Há livros que a gente lê; e há livros que ficam na mesa de cabeceira, ao alcance da mão, porque nos devolvem a nós mesmos. O do cardeal Ravasi é, para mim, desses — e explico por quê
por Juvenil Alves
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Em poucas palavras: neste ensaio falo do cardeal Gianfranco Ravasi — para mim, um dos grandes biblistas e humanistas católicos de sua geração —, do seu livro que guardo como leitura de cabeceira, “O Alfabeto de Deus”, e do modo como ele reacende em mim algo antigo: o gosto pelo grego que aprendi ainda no seminário. Ao final, uma opinião de vaticanista — ofício que exerço desde 1978 — sobre um papa que, a meu ver, poderia ter sido.
Todo leitor sério tem um livro de cabeceira — não o que está lendo agora, mas aquele que permanece, ao alcance da mão, para as noites em que se precisa menos de informação e mais de companhia. O meu, há tempos, tem a assinatura de um cardeal italiano: Gianfranco Ravasi, e chama-se O Alfabeto de Deus. Quero falar dele hoje — do autor, do livro, e de por que uma obra sobre as Escrituras me reaproxima, curiosamente, de uma sala de aula de grego que frequentei quando ainda era muito jovem.
Adquiri e reli este livro na época em que publiquei, aqui mesmo, sobre a possibilidade de Ravasi chegar ao pontificado — e talvez tenha sido essa leitura, feita com o cardeal na cabeça e o vaticanista no ofício, que o fixou de vez na minha cabeceira.
Quem é Gianfranco Ravasi
Convém apresentar o homem, porque ele foge do clichê do prelado. Ravasi é, para mim, um dos grandes biblistas — estudiosos das Escrituras — e humanistas católicos de sua geração. Formou-se na Pontifícia Universidade Gregoriana e no Pontifício Instituto Bíblico, foi professor de Antigo Testamento e dirigiu por quase duas décadas a veneranda Biblioteca Ambrosiana de Milão, de 1989 a 2007. Depois, em Roma, presidiu o Pontifício Conselho para a Cultura, de 2007 até a reforma da Cúria em 2022. Transita com a mesma desenvoltura pelo hebraico e pelo grego bíblicos, pela arqueologia, pela literatura e pela arte — e ficou conhecido por um gesto raro num homem da Igreja: o de conversar com quem não crê. Foi o fundador e principal promotor do “Átrio dos Gentios”, a iniciativa que sentou à mesma mesa crentes e não crentes para pensar juntos — tratando o interlocutor ateu ou agnóstico como parceiro de inteligência, sem reduzi-lo a mero alvo de conversão. É o intelectual que faz a Bíblia dialogar com a filosofia e a cultura secular, inclusive com autores críticos da fé — e que, por isso mesmo, se tornou uma das vozes mais respeitadas para além dos muros católicos.
O “Alfabeto de Deus”: ler as Escrituras palavra a palavra
É aqui que o caso se torna interessante. O título é uma bela imagem: aprender a ler Deus como quem reaprende um alfabeto — sinal por sinal, sem pressa, recuperando o sentido que a leitura apressada atropela. E a arquitetura do livro honra o título: Ravasi organiza a obra em dois percursos. Primeiro, conduz o leitor por palavras fundamentais do hebraico bíblico do Antigo Testamento; depois, por termos centrais do grego em que foi redigida a maior parte do Novo. De cada palavra ele apresenta o caractere original, a transliteração e o campo teológico — não um dicionário exaustivo, mas uma pequena teologia bíblica construída a partir das palavras. A edição brasileira é da Editora Santuário, de 2024, com 304 páginas; a italiana original saíra pelas Edizioni San Paolo no ano anterior. Não é um comentário técnico para especialistas nem um livro de autoajuda espiritual; é a rara ponte entre o rigor do estudioso e a fome do leitor comum — a erudição posta a serviço da contemplação.
