Por que justamente Moisés? Freud e o enigma do seu último livro

Moisés de Michelangelo em San Pietro in Vincoli — ensaio de Juvenil Alves sobre Freud e o seu último livro, série Freud, Moisés e o Monoteísmo.
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Aos oitenta e dois anos, doente e exilado, o homem que interpretou os sonhos do século escolheu despedir-se escrevendo sobre um legislador de três mil anos — e a escolha é, ela mesma, um enigma

por Juvenil Alves Ferreira Filho — Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista · Escritor

Humanidades · Série Freud, Moisés e o Monoteísmo — I · Julho de 2026

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A pergunta

Como é possível que um homem que passou mais de quarenta anos debruçado sobre sonhos, lapsos, sintomas e desejos inconfessáveis tenha decidido terminar a vida escrevendo sobre Moisés?

A pergunta parece simples. Não é. Ela esconde um dos enigmas mais fascinantes da história intelectual do século vinte, e proponho que a levemos a sério — não como curiosidade biográfica, mas como problema filosófico.

Pensemos no que estava em jogo. Sigmund Freud construiu, peça por peça, um edifício teórico inteiro: a interpretação dos sonhos, o inconsciente, o recalque, a teoria da cultura. Formou discípulos, expulsou dissidentes, ergueu um movimento internacional. Aos oitenta e dois anos, doente, exilado, sabia que o que então escrevia poderia ser o seu último grande livro.

E o tema que escolheu foi um nome: Moisés. Não um balanço da psicanálise, não um testamento doutrinário, não uma autobiografia — um livro sobre um legislador hebreu de mais de três mil anos.

Há quem despache o caso com um encolher de ombros: excentricidade de velho, ou o último capítulo da guerra pessoal de Freud contra a religião. As duas respostas são cômodas. E as duas, suspeito, erram o alvo. Quem lê o livro — e sobretudo quem lê as circunstâncias em que foi escrito — percebe que não se trata de um ataque, nem de uma distração senil. Trata-se de uma obsessão. Freud carregou Moisés consigo, em silêncio, durante décadas. O livro final não foi um capricho: foi a rendição a uma pergunta antiga.

A questão deste ensaio, portanto, não é o que Freud disse sobre Moisés. Isso ficará para o segundo ensaio da série. A questão aqui é anterior e, creio, maior: o que Moisés era para Freud — e o que Freud foi buscar nele quando sentiu que o tempo acabava.

Devo ao leitor, antes de prosseguir, uma confissão sobre a origem desta série. Estou terminando de escrever um livro sobre Moisés e Josué — MBA com Moisés e Josué —, dedicado à liderança e à sucessão, sob uma ótica inteiramente diversa da que aqui nos ocupará. Foi no meio dessa escrita que a pergunta me capturou: por que também Freud, vindo de tão longe e por caminhos tão diferentes dos meus, foi dar justamente em Moisés? Que personagem é esse que atrai para si, século após século, o teólogo e o ateu, o jurista e o psicanalista, o poeta e o cientista — cada um convencido de que há ali algo que só a sua lente revela? O fascínio que Moisés desperta, e sempre despertou, na humanidade é, ele mesmo, parte do enigma. Esta série nasceu dessa indagação.

Londres, 1938

A cena importa, mas peço ao leitor que a atravesse depressa, porque ela não é o centro — é a moldura.

Junho de 1938. Um velho desembarca em Londres depois de atravessar uma Europa que se fecha como uma armadilha. Em março, a Alemanha nazista anexara a Áustria; Viena, a cidade onde Freud vivera quase oitenta anos, recebera Hitler com sinos e multidões. A casa da Berggasse 19 foi revistada; Anna, a filha, chegou a ser detida pela Gestapo por um dia inteiro. Foi preciso pagar resgate e aceitar humilhações para sair. Quatro irmãs de Freud, idosas demais, ficaram — ele morreria em setembro de 1939 sem saber o destino delas nos campos.

É nesse cenário — perseguido como judeu pela maior máquina de ódio da história moderna — que Freud decide publicar, enfim, um livro que guardava havia anos. Um livro cuja hipótese de abertura, tomada ao pé da letra, retira do povo judeu o seu maior filho: Moisés não teria sido hebreu, mas egípcio.

