Reis Católicos, Granada, Colombo e o paradoxo da expansão católica
HUMANIDADES · A CRUZ, A COROA E O MUNDO – I
Prólogo — O ano que não cabe em uma só memória
Há anos que são apenas datas, e há anos que se tornam símbolos. 1492 é do segundo tipo. Nele se concentraram, em poucos meses e sob a autoridade dos mesmos dois soberanos, três acontecimentos que isoladamente já bastariam para marcar uma geração, e que juntos inauguraram um mundo: a queda de Granada, último reino muçulmano independente da península; a expulsão dos judeus de Castela e Aragão; e a partida de três embarcações que, buscando a Ásia pelo ocidente, encontrariam um continente que a Europa não sabia existir. Três portas, abertas e fechadas quase ao mesmo tempo, pela mão dos mesmos dois soberanos.
É por isso que 1492 não cabe numa só memória. Para uns, é o ano glorioso em que a cristandade leu o encerramento simbólico de uma luta de quase oito séculos e lançou a fé para além do oceano. Para outros, é o ano da ferida: da comunidade judaica desfeita, do exílio em massa, do início de uma expansão que traria consigo a conquista e a submissão de povos inteiros. As duas memórias são verdadeiras, e é precisamente por serem as duas verdadeiras ao mesmo tempo que o ano se torna difícil. Este ensaio, que abre uma série sobre a cruz, a coroa e o mundo moderno, não quer escolher entre essas memórias. Quer compreender como elas nasceram do mesmo gesto — como, em 1492, a fé católica e a construção de um império começaram a caminhar juntas, e já não se deixariam separar.
I. Antes da Espanha: Castela, Aragão e a unidade desejada
Convém começar por desfazer uma ilusão de perspectiva: em 1492 não existia ainda a Espanha. Existiam reinos — Castela, Aragão, Navarra, e até poucos meses antes o emirado de Granada — cada um com as suas leis, moedas, cortes e memórias. O que o casamento de Isabel de Castela e Fernando de Aragão, em 1469, criara não fora um Estado unificado, mas uma união de duas coroas que continuariam, por muito tempo ainda, a ser distintas. Dormiam sob o mesmo teto dinástico, mas mantinham as contas separadas.
Ainda assim, havia uma aspiração que os atravessava, e que era ao mesmo tempo política e religiosa: a ideia de uma Hispania reunida sob a fé cristã, herdeira da unidade perdida no século VIII com a invasão muçulmana. Essa ideia não era invenção de Isabel e Fernando; vinha de longe, alimentada por crônicas, por reis anteriores, pela longa empresa que a historiografia chamaria de Reconquista. Mas foi com eles que ela deixou de ser aspiração e se tornou projeto — um projeto em que a unidade da fé e a unidade do poder eram pensadas como uma coisa só. Para a mentalidade do tempo, e sobretudo para a destes monarcas, um reino cristão só estava verdadeiramente inteiro quando a sua fé também o estava. Reunir a península e reunir a cristandade eram, aos olhos deles, o mesmo verbo.
II. Isabel e Fernando: fé sincera, cálculo dinástico e governo
Quem eram, então, os dois soberanos que encarnaram esse projeto? Antes de qualquer juízo, é preciso vê-los como eram, e não como a lenda os pintou de um lado ou de outro.
Isabel de Castela nascera em 1451, numa infância marcada pelo isolamento e pela instabilidade de uma corte dividida em facções. Chegou ao trono ao fim de uma disputa sucessória dura, e trouxe para o governo uma personalidade de raro autocontrole, disciplina e uma devoção profunda, moldada por confessores exigentes. Era mulher de fé sincera e severa, e ninguém que leia os documentos do seu reinado pode duvidar da autenticidade da sua religião. Mas era também uma soberana que não recuava diante do uso da força quando a via necessária, e que compreendia o poder com uma lucidez que nada tinha de ingênua.
Fernando de Aragão, nascido em 1452, era de outra têmpera. Formado nas tradições pactistas de Aragão e na experiência mediterrânica da sua coroa, com interesses antigos na Sicília e na Sardenha, desenvolveu um pragmatismo político que impressionaria os contemporâneos — a ponto de, anos depois, Maquiavel o tomar como um dos modelos vivos do governante astuto. Onde Castela tinha um tom messiânico, Aragão trazia o cálculo. Fernando era católico como o seu tempo o era, mas manejava a religião e a política com a mesma mão, sem sentir entre elas a fronteira que a sensibilidade moderna gostaria de encontrar.
