Prefere ouvir? Este ensaio também está em áudio:
Mircea Eliade, o terror da história e a passagem do rei imaginado ao cavaleiro que levou o mito dentro de si
Prólogo — A esperança que precisava de um lugar
Há mitos que não nascem da ignorância geográfica diante de um mundo inexplorado, mas da necessidade humana de organizar o medo e dar contorno à incerteza da existência. Quando observamos a história das crenças e das grandes narrativas, percebemos que o imaginário não atua como um mero escape da realidade, mas como uma ferramenta de sobrevivência diante do caos. Preste João não foi apenas um erro da cartografia medieval. Ele foi uma esperança localizada: a ideia de que, em algum lugar além do mundo conhecido, ainda haveria um centro cristão intacto, um rei justo, uma força capaz de vir em socorro da Europa ameaçada.
Dom Quixote, séculos depois, surge num mundo onde esse tipo de esperança já não encontra onde se ancorar no mapa. O globo começava a ser circunavegado; os continentes, descritos; os limites da Terra, medidos pela razão e pela exploração mercantil. O mito, já sem a mesma liberdade para se alojar no mapa, refugia-se na imaginação de um homem solitário. Este ensaio — desdobramento das reflexões sobre a “geografia da esperança” que guiou a busca pelo rei cristão do Oriente — observa essa transição na alma ocidental. Partindo de categorias de Mircea Eliade, investigamos como esses dois modelos do imaginário revelam formas diferentes, mas complementares, de enfrentar o vazio do tempo.
Preste João: o mito projetado no horizonte
O rei-sacerdote conhecido como Preste João ocupou o horizonte de expectativa da Europa por vários séculos. As primeiras notícias de sua existência circularam em meados do século XII, quando a cristandade ocidental enfrentava crises internas e o avanço das forças islâmicas no Oriente. A princípio, esse monarca foi associado a um Oriente vasto e mal conhecido, muitas vezes nomeado genericamente como “Índias”. Depois, com a expansão mongol e os relatos de viajantes, a sua localização imaginária foi sendo deslocada, corrigida, confundida e reaberta. Mais tarde, as necessidades políticas e o pragmatismo das viagens de exploração levaram a figura para a África, enraizando o mito na Etiópia cristã — o que motivou contatos diplomáticos e expedições, como a do português Pêro da Covilhã.
Toda essa busca foi alimentada por uma carta apócrifa, supostamente escrita pelo próprio Preste João em 1165 e endereçada ao imperador bizantino Manuel Comneno. O documento descrevia um reino de maravilhas inesgotáveis, rios de pedras preciosas, paz e justiça absoluta. O poder daquela correspondência falsificada estava em dar concretude a um desejo coletivo. A Europa sitiada carecia de um espelho de virtude e de um aliado formidável. O reino do Preste funcionava como um centro idealizado, uma geografia sagrada intocada pelas corrupções e derrotas do presente. Embora não tenha existido como monarca real, sua sombra moveu frotas, forjou alianças e redesenhou rotas marítimas. No fim das contas, Preste João não governou um reino: governou uma expectativa.
(Para o percurso histórico completo dessa lenda — de Qatwan à desmistificação portuguesa —, veja o primeiro ensaio da série: “Preste João: a geografia da esperança e o rei que a Europa precisou inventar“.)
Eliade e o terror da história
Para compreender a força de invenções tão duradouras, a categoria eliadeana ajuda a iluminar a relação tensa do ser humano com a temporalidade. Numa leitura inspirada em Mircea Eliade, o homem das sociedades tradicionais não vive o tempo de forma neutra ou contínua. Para ele, o tempo profano — a sucessão de acontecimentos lineares e irreversíveis — é desprovido de valor, e o seu desenrolar costuma ser vivido como um fardo. É o que Eliade chamou, em sua reflexão sobre o mito e o eterno retorno, de “terror da história”: a dificuldade de suportar acontecimentos históricos quando eles parecem não poder ser reconduzidos a um sentido superior.
Para suportar o peso desse terror, o ser humano recorre ao mito e ao sagrado. O mito permite reintegrar os acontecimentos caóticos a um sentido maior, recordando um tempo originário, o tempo das fundações. Ao estabelecer um simbolismo do centro — um axis mundi, um eixo em torno do qual o cosmos se organiza —, o imaginário religioso cria orientações no espaço homogêneo e oferece ao indivíduo um abrigo simbólico. A lenda de Preste João funcionou, para a cristandade medieval, como a projeção desse axis mundi no horizonte inexplorado. Projetar um reino de perfeição além do mar não era ingenuidade: era uma forma de organizar o desespero e suportar a turbulência histórica da época. O mito não apaga a história; torna-a habitável.