O paradoxo, então, se adensa. Freud sabia perfeitamente o que estava fazendo. As primeiras linhas do livro admitem o desconforto: privar um povo do homem que ele celebra como o maior dos seus filhos não é gesto que se faça de coração leve — menos ainda quando quem escreve pertence a esse povo. A frase não é floreio retórico. É uma confissão. Freud mede o custo do que vai dizer, reconhece a hora terrível em que o diz, e diz assim mesmo.

Que necessidade era essa, mais forte que a prudência, mais forte que a lealdade, mais forte — literalmente — que a morte que se aproximava?

Um livro que hesita

Antes de arriscar respostas, convém notar uma coisa: Moisés e o Monoteísmo é um livro estranho. Talvez o mais estranho que Freud escreveu.

Não apenas pelo conteúdo. Pela forma. São três ensaios desproporcionais, escritos em momentos diferentes, costurados com cicatrizes visíveis. Os dois primeiros saíram ainda em Viena, em 1937, na revista do movimento psicanalítico; o terceiro — o mais longo e o mais explosivo — ficou retido. Esse terceiro ensaio traz duas advertências preliminares que se contradizem: a primeira, escrita ainda em Viena, explica por que o autor decidiu não publicar o texto — o receio de indispor a Igreja Católica, que Freud percebia como a última e precária barreira institucional contra o nazismo na Áustria, e cuja ira poderia custar caro à psicanálise; a segunda, escrita em Londres, explica por que mudou de ideia. Freud publicou as duas, uma ao lado da outra. O livro carrega, impressa nas próprias páginas, a marca da hesitação que o atrasou.

E há mais: o texto se repete. Repete-se tanto que o próprio Freud pede desculpas ao leitor pela repetição — e continua repetindo. Alguns leram nisso o cansaço de um homem doente. Pode ser. Mas é tentador imaginar outra coisa: um livro cuja tese central é a de que o recalcado sempre retorna, de que a tradição é feita de retornos e insistências — esse livro, ele mesmo, retorna e insiste. Deixo a hipótese onde ela deve ficar, no plano da suspeita: num autor que ensinou o mundo a desconfiar dos acidentes, o acidente é sempre uma explicação fraca.

Havia, aliás, um título de trabalho revelador. Quando começou a rascunhar o projeto, em 1934, Freud o chamava de romance histórico. Ele sabia — e confessava nas cartas ao escritor Arnold Zweig, seu confidente daqueles anos — que a construção era arriscada, que as bases documentais eram frágeis. Sabia, e não conseguia largar. Há algo de comovente nisso: o autor que reivindicou para a psicanálise um lugar entre as ciências entrega-se, no fim, a uma reconstrução que sabe não poder demonstrar. Não porque tenha abandonado o rigor, mas porque a história, verdadeira ou não, dizia algo que ele precisava dizer.

O que era esse algo?

Antes de procurá-lo, uma advertência que devo a mim mesmo tanto quanto ao leitor. Há sempre um risco em ler uma vida a partir da sua última obra: recolher retrospectivamente apenas os sinais que apontam para o desfecho e transformar contingência em destino. As conexões que seguem não demonstram que Freud caminhou inevitavelmente para Moisés. Mostram apenas que, quando enfim chegou a ele, encontrou um conjunto de perguntas que o acompanhava havia muito tempo.

Por que não Abraão?

Experimentemos um caminho que quase nunca se tenta: perguntar não por que Moisés, mas por que não os outros.

Freud conhecia a Bíblia intimamente — voltarei a isso. Se buscava um grande personagem para pensar a religião, a culpa, o pai, os candidatos não faltavam. Por que não Abraão? Abraão também funda, mas funda de outro modo. Funda uma linhagem, pela promessa e pela aliança; sua fundação é genealógica e religiosa. Não transforma uma massa em povo, não institui um código, não organiza uma comunidade política. E o que Freud procurava era exatamente isso: a fundação legislativa, pedagógica, nacional.

Por que não Davi? Davi tem tudo o que renderia num divã: o desejo, o adultério, o crime de Urias, o filho rebelde, os salmos como confissão. E Davi também funda — uma dinastia, uma capital, um centro político para o reino. Mas recebe um povo cuja identidade religiosa e jurídica já estava constituída. Administra e amplia uma obra que outro começou.

