A Marcha da Insensatez: sobre a cegueira que os homens escolhem

Juvenil Alves — A Marcha da Insensatez — série de ensaios sobre história, poder e decisão.
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Por Juvenil Alves | Série A Marcha da Insensatez | Abertura

Em poucas palavras: A partir de um livro que me acompanha há quase quarenta anos, inauguro uma série de ensaios sobre história, teologia, filosofia, Vaticano e política brasileira e mundial. O fio condutor é uma pergunta que nenhuma das disciplinas que estudei conseguiu responder sozinha: por que pessoas, sociedades e instituições persistem em escolhas que comprometem aquilo que pretendiam preservar?

Um livro que não sai da minha cabeça

Há livros que iluminam. Há livros que perturbam. E há livros raros — muito raros — que fazem as duas coisas ao mesmo tempo, e que continuam fazendo, anos depois, cada vez que você os reabre.

The March of Folly, de Barbara Tuchman, é desse terceiro tipo.

Cheguei a ele por um caminho que tem a graça dos acasos: no final dos anos 1980, num seminário em Contagem, um colega citou o título de passagem, quase como ornamento de raciocínio. Saí dali apenas com aquele título anotado. Dias depois, fui à Livraria Del Rey, em Belo Horizonte, e comprei o livro. Não o larguei até o fim. E ao fechar a última página, fiquei imóvel por algum tempo com uma sensação que levaria décadas aprendendo a nomear com precisão — não era apenas o espanto intelectual de quem leu algo novo. Era o reconhecimento. Era a sensação de que um padrão que eu observava no mundo mas não conseguia ainda formular ganhava, naquelas páginas, o seu nome correto.

Esse exemplar está na minha biblioteca até hoje. Quase quarenta anos depois, a sensação não passou. Passou o tempo; o espanto ficou.

É por isso que inauguro esta série.

Presumo que você já a conheça — mas deixe-me lhe apresentar a minha Tuchman

Barbara Tuchman nasceu em Nova York, em 30 de janeiro de 1912, numa família de dimensões históricas — literalmente. Seu avô materno, Henry Morgenthau Sr., foi embaixador dos Estados Unidos no Império Otomano entre 1913 e 1916. Seu pai, Maurice Wertheim, era banqueiro, proprietário da revista The Nation e presidente do American Jewish Committee. Barbara cresceu num ambiente onde o poder, a política e as ideias não eram abstrações — eram o tecido do cotidiano.

Formou-se em História e Literatura pelo Radcliffe College em 1933. Trabalhou como pesquisadora, cobriu a Guerra Civil Espanhola como correspondente, passou meses no Japão e na China. Durante a Segunda Guerra, integrou o Office of War Information dos Estados Unidos. E foi construindo, ao longo de décadas, a obra histórica que a tornaria uma das vozes mais lidas do século XX.

Sua trajetória não seguiu o percurso habitual de uma carreira universitária. Isso não a afastou da pesquisa; deu à sua escrita uma forma própria de reunir investigação documental e narrativa destinada a leitores que não eram especialistas. Ela própria atribuía valor formativo decisivo à pesquisa que fizera ainda na graduação, nas bibliotecas de Radcliffe e Harvard. O que esse percurso lhe deu foi liberdade — liberdade para ver o padrão. Não o evento isolado. Não o documento avulso. O padrão que atravessa séculos e repete a mesma arquitetura de escolhas mal feitas.

The Guns of August, publicado em 1962 e premiado com o Pulitzer em 1963, é uma reconstrução do primeiro mês da Primeira Guerra Mundial e dos antecedentes que ajudam a explicá-la — um livro que influenciou a reflexão de Kennedy durante a Crise dos Mísseis. O segundo Pulitzer veio em 1972, por Stilwell and the American Experience in China. A Distant Mirror (1978), uma imersão no século XIV europeu — a pestilência, o colapso das instituições, a cegueira dos que governavam enquanto o mundo desmoronava — é, a meu ver, o ensaio preparatório para o que viria depois. A tese estava lá, ainda não nomeada com precisão, mas já pulsando em cada capítulo.

