“Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
— Fernando Pessoa, Tabacaria, 1933
Pessoa não era niilista. Era o homem mais habitado da literatura portuguesa. Criou heterônimos inteiros — Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos — cada um com biografia, estilo e filosofia próprios. Ele não tinha uma identidade. Tinha muitas. E nessa multiplicidade encontrou uma liberdade que a identidade única nunca oferece.
Hoje reli esta frase e penso em líderes que constroem uma persona tão rígida que já não sabem distinguir o papel do ser. Que confundem o cargo com a pessoa. Que perderam o acesso ao que são quando ninguém está olhando. Pessoa nos lembra que a identidade mais poderosa é a que suporta ser questionada — inclusive por si mesma. O líder que não se permite duvidar de si nunca se permitiu crescer de verdade.
Não ser nada de fixo pode ser exatamente a condição para imaginar tudo.
Humanidades e Lideranças · Belo Horizonte, outubro de 2026 · juvenilalves.com.br