Por que não Jesus, ou Paulo — que, curiosamente, ocupa páginas importantes do próprio Moisés e o Monoteísmo? Também eles fundam, sob outras perspectivas. Mas pertencem, aos olhos de Freud, ao segundo ato do drama: são figuras do retorno, do momento em que aquilo que fora soterrado volta à superfície. Não são, para ele, o começo. São a consequência.

Sobra um. O homem que encontra uma massa de escravos e a transforma num povo. Que não recebe uma lei — entrega uma. Que não herda uma tradição — inaugura uma. Que impõe a um bando relutante um Deus invisível, exigente, sem rosto, e passa quarenta anos no deserto sustentando essa imposição contra a vontade dos próprios beneficiários.

A eliminação dos candidatos revela o critério. Freud não procurava qualquer fundador. Procurava o fundador que converte escravos em povo por meio da lei, da renúncia e da memória. Tocamos, creio, no nervo do enigma.

De Édipo a Moisés

Detenhamo-nos no que essa escolha desloca — porque o deslocamento é a chave menos visível e talvez a mais profunda de todas.

Uma das perspectivas dominantes da obra de Freud foi a do filho diante da autoridade paterna. Édipo, o mito que ele instalou no centro da psicanálise, é a tragédia vista de baixo: o filho diante do pai, o desejo, a rivalidade, a culpa por um crime que se quer e não se comete. É verdade que o pai nunca esteve ausente — Totem e Tabu, já em 1913, imaginara o pai primevo, assassinado pelos filhos e transformado, pela culpa, em lei. Mas mesmo ali o crime é narrado do lado de quem o comete. Com Moisés, a perspectiva se desloca de maneira decisiva: Freud passa a interrogar não apenas o desejo do filho, mas o destino do pai que institui — e da lei que ele entrega. De Édipo a Moisés: do quarto da família à fundação de uma civilização; da pulsão à lei; do desejo à herança. Sob essa luz, o livro de 1939 deixa de parecer um desvio excêntrico e passa a parecer quase uma exigência interna — como se a psicanálise, para se completar, precisasse um dia subir do divã do filho ao monte do pai.

É nesse ponto que a pergunta do ensaio encontra o seu centro de gravidade. Porque Freud também era um fundador.

Digo-o sem ironia e sem reducionismo. Freud não escreveu apenas livros: instituiu uma tradição, com doutrina, ortodoxia, heresias, cismas, comitês secretos e anéis distribuídos aos fiéis. Viu Adler partir, viu Jung partir — o herdeiro escolhido, o filho dileto que abandonou a lei da casa. Passou a segunda metade da vida defendendo a pureza da doutrina contra revisões que lhe pareciam traições. Qualquer historiador das religiões reconheceria a morfologia: o profeta, o cânon, os apóstatas.

O que faz um homem desses quando pressente a morte? Pergunta-se o que acontece com as fundações depois que morre quem as ergueu. Se a obra sobrevive ao homem. Se os discípulos guardarão a lei ou adorarão bezerros de ouro assim que o mestre subir a montanha. Se ser fiel a uma herança é repeti-la ou traí-la um pouco para mantê-la viva.

Moisés é o laboratório perfeito para todas essas perguntas — porque é o fundador absoluto, e porque seu destino contém a lição mais dura do ofício: o fundador não colhe. Morre no monte Nebo, avistando a terra em que não entrará. Entrega a lei e fica do lado de fora.

Não é preciso forçar nada para ver o velho Freud nessa imagem. Mas quero ser honesto com o leitor: essa chave psicológica abre a porta com uma facilidade que me deixa desconfiado, e chaves que abrem fácil demais merecem sempre uma segunda olhada. Fiquemos com o que ela tem de sólido, que é o tema. Mesmo que se recuse toda identificação biográfica, resta o fato de que o livro derradeiro de Freud é uma longa meditação sobre fundação, transmissão e fidelidade: sobre como uma verdade sobrevive à morte de quem a trouxe. Esse é um problema que não pertence à psicanálise. Pertence à civilização.