The March of Folly saiu em 1984. Nesse livro, os papas do Renascimento têm lugar central — e isso importa para o que esta série pretende fazer, como veremos adiante. Tuchman morreu em 6 de fevereiro de 1989, em Greenwich, Connecticut, aos 77 anos. Não viu o fim da Guerra Fria. Não viu o colapso soviético, que ela teria sido capaz de analisar com uma frieza incomparável.

Tuchman não era uma historiadora de historiadores: era uma historiadora de pessoas. Uma historiadora que tornava o passado compreensível para milhões de leitores que nunca frequentariam um arquivo. Mas acrescentaria algo: Tuchman era também uma historiadora de líderes que precisavam ser lembrados do que já sabiam. Os livros dela não revelam o que estava escondido. Revelam o que estava visível e foi ignorado. Essa é a distinção que importa. E é por isso que The March of Folly não é apenas história. É um espelho.

Há um detalhe que não consigo mencionar sem uma nota pessoal. Sou mineiro, casado numa família armênia — e tenho netos armênios. O Genocídio Armênio não é, para mim, uma nota de rodapé histórica. É algo que pulsa na memória de quem amo. E foi exatamente esse avô de Barbara Tuchman — Henry Morgenthau Sr., embaixador americano em Constantinopla entre 1913 e 1916 — quem confrontou diretamente Talaat Pasha, enviou telegramas ao Departamento de Estado descrevendo uma “campanha de extermínio racial”, e publicou, em 1918, Ambassador Morgenthau’s Story, no qual denunciou as deportações e os massacres dos armênios. Ele organizou ajuda humanitária. Ele documentou. Ele denunciou. O livro que comprei numa tarde em Belo Horizonte carrega, na própria família de sua autora, uma história que envolve povos que aprendi a amar de perto. Isso não me obriga a nada — mas me move. E move, em parte, esta série.

O que ela descobriu — e por que ainda dói

Em 1984, Tuchman publicou The March of Folly: From Troy to Vietnam. A tese era de uma simplicidade devastadora.

Ao longo de toda a história registrada, governos, impérios, instituições e líderes poderosos tomaram decisões visivelmente contrárias aos seus próprios interesses. Não por ignorância — tinham a informação. Não por incapacidade — tinham os meios. Não por fatalidade — tinham alternativas. Mas porque escolheram, deliberada ou inconscientemente, não ver o que estava diante deles. Porque preferiram a narrativa que lhes convinha à realidade que os desafiava. Porque o peso do ego, do prestígio, do momentum institucional e do medo de admitir o erro pesou mais do que a razão.

Tuchman chamou isso de folly — insensatez. E a sua definição é de uma precisão quase cirúrgica.

Para que um erro histórico se qualifique como insensatez no sentido que ela propõe — e não como simples incompetência, má sorte ou tragédia do destino — três condições precisam ser atendidas simultaneamente.

A primeira: o erro precisa ter sido reconhecido como tal por pessoas lúcidas da própria época. Não estamos falando de julgamento retroativo — o historiador de hoje lançando sobre o passado o conforto da retrospectiva. Estamos falando do contemporâneo que viveu no mesmo tempo, que teve acesso às mesmas informações, que respirou o mesmo ar — e que, mesmo assim, avisou. Havia sempre um Nícias alertando Atenas sobre a expedição à Sicília. Havia um Burke discursando sobre as colônias americanas. Havia um engenheiro enviando o memorando que nunca foi lido. A questão não era a ausência de diagnóstico. Era a recusa ativa em ouvi-lo.

A segunda: havia alternativa viável. O caminho destrutivo não era a única possibilidade disponível. Não basta reconhecer, depois do desastre, que outra escolha teria sido melhor; é preciso demonstrar que outro curso de ação era possível nas circunstâncias daquele tempo. É essa possibilidade de agir de maneira diferente que torna a persistência no erro tão perturbadora.

