A cinza que o rio não levou

Vista de Florença ao entardecer a partir da Piazzale Michelangelo, com o Duomo e o Palazzo Vecchio.
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Savonarola, o profeta desarmado e a cidade que o queimou

Prólogo — De Abaeté a Florença

Entre 1970 e 1972, servi como coroinha na Igreja Nossa Senhora do Patrocínio, em Abaeté, no centro de Minas Gerais. Foi naquele pequeno universo de altares, sinos, incenso e vozes sacerdotais que ouvi, ainda menino, o nome de Frei Carlos Josaphat, o dominicano nascido na mesma cidade e já então transformado numa presença quase lendária pela distância.

Durante muito tempo, minha memória fez o que as memórias infantis costumam fazer: reuniu pessoas, datas e imagens numa única cena. Cheguei a acreditar que o vira subir ao altar de Abaeté durante aqueles anos. Hoje sei que a cronologia não permite essa lembrança literal. Frei Carlos deixara o Brasil em dezembro de 1963 e permaneceria no exterior por aproximadamente três décadas, regressando definitivamente apenas em 1994. A cena não pertence ao arquivo; pertence à maneira pela qual o menino reuniu, numa mesma figura, os dominicanos que celebravam diante dele, o conterrâneo que pagara caro por sua palavra pública e a história de outro frade, morto em Florença quase cinco séculos antes. A correção histórica não destrói a memória; purifica-a.

Frei Carlos Josaphat tornou-se conhecido por sua reflexão tomista, pelo compromisso com a justiça social e pela experiência do jornal Brasil, Urgente. Partiu para a França antes do golpe militar de 1964; depois, as pressões eclesiásticas, o fechamento do jornal e a situação política brasileira prolongaram seu afastamento. Não foi um Savonarola mineiro, e o regime militar não foi seu Alexandre VI — essas equivalências seriam fáceis demais. Mas ambos conheceram, em circunstâncias incomparáveis, o custo de uma palavra religiosa que se recusava a permanecer confinada à sacristia.

Anos mais tarde, já podendo ir a Florença, criei o hábito de subir à Piazzale Michelangelo ao entardecer. Do alto, a cidade se oferece quase inteira: o Duomo, o Palazzo Vecchio, o Arno e os telhados parecem caber num único olhar. Gosto de refazer mentalmente, lá embaixo, o percurso que ligava o convento de São Marco à Piazza della Signoria, onde tudo terminou.

Um leitor poderia interromper esta narrativa e perguntar: “Mas, Juvenil Alves, Savonarola não foi apenas um fanático que encontrou o fim que provocou?” Este ensaio é minha resposta. É cômodo demais reduzi-lo a fanático, e seria igualmente cômodo convertê-lo em santo sem erro, profeta inteiramente inocente ou mártir puro de uma instituição corrompida. Savonarola foi maior e mais perigoso do que qualquer dessas simplificações. Foi um homem de extraordinária austeridade, inteligência e coragem; denunciou males reais; mobilizou uma cidade; contribuiu para reorganizar uma república; acreditou possuir uma missão providencial; e, pouco a pouco, teve dificuldade em distinguir a voz de Deus da interpretação que ele próprio fazia da história.

É desse mirante, unindo as ladeiras de Minas ao epicentro do Renascimento, que proponho olhar para a manhã de 23 de maio de 1498. Naquele dia, as autoridades de Florença montaram um patíbulo, enforcaram três dominicanos, queimaram seus corpos e lançaram as cinzas no Arno para impedir que restassem túmulo e relíquias. Fracassaram no essencial. É da cinza que o rio não conseguiu levar que este ensaio se ocupa.

O menino de Ferrara e a fuga do mundo

Girolamo Savonarola nasceu em Ferrara, em 21 de setembro de 1452, numa família ligada à medicina e à corte dos Este. A figura mais importante de sua educação inicial foi o avô Michele Savonarola, médico respeitado, homem de cultura e autor de tratados. O jovem Girolamo recebeu formação filosófica, estudou Aristóteles e foi progressivamente conduzido ao universo de Tomás de Aquino, cuja disciplina intelectual permaneceria sob a superfície até mesmo de suas pregações mais inflamadas.

