, encontrou no Direito o espaço emq ue essas reflexões passaram a dialogar diariamente com a vida concreta das pessoas, das empresas e das instituições. Desde então, nunca deixou de percorrer esse cruzamento.

Ao longo de mais de quatro décadas de atuação profissional, construiu uma carreira dedicada ao Direito Tributário e Empresarial, assessorando empresas, famílias e organizações em questões de alta complexidade. Paralelamente, manteve um estudo permanente das Humanidades, formando uma biblioteca construída ao longo de quase cinquenta anos de leituras, pesquisas e anotações.

Neste blog, reúne essas duas experiências. Escreve sobre Direito Tributário, Direito Empresarial, Reforma  Tributária, Filosofia do Direito, Filosofia, Teologia, Psicanálise, Liderança, Ética, Humanidades e Neurodiversidade. Não para oferecer respostas prontas, mas para investigar as ideias, os príncipios e os fundamentos que orientam as decisões humanas.

Os ensaios publicados aqui dialogam com autores clássicos e contemporâneos e procuram aproximar o pensamento filosófico da realidade jurídica, empresarial e social. Muitos deles integram projetos editoriais em desenvolvimento e servirão de base para futuras obras.

Este espaço nasceu da convicção de que a técnica, quando separada das Humanidades, empobrece o pensamento; e de que a Filosofia, a Teologia, a Psicanálise e o Direito continuam oferecendo instrumentos indispensáveis para compreender o ser humano, as instiuições e os desafios do nosso tempo.

Sem fórmulas. Sem juridiquês.

O conteúdo chega em dois formatos: leia quando quiser no blog ou ouça quando puder no podcast, disponível no Spotify.

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