A terceira: não foi a loucura isolada de um único homem. Foi uma política sustentada — mantida ao longo do tempo, por uma instituição, por uma sucessão de líderes que herdaram o erro e preferiram preservá-lo a corrigi-lo. Porque corrigi-lo implicaria admiti-lo. E admiti-lo implicaria tudo o que o poder, em qualquer época, menos suporta: a humilhação pública da revisão.

A insensatez de Tuchman não é um acidente. É um sistema. É uma arquitetura de erro.

O que uma civilização faz com aquilo que sabe

A pergunta que esse livro me deixou não diz respeito apenas à inteligência de quem governa. Diz respeito ao destino do conhecimento dentro de uma sociedade. O que fazemos com aquilo que sabemos quando esse saber contraria uma ambição, ameaça uma posição ou exige a revisão de uma crença à qual dedicamos a vida?

Quero investigar essa passagem difícil entre reconhecer uma razão e permitir que ela modifique uma conduta. Não me basta saber que uma advertência existiu. Interessa-me compreender como foi recebida, quem tinha condições de agir a partir dela e que forças tornaram mais conveniente afastá-la.

A memória também será parte dessa investigação. Uma sociedade pode conservar o relato de um desastre sem reconhecer a semelhança entre suas causas e as justificativas que emprega no presente? Pode honrar a coragem de quem discordou no passado enquanto exige silêncio daqueles que discordam agora?

É nesse espaço entre a memória celebrada e a experiência efetivamente examinada que pretendo situar parte destes ensaios. Não para afirmar que nada aprendemos, mas para compreender por que algumas aprendizagens deixam de orientar justamente as decisões nas quais seriam mais necessárias.

Antes de continuar, uma palavra que não posso deixar passar

Há uma precaução intelectual que preciso registrar — e que o leitor de teologia reconhecerá de imediato.

Insensatez, no sentido de Tuchman, não é o mesmo que a mōria de Paulo — a “loucura da cruz” de que fala a Primeira Carta aos Coríntios. Paulo ali não descreve uma decisão mal calculada. Ele articula um paradoxo teológico: aquilo que aos olhos do mundo parece fraqueza e derrota é, para a fé, manifestação do amor e do poder de Deus. Bento XVI examinou esse paradoxo em sua catequese de 29 de outubro de 2008, dedicada à teologia paulina da cruz. A distinção em relação à insensatez investigada por Tuchman é a aproximação que proponho neste ensaio.

Não pretendo confundir esses dois registros. Uma pessoa pode assumir um risco por fidelidade à consciência, abrir mão de uma vantagem por considerá-la moralmente inaceitável, ou sustentar uma posição impopular por razões que ela julga verdadeiras. Isso não é, por si só, insensatez — mesmo que o resultado traga sofrimento ou perda. A série precisará examinar não apenas decisões equivocadas, mas também os critérios com que chamamos de equivocado aquilo que não compreendemos.

Agostinho, Tomás, Ratzinger — e a mesma pergunta com outro vocabulário

Quem pensa com os instrumentos da filosofia e da teologia reconhece, na tese de Tuchman, algo que vai além da história política.

Em Tomás de Aquino, encontro uma distinção particularmente útil: não basta escolher meios eficientes para agir prudentemente. É preciso examinar o fim ao qual esses meios servem. Na Suma Teológica, Tomás distingue a prudência verdadeira da falsa prudência — aquela que organiza meios eficazes para um fim mau ou apenas aparentemente bom. A inteligência pode demonstrar competência na execução e, ao mesmo tempo, falhar no julgamento sobre aquilo que deveria realizar. Esse é um dos caminhos pelos quais a insensatez se instala: não pela ausência de habilidade, mas pela orientação desordenada dela.

Agostinho permite deslocar a investigação do que uma comunidade sabe para aquilo que ela ama. Em A Cidade de Deus, o contraste não é simplesmente entre amar e não amar a si mesmo. Trata-se de duas orientações do amor — uma delas o amor de si levado ao desprezo de Deus, que Agostinho também relaciona ao desejo de dominar. A partir dessa reflexão sobre os amores que constituem as duas cidades, quero examinar como o desejo de prestígio, domínio ou conservação de uma identidade pode ordenar uma vida coletiva. Essa aproximação será uma interpretação minha, não uma equivalência entre a teologia agostiniana e a análise de Tuchman.

