Rodrigo Borgia entre a razão de Estado, a fenda do Cisma e o peso insustentável de um nome
Prólogo — Agosto de 1492
Havia um cálculo no ar quente de Roma naquele agosto. Morto Inocêncio VIII, o Sacro Colégio recolheu-se em conclave, e o Espírito Santo era invocado sobre a assembleia como sempre o fora; mas os votos continuavam humanos, submetidos à liberdade, às alianças, aos interesses e aos pecados dos homens que os depositavam. A regra que os contava — a maioria de dois terços sem a qual nenhuma eleição pontifícia é válida — não caíra do céu. Fora estabelecida três séculos antes, no Terceiro Concílio de Latrão de 1179, sob a autoridade de um papa chamado Alexandre III. E foi no interior de um conclave marcado por intensa negociação de cargos, benefícios e alianças — e desde cedo cercado de acusações de simonia, sobretudo em torno do apoio decisivo de Ascanio Sforza, a quem coube a vice-chancelaria que Rodrigo deixava vaga — que o valenciano alcançou os dois terços e saiu soberano da cristandade.
Um dos primeiros atos do eleito, depois de aceitar a eleição, é declarar o nome pelo qual deseja ser chamado. Só aparenta ser gesto cerimonial, porque a escolha pode funcionar como uma declaração de governo: ao abandonar o nome de batismo, o homem sugere a tradição na qual deseja ser lido. Mas um nome pontifício é também outra coisa, mais inquieta — uma máscara, a forma pública com que alguém tenta enquadrar aquilo que ainda não sabe se conseguirá ser. Rodrigo Borgia escolheu chamar-se Alexandre. E a pergunta que este ensaio persegue é enganosamente simples: ele o fez para herdar uma tradição, ou para anunciar uma ambição?
O homem que não veio das sombras
A lenda gosta de imaginar Rodrigo Borgia como um intruso: um corruptor que comprou de súbito o trono de Pedro e o profanou. É uma imagem satisfatória, mas profundamente incompleta. Quando entrou no conclave de 1492, aos sessenta e um anos, Borgia era um dos homens mais experientes, ricos e influentes da Cúria Romana — não a exceção escandalosa da instituição, mas uma peça central de seu funcionamento. O que não apaga a outra metade da verdade: valenciano num mundo curial tecido por lealdades italianas, ele foi sempre percebido pelos adversários como um estrangeiro, e essa hostilidade o acompanharia até o fim.
Fizera-se cardeal aos vinte e cinco anos, é verdade, pela mão do tio, o papa Calisto III, no mais puro estilo do nepotismo quatrocentista. Mas o que veio depois não se explica por parentesco. Durante trinta e cinco anos ocupou a vice-chancelaria da Santa Igreja Romana, chefiando a Chancelaria Apostólica — um dos centros mais importantes da Cúria para a preparação e a expedição dos documentos pontifícios —, e o fez sob cinco papas de temperamentos opostos, sobrevivendo a todos. O cargo lhe rendeu riqueza, influência, clientelas e um conhecimento excepcional dos mecanismos do governo romano. Formado em direito canônico por Bolonha, era administrador incansável, mediador de embaixadores rivais, homem de eloquência e magnetismo reconhecidos até por quem o detestava. O soberano que emergiu do conclave restaurou, em poucos dias, a ordem pública nas ruas de uma Roma que a sede vacante entregara ao saque. E antes do fim do reinado expediria as bulas alexandrinas de 1493, favorecendo as pretensões castelhanas sobre as terras recém-encontradas e traçando uma linha de demarcação no Atlântico — partilha que as duas coroas renegociariam pouco depois, por conta própria, no Tratado de Tordesilhas de 1494. O papado reivindicava, ali, autoridade para pronunciar-se sobre um mundo que mal começava a ser medido — ainda que as coroas logo mostrassem que a geografia dos impérios não se definiria apenas em Roma.
Nada disso, porém, o inocenta. A mesma biografia registra o concubinato público e prolongado com Vannozza dei Cattanei, os quatro filhos publicamente reconhecidos, a fortuna acumulada em benefícios, a corte em que o sagrado e o profano se sentavam à mesma mesa. Ter filhos não era inédito entre cardeais e prelados do Renascimento, mas tampouco era moralmente neutro ou canonicamente irrelevante — a disciplina da Igreja condenava o que o costume tolerava em surdina. O agravante borgiano veio depois, e foi de outra ordem: a naturalidade principesca com que, uma vez papa, ele fez desses filhos o eixo permanente da política pontifícia. Guardemos essa distinção, porque é nela que mora a resposta à pergunta do nome.