Thomas Mann, que foi a Viena em 1936 saudar os oitenta anos de Freud com uma conferência célebre, percebeu cedo essa dimensão fundadora: apresentou Freud não como médico, mas como vulto de uma linhagem antiga — a dos que dão forma ao informe. Anos depois, já morto Freud, Mann escreveria sua própria novela sobre Moisés, A Lei, em que o legislador aparece como uma espécie de escultor de um povo bruto, e para quem imaginou uma origem dividida: filho da filha do faraó com um trabalhador hebreu, formado entre mundos que não coincidiam por inteiro. A vizinhança dos temas não prova nada. Sugere, porém, que, para os grandes exilados de língua alemã daquela década, Moisés se tornara o nome de uma mesma pergunta: quem nos fez ser o que somos — e o que fazemos disso quando o mundo desaba?

O espelho de mármore

Há, além do tema, um documento. E ele é anterior a tudo.

Em setembro de 1901, Freud realizou um sonho antigo e visitou Roma. Na Basílica de San Pietro in Vincoli, deteve-se diante do Moisés de Michelangelo — a estátua colossal esculpida para o túmulo do papa Júlio II: o patriarca sentado, as tábuas sob o braço, a cabeça voltada, a barba torcida pela mão nervosa. Freud voltou àquela obra repetidas vezes, ao longo de anos, como quem volta a uma consulta. Em 1914 publicou sobre ela um ensaio inteiro — e o publicou anonimamente, coisa que nunca fizera; só assumiria a autoria dez anos depois. Confessa nesse texto que nenhuma obra de arte o afetara tanto, e descreve a experiência de sustentar o olhar da estátua sentindo-se parte da turba infiel que o patriarca fulmina.

Repare-se na data: 1914. Freud acabava de atravessar a ruptura com Jung. E o que faz? Debruça-se, obsessivamente e em segredo, sobre a imagem de um líder que encontra seu povo adorando o bezerro de ouro e precisa decidir se quebra ou não as tábuas. A leitura que Freud propõe da estátua diz tudo: contra a interpretação então predominante, que via ali o instante anterior à explosão — o profeta prestes a erguer-se e despedaçar as tábuas —, ele vê um Moisés que já venceu a própria ira, que retém o impulso, à custa de dor, para que a obra que carrega não se perca. O ápice, diz Freud, não é a fúria; é a renúncia. É difícil não suspeitar que, diante do mármore, ele contemplava um programa para si mesmo.

Fique anotado, para o segundo ensaio, o arco que esse documento arma em silêncio. O Moisés de 1914 é o líder que domina a própria cólera para salvar a obra. O Moisés que o livro de 1939 irá construir — adianto apenas o indispensável — é o inverso trágico: o líder cuja exigência o povo não suportou, e que a hipótese freudiana, tomada ao biblista Ernst Sellin, fará morrer pelas mãos dos próprios homens que libertou. Entre a estátua que se contém e o profeta que sucumbe medeiam vinte e cinco anos — e medeia, talvez, a distância entre o Freud que ainda domava dissidências e o Freud que já media a própria mortalidade. Moisés não foi um assunto que ele encontrou no fim. Foi um assunto que o esperou a vida inteira.

O Egito antes de Moisés

E talvez tenha começado antes ainda, e mais fundo. Porque há um detalhe que costuma escapar, e que muda a perspectiva: antes de escolher Moisés, Freud escolheu o Egito.

A Bíblia da infância de Freud era a edição de Philippson — obra do iluminismo judaico alemão, bilíngue, com o hebraico ao lado da tradução, e carregada de gravuras que misturavam o texto sagrado com imagens do Egito antigo: deuses de cabeça de falcão, templos, sarcófagos. Na Interpretação dos Sonhos, Freud relata o pesadelo mais antigo de que se lembrava, sonhado por volta dos sete anos: a mãe adormecida, carregada por figuras de bico de pássaro — e ele mesmo rastreia as figuras até as gravuras daquela Bíblia. O Egito entrou na vida de Freud pela porta por onde, segundo sua própria teoria, entram as coisas que nunca mais saem: a infância.

Essa Bíblia tem uma segunda história, e ela é decisiva. Em 1891, quando Sigmund completou trinta e cinco anos, seu pai, Jakob Freud, mandou reencadernar em couro novo o velho exemplar da infância e o devolveu ao filho, com uma dedicatória composta em hebraico, tecida à maneira rabínica, de fragmentos e alusões, convidando o filho — que a essa altura já era um ateu declarado — a reabrir o Livro dos livros. O menino que sonhara com os deuses de bico de pássaro recebeu de volta, adulto, o próprio objeto do sonho, pelas mãos do pai, com um pedido dentro. Guardemos essa cena. Ela voltará.