Ratzinger acrescenta uma dificuldade que me parece decisiva. Na Spe salvi, ele observa que o conhecimento pode ser transmitido e ampliado, mas a responsabilidade por seu uso não passa automaticamente de uma geração a outra. Recebemos instrumentos, instituições e experiências; ainda assim, precisamos decidir o que fazer com eles. Talvez uma das perguntas desta série esteja justamente aí: por que a preservação da memória não assegura a preservação da prudência?

Não pretendo fazer Tuchman, Agostinho, Tomás de Aquino e Ratzinger dizerem a mesma coisa. Interessa-me o que suas diferenças permitem perguntar. A historiadora reconstrói decisões e alternativas; a filosofia examina os critérios do agir; a teologia interroga aquilo que o homem reconhece como seu bem último. Aproximar essas perspectivas não significa fundi-las. Significa impedir que uma única explicação encerre prematuramente uma pergunta que a experiência humana continua a nos devolver.

Quando se exige que a realidade obedeça às ideias

Quero também examinar o que acontece quando uma ideia deixa de ser um meio de compreender a experiência e passa a exigir que a experiência se justifique diante dela. Uma convicção merece resistência e aprofundamento; não deve ser abandonada a cada dificuldade. Mas essa fidelidade precisa conservar alguma possibilidade de correção. Caso contrário, como distinguir perseverança de imunidade ao conhecimento?

Essa pergunta poderá aparecer diante de uma doutrina política, de uma interpretação religiosa, de uma promessa de transformação social ou de um projeto de poder. Não partirei da equivalência entre essas experiências. Procurarei compreender como cada uma define seus fins, reconhece seus limites e responde às consequências dos meios que escolhe.

O Vaticano terá lugar nessa conversa — assim como o Brasil e a política mundial. Interessa-me a tensão entre missão e conservação institucional, entre esperança e promessa de perfeição, entre autoridade e consciência. Quero investigar o momento em que preservar uma causa passa a significar não poder mais examinar o que se faz em seu nome.

Não me faltará posição. Mas não desejo que uma posição dispense o trabalho de compreender. A crítica que pretendo exercer terá de enfrentar os melhores argumentos daquilo que critica, não apenas suas manifestações mais frágeis.

Há ainda uma distinção que a análise precisará preservar: o que parece insensatez pode ser conveniente para quem concentra o poder. Nem tudo que recebe esse nome é o mesmo fenômeno. Erro, autoengano, interesse, oportunismo e má-fé têm estruturas diferentes — e exigem diagnósticos diferentes.

O que seis décadas de observação me ensinaram — e ainda não me deixam em paz

Nasci em 1959, em Abaeté. Saí cedo para o Seminário Diocesano de Luz, em Minas Gerais — depois filosofia e teologia, depois o direito. Quarenta e cinco anos na área jurídica, mas com um fio que nunca se partiu: a inquietude diante do poder, da escolha, da repetição. A partir de 2013, esse fio foi ganhando forma mais deliberada — filosofia, teologia, psicanálise, a pergunta sobre o que move o homem quando ele insiste no que o destrói. A marcha, nesse sentido, não é apenas o título de um livro. É uma imagem que me acompanha: sequência, caminho, persistência. Agora, no blog, a inquietude vira texto.

Ao longo de tudo isso, fui acumulando casos em que o padrão se repetia com uma regularidade que chega a ser melancólica. O papa que ignora o que os concílios de reforma lhe dizem com clareza e assiste à ruptura da cristandade. O estadista que sabe que a guerra que declara não pode ser vencida e a declara mesmo assim. O fundador que vê a sucessão não planejada destruir em dois anos o que construiu em quarenta. O teólogo que adota, em nome de libertar os pobres, as categorias de quem historicamente não os libertou.

Cada um desses casos tem sua especificidade histórica. Mas todos têm a mesma planta baixa.