A tradição romântica gosta de explicar sua entrada no convento por uma paixão frustrada, geralmente associada à recusa de uma jovem da família Strozzi. A história oferece à biografia a comodidade de um coração partido, mas a documentação conduz a outro caminho: Savonarola descreveu sua fuga de casa como resposta religiosa à corrupção do mundo, não como vingança de amante rejeitado. Em abril de 1475, deixou secretamente a família e ingressou no convento dominicano de Bolonha. Escreveu ao pai procurando justificar a decisão: temia perder a alma num mundo governado, segundo ele, pela soberba, pela sensualidade e pela ambição. Não entrara no convento para dominar cidades — desejava penitência, estudo, silêncio e salvação. Os superiores, porém, viram nele aquilo que ele talvez ainda não desejasse ver: um pregador.

E o púlpito, no começo, não o recebeu bem. Quando foi enviado a Florença, no início da década de 1480, sua pregação teve pouca repercussão. O sotaque de Ferrara, a voz áspera, os gestos pouco elegantes e a organização escolástica dos sermões desagradavam a uma cidade treinada pela retórica humanista. Um testemunho contemporâneo recordaria que, ao fim de determinada série de pregações, o público se reduzira a poucas dezenas de ouvintes. O homem que depois faria multidões disputarem espaço na catedral ainda não aprendera a falar à imaginação coletiva.

Ele encontrou sua voz longe de Florença. Nas pregações realizadas em San Gimignano, Brescia e outras cidades, a exposição acadêmica foi cedendo lugar à linguagem dos profetas bíblicos: castigo, purificação, ruína da Igreja corrompida e renovação futura. Savonarola passou a interpretar seu tempo pela gramática do Apocalipse. Retornou a Florença em 1490, provavelmente favorecido pela recomendação de Giovanni Pico della Mirandola e com a anuência do círculo mediceu. Não era mais o frade desajeitado que a cidade ignorara: chegava convencido de que a Itália seria castigada, a Igreja seria reformada e Florença poderia ocupar lugar providencial nessa transformação. A cidade não sabia o que estava recebendo — e talvez ele também não.

A cidade de Lorenzo e a sombra do flagelo

A Florença do final do século XV não cabe na imagem turística que a posteridade construiu. Era, sem dúvida, uma das capitais culturais da Europa: o comércio, a indústria têxtil e as redes bancárias haviam financiado igrejas, palácios, bibliotecas, esculturas e pinturas. Marsilio Ficino, Pico della Mirandola, Poliziano, Botticelli e o jovem Michelangelo participavam de um ambiente no qual Antiguidade clássica e cristianismo se aproximavam, se confrontavam e frequentemente se misturavam.

Mas a beleza não anulava a desigualdade. Havia crises financeiras, disputas fiscais, rivalidades entre famílias, exclusão política e violência. A antiga república continuava existindo em suas magistraturas, mas os Médici haviam aprendido a governá-la sem abolir formalmente suas instituições. Lorenzo, o Magnífico, não usava coroa; não precisava. Savonarola enxergava naquele esplendor uma doença espiritual: para ele, a cidade celebrava a forma enquanto perdia a alma. O problema não era apenas a sensualidade das imagens, as festas ou os luxos da elite, mas a distância entre o cristianismo professado e a ordem social efetivamente vivida.

Também pesavam sobre a Itália ansiedades mais amplas. A queda de Constantinopla, em 1453, permanecia como ferida na memória cristã. As guerras, as epidemias, os temores sobre o avanço otomano e as expectativas escatológicas aproximavam o fim do século de um clima de juízo. A imprensa ampliava a circulação de sermões, profecias e tratados, e Savonarola se tornaria um dos pregadores mais difundidos de sua geração: seus textos não permaneciam presos ao momento da fala, eram anotados, preparados, impressos e levados para além da Toscana.

O estopim veio de fora. Em 1494, Carlos VIII da França atravessou os Alpes com um exército destinado a reivindicar o Reino de Nápoles, e a invasão revelou a fragilidade militar e política das potências italianas. Piero de’ Medici, filho de Lorenzo, negociou de maneira considerada humilhante com o rei francês e perdeu o apoio da cidade. Os Médici foram expulsos, e Florença ficou sem o senhor informal que governara por trás das instituições.