O conquistador e o pontífice
Do próprio Borgia não nos chegou uma linha explicando por que se chamou Alexandre. Não há bula, não há confissão, não há sequer um comentário registrado no minucioso diário de Johannes Burchard, seu mestre de cerimônias. O silêncio obriga a ler o nome contra o pano de fundo de 1492 — e, feita a leitura, duas figuras se levantam por trás dele, uma de cada lado do abismo entre a espada e a decretal.
A primeira é Alexandre, o Grande, associação que uma linha relevante da historiografia recente considera especialmente plausível. A corte renascentista respirava antiguidade clássica, e o macedônio era o arquétipo supremo da glória, da conquista universal, do avanço para o Oriente. Não era vaidade de humanista apenas: desde a queda de Constantinopla em 1453, a retórica da cruzada voltara a ser a grande urgência da política papal, e a associação com um “novo Alexandre” podia sugerir aos observadores da época uma vocação de glória, expansão e reorganização da cristandade diante do poder otomano. Nesse horizonte, o nome podia funcionar como bandeira imperial.
A segunda figura é mais discreta, e sobre ela é preciso pisar com mais cuidado, porque aqui a documentação cala e só resta a interpretação. Um canonista experiente como Borgia dificilmente ignoraria outra ressonância possível: Alexandre III, o papa sob cuja autoridade o Terceiro Concílio de Latrão, em 1179, fixara justamente a regra dos dois terços que acabava de fazê-lo papa. Foi esse Alexandre quem resistira por anos ao imperador Frederico Barbarossa, suportara o exílio e derrotara uma sucessão de antipapas imperiais, quem canonizara Thomas Becket afirmando a liberdade da Igreja contra o rei da Inglaterra. Não há prova de que Rodrigo tivesse essa homenagem em mente ao escolher o nome; mas, lido em retrospecto, o nome o colocava sob a sombra do pontífice que transformara disciplina eleitoral em autoridade institucional — como se dissesse, sem precisar dizer, que era herdeiro do direito que o fizera papa.
Aqui vale uma nota para quem acompanha esta série, porque Alexandre III já cruzou o nosso caminho antes. Foi ele o pontífice que, em carta tradicionalmente datada de 1177, se dirigiu a um misterioso “rei dos indianos”, episódio mais tarde associado a Preste João — ainda que não seja seguro que o papa estivesse respondendo diretamente à célebre carta apócrifa, como vimos em “A carta mais atrevida da Idade Média”. O nome que Borgia escolheu carregava, portanto, mais de uma sombra: a do papa que resistiu a Barbarossa e a do papa que escreveu, com toda a seriedade do seu ofício, a um destinatário que talvez só existisse na esperança da cristandade. Três séculos depois, o mesmo nome tornava a servir — agora não para escrever a um rei imaginário, mas para coroar uma ambição bem real.
O número e a cicatriz do cisma
Há ainda um detalhe que costuma passar despercebido e que diz muito sobre a instituição. Para chamar-se Alexandre VI, Rodrigo preservou a numeração que incluía Pietro Filargo, o cretense eleito Alexandre V pelo Concílio de Pisa em 1409.
Aquela assembleia nascera de uma intenção nobre e terminou num paradoxo. Pretendia encerrar o Grande Cisma do Ocidente depondo de uma vez os papas rivais de Roma e de Avinhão; conseguiu apenas acrescentar-lhes uma terceira obediência, a pisana, e o cisma, em vez de curado, ganhou mais uma cabeça. A classificação de Alexandre V como antipapa se consolidaria nas listas posteriores; no século XX, a escolha do nome João XXIII por Angelo Roncalli reforçaria simbolicamente o abandono da numeração usada pelo pretendente pisano homônimo, embora a legitimidade da linha romana já estivesse há muito estabelecida. Mas convém não confundir as coisas: numerar não é o mesmo que julgar a legitimidade, e Rodrigo, ao aceitar o número, não formulou com essa escolha nenhum juízo teológico autônomo sobre o Concílio de Pisa. Preservou uma sequência de uso corrente, e o número não foi retroativamente apagado. É isso que o torna revelador. A sequência dos nomes pontifícios conserva não apenas as continuidades que a Igreja quis afirmar, mas também as cicatrizes das disputas que preferiu não reabrir. Os nomes dos papas, aprende-se com isso, não contam só quem eles quiseram ser; contam também as feridas que a instituição achou melhor deixar fechadas.