Confesso ao leitor as páginas que mais releio. Uma é a 285, em que Ravasi trata da ψυχή (psyché) — a palavra que traduzimos por “alma”, mas que no grego guarda o sopro, o princípio vivo, algo bem mais largo do que o nosso conceito moderno de psique. E, duas páginas adiante, na 287, a καιρός (kairós): não o tempo que o relógio mede — esse os gregos chamavam chrónos —, mas o tempo oportuno, o instante decisivo, a hora que se oferece e que é preciso saber reconhecer. Volto a essas duas entradas com uma frequência que me delata: elas dizem, cada uma a seu modo, o que este livro faz comigo — reanimam a alma e chegam sempre na hora certa.
Convém explicar por que um livro me leva de volta ao grego
E chego ao que mais me toca nesta obra — uma razão pessoal. Ravasi trabalha as palavras nas línguas em que nasceram, e cada vez que ele destrincha um termo grego eu sou devolvido a uma sala de aula da minha juventude, no Seminário Arquidiocesano Santo Antônio, de Juiz de Fora, fundado em 1926, onde aprendi grego com dois mestres que a memória guarda com gratidão: Dom Geraldo Maria de Morais Penido — que viria a ser o primeiro arcebispo de Juiz de Fora, homem de sólida formação em Sagrada Escritura — e Frei Pedro Bessa, OFM, que lecionava também no Seminário Seráfico de Santos Dumont — estudioso das letras clássicas a quem devo boa parte do meu grego.
Do que fazíamos naquelas aulas, guardo com nitidez o essencial: traduzíamos as fábulas de Esopo — a porta de entrada de todo estudante de grego, pela sintaxe simples e pela moral limpa — e, depois, passagens da Metafísica de Aristóteles, que já exigiam outro fôlego. E devo ao leitor uma confissão, para que ninguém me suponha mais do que sou: malgrado aqueles anos, não falo grego, e leio o grego clássico com lentidão, palavra a palavra, dicionário ao lado. Mas talvez seja essa própria lentidão o que me faz amar o livro de Ravasi — porque ele também pede que se leia devagar, e transforma em virtude o que em mim é limite.
Aprender grego não é decorar um dicionário: é descobrir que uma palavra carrega um mundo, que lógos não é só “palavra”, que agápe não é só “amor”, que cada termo tem uma espessura que a tradução achata. Foi esse espanto diante da palavra que aqueles mestres me ensinaram — e é exatamente ele que Ravasi reacende a cada página. Ler o Alfabeto de Deus é, para mim, uma forma de voltar àquela sala: reencontro, adulto e advogado, o jovem seminarista que aprendia que ler devagar, na língua original, é um modo de rezar com a inteligência. Talvez esteja aqui a razão de o livro nunca sair da minha cabeceira: ele não me informa apenas — ele me reconduz.
Gostaria de lhe dizer o que penso de Ravasi
Permita-me fechar com uma opinião de vaticanista — acompanho as coisas de Roma desde 1978, e sobre elas já escrevi muitas vezes —, e o leitor a tome como opinião, que é o que ela é. Sempre me pareceu que Gianfranco Ravasi reunia uma combinação rara para os tempos que correm: a erudição de um pai da Igreja antiga com a abertura de um homem plenamente moderno, capaz de falar à cultura secular sem perder a própria identidade. Em fevereiro de 2013, aliás, foi a ele que Bento XVI confiou a pregação dos Exercícios Espirituais da Quaresma para a Cúria Romana; poucas semanas depois, Ravasi participaria, como cardeal eleitor, do conclave que elegeu Francisco. Em outras circunstâncias — e a história da Igreja é feita dessas circunstâncias —, penso que teria sido um papa à altura do desafio de reconciliar a fé com a inteligência do século. Não foi; os caminhos do Espírito e dos homens são outros, e não me cabe mais do que registrar a impressão. Mas confesso que, cada vez que abro o Alfabeto de Deus na mesa de cabeceira, penso no pontificado que não houve — e me consolo com o que houve, que é este livro, e que me basta para as noites em que preciso de companhia inteligente e de fé pensada.
