Por que nos apegamos a figuras não humanas? Pet, bebê reborn e Labubu na era do isolamento afetivo

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O Apego Humano · Post 5 de 6 · Série: O Apego Humano

Primeiro vieram os pets. Depois os bebês reborn. Agora os Labubus. Não é decadência: é a mesma fome de presença encontrando novos suportes em cada geração

por Juvenil Alves

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Em poucas palavras: o apego a figuras não humanas não é fenômeno novo nem sinal de patologia. É uma das respostas mais antigas do ser humano à solidão estrutural. O que mudou em 2026 é a escala, a variedade dos suportes e a velocidade com que novos objetos de apego são criados e adotados globalmente. Neste quinto texto da série O Apego Humano, Juvenil Alves lê o fenômeno com John Bowlby, Harry Harlow, Byung-Chul Han e a evidência acumulada de décadas de pesquisa sobre vínculo, solidão e substituição afetiva.

Em 1958, Harry Harlow publicou um experimento que mudou o que a psicologia pensava sobre o amor.

Harlow criou macacos rhesus em isolamento e ofereceu a eles duas “mães” artificiais. Uma era feita de arame e tinha uma mamadeira com leite. A outra era feita de pelúcia macia e não oferecia alimento nenhum.

A teoria behaviorista da época previa que os filhotes ficariam junto à mãe de arame: afinal, era ela que oferecia a recompensa biológica primária. O que Harlow encontrou foi o oposto: os filhotes passavam quase todo o tempo abraçados à mãe de pelúcia, correndo para ela quando assustados, usando-a como base segura para explorar o ambiente.

O contato físico, a textura, a sensação de amparo: tudo isso valia mais do que o alimento.

Harlow chamou esse fenômeno de comfort contact, conforto pelo contato. E o que ele descobriu em 1958 com macacos rhesus está acontecendo nas bolsas, nas prateleiras e nos apartamentos de todo o mundo em 2026 com Labubus, bebês reborn e pets de estimação.

A fome de conforto pelo contato não desapareceu. Encontrou novos suportes.

A teoria do apego e o que ela diz sobre figuras não humanas

John Bowlby, psiquiatra britânico, desenvolveu ao longo das décadas de 1950 a 1980 a teoria do apego, uma das construções mais influentes da psicologia do século XX.

Para Bowlby, o apego não é um subproduto da alimentação nem da recompensa. É um sistema motivacional primário, tão fundamental quanto a fome ou a sexualidade. O ser humano nasce biologicamente programado para buscar proximidade com uma figura de apego, alguém que ofereça proteção, conforto e base segura para a exploração do mundo.

A figura de apego primária é, em geral, a mãe ou o cuidador principal. Mas Bowlby observou algo que a teoria posterior expandiu: o sistema de apego pode ser ativado por uma variedade muito maior de figuras do que a teoria inicial supunha.

Animais de estimação ativam o sistema de apego. Objetos significativos ativam versões atenuadas desse sistema. Figuras de ficção, como personagens de séries, avatares e mascotes, ativam respostas emocionais que compartilham circuitos neurais com o apego interpessoal.

O sistema foi desenhado pela evolução para garantir que o filhote humano ficasse próximo de quem podia protegê-lo. Em 2026, esse mesmo sistema responde a um Labubu pendurado na bolsa.

Por que figuras não humanas funcionam

Há três características que tornam figuras não humanas particularmente eficazes como suportes de apego em contextos de isolamento.

A primeira é a disponibilidade incondicional. A figura não humana está sempre presente. Não viaja, não fica com raiva, não tem um dia ruim que afeta a relação. Para um sistema nervoso que aprendeu a esperar inconsistência dos vínculos humanos, essa previsibilidade tem valor imenso.

A segunda é a ausência de demanda. A figura não humana não pede reciprocidade. Não precisa ser ouvida, consolada, considerada. O vínculo é assimétrico por design, e essa assimetria, paradoxalmente, é o que o torna seguro para pessoas que associam vínculo a exigência ou a perda.