Juntos, formavam uma combinação incomum: a devoção castelhana e o pragmatismo aragonês, a rainha de convicção e o rei de manobra. E é aqui que se impõe uma advertência de método, que vale para todo este ensaio. Seria anacrônico separar, neles, a fé sincera do cálculo de governo, como se fossem dois compartimentos. Para Isabel e Fernando, servir a Deus e engrandecer o reino não eram propósitos concorrentes que precisassem ser conciliados; eram o mesmo propósito, vivido sem a menor sensação de contradição. Compreender 1492 exige aceitar essa unidade — não para absolvê-la nem para condená-la de antemão, mas para vê-la como ela de fato era.
III. Granada: a cruz no fim de al-Andalus político
No dia 2 de janeiro de 1492, as chaves de Granada passaram às mãos dos Reis Católicos. Terminava ali, depois de quase oito séculos, a presença de um poder político muçulmano na península ibérica. O reino nasrida de Granada, último poder político muçulmano independente da Península Ibérica e resquício da al-Andalus que já fora a civilização mais brilhante da Europa medieval, rendia-se ao fim de uma guerra longa, financiada em boa parte pelas bulas de cruzada e pelos dízimos da Igreja.
Para a cristandade da época, foi um acontecimento de ressonância imensa. A notícia correu a Europa e chegou até Roma, onde se celebrou com festas a vitória da fé sobre o Islã — num continente que, quatro décadas antes, vira Constantinopla cair nas mãos otomanas e sentia o avanço muçulmano pelo oriente. Granada foi, nesse contexto, um consolo e um símbolo: a prova de que a maré podia ser revertida, de que a cristandade ainda era capaz de vencer.
As Capitulações de Granada, assinadas na rendição, prometiam aos vencidos a preservação da sua religião, das suas leis e dos seus costumes. Nos primeiros tempos, essa promessa foi conduzida com relativa moderação pelo primeiro arcebispo da cidade, partidário de uma assimilação lenta e persuasiva. A queda de Granada, em si, não foi um massacre; foi uma capitulação negociada. Mas continha, na sua própria lógica, uma tensão que os anos seguintes tornariam aguda: um reino que fundava a sua identidade na unidade da fé teria, mais cedo ou mais tarde, dificuldade em conviver com a diferença que acabara de absorver. Por ora, porém, o que se via era a cruz erguida sobre a Alhambra, e a sensação, para os vencedores, de que uma história de séculos se completava.
IV. A unidade que expulsa: judeus, conversos e a sombra da Inquisição
Poucos meses depois da alegria de Granada veio o decreto que carrega a outra face do ano. Em 31 de março de 1492, os Reis Católicos assinaram em Granada o édito que ficou conhecido como Decreto de Alhambra, ordenando a todos os judeus dos seus reinos que se convertessem ao cristianismo ou deixassem a Espanha em poucos meses. Foi o fim de uma das mais antigas e importantes comunidades judaicas da Europa, presente na península havia mais de mil anos.
Para entender o decreto sem o reduzir a um mero acesso de fanatismo, é preciso ver o que o precedeu. Havia décadas que a Espanha vivia uma tensão profunda em torno dos conversos — os judeus que, sob pressão de perseguições anteriores, haviam adotado o cristianismo, e cuja sinceridade era objeto de suspeita permanente. Fora em parte para vigiar esses cristãos-novos que se estabelecera, em 1478, a Inquisição espanhola, um tribunal que, diferentemente da inquisição medieval, respondia de perto à Coroa. Ela não foi apenas um tribunal religioso: tornou-se também um instrumento régio de vigilância da unidade desejada, um órgão em que a defesa da ortodoxia e o controle político do reino se sobrepunham. A lógica que conduziu ao decreto de 1492 era a mesma que animara a guerra de Granada: a convicção de que a unidade do reino dependia da unidade da fé, e de que a presença judaica, por manter viva uma alternativa religiosa, punha em risco a assimilação dos conversos.
Isso explica, mas não suaviza. O resultado foi um êxodo doloroso, a dispersão de dezenas de milhares de pessoas rumo a Portugal, ao norte da África, à Itália e ao Império Otomano, e a perda, para a Espanha, de parte considerável do seu capital humano, econômico e intelectual. Aqui está a primeira sombra nítida do ano luminoso: no mesmo movimento em que a fé católica celebrava um triunfo, a unidade que ela buscava se afirmava também por meios de imposição política. A unidade que os monarcas buscavam foi, em 1492, uma unidade que expulsava — e essa é uma verdade que nenhuma leitura honesta do período pode contornar.