Pontos principais
- A tese de Juvenil Alves neste ensaio: há livros que permanecem na cabeceira porque nos reconduzem a nós mesmos — e o “Alfabeto de Deus”, de Ravasi, faz isso ao unir o rigor do biblista à contemplação do leitor comum.
- Gianfranco Ravasi é cardeal, biblista e humanista, fundador do “Átrio dos Gentios” e conhecido por dialogar com quem não crê — o intelectual que faz a Bíblia conversar com a cultura secular.
- “O Alfabeto de Deus” (Ed. Santuário, 2024) percorre dois itinerários: palavras do hebraico bíblico e termos do grego do Novo Testamento — uma pequena teologia construída a partir das palavras.
- Para o autor, o livro reacende o gosto pelo grego aprendido no Seminário Arquidiocesano Santo Antônio, de Juiz de Fora, com Dom Geraldo Maria de Morais Penido e Frei Pedro Bessa, OFM.
- Como vaticanista desde 1978, o autor registra a opinião de que Ravasi teria sido um papa à altura de reconciliar fé e inteligência contemporânea.
Perguntas frequentes
Quem é Gianfranco Ravasi? É um cardeal italiano, um dos mais respeitados biblistas e humanistas da Igreja contemporânea. Dirigiu a Biblioteca Ambrosiana de Milão (1989–2007) e presidiu o Pontifício Conselho para a Cultura (2007–2022), sendo conhecido pelo diálogo com o mundo secular, inclusive com ateus e agnósticos.
O que é o livro “O Alfabeto de Deus”? É uma obra em que Ravasi lê palavras fundamentais das Escrituras — primeiro do hebraico bíblico, depois do grego do Novo Testamento —, apresentando o termo original, sua transliteração e seu sentido teológico. Não é um dicionário exaustivo, mas uma pequena teologia bíblica a partir das palavras.
Qual é a editora brasileira de “O Alfabeto de Deus”? A edição brasileira é da Editora Santuário, publicada em 2024, com 304 páginas (ISBN 9786555274523). A edição italiana original saiu pelas Edizioni San Paolo no ano anterior.
Preciso saber grego ou hebraico para ler o livro? Não. Ravasi escreve para o leitor comum: apresenta cada palavra com transliteração e explicação, de modo que quem não conhece as línguas originais acompanha sem dificuldade — e quem as conhece reencontra a densidade dos termos.
Por que ler a Bíblia nas línguas originais faz diferença? Porque cada palavra em hebraico ou grego carrega uma espessura de sentido que a tradução tende a achatar: termos como lógos ou agápe significam muito mais do que seus equivalentes diretos. Ler na língua original é reencontrar essa densidade — ainda que por meio de um guia, como faz Ravasi.
Ravasi participou do conclave de 2013? Sim, como cardeal eleitor. Poucas semanas antes, em fevereiro de 2013, havia pregado os Exercícios Espirituais da Quaresma para Bento XVI e a Cúria Romana. A meditação formal de abertura do conclave, porém, coube a outro cardeal, Prosper Grech.
Ravasi poderia ter sido papa? Este ensaio registra isso como opinião pessoal do autor, na condição de vaticanista — acompanhante das coisas de Roma desde 1978 —, não como informação de bastidores. A avaliação diz respeito ao perfil intelectual de Ravasi, e não a qualquer articulação concreta de conclave.
Se estas linhas despertaram no leitor a vontade de ler devagar — de deixar uma palavra revelar o seu mundo —, o livro de Ravasi terá cumprido, através de mim, o seu ofício. Nesta mesma seção de Humanidades, converso sobre a fé que se pensa no ensaio sobre o Credo, e sobre razão e transcendência na Série Ratzinger.
Juvenil Alves Ferreira Filho Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista · Escritor
Humanidades · Belo Horizonte, agosto de 2026 · juvenilalves.com.br