Depois, o Egito nunca mais o largou. O consultório da Berggasse 19 era um pequeno museu: milhares de antiguidades, boa parte egípcia, estatuetas cobrindo a escrivaninha como uma plateia silenciosa diante da qual ele escrevia. Freud dizia dos seus objetos que lhe davam mais alegria que muitas leituras, e comparava o próprio ofício ao do arqueólogo: escavar camadas, remover entulho, chegar ao que está soterrado e intacto. A psicanálise inteira é uma metáfora egípcia — a verdade como coisa enterrada que o tempo não destrói.

Quando, nos anos em que Freud se formava, a arqueologia revelou Amarna — a cidade do faraó Akhenaton, o herege que aboliu os deuses do Egito e impôs o culto do disco solar —, a descoberta tornou historicamente imaginável, para Freud e para outros autores de sua época, uma relação entre um monoteísmo egípcio e a tradição mosaica. Karl Abraham, discípulo fiel, já em 1912 dedicara um estudo psicanalítico ao faraó rebelde. A peça que faltava ao futuro romance histórico estava sobre a mesa desde então, esperando.

Vista daqui, a pergunta deste ensaio ganha uma torção nova. Quando Freud faz de Moisés um egípcio, ele não está apenas propondo uma hipótese historiográfica temerária. Está reconduzindo o legislador de Israel ao cenário da própria imaginação primitiva — devolvendo Moisés ao país dos sonhos da sua infância. Não tenho como demonstrá-lo; sei apenas que nenhum outro dado deste dossiê me parece menos acidental.

Um judeu sem Deus

Venho agora ao que considero o coração do problema — e o passo, aqui, precisa ser mais lento, porque cada palavra pesa.

Em 1930, Freud escreveu um pequeno prefácio para a tradução hebraica de Totem e Tabu. São poucos parágrafos, e neles o velho médico formula, com uma franqueza que raramente se permitiu, o paradoxo da própria identidade. Imagina que lhe perguntem: se o senhor abandonou a religião dos pais, se é alheio ao nacionalismo, se não reza, não crê e não pratica — o que resta em si de judeu? E responde: resta ainda muitíssimo, provavelmente o essencial. Mas confessa, na frase seguinte, que não sabe exprimir com clareza em que consiste esse essencial.

Vale demorar-se nisso: não é uma tese, é uma confissão de ignorância, vinda do homem menos propenso do mundo a confessar ignorância. Freud declara-se portador de uma herança que não consegue nomear. Sente-se judeu até a medula e não sabe dizer por quê. Noutra ocasião, falando aos irmãos da associação B’nai B’rith, ele creditara à sua condição judaica as duas virtudes de que mais se orgulhava: o espírito livre de certos preconceitos que limitavam a inteligência dos demais, e a disposição para permanecer sozinho contra a maioria compacta. Sabia, portanto, o que aquela herança lhe dava. Não sabia o que ela era. Para qualquer pessoa, isso seria um desconforto. Para o inventor da psicanálise, era um escândalo íntimo: existia dentro dele um núcleo ativo, poderoso, identitário — e opaco à análise.

O que faz Freud diante de algo opaco à análise? O que sempre fez: transforma o opaco em objeto de trabalho. Proponho ao leitor esta hipótese, para mim a mais forte de todas: Moisés e o Monoteísmo é a resposta, nove anos depois, àquela pergunta de 1930. O que resta de judaico num judeu sem Deus? O livro inteiro é a tentativa de dizê-lo: uma herança que não passa pela fé, mas pela memória; não pelo rito, mas por marcas transmitidas tão fundo que se carregam sem escolher — como se recebe um sobrenome: sem assinatura, sem consentimento, sem devolução possível. Um historiador judeu do nosso tempo, Yosef Yerushalmi, dedicou um livro admirável a essa leitura e propôs, para o Freud do fim da vida, uma expressão especialmente fértil: o judeu psicológico, aquele para quem a identidade sobreviveu intacta à evaporação de todos os seus conteúdos tradicionais. Yerushalmi encerra seu estudo dirigindo-se ao fantasma de Freud com uma pergunta que ainda paira sobre toda esta série: a psicanálise seria, ela mesma, o modo freudiano de continuar judeu?