Foi o instante de Savonarola. Havia anos ele anunciava a aproximação de um flagelo e falava de um novo Ciro, um governante estrangeiro que Deus utilizaria para castigar a Itália e preparar a renovação. Quando Carlos VIII chegou, os seguidores do frade leram a invasão como confirmação de suas advertências: a profecia parecia ter adquirido exército, estandarte e rosto. Não é necessário atribuir milagre ao episódio para compreender sua força. Savonarola percebera com inteligência excepcional a vulnerabilidade da península e traduzira essa percepção na linguagem profética que sua época conhecia; quando o fato político encontrou a expectativa religiosa, a distinção entre análise e revelação desapareceu para milhares de ouvintes. O pregador que anunciara o castigo viu o castigo chegar, e numa cidade sem Médici, diante de um rei estrangeiro, sua palavra tornou-se poder.

A Nova Jerusalém e a república dos homens

Savonarola não assumiu formalmente uma magistratura. Não se tornou gonfaloneiro, não comandou exército nem aboliu a estrutura republicana, e por isso chamá-lo simplesmente de “ditador teocrático” é pouco rigoroso. Mas também seria enganoso dizer que possuía apenas influência espiritual. Savonarola governou indiretamente: pelo púlpito, pela autoridade profética, pelas redes dos piagnoni e pela capacidade de converter convicções religiosas em decisões políticas. Sua palavra pesava sobre os cidadãos que ocupavam os cargos, orientava facções e estabelecia os limites morais dentro dos quais a nova república pretendia reconhecer-se. A pesquisa contemporânea o situa no centro das reformas institucionais e sociais daquele período, sem transformá-lo no titular jurídico do governo.

Seu projeto possuía aspectos notáveis. Defendeu um governo mais amplo, no qual maior número de cidadãos participasse da vida pública, e exerceu influência decisiva na instituição do Grande Conselho, inspirado em parte no modelo veneziano. Apoiou o Monte di Pietà, destinado a oferecer crédito em condições mais favoráveis que as praticadas pelos prestamistas, e defendeu mecanismos de apelação, reformas fiscais e medidas de assistência. Não criou sozinho nenhuma dessas instituições — Florença não era massa inerte à espera de um profeta legislador, e magistrados, juristas, famílias e facções disputavam o desenho da nova ordem. Mas Savonarola ofereceu à reforma uma linguagem moral poderosa: a república seria legítima se estivesse orientada ao bem comum, à justiça e à vontade de Deus.

Florença seria a Nova Jerusalém. A fórmula continha grandeza e perigo. De um lado, permitia atacar a tirania, a vingança política, a exploração dos pobres e a apropriação privada da cidade; de outro, convertia decisões temporais em sinais do plano divino, de modo que quem discordava do projeto já não era apenas adversário político, mas corria o risco de ser percebido como obstáculo à renovação querida por Deus. É nesse ponto que o reformador começa a tocar o limite do profeta político. A política admite negociação porque reconhece a parcialidade de todos; a profecia, quando se acredita diretamente autorizada pelo céu, não negocia com facilidade. A primeira pergunta o que é possível; a segunda afirma o que deve ser. Por algum tempo, Florença acreditou poder reunir as duas.

A santidade obrigatória e o fogo das vaidades

A reforma moral de Savonarola não surgiu num vazio. Pregadores anteriores, confrarias e autoridades municipais já promoviam campanhas contra jogos, blasfêmia, luxo, usura, prostituição e comportamentos sexuais condenados; as fogueiras de objetos considerados vãos também não foram invenção sua, e faziam parte do repertório da pregação penitencial italiana. Savonarola, contudo, transformou essas práticas numa liturgia cívica de grande intensidade. Crianças e jovens foram mobilizados para procissões, cânticos, coleta de esmolas e recolhimento de objetos considerados ocasiões de pecado; a propaganda adversária ampliaria essas ações até descrevê-las como uma polícia infantil invadindo todas as casas. Houve coerção e vigilância, mas sua extensão precisa ser tratada com cautela.

Nas celebrações de Carnaval de 1497 e 1498, objetos foram empilhados e queimados em grandes estruturas: cosméticos, espelhos, perucas, cartas de jogar, dados, instrumentos musicais, roupas luxuosas, livros considerados licenciosos e imagens julgadas moralmente ofensivas. A cena se fixou na memória ocidental como a guerra de Savonarola contra a arte, mas é uma simplificação. A história de que Botticelli teria lançado suas próprias obras-primas mitológicas às chamas não encontra sustentação contemporânea segura. A relação do pintor com o ambiente savonaroliano foi provavelmente real e complexa, e sua produção tardia revela forte tensão religiosa e apocalíptica — a Natividade Mística, pintada depois da morte do frade, respira um mundo de juízo, perturbação e esperança. Isso não prova que Botticelli tenha queimado suas telas.