Dom Quixote: o mito depois que o mapa se rompe
Se Preste João é o mito amparado pela vastidão e pelo desconhecimento do mapa, o protagonista da obra de Cervantes aparece num mundo já atravessado pela modernidade incipiente. Na aurora do século XVII, o mapa global fora preenchido, os impérios tornaram-se máquinas burocráticas, e a razão administrativa passara a substituir o impulso épico. As antigas formas cavalheirescas e o idealismo romântico estão deslocados da realidade empírica. É nesse cenário de desencantamento que Alonso Quijano, depois de ler exaustivamente romances de cavalaria, tenta viver segundo modelos heroicos que o mundo ao redor já não reconhece e ridiculariza.
É possível ler Dom Quixote não apenas como o relato cômico das desventuras de um fidalgo lunático, mas como o testamento de uma época que já não consegue abrigar a sacralidade e o rito no cotidiano. Cervantes não assassina o ideal cavaleiresco de forma cínica; ele mostra o mito sobrevivendo como desajuste, como inadequação, mas também revestido de nobreza trágica. Num mundo em que os antigos códigos heroicos já soavam deslocados, o sentido mítico começa a perder morada pública e a reaparecer como desajuste individual. Como notou o próprio Eliade a respeito da sobrevivência das estruturas míticas, em contextos secularizados o mito não desaparece: ele se degrada e se refugia na literatura, no romance e na ficção. O cavaleiro de La Mancha tenta, sozinho, reencenar o tempo sagrado num espaço profano. Dom Quixote é o mito quando já não encontra lugar no mundo e precisa vestir uma armadura velha para continuar respirando.
Do reino distante ao cavaleiro solitário
Aproximar essas duas figuras exige compreender suas naturezas contrastantes e complementares no desenvolvimento da alma ocidental. Preste João é o mito coletivo, geográfico e externo. Era uma figura aguardada publicamente, uma força salvífica ligada à expansão cartográfica e ao alargamento do horizonte europeu. Procurá-lo exigia mobilização de Estado, navios, cartas credenciais, embaixadores e tradutores. Era a convicção coletiva de que a redenção da história e a justiça poderiam ser encontradas na próxima fronteira física.
Em contraste, Dom Quixote é o mito individualizado, interiorizado e literário. Não é o soberano de um império distante com rios de ouro, mas um fidalgo empobrecido numa aldeia espanhola de cujo nome o narrador não quer se lembrar. Sua busca não exige cruzar oceanos ou selar alianças, mas enfrentar moinhos de vento, estalajadeiros, rebanhos de ovelhas e o escárnio dos contemporâneos. É um herói deslocado, atrelado à própria imaginação e ao fracasso material de suas empreitadas.
Podemos dizer que entre Preste João e Dom Quixote há uma passagem decisiva na sensibilidade histórica europeia: a esperança deixa de ser projetada num reino distante e institucionalizado e passa a sobreviver como fidelidade solitária e imaginativa a um mundo que já desapareceu. Caminhamos do mito projetado no espaço ao mito exilado na alma.
Conclusão — Quando a esperança perde o mapa
Sem converter a literatura em esquema rígido e sem reduzir a polifonia de Cervantes às formulações de Eliade, colocar o rei oriental e o cavaleiro espanhol lado a lado permite enxergar uma dinâmica mais profunda sobre a condição humana. Preste João nunca existiu historicamente, mas a necessidade política de imaginá-lo, sim. Dom Quixote é um personagem de ficção com a mente tomada por ilusões, mas sua suposta loucura denuncia uma realidade empobrecida de significado e esvaziada de grandeza moral.
Para as Humanidades, a pergunta essencial diante dessas narrativas não é apenas se o mito é verdadeiro como fato documental. A pergunta que se impõe é: que dor coletiva, que forma de terror da história, que ausência insuportável torna necessário inventá-lo?
Preste João mostra uma Europa que ainda podia desenhar a esperança no mapa, confiando que o sagrado habitava o espaço inexplorado. Dom Quixote mostra o homem moderno que, depois de perder as ilusões desse mesmo mapa, tentou carregar a esperança e a honra dentro de si, suportando o peso do ridículo. Entre o rei distante que nunca foi encontrado e o cavaleiro solitário que nunca foi compreendido, há uma longa história da alma ocidental: primeiro ela procurou seu centro de salvação no horizonte; depois, quando o horizonte se fechou, tentou salvá-lo na trincheira da imaginação.
Alguns diálogos e cenas dos textos deste blog inspiram-se em conversas reais mantidas com o autor, Juvenil Alves, em diversas ocasiões. Para preservar as fontes, os nomes desses interlocutores são substituídos por nomes fictícios, e qualquer coincidência entre esses nomes e os de pessoas reais é involuntária.
Juvenil Alves Ferreira Filho Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista · Escritor