A terceira é o controle. O dono do pet decide quando interagir. O colecionador de Labubus escolhe quais personagens ficam visíveis na prateleira. A mãe do bebê reborn determina cada detalhe da interação. Num mundo em que o controle sobre as relações humanas é limitado, o controle sobre a figura não humana oferece uma ilusão de soberania afetiva que tem efeito regulador real.

A sequência histórica e o que ela revela

O apego humano a figuras não humanas tem uma história longa, mas a versão contemporânea tem uma progressão que merece atenção.

Os animais de estimação existem há milênios. Mas a proporção de pessoas que vivem com pets sem ter filhos, ou que tratam o pet como substituto de filho, cresceu de forma acelerada nas últimas décadas. No Brasil, o país tem mais pets do que crianças menores de 14 anos. Esse dado, repetido em contextos de admiração pelo mercado pet, deveria ser lido também como dado sobre solidão estrutural.

O bebê reborn, boneco hiper-realista que replica com precisão a aparência e o peso de um recém-nascido, surgiu como objeto colecionável nos anos 1990 e tornou-se suporte afetivo para pessoas em luto, para mulheres que perderam filhos ou que não puderam ter, e para idosos em isolamento. Estudos de gerontologia documentam o uso terapêutico do bebê reborn em contextos de demência, a figura ativa cuidado, acalma, reduz agitação.

O Labubu é o próximo estágio dessa sequência. Menor do que um pet. Mais portátil do que um bebê reborn. Esteticamente sofisticado o suficiente para ser exibido sem constrangimento em qualquer contexto social. E carregado de uma ambiguidade estética, fofo e monstruoso ao mesmo tempo, que o torna honesto sobre a natureza dos afetos humanos de uma forma que a fofura pura não consegue ser.

Cada geração encontra o suporte de apego que corresponde ao seu momento cultural. O que não muda é a necessidade que o suporte responde.

O que Han diagnostica e o que ele deixa de ver

Byung-Chul Han, em A Agonia de Eros e em A Sociedade do Cansaço, diagnostica o empobrecimento contemporâneo do vínculo com precisão filosófica. A sociedade do desempenho dissolve o outro, o outro genuinamente diferente, imprevisível, resistente, e substitui o encontro pelo consumo de experiências controláveis.

O apego a figuras não humanas, na leitura de Han, seria mais um sintoma dessa dissolução: a substituição do outro pelo mesmo gerenciado, do vínculo pelo objeto, do risco pela segurança.

A leitura está parcialmente certa. Mas deixa de ver algo.

O apego a figuras não humanas não é apenas uma fuga do outro. Em muitos casos, é uma ponte para ele. O pet que força seu dono a sair de casa todos os dias cria encontros com vizinhos, com outros donos de pets, com o mundo. O bebê reborn que reativa o cuidado em pessoas em luto cria condições para que esse cuidado se estenda, eventualmente, a outros humanos. O Labubu que se torna código compartilhado entre colecionadores cria comunidade: conversas, fóruns, feiras, amizades.

A figura não humana pode ser ponto de chegada de um apego que não encontra outro destino. Mas pode ser também ponto de partida para a reconexão com o humano.

Julgar sem perguntar para onde a pessoa está indo com aquele objeto é o erro clínico que a psicanálise aprendeu a não cometer.

O que Bowlby diria sobre o Labubu

Bowlby descreveu o sistema de apego como um sistema que busca proximidade com uma figura protetora quando o organismo percebe ameaça. Nos bebês, a ameaça é a separação da mãe. Nos adultos, é qualquer coisa que ative o sentido de vulnerabilidade: solidão, perda, incerteza, mudança.

Em 2026, vivemos em um momento de vulnerabilidade estrutural. A pandemia desorganizou os vínculos sociais de uma geração inteira. O trabalho remoto isolou milhões de pessoas dentro de apartamentos onde a única presença constante é a tela. As redes sociais criaram a ilusão de conexão e amplificaram o isolamento real. A instabilidade econômica e política tornou o futuro difícil de antecipar.