A fogueira deve ser compreendida antes de ser julgada. Era penitência coletiva, espetáculo religioso, inversão do Carnaval, demonstração de força política e tentativa de purificar a cidade mediante um gesto visível: o objeto queimado representava um pecado rejeitado, e a praça convertia a renúncia privada em teatro público. Compreender, porém, não é aprovar. Uma cidade não vive indefinidamente sob o estado de conversão. A santidade obrigatória cansa, a vigilância moral produz ressentimento, e o entusiasmo que reúne multidões também pode alimentar facções, humilhar adversários e estreitar o espaço da liberdade. Florença começou a dividir-se entre os piagnoni, partidários do frade; os arrabbiati, republicanos hostis a seu poder; os bigi, inclinados à restauração mediceia; e os jovens aristocratas que desejavam recuperar festas, jogos e costumes reprimidos. A Nova Jerusalém ainda se erguia no púlpito; nas ruas, começava a desmoronar.

A lei contra o carisma: Savonarola e Alexandre VI

Imagino um dominicano lendo estas páginas e me advertindo: “Juvenil Alves, não transforme um irmão da Ordem em santo perseguido apenas porque o papa que o enfrentou era Rodrigo Borgia. A queda de Savonarola não começou somente em Roma.” A advertência é literária, mas a objeção é histórica. Em agosto de 1492, Rodrigo Borgia fora eleito papa e escolhera o nome Alexandre VI; em outro ensaio desta série, examinei o homem, o nome e a distância entre a grandeza simbólica da cátedra e a política familiar dos Bórgia.

O encontro entre Alexandre e Savonarola não opôs simplesmente o vício à virtude. O papa possuía graves problemas morais, praticava nepotismo em escala extraordinária e governava os Estados Pontifícios segundo interesses territoriais e familiares. Savonarola, por sua vez, vivia com austeridade, denunciava abusos reais e não procurava riqueza pessoal. Mas a autoridade de Alexandre era institucionalmente verdadeira, enquanto o carisma do frade começava a reivindicar para si um acesso privilegiado à interpretação da vontade divina. O conflito reuniu quatro dimensões inseparáveis: política, disciplina religiosa, pretensão profética e eclesiologia.

A política francesa tornou a crise urgente. Em 1495, Alexandre VI participou da formação da Liga de Veneza, ou Liga Santa, contra a presença de Carlos VIII na Itália, e Florença, influenciada por Savonarola e ligada à França, recusava-se a aderir. Para o papa, São Marco deixava de ser apenas um convento reformador: tornava-se centro de uma política externa contrária ao equilíbrio que Roma procurava estabelecer. Mas havia mais. Savonarola alegava problemas de saúde e segurança para não comparecer a Roma; continuava pregando sob restrições; defendia suas revelações; resistia às tentativas de reorganização da estrutura dominicana de São Marco; e sustentava que determinadas ordens não obrigavam quando contrariavam a caridade e destruíam a reforma. A disputa congregacional não era mero detalhe administrativo: a autonomia de São Marco protegia a comunidade que sustentava Savonarola, sua imprensa, seus seguidores e sua capacidade de ação, e integrá-la a outra estrutura significava reduzir seu poder.

Segundo uma tradição repetida por várias biografias, Alexandre VI teria sondado a possibilidade de elevar Savonarola ao cardinalato, e o frade teria respondido que não desejava outro chapéu vermelho além daquele tingido com seu próprio sangue. A cena é perfeita demais para ser aceita sem cautela: pode ter preservado algo de uma negociação real, mas pode também ter sido moldada posteriormente para anunciar o martírio, e não deve sustentar sozinha a narrativa do conflito.