A herança e o desvio
Se o nome apontava para a tradição mais férrea do papado, o reinado tratou de mostrar o que Borgia faria com essa herança — e é aqui que a resposta à nossa pergunta se decide, desde que se resista a uma tentação que o próprio assunto oferece: a de idealizar os antecessores para tornar Borgia uma ruptura absoluta.
Convém não julgar o século XV pelos escrúpulos do nosso, mas convém igualmente não santificar os Alexandres que vieram antes. Violência, excomunhão e favorecimento de parentes não foram invenções dos Borgia; habitavam o nome muito antes de os valencianos tomarem Roma. A tradição normanda atribuiu a Alexandre II a bênção à expedição de Guilherme, o Conquistador, e o envio de um estandarte papal, embora a extensão desse apoio venha sendo discutida. Alexandre III enfrentou por anos Frederico Barbarossa, resistiu a antipapas imperiais e usou excomunhão, diplomacia e alianças italianas para afirmar a autonomia de Roma. Alexandre IV empregou a linguagem e os instrumentos da cruzada contra adversários cristãos ligados aos Hohenstaufen, mostrando até onde a guerra espiritual podia ser absorvida pelas disputas temporais do papado. Nenhum deles tinha as mãos inteiramente limpas, e em nenhum deles o interesse da instituição vinha quimicamente puro, separado do interesse territorial, da família e da ambição pessoal.
Seria falso, portanto, dizer que Borgia inventou a mistura entre Igreja, poder e sangue. Ela já estava lá, estrutural, na própria natureza de um Estado que era ao mesmo tempo Cúria, corte principesca e potência territorial. A diferença de Alexandre VI não é de natureza, é de intensidade, de centralidade e de sistematização — e essa, sim, se sustenta diante da crítica. Nos pontificados anteriores, interesses institucionais, territoriais e familiares se entrelaçavam; sob Alexandre VI, esse entrelaçamento atingiu um grau em que se tornou quase impossível dizer onde terminava a consolidação dos Estados Pontifícios e onde começava a construção da fortuna política dos Borgia.
Ele preservou intacto o edifício dogmático, é certo, e nunca promulgou heresia alguma para acomodar a própria conduta; administrou com habilidade os instrumentos financeiros, jurídicos e diplomáticos do papado. Só que os colocou, com uma franqueza que ainda impressiona, a serviço de objetivos territoriais e familiares. Recursos, cargos, alianças e a própria autoridade pontifícia foram mobilizados em favor da ascensão de Cesare e da construção do domínio borgiano na Romanha; os casamentos de Lucrécia foram usados para articular sucessivas alianças com os Sforza e os Este; a maquinaria curial que Rodrigo conhecera por dentro durante trinta e cinco anos tornou-se o instrumento com que articulou cargos, receitas e jurisdições em favor de sua casa. O nepotismo, já estrutural no governo pontifício, tornou-se sob Alexandre VI o centro de um projeto dinástico de visibilidade e ambição territorial excepcionais. Foi esse o desvio — não uma crueldade inédita, que o século tinha de sobra, mas o uso amplo, sistemático e ostensivo dos instrumentos do governo pontifício em favor de um projeto de família.
As fábulas e o escândalo verdadeiro
É tentador, e seria fácil, contar Borgia pelas histórias que os inimigos deixaram: o veneno de fórmula secreta, a cantarella; o banquete de cortesãs nuas colhendo castanhas sob o olhar do papa; o incesto entre pai, filho e filha. São histórias poderosas, e por isso mesmo atravessaram os séculos, amplificadas pela Reforma, que precisava provar que a Babilônia romana abrigava o Anticristo, e depois pelo Romantismo, que precisava de vilões sublimes. Mas, sob o exame documental, algumas se desfazem e outras permanecem presas a fontes únicas, ambíguas ou hostis.
As acusações de incesto ganharam forma pública nas palavras ressentidas de Giovanni Sforza, primeiro marido de Lucrécia, depois que o papa lhe anulou o casamento declarando-o impotente — vingança verbal de um homem humilhado, que jamais encontrou sustentação de arquivo à altura de sua fama. O célebre Banquete das Castanhas é conhecido sobretudo por uma passagem do diário de Burchard, e é aqui que a prudência se impõe: a autenticidade integral e o sentido da cena permanecem discutidos, e não se pode tratá-la nem como fato inteiramente comprovado nem como interpolação hostil definitivamente demonstrada. Quanto à morte, a cena shakespeariana do papa bebendo por engano o vinho que preparara para um cardeal desfaz-se diante das fontes: Roma atravessava, em agosto de 1503, um verão de febres, e Alexandre e Cesare adoeceram quase ao mesmo tempo. A hipótese de malária, ou de outra infecção natural, é muito mais consistente que a do veneno, ainda que um diagnóstico retrospectivo definitivo seja impossível a esta distância; e o inchaço do cadáver, que alguns contemporâneos tomaram por sinal de peçonha, é plenamente compatível com a decomposição acelerada pelo calor romano, sem constituir, por si, prova de envenenamento.