Lida no contexto de 1939, a hipótese do Moisés egípcio permite ainda uma interpretação inesperada — que os primeiros leitores, feridos, não tinham como ver. Ao separar o fundador da origem sanguínea do povo que o recebeu, Freud desloca o centro da identidade judaica da genealogia para a transmissão: a lei, a memória, a exigência espiritual. Essa leitura não esgota o livro — cuja teoria da herança arcaica, com suas marcas quase biológicas transmitidas através das gerações, permanece ambígua e nada resolve de modo tão limpo —, mas oferece uma resposta poderosa ao racismo biológico que então perseguia os judeus. Diante de um regime que media crânios e caçava avós, um judeu escrevia que a identidade mais duradoura da história não repousa numa linhagem, e sim numa herança de espírito que nenhuma eugenia alcança. Se foi essa a intenção, ele a levou ao extremo: pôs na origem da transmissão as mãos de um estrangeiro.

É também Yerushalmi — acompanhado pela psicanalista Ana-María Rizzuto — quem devolve à mesa a cena que deixei guardada: a Bíblia de Philippson reencadernada, a dedicatória hebraica, o pedido do pai devoto ao filho descrente. Nessa perspectiva, a obra final aparece como uma carta jamais enviada: a resposta, quase meio século depois, que o filho só soube redigir no único idioma que possuía — o da ciência, o da suspeita, o da análise. Um livro sobre o pai fundador do povo, escrito para o pai que lhe dera o Livro. Essa chave autoriza uma leitura, não uma certeza. Mas nenhum leitor a conhece e continua lendo o livro do mesmo modo.

Se essas leituras estiverem certas, o que Freud escreveu no fim não é um ataque à identidade judaica. É a busca dela, empreendida na pior hora possível, com a Gestapo à porta. E até as páginas do livro sobre o antissemitismo, que tantos leram como digressão, encontram seu lugar: perseguido pelo ódio, Freud faz o que sempre fez — deita o ódio no divã, procura suas raízes inconscientes, tenta compreender a fúria que o expulsava de casa. Não para desculpá-la. Para nomeá-la. Há maneiras mais confortáveis de fugir de um carrasco do que analisá-lo. Nenhuma mais corajosa.

A lei e a palavra

Resta um fio, e ele conduz ao futuro.

No centro do livro há uma página em que Freud, o ateu, escreve com inconfundível orgulho. É a página sobre a proibição das imagens. Um Deus que não se pode ver, nem esculpir, nem tocar — apenas pensar. Para Freud, essa interdição mosaica foi um salto civilizatório imenso: o momento em que um povo inteiro foi obrigado a renunciar aos sentidos em favor da abstração, a trocar a evidência do olho pela fidelidade à palavra. Ele chama isso de progresso na vida do espírito, e não esconde a satisfação — estranhíssima num descrente — de pertencer ao povo que o realizou.

Um egiptólogo alemão contemporâneo, Jan Assmann, construiu sobre esse ponto uma obra inteira, e dele veio a lição hoje incontornável: talvez a pergunta “quem foi Moisés?” importe menos do que a pergunta “como Moisés foi lembrado?”. Moisés, diz Assmann, é menos uma figura da história que uma figura da memória. Assmann terá lugar de interlocutor obrigatório no segundo ensaio; aqui, basta o essencial: sem saber, Freud escrevia menos sobre o Moisés que existiu do que sobre o Moisés que a memória de um povo construiu, transmitiu e carregou — o que, convenhamos, é um objeto perfeitamente freudiano.

E há a última ponta do fio. Que outra disciplina exige renunciar à evidência do visível para escutar o invisível? Que outra prática pede que se acredite mais na palavra dita num quarto fechado do que na aparência das coisas? Se a proibição das imagens foi, como Freud queria, a grande escola de abstração do espírito humano, então a psicanálise — essa cura pela palavra, cega por método, toda ouvidos — é herdeira remota daquele gesto do Sinai. A documentação não permite concluir que Freud tenha pensado essa filiação com todas as letras. Mas ela explicaria o orgulho daquela página, e explicaria por que, tendo de escolher a quem se dirigir no momento da despedida, o fundador da cura pela palavra foi procurar o homem que proibiu as imagens.