Nesse contexto, o sistema de apego busca o que encontra. E o que encontra, com frequência crescente, são figuras não humanas que oferecem o que o momento histórico não está oferecendo em quantidade suficiente: presença, previsibilidade, contato.

Bowlby não conheceu o Labubu. Mas conheceu a necessidade que o Labubu responde. E teria dito, com a precisão clínica que o caracterizava: o sistema está funcionando. O problema não é o objeto que escolheu. O problema é o contexto que não ofereceu alternativa melhor.

O que este ensaio não diz

Este ensaio não diz que o apego a figuras não humanas é patológico. A clínica e a pesquisa mostram que pode ser adaptativo, regulador e, em alguns contextos, terapêutico.

Não diz que substitui o apego humano. Não substitui, e a maioria das pessoas que tem um Labubu na bolsa também tem pessoas que ama.

Não diz que é suficiente. Não é. O sistema de apego humano foi desenhado para vínculos com outros humanos, recíprocos, imprevisíveis, resistentes. Nenhuma figura não humana entrega isso.

O que este ensaio diz é mais simples e mais difícil de aceitar: quando milhões de pessoas desenvolvem apego intenso a figuras não humanas ao mesmo tempo, em culturas diferentes, em classes sociais diferentes, em faixas etárias diferentes: isso não é moda. É sinal.

O sinal não é sobre os objetos. É sobre o que os humanos estão sentindo falta.

No próximo e último texto desta série: o monstro bondoso: por que nos identificamos com criaturas imperfeitas, de Frankenstein ao Labubu, e o que essa identificação revela sobre a compaixão humana.

Pontos principais

  • A tese de Juvenil Alves neste ensaio: o apego a figuras não humanas não é patologia nem moda. É o sistema de apego humano, descrito por Bowlby, demonstrado por Harlow, buscando o que o momento histórico não está oferecendo em quantidade suficiente: presença, previsibilidade e conforto pelo contato.
  • Harlow demonstrou em 1958 que o conforto pelo contato vale mais do que a recompensa biológica. O filhote preferia a mãe de pelúcia à mãe de arame com leite. Em 2026, o Labubu é a versão adulta e culturalmente sofisticada da mãe de pelúcia.
  • Figuras não humanas funcionam como suportes de apego por três razões: disponibilidade incondicional, ausência de demanda e controle sobre a interação. Num mundo de vínculos líquidos e imprevisíveis, essas três características têm valor regulador real.
  • A sequência histórica, pets, bebês reborn, Labubus, revela uma progressão: cada geração encontra o suporte de apego que corresponde ao seu momento cultural. O que não muda é a necessidade que o suporte responde.
  • Han diagnostica o apego a figuras não humanas como fuga do outro. A leitura está parcialmente certa. Deixa de ver que a figura não humana pode ser ponto de partida para a reconexão com o humano, e não apenas ponto de chegada de um apego sem destino.

Perguntas frequentes

O que é a teoria do apego de Bowlby? É a teoria desenvolvida pelo psiquiatra britânico John Bowlby entre os anos 1950 e 1980, segundo a qual o apego não é subproduto da alimentação nem da recompensa, mas um sistema motivacional primário. O ser humano nasce biologicamente programado para buscar proximidade com uma figura que ofereça proteção e base segura. O sistema foi desenhado para garantir a sobrevivência do filhote humano, e continua operando ao longo de toda a vida adulta.

O que Harlow descobriu sobre o apego? Em 1958, Harry Harlow ofereceu a macacos rhesus criados em isolamento duas mães artificiais: uma de arame com leite e uma de pelúcia sem leite. Os filhotes passavam quase todo o tempo junto à mãe de pelúcia, usando-a como base segura. O experimento demonstrou que o conforto pelo contato é uma necessidade primária, independente da alimentação, e que o apego não se reduz à recompensa biológica.

Por que as pessoas se apegam a pets, bebês reborn e Labubus? Porque esses objetos ativam o sistema de apego por meio de três características: disponibilidade incondicional, ausência de demanda e controle sobre a interação. Num contexto de vínculos humanos líquidos, imprevisíveis e exigentes, essas três características têm valor regulador real para o sistema nervoso.