Em maio de 1497, Alexandre VI excomungou Savonarola. A sanção se apoiava principalmente na desobediência e na resistência às determinações apostólicas, mas estava inserida num quadro mais amplo de suspeitas sobre sua pregação, suas profecias, sua atuação política e os efeitos de sua liderança sobre a comunhão eclesial. Não foi simples condenação de uma nova doutrina, tampouco apenas questão burocrática. Savonarola contestou a validade da censura e, depois de um período de contenção, voltou a celebrar e a pregar, sustentando que permanecia fiel à Igreja, mas não reconhecia como obrigatória uma sentença que considerava fundada em informações falsas e dirigida contra a reforma.

O passo seguinte foi ainda mais grave. O frade participou da preparação de cartas destinadas a soberanos europeus, procurando mobilizar a convocação de um concílio que examinasse Alexandre VI e sua eleição. A história exata dessas cartas — quais foram concluídas, confiadas, interceptadas ou efetivamente recebidas — exige prudência, mas o projeto conciliar existiu. Savonarola já não denunciava apenas os pecados de um papa: procurava criar o mecanismo institucional pelo qual aquele papa pudesse ser julgado e eventualmente deposto. Roma não via mais apenas um pregador desobediente; via a possibilidade de cisma. A partir daí, o recuo tornou-se quase impossível para ambos.

A prova que o fogo recusou

O fim não veio diretamente de uma ordem de execução expedida por Alexandre VI. Veio primeiro da erosão do apoio florentino. A cidade enfrentava peste, fome, dificuldades econômicas, isolamento político e a ameaça de sanções pontifícias, e muitos começaram a perguntar onde estava a prosperidade prometida à Nova Jerusalém. O carisma profético depende, em alguma medida, da correspondência entre palavra e acontecimento; quando a história deixa de confirmar a promessa, os seguidores precisam escolher entre aprofundar a fé ou abandonar o profeta.

Em 1498, um franciscano desafiou os partidários de Savonarola para uma prova de fogo. Fra Domenico da Pescia, discípulo profundamente leal, ofereceu-se para atravessar as chamas em defesa da verdade da missão do mestre. Savonarola não criara o desafio e não seria o homem a caminhar, mas aceitou que seu nome e sua autoridade fossem submetidos à ordália — e foi um erro. Em 7 de abril, uma multidão reuniu-se na Piazza della Signoria. Duas passagens entre pilhas de madeira deveriam ser incendiadas, e um dominicano e um franciscano atravessariam o corredor de fogo; aquele que saísse ileso teria recebido de Deus a confirmação pública.

O espetáculo não ocorreu. Dominicanos, franciscanos e autoridades consumiram horas em discussões sobre roupas, substituição de vestes, objetos que poderiam esconder proteção contra o fogo e, sobretudo, a intenção de Fra Domenico de levar consigo o Santíssimo Sacramento. A chuva terminou de desfazer uma cerimônia que já naufragara em controvérsias. A multidão fora ver Deus pronunciar uma sentença e voltou para casa sem fogo, sem milagre e sem resposta. O fracasso foi atribuído a Savonarola: para muitos, a prova que não se realizara já bastava como prova contra ele.

No dia seguinte, uma multidão atacou o convento de São Marco. Houve resistência, violência e mortes; o grande sino do convento, chamado Piagnona, tocou para convocar os partidários, e depois da derrota do movimento o próprio sino seria removido, publicamente humilhado e tratado como se também fosse culpado — quando o poder não consegue julgar apenas os homens, começa a processar os símbolos. Savonarola entregou-se com Fra Domenico e Fra Silvestro Maruffi. A palavra deixava o púlpito; começava a corda.

O strappado, as confissões e a pena do notário

Os interrogatórios de Savonarola não podem ser narrados como processo imparcial de apuração. As autoridades florentinas que o julgaram eram politicamente interessadas em sua destruição. Ele foi submetido ao strappado: tinha os braços amarrados atrás das costas, era içado por uma corda e submetido a quedas ou suspensões que provocavam dor extrema e podiam deslocar os ombros. Sob tortura, admitiu que suas profecias não provinham de revelação divina e que a ambição participara de sua atuação; em outros momentos, alterou ou retirou declarações. As atas chegaram até nós em versões cuja elaboração e fidelidade continuam discutidas.