O sonho por interpretar

Não fecharei a pergunta. As respostas — as de Freud, as dos seus críticos, as que restam de pé — pertencem ao segundo ensaio, quando entrarmos no livro propriamente dito: o Moisés egípcio, o assassinato no deserto, a latência, o retorno do recalcado, e a rejeição amplamente predominante, entre historiadores e biblistas, da reconstrução histórica específica que Freud propôs. Fica desde já o aviso de honestidade que valerá para toda a série: as construções históricas de Freud são hipóteses dele, apoiadas em conjecturas de sua época que a pesquisa posterior, em enorme medida, não confirmou. Não as trataremos como história nem como delírio, mas como o que são: o último grande mito de um homem que dedicou a obra inteira a demonstrar que os mitos dizem verdades que os documentos calam.

Fico com a imagem final. Um velho de mais de oitenta anos, num quarto em Londres, corrigindo as provas de um livro sobre um profeta de três mil anos, enquanto a Europa desaba lá fora. Podia ter escolhido qualquer assunto para a despedida. Todos os assuntos do mundo se resumiram, para ele, a um único nome — o nome do fundador que morre diante da terra prometida, no país das gravuras da Bíblia que um dia o pai lhe devolveu, reencadernada em couro, com um pedido dentro.

Freud passou a vida interpretando os sonhos dos outros. Talvez nunca tenha percebido que seu último livro acabaria sendo o sonho pelo qual ele próprio precisaria ser interpretado.

É essa interpretação que a série vai tentar.

(Este é o primeiro ensaio da série Freud, Moisés e o Monoteísmo. No próximo, entraremos no livro: as teses, os exageros, a recepção — e a pergunta sobre o que resta de pé. Quem quiser o antecedente desta conversa encontra-o em A Psicanálise da Religião e a Segunda Ingenuidade da Fé.)


Juvenil Alves Ferreira Filho Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista · Escritor

Humanidades · Belo Horizonte, agosto de 2026 · juvenilalves.com.br

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Leituras e fontes: Sigmund Freud, Moisés e o Monoteísmo (1939) e O Moisés de Michelangelo (1914) · Yosef Hayim Yerushalmi, O Moisés de Freud: judaísmo terminável e interminável (1991) · Jan Assmann, Moses the Egyptian (1997) · Thomas Mann, A Lei (1944) · A Bíblia de Philippson com a dedicatória de Jakob Freud integra o acervo do Freud Museum de Londres.

Quem escreve

Juvenil Alves - jurista, teólogo, filósofo, psicanalista e escritor.

Nasceu em Abaeté, no interior de Minas Gerais. É filho de Juvenil Alves, alfaiate, e de Isabel Amélia, servente escolar. Foi nesse ambiente simples que aprendeu, desde cedo, o valor do trabalho, da disciplina, da educação e da responsabilidade.

Sua formação intelectual começou pela Filosofia  e pela Teologia e, mais tarde, encontrou no Direito o espaço emq ue essas reflexões passaram a dialogar diariamente com a vida concreta das pessoas, das empresas e das instituições. Desde então, nunca deixou de percorrer esse cruzamento.

Ao longo de mais de quatro décadas de atuação profissional, construiu uma carreira dedicada ao Direito Tributário e Empresarial, assessorando empresas, famílias e organizações em questões de alta complexidade. Paralelamente, manteve um estudo permanente das Humanidades, formando uma biblioteca construída ao longo de quase cinquenta anos de leituras, pesquisas e anotações.

Neste blog, reúne essas duas experiências. Escreve sobre Direito Tributário, Direito Empresarial, Reforma  Tributária, Filosofia do Direito, Filosofia, Teologia, Psicanálise, Liderança, Ética, Humanidades e Neurodiversidade. Não para oferecer respostas prontas, mas para investigar as ideias, os príncipios e os fundamentos que orientam as decisões humanas.

Os ensaios publicados aqui dialogam com autores clássicos e contemporâneos e procuram aproximar o pensamento filosófico da realidade jurídica, empresarial e social. Muitos deles integram projetos editoriais em desenvolvimento e servirão de base para futuras obras.

Este espaço nasceu da convicção de que a técnica, quando separada das Humanidades, empobrece o pensamento; e de que a Filosofia, a Teologia, a Psicanálise e o Direito continuam oferecendo instrumentos indispensáveis para compreender o ser humano, as instiuições e os desafios do nosso tempo.

Sem fórmulas. Sem juridiquês.

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