O apego a figuras não humanas é sinal de patologia? A pesquisa clínica mostra que pode ser adaptativo e regulador. Estudos de gerontologia documentam o uso terapêutico de bebês reborn em contextos de demência. O apego a pets está associado a melhora de indicadores de saúde mental em pessoas que vivem sozinhas. A pergunta relevante não é se o apego é patológico: é para onde a pessoa está indo com ele.

O Labubu substitui o apego humano? Não. O sistema de apego humano foi desenhado para vínculos recíprocos com outros humanos, imprevisíveis, resistentes, genuinamente diferentes. Nenhuma figura não humana entrega isso. O que o Labubu oferece é regulação emocional e um suporte de conforto, não um substituto para o vínculo humano.

O que Han diz sobre o apego a figuras não humanas? Han descreve o apego a figuras não humanas como sintoma do empobrecimento contemporâneo do vínculo: a substituição do outro genuíno pelo objeto controlável. A leitura está parcialmente certa, mas deixa de ver que a figura não humana pode ser ponto de partida para a reconexão com o humano, e não apenas fuga dele.

Quando o apego a figuras não humanas se torna preocupante? Quando substitui completamente os vínculos humanos, quando impede o investimento em relações reais ou quando é usado para evitar o luto de perdas que precisam ser elaboradas. Nesses casos, não é o objeto que precisa de atenção: é o contexto que tornou o objeto a única alternativa disponível.

O que vem no próximo e último post desta série? No sexto e último texto de O Apego Humano, Juvenil Alves explora o monstro bondoso: por que nos identificamos com criaturas imperfeitas, de Frankenstein ao Labubu, e o que essa identificação revela sobre a compaixão humana e a nossa própria relação com a imperfeição.


Humanidades e Lideranças · Belo Horizonte, outubro de 2026 · juvenilalves.com.br

Quem escreve

Juvenil Alves - jurista, teólogo, filósofo, psicanalista e escritor.

Nasceu em Abaeté, no interior de Minas Gerais. É filho de Juvenil Alves, alfaiate, e de Isabel Amélia, servente escolar. Foi nesse ambiente simples que aprendeu, desde cedo, o valor do trabalho, da disciplina, da educação e da responsabilidade.

Sua formação intelectual começou pela Filosofia  e pela Teologia e, mais tarde, encontrou no Direito o espaço emq ue essas reflexões passaram a dialogar diariamente com a vida concreta das pessoas, das empresas e das instituições. Desde então, nunca deixou de percorrer esse cruzamento.

Ao longo de mais de quatro décadas de atuação profissional, construiu uma carreira dedicada ao Direito Tributário e Empresarial, assessorando empresas, famílias e organizações em questões de alta complexidade. Paralelamente, manteve um estudo permanente das Humanidades, formando uma biblioteca construída ao longo de quase cinquenta anos de leituras, pesquisas e anotações.

Neste blog, reúne essas duas experiências. Escreve sobre Direito Tributário, Direito Empresarial, Reforma  Tributária, Filosofia do Direito, Filosofia, Teologia, Psicanálise, Liderança, Ética, Humanidades e Neurodiversidade. Não para oferecer respostas prontas, mas para investigar as ideias, os príncipios e os fundamentos que orientam as decisões humanas.

Os ensaios publicados aqui dialogam com autores clássicos e contemporâneos e procuram aproximar o pensamento filosófico da realidade jurídica, empresarial e social. Muitos deles integram projetos editoriais em desenvolvimento e servirão de base para futuras obras.

Este espaço nasceu da convicção de que a técnica, quando separada das Humanidades, empobrece o pensamento; e de que a Filosofia, a Teologia, a Psicanálise e o Direito continuam oferecendo instrumentos indispensáveis para compreender o ser humano, as instiuições e os desafios do nosso tempo.

Sem fórmulas. Sem juridiquês.

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