V. Colombo: o Atlântico como nova fronteira da fé e da coroa
Enquanto Granada era celebrada e o édito dos judeus era executado, um navegador genovês insistia na corte com um projeto que muitos julgavam disparatado: alcançar as Índias navegando para o ocidente. Cristóvão Colombo obtivera, depois de anos de recusas, o apoio da Coroa de Castela e o apoio financeiro decisivo de figuras da corte castelhana, e em agosto de 1492 partiu do porto de Palos com três embarcações. Em outubro, avistou terra numa ilha do Caribe. Julgava ter chegado à orla da Ásia; abrira, sem o saber, o caminho para um continente inteiro.
É tentador contar essa partida como um episódio puramente técnico ou comercial, e havia de fato nela a cobiça das rotas das especiarias e do ouro. Mas seria incompleto. A empresa de Colombo vinha embrulhada, desde o início, numa linguagem religiosa: a de levar a fé cristã a terras desconhecidas, a de encontrar aliados contra o Islã, a de cumprir uma missão que o próprio navegador entendia em termos providenciais. Para a Coroa que o patrocinava, a expansão marítima não era um projeto separado da fé que acabara de vencer em Granada — era o seu prolongamento natural sobre o mar.
E aqui o ano fecha o seu círculo de sentido. No mesmo tempo em que a fé se concentrava dentro das fronteiras, expulsando o que não se conformava a ela, essa mesma fé se lançava para fora, rumo a um horizonte sem limites conhecidos. A energia era uma só. O impulso que fechava a península à diferença religiosa e o impulso que abria o oceano à expansão nasciam da mesma fonte: a convicção de uma cristandade que se sentia, ao mesmo tempo, vitoriosa e chamada a crescer.
VI.O paradoxo católico de 1492
Chegamos, assim, ao coração do ano. 1492 foi o ano em que a cruz fechou uma porta em Granada e abriu outra no Atlântico. É essa simultaneidade que constitui o que se pode chamar de paradoxo católico de 1492: no exato momento em que a fé parecia concluir uma longa história de unificação interna, ela iniciava a maior expansão missionária da história moderna — e o fazia amarrada, desde o primeiro instante, à coroa, à conquista e à exclusão.
O paradoxo não se resolve escolhendo um dos lados. Quem vê apenas a glória — o fim de uma longa história peninsular, a fé levada a novos mundos — precisa fechar os olhos ao exílio dos judeus e ao que a expansão traria de submissão e violência. Quem vê apenas a culpa — a intolerância, a conquista — precisa negar que ali de fato se deu uma das maiores expansões religiosas que a humanidade conheceu, vivida por muitos com sinceridade e sacrifício. As duas leituras unilaterais são falsas pela metade que omitem. A verdade mais difícil, e mais honesta, é que as duas coisas foram o mesmo movimento: a fé que se expandia era também a fé administrada pela máquina da coroa; a devoção que levava missionários ao mar era a mesma que assinava o decreto de expulsão.
Não se trata de julgar o século XV com os olhos do século XXI, projetando sobre Isabel e Fernando categorias que eles não teriam reconhecido. Trata-se de algo mais exigente: compreender que, naquele mundo, a fé sincera e o poder do Estado se tinham fundido a ponto de já não poderem ser separados — e que dessa fusão nasceriam tanto a expansão do cristianismo por todo um hemisfério quanto as feridas que ainda hoje pedem uma linguagem honesta.
Coda — A fé que se expandiu e a sombra que ficou
1492 não foi apenas um ano de vitória, nem apenas um ano de perda. Foi o ano em que a fé católica, ao encontrar a máquina da coroa, ganhou o Atlântico e perdeu a inocência. Dali sairia uma das maiores expansões religiosas da história. Dali também sairiam feridas que ainda pedem linguagem honesta.
Compreender esse ano é aceitar viver, por algumas páginas, dentro de uma tensão que não se deixa dissolver — a tensão entre a fé que ilumina e o poder que constrange, entre a porta que se abre e a que se fecha, entre a memória do triunfo e a memória da perda. A série que se abre aqui nasce dessa tensão: compreender como a cruz, a coroa e o mundo moderno começaram a caminhar juntos.
Juvenil Alves Ferreira Filho
Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista · Escritor