Os admiradores do frade sustentaram que o notário Ser Ceccone falsificara substancialmente o processo; seus adversários viram nas confissões a revelação definitiva de um impostor. A historiografia contemporânea é mais cautelosa e pergunta se houve confissão sincera, tentativa desesperada de interromper a tortura, manipulação dos interrogadores ou combinação desses fatores — Donald Weinstein fez dessa incerteza um dos centros de sua biografia de Savonarola. Não é possível afirmar que todas as palavras tenham sido inventadas, mas é possível afirmar que nenhuma confissão produzida pelo strappado pode ser lida como expressão plenamente livre da consciência. O processo possuía formas jurídicas próprias de seu tempo, mas estava comprometido pela coação, pela hostilidade dos julgadores e por uma conclusão política que precedia o término dos interrogatórios. A tortura não nos autoriza a canonizar o acusado; também não nos permite convertê-lo em testemunha confiável contra si mesmo.

Entre uma sessão e outra, Savonarola escreveu. Na prisão nasceram as meditações conhecidas como Infelix ego e Tristitia obsedit me, construídas em torno dos Salmos. O pregador que antes interpretava os destinos de Florença, da Itália e da Igreja passou a falar principalmente de pecado, abandono, temor, esperança e misericórdia. Não sabemos se abandonou interiormente toda pretensão profética; sabemos que, naqueles textos, a profecia deixa de ocupar o centro. O homem que tentara interpretar o plano de Deus para as cidades já não possuía cidade, púlpito, seguidores ou futuro. Restava-lhe pedir misericórdia — e talvez seja esse o momento mais cristão de sua obra.

A praça e a destruição do corpo

Em 23 de maio de 1498, Savonarola, Fra Domenico e Fra Silvestro foram conduzidos à Piazza della Signoria. A execução foi resultado da atuação conjunta e sucessiva de poderes civis e eclesiásticos: Alexandre VI o excomungara e pressionara Florença; autoridades florentinas o prenderam, torturaram e julgaram; comissários eclesiásticos participaram do exame final e da degradação dos três religiosos; a República executou a sentença secular. Não é historicamente suficiente dizer que “a Igreja queimou Savonarola”, mas também seria falso retirar da Igreja qualquer responsabilidade: a instituição que o excomungara participou de sua condenação, e a cidade que ele tentara reformar ergueu o patíbulo.

Os três foram degradados do estado clerical, enforcados e depois queimados. As cinzas foram recolhidas e lançadas no Arno para evitar a formação de um túmulo, o culto às relíquias e a continuidade física da memória: a intenção era eliminar não apenas o homem, mas a possibilidade de que seu corpo se tornasse argumento. O gesto fracassou. Os seguidores conservaram escritos, imagens, objetos e lembranças; a repressão civil e eclesiástica destruiu o corpo, mas não encerrou a controvérsia, e Savonarola continuou sendo disputado por católicos, protestantes, republicanos, historiadores, artistas e dominicanos. As cinzas foram para o rio; o nome permaneceu na praça.

O profeta desarmado

Maquiavel era um jovem florentino durante a ascensão e a queda de Savonarola. Acompanhou seu fenômeno e, depois da execução, ingressou na chancelaria da República. Em O Príncipe, transformou o frade no exemplo clássico do profeta desarmado: aquele que consegue fazer os homens acreditarem, mas não possui meios de mantê-los fiéis quando deixam de acreditar. A observação é brutal e verdadeira como sociologia do poder. O carisma pode fundar uma ordem, mas para preservá-la precisa transformar-se em instituição, regra, sucessão e capacidade de suportar a dúvida. Savonarola dependia excessivamente da continuidade de sua autoridade profética, e quando a profecia perdeu crédito não havia estrutura autônoma capaz de substituí-la.

Mas Maquiavel não esgota o homem. A espada explica por que o profeta perdeu; não decide se aquilo que ele denunciava era falso. O fato de Savonarola ter sido derrotado não absolve a corrupção que denunciou, e o fato de ter sido moralmente austero não autentica automaticamente suas revelações. Eis o centro de sua história: uma causa justa não torna infalível aquele que a defende.

Católico antes de Lutero

Décadas depois, Martinho Lutero apropriou-se da memória de Savonarola. Publicou suas meditações da prisão e viu nele uma testemunha contra a corrupção de Roma; para os protestantes, o dominicano poderia ser incluído numa genealogia de precursores da Reforma. A aproximação é compreensível, mas limitada. Savonarola permaneceu, nos fundamentos de sua espiritualidade e de sua teologia, dentro do universo católico: era dominicano, tomista, sacramental e devoto, e não propôs a ruptura doutrinal que Lutero promoveria. Sua crítica dirigia-se aos abusos do ofício e à indignidade de seu ocupante, não à destruição sistemática do papado, dos sacramentos ou da estrutura eclesial.