Desmontar essas fábulas, porém, não absolve ninguém — e é aqui que o revisionismo precisa de freio, para não trocar a lenda negra por uma lenda cor-de-rosa. Descontada toda a propaganda dos inimigos, o que resta ainda é grave: a violação pública e prolongada da disciplina celibatária; um nepotismo de intensidade excepcional; a tolerância, a proteção e o benefício político diante da violência de Cesare, cuja responsabilidade caso a caso a história ainda pesa; e a confusão crescente entre governo espiritual, soberania territorial e interesse de família. O escândalo verdadeiro de Alexandre VI nunca precisou dos monstros que lhe inventaram. Bastava o que ele fez à luz do dia, com a assinatura da chancelaria. As fábulas, no fim, prestaram-lhe um estranho serviço: distraíram a posteridade do escândalo mais profundo, que não era gótico, mas institucional.
Coda — Malária, agosto de 1503
Tudo indica que Alexandre VI morreu de causa natural — talvez a malária, talvez outra das febres que percorriam Roma naquele verão —, e não do veneno teatral que a posteridade preferiu imaginar: vencido, muito provavelmente, pela doença comum, e não pela conspiração extraordinária. Segundo o relato de Burchard, o corpo inchou e se decompôs depressa no calor romano, e as exéquias transcorreram sob a pressa e o constrangimento de uma corte que já se reorganizava sem ele. Cesare, febril no quarto ao lado, perdeu no mesmo golpe o pai e o Estado que sonhara: sem o papado a sustentá-lo, o principado dos Borgia desfez-se quase tão depressa quanto se erguera.
E o nome? O nome ficou pesado. É impossível provar que a memória Borgia o tenha tornado impraticável, mas o silêncio de mais de um século e meio até o próximo Alexandre lhe acrescentou uma gravidade que os anteriores não haviam conhecido — e, quando o nome afinal voltou, com Alexandre VII, não foi para reabilitar Rodrigo, e sim para homenagear o velho pontífice sienense do Latrão de 1179.
Fica, ao fim, a pergunta do início. Não sabemos se Rodrigo Borgia escolheu “Alexandre” para, conscientemente, reunir tradição e ambição num só gesto; o arquivo não nos permite entrar em seu pensamento, e seria trair a própria matéria fingir que nos permite. Sabemos, porém, que o nome tornou as duas leituras possíveis. Colocou-o sob a autoridade do papa de 1179 e sob a glória do conquistador macedônio, e ofereceu ao novo pontífice, qualquer que tenha sido sua intenção primeira, uma linguagem de governo feita de conquista, força e universalidade. O que o distingue não é ter inventado a mistura entre autoridade espiritual, território, guerra e família: essa ele herdou, porque ela já estava entranhada no papado que recebeu. O que fez foi levá-la a um grau de visibilidade e de sistematização em que o governo da Igreja e o projeto da própria casa quase deixaram de ser distinguíveis. Um nome pontifício é um programa de grandeza. O drama de Rodrigo Borgia foi ter recebido um nome amplo o bastante para significar conquista, autoridade e defesa da Igreja — e ter permitido que, sob ele, a ambição de uma família se confundisse com a missão de uma cátedra. Porque o nome anuncia uma glória milenar; mas a carne que o veste nunca está imune ao veredicto da história.
Este ensaio integra a série de ensaios vaticanistas “Cátedra, poder e humanidade”. Ele distingue, ao longo do texto, três planos: os fatos documentados, as interpretações da historiografia e as hipóteses do autor. A razão exata pela qual Rodrigo Borgia escolheu o nome Alexandre não foi registrada pelo próprio pontífice; as associações com Alexandre Magno e com Alexandre III têm graus diferentes de sustentação — a primeira mais amparada pela pesquisa recente, a segunda oferecida aqui como leitura, não como certeza biográfica. Alguns diálogos e cenas dos textos deste blog inspiram-se em conversas reais mantidas com o autor, Juvenil Alves, em diversas ocasiões; para preservar as fontes, os nomes desses interlocutores são substituídos por nomes fictícios, e qualquer coincidência entre esses nomes e os de pessoas reais é involuntária.
Juvenil Alves Ferreira Filho Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista · Escritor