Por isso inauguro hoje esta série de ensaios. Vou tomar emprestado o mapa de Tuchman — e a expressão que ela criou, que é dela e que reconheço explicitamente como dela — para percorrer a história da humanidade com um fio condutor único: por que pessoas, sociedades e instituições persistem em escolhas que comprometem aquilo que pretendiam preservar?

A amplitude deste percurso não será apenas uma questão de atravessar séculos. Quero também sair das experiências que me são mais familiares. A história europeia e a brasileira terão presença, mas não pretendo convertê-las na medida automática da Ásia, da África, do Oriente Médio ou das outras sociedades das Américas. Para compreender uma decisão, será preciso reconstruir o que estava em disputa naquele mundo: suas crenças, seus vínculos, suas ameaças e suas possibilidades. O vocabulário empregado para explicar um conflito religioso não pode ser transportado sem exame para uma disputa imperial. Uma instituição que procura preservar sua autoridade e uma comunidade que luta por sua sobrevivência podem tomar decisões semelhantes na aparência e profundamente diferentes em seu sentido.

Quero olhar, sobretudo, para os que não estavam à mesa. Para aqueles que receberam as ordens, suportaram as perdas e tiveram o futuro alterado por decisões que não puderam discutir. Ao lado da pergunta sobre quem insistiu no erro, haverá sempre outra: quem pagou por essa insistência?

A série retomará campos estudados pela própria Tuchman — os papas renascentistas estão no centro de A Marcha da Insensatez — e avançará para outros períodos, controvérsias e perspectivas: o protestantismo brasileiro, com seus paradoxos e suas rupturas; a teologia da libertação; a história das grandes crises econômicas; as decisões corporativas que destruíram impérios empresariais; e o Brasil — sempre o Brasil — com sua extraordinária capacidade de repetir, em escala própria, os erros que a história já havia documentado em outras latitudes.

Não pretendo escrever uma história universal da insensatez. Pretendo construir um conjunto de ensaios suficientemente amplo para que nenhuma época, tradição ou preferência minha seja tratada como imune às perguntas que dirijo às demais.

Quero olhar também para quem sustenta a marcha — não apenas para quem a comanda. Quem aconselha e cala. Quem justifica e executa. Quem aplaude e pertence. Como se forma um ambiente em que a objeção passa a ser tratada como deslealdade, e o entusiasmo se torna uma exigência de pertencimento. Que palavras tornam aceitável o que, descrito de outra maneira, encontraria resistência. Quando “fidelidade” começa a significar silêncio. Quando “coragem” se torna o nome que damos à incapacidade de recuar.

E haverá um post que já posso anunciar: vou escrever sobre a minha própria candidatura a deputado federal em 2006. Aplicarei os critérios de Tuchman à minha própria decisão. Havia alternativa viável. Havia vozes lúcidas que avisaram. E a política foi sustentada além do que a razão recomendava. É mais fácil — e mais confortável — enxergar a insensatez nos outros. O desafio intelectual honesto é reconhecê-la em si mesmo.

Uma advertência honesta antes de começarmos

Os critérios de Tuchman serão, nos casos históricos, uma referência de investigação — não uma fórmula a ser repetida mecanicamente. Nos ensaios filosóficos, teológicos e pessoais, partirei de suas perguntas para explorar outros aspectos da experiência humana. Quando a reflexão for minha, não a apresentarei como se fosse conclusão da historiadora.

Esta série não seguirá ordem cronológica, nem hierarquia de importância, nem a sequência do próprio livro de Tuchman. Os temas serão alternados conforme o interesse e o ritmo que eu julgar mais adequado — história, teologia, filosofia, política, empresas, Brasil, Igreja. A desordem aparente tem sua própria lógica: a insensatez também não escolhe hora, lugar nem disciplina para aparecer.

Nem todos os textos serão condenações já decididas. Alguns examinarão um caso duvidoso. Outros mostrarão que uma atitude considerada insensata por seus contemporâneos tinha razões que merecem ser compreendidas. Outros, ainda, buscarão as interrupções: a objeção que foi ouvida, a convicção que foi revista, o recuo que preservou vidas, a reforma que recuperou uma missão. Não quero concluir essa travessia com a ideia de que a humanidade está condenada a repetir suas piores escolhas.