Isso não significa que sua posição fosse eclesiologicamente simples. Ao negar a validade concreta da excomunhão, retomar a pregação e procurar convocar um concílio contra Alexandre VI, Savonarola colocou-se numa zona de enorme tensão com a autoridade pontifícia, continuando a afirmar fidelidade à Igreja enquanto contestava, na prática, o comando jurídico de seu chefe visível. Foi católico e foi desobediente; foi reformador e foi profeta segundo sua consciência. Essas afirmações não se anulam, e é precisamente sua coexistência que impede qualquer classificação fácil.

Coda — A instituição e o homem

Savonarola morreu porque denunciou a corrupção da Igreja ou porque transformou a própria fé numa autoridade que já não aceitava ser corrigida? A resposta honesta não cabe numa única alternativa. Suas denúncias morais eram, em muitos pontos, justas: a Igreja do final do século XV necessitava de reforma, e o comportamento de parte do clero, o comércio de benefícios, o nepotismo, a riqueza cortesã e a distância entre ministério e vida constituíam escândalos reais, que Alexandre VI só agravava com a falta de credibilidade moral da autoridade que exercia. Mas Savonarola não caiu apenas porque disse verdades incômodas. Caiu também porque vinculou sua autoridade religiosa a uma interpretação providencial dos acontecimentos; porque fez da aliança francesa parte de um horizonte profético; porque resistiu a determinações de seus superiores; porque tratou a própria missão como medida para julgar a validade das ordens que recebia; e porque procurou mobilizar um concílio contra o papa.

O conflito não opôs simplesmente um corrupto a um santo. Opôs uma autoridade institucional profundamente desacreditada pela vida de seu titular a um carisma moral que, convencido de sua origem divina, encontrava dificuldade crescente para reconhecer os limites da própria interpretação. Alexandre VI tinha o direito institucional que sua conduta tornava quase impossível respeitar; Savonarola possuía uma credibilidade moral que sua pretensão profética tornava cada vez mais difícil corrigir. A tragédia nasceu quando a autoridade perdeu a credibilidade e o carisma perdeu a medida.

Em 1997, a Postulação Geral dos Dominicanos pediu à Arquidiocese de Florença que examinasse a possibilidade de iniciar uma causa de beatificação. Comissões histórica e teológica estudaram o caso e apresentaram conclusões favoráveis. O necessário nihil obstat da Santa Sé, porém, nunca foi concedido, e a causa não chegou a ser formalmente aberta. Savonarola, portanto, não deve ser apresentado como Servo de Deus. A hesitação é, em si, reveladora: cinco séculos depois, a Igreja ainda não encontrou uma fórmula simples para julgar o frade que excomungou e cuja condenação ajudou a produzir.

Volto, para terminar, a Abaeté. O menino que fui não viu Frei Carlos Josaphat naquele altar entre 1970 e 1972 — o arquivo corrige a cena. Mas a memória infantil havia percebido, de maneira confusa, algo que a história confirma por outros caminhos: existem pregadores para os quais a palavra religiosa não é decoração, conforto nem carreira, mas responsabilidade. Frei Carlos voltou do longo afastamento, ensinou, escreveu e morreu quase centenário; Savonarola não voltou de sua praça. A aproximação entre eles termina aí. Um viveu no século das ditaduras, da imprensa moderna e dos direitos humanos; o outro, na cristandade das cidades-Estado, das profecias políticas e das ordálias. Um enfrentou pressões e conheceu o afastamento; o outro foi torturado, enforcado e queimado. Mas existe uma pergunta que atravessa os dois mundos: quanto custa falar quando o silêncio seria mais seguro?