São cinquenta ensaios sobre a decisão, a persistência e a possibilidade de rever um caminho.

Há líderes que recusam acreditar no que não querem enfrentar.

Tuchman pensava em Troia, nos papas renascentistas, na Inglaterra que perdeu as colônias, nos Estados Unidos no Vietnã. Mas poderia ter escrito sobre qualquer época. Poderia ter escrito sobre ontem. Poderia, em 2006, ter escrito sobre mim.

É essa universalidade que torna a tese de Tuchman não apenas um argumento histórico, mas uma contribuição para o autoconhecimento humano. Para entender não apenas o que os outros fizeram de errado — mas o que cada um de nós carrega em si da mesma capacidade de ver e escolher não ver.

O convite desta série não é para observar, de uma distância confortável, a insensatez dos outros.

É para examinar também aquilo de que cada um de nós está certo demais.

Vamos começar.

Obras mobilizadas neste ensaio:
Barbara Tuchman, The March of Folly: From Troy to Vietnam (1984), introdução e capítulo inicial. Henry Morgenthau Sr., Ambassador Morgenthau’s Story (1918), especialmente os capítulos sobre os armênios e os encontros com Talaat. Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, questão 47, artigo 13. Agostinho de Hipona, A Cidade de Deus, XIV, 28. Bento XVI, catequese de 29 de outubro de 2008 (audiência geral, Vaticano). Joseph Ratzinger, Spe salvi (2007), números 22 a 24.


Juvenil Alves é advogado e ensaísta, com formação no Seminário Diocesano de Luz e na PUC-MG, onde se dedicou à filosofia e à teologia. Acompanha o magistério e o pensamento filosófico desde a formação. Escreve sobre história, poder e condição humana em juvenilalves.com.br

Quem escreve

Juvenil Alves - jurista, teólogo, filósofo, psicanalista e escritor.

Nasceu em Abaeté, no interior de Minas Gerais. É filho de Juvenil Alves, alfaiate, e de Isabel Amélia, servente escolar. Foi nesse ambiente simples que aprendeu, desde cedo, o valor do trabalho, da disciplina, da educação e da responsabilidade.

Sua formação intelectual começou pela Filosofia  e pela Teologia e, mais tarde, encontrou no Direito o espaço emq ue essas reflexões passaram a dialogar diariamente com a vida concreta das pessoas, das empresas e das instituições. Desde então, nunca deixou de percorrer esse cruzamento.

Ao longo de mais de quatro décadas de atuação profissional, construiu uma carreira dedicada ao Direito Tributário e Empresarial, assessorando empresas, famílias e organizações em questões de alta complexidade. Paralelamente, manteve um estudo permanente das Humanidades, formando uma biblioteca construída ao longo de quase cinquenta anos de leituras, pesquisas e anotações.

Neste blog, reúne essas duas experiências. Escreve sobre Direito Tributário, Direito Empresarial, Reforma  Tributária, Filosofia do Direito, Filosofia, Teologia, Psicanálise, Liderança, Ética, Humanidades e Neurodiversidade. Não para oferecer respostas prontas, mas para investigar as ideias, os príncipios e os fundamentos que orientam as decisões humanas.

Os ensaios publicados aqui dialogam com autores clássicos e contemporâneos e procuram aproximar o pensamento filosófico da realidade jurídica, empresarial e social. Muitos deles integram projetos editoriais em desenvolvimento e servirão de base para futuras obras.

Este espaço nasceu da convicção de que a técnica, quando separada das Humanidades, empobrece o pensamento; e de que a Filosofia, a Teologia, a Psicanálise e o Direito continuam oferecendo instrumentos indispensáveis para compreender o ser humano, as instiuições e os desafios do nosso tempo.

Sem fórmulas. Sem juridiquês.

O conteúdo chega em dois formatos: leia quando quiser no blog ou ouça quando puder no podcast, disponível no Spotify.

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