Um interlocutor imaginário poderia ainda me dizer que todo pregador corajoso carrega algo de Savonarola. Talvez seja verdade, e a sabedoria está em discernir qual parte dele deve ser imitada — a austeridade, a coragem, o cuidado com os pobres, a denúncia da corrupção — e qual parte precisa ser temida: a certeza de que nossa leitura do mundo coincide inteiramente com a voz de Deus. O maior legado de Savonarola talvez não seja a resposta que ofereceu, mas a tensão que deixou. Como reformar uma instituição sem acreditar que o reformador está acima de qualquer correção? Como obedecer a uma autoridade juridicamente legítima quando o homem que a exerce destrói sua credibilidade moral? Como denunciar o pecado sem converter o adversário em inimigo de Deus? Como reconhecer uma vocação sem transformar convicção em infalibilidade pessoal? Savonarola não resolveu essas perguntas: ele as levou ao púlpito, ao governo, à prisão e ao fogo. É delas — e da cinza que os rios nunca conseguem levar — que Juvenil Alves quis lembrar aqui.


Este ensaio integra a série vaticanista “Cátedra, poder e humanidade”. O texto distingue fatos documentados, interpretações historiográficas, recordações pessoais e recursos narrativos. As figuras históricas — Savonarola, Alexandre VI — e o dominicano Frei Carlos Josaphat são reais e nomeados como tais; a aproximação entre Frei Carlos e Savonarola é assumidamente interpretativa e não afirma identidade biográfica, institucional ou histórica entre os dois. Alguns diálogos e cenas destes textos inspiram-se em conversas reais mantidas com o autor, Juvenil Alves, em diversas ocasiões; para preservar as fontes, os nomes desses interlocutores foram substituídos por nomes fictícios, e qualquer coincidência entre esses nomes e os de pessoas reais é involuntária.

Juvenil Alves Ferreira Filho Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista · Escritor

Fontes e leituras

WEINSTEIN, Donald. Savonarola: The Rise and Fall of a Renaissance Prophet. New Haven: Yale University Press, 2011.

MARTINES, Lauro. Fire in the City: Savonarola and the Struggle for the Soul of Renaissance Florence. Oxford: Oxford University Press, 2006.

SAVONAROLA, Girolamo. Selected Writings: Religion and Politics, 1490–1498. New Haven: Yale University Press, 2006.

SAVONAROLA, Girolamo. Prison Meditations on Psalms 51 and 31.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe, cap. VI (a formulação do “profeta desarmado”).

Sobre a tentativa de introdução da causa de beatificação e a ausência do nihil obstat da Santa Sé, ver a documentação da Ordem dos Pregadores e os verbetes históricos correlatos.

Quem escreve

Juvenil Alves - jurista, teólogo, filósofo, psicanalista e escritor.

Nasceu em Abaeté, no interior de Minas Gerais. É filho de Juvenil Alves, alfaiate, e de Isabel Amélia, servente escolar. Foi nesse ambiente simples que aprendeu, desde cedo, o valor do trabalho, da disciplina, da educação e da responsabilidade.

Sua formação intelectual começou pela Filosofia  e pela Teologia e, mais tarde, encontrou no Direito o espaço emq ue essas reflexões passaram a dialogar diariamente com a vida concreta das pessoas, das empresas e das instituições. Desde então, nunca deixou de percorrer esse cruzamento.

Ao longo de mais de quatro décadas de atuação profissional, construiu uma carreira dedicada ao Direito Tributário e Empresarial, assessorando empresas, famílias e organizações em questões de alta complexidade. Paralelamente, manteve um estudo permanente das Humanidades, formando uma biblioteca construída ao longo de quase cinquenta anos de leituras, pesquisas e anotações.

Neste blog, reúne essas duas experiências. Escreve sobre Direito Tributário, Direito Empresarial, Reforma  Tributária, Filosofia do Direito, Filosofia, Teologia, Psicanálise, Liderança, Ética, Humanidades e Neurodiversidade. Não para oferecer respostas prontas, mas para investigar as ideias, os príncipios e os fundamentos que orientam as decisões humanas.

Os ensaios publicados aqui dialogam com autores clássicos e contemporâneos e procuram aproximar o pensamento filosófico da realidade jurídica, empresarial e social. Muitos deles integram projetos editoriais em desenvolvimento e servirão de base para futuras obras.

Este espaço nasceu da convicção de que a técnica, quando separada das Humanidades, empobrece o pensamento; e de que a Filosofia, a Teologia, a Psicanálise e o Direito continuam oferecendo instrumentos indispensáveis para compreender o ser humano, as instiuições e os desafios do nosso tempo.

Sem fórmulas. Sem juridiquês.

O conteúdo chega em dois formatos: leia quando quiser no blog ou ouça quando puder no podcast, disponível no Spotify.

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