Talvez você tenha montado sua estratégia tributária há dois ou três anos e, desde então, venha renovando a escolha do regime quase no automático. Mas 2026 não é 2023. A matemática que separava o Lucro Real do Lucro Presumido ganhou novas variáveis — e ignorar isso pode custar caro. A questão não é mais apenas “qual regime paga menos imposto”, mas “qual regime protege melhor meu fluxo de caixa e minha margem operacional diante do cenário atual”. E é sobre isso que preciso falar com você hoje.
O Que Mudou no Cenário Tributário
Nos últimos dois anos, assistimos a uma sequência de ajustes normativos, juros elevados e custos operacionais crescentes. A Selic manteve-se em patamares historicamente altos, o que impacta diretamente a atratividade de regimes que permitem maior liquidez imediata. Ao mesmo tempo, a Receita Federal tem intensificado o cruzamento de dados e a fiscalização sobre margens de lucro declaradas no Presumido.
Some-se a isso o aumento de custos com folha de pagamento, energia, logística e insumos. Empresas que operavam confortavelmente no Presumido, com margens acima de 20%, viram sua rentabilidade cair — mas continuaram recolhendo impostos sobre uma presunção que não reflete mais a realidade. É como pagar conta de água baseada no consumo de uma família de seis pessoas quando, na verdade, só moram três.
Por outro lado, o Lucro Real, historicamente visto como “mais burocrático”, tornou-se mais acessível. Sistemas de gestão evoluíram, a contabilidade digital reduziu custos operacionais, e a possibilidade de compensar prejuízos fiscais voltou a fazer sentido em um ambiente de margens apertadas.
Quando o Presumido Ainda Faz Sentido
Não estou aqui para demonizar o Lucro Presumido. Ele continua sendo uma excelente escolha para negócios com margens consistentemente altas, estrutura enxuta e previsibilidade de receita. Prestadores de serviço com poucos custos variáveis, por exemplo, ainda podem se beneficiar da simplicidade e da carga tributária fixa.
Mas vale observar: se sua margem líquida real está abaixo da margem presumida pela legislação — 8% para comércio e indústria, 32% para serviços em geral —, você está pagando imposto sobre lucro que não existe. E isso, em tempos de aperto, é insustentável.
Outro ponto que merece atenção é a rigidez do regime. Uma vez optante pelo Presumido, você fica vinculado ao ano inteiro. Se o mercado virar, se um grande cliente atrasar, se os custos explodirem no segundo semestre, não há como ajustar a rota. O imposto já está calculado sobre a receita bruta, não sobre o resultado real.
Lucro Real: Mais Flexibilidade, Mais Precisão
O Lucro Real permite que você pague imposto sobre o que efetivamente lucrou. Em um ano de margens comprimidas, isso faz toda a diferença. Prejuízos podem ser compensados, despesas operacionais são dedutíveis, e você tem a possibilidade de apuração trimestral, o que oferece maior controle sobre o fluxo de caixa.
Sim, a escrituração é mais complexa. Sim, exige contabilidade rigorosa. Mas a tecnologia de hoje tornou isso muito mais acessível do que há uma década. E, convenhamos, ter uma contabilidade robusta não é um custo — é um investimento em governança, em previsibilidade, em segurança jurídica.
Fique de olho também na possibilidade de compensar créditos de PIS e COFINS no regime não-cumulativo. Para empresas com cadeia de fornecedores estruturada, isso pode representar uma economia significativa, que não existe no Presumido.
A Decisão Não É Apenas Tributária
Aqui entra um ponto que costumo repetir aos meus clientes: planejamento tributário não é exercício de contabilidade — é exercício de estratégia empresarial. A escolha entre Real e Presumido afeta sua capacidade de investir, de buscar crédito, de distribuir lucros, de atrair sócios.
Bancos e investidores, cada vez mais, exigem demonstrações contábeis confiáveis. O Lucro Real oferece isso. O Presumido, por sua própria natureza, trabalha com presunções — e presunções não abrem portas no mercado financeiro.
Além disso, há uma questão de transparência interna. Quando você opera no Real, é obrigado a olhar para os números com mais frequência e mais profundidade. Isso gera cultura de gestão. E cultura de gestão, no longo prazo, vale mais do que qualquer economia tributária pontual.
E Agora, O Que Fazer?
Se você está lendo este texto em novembro de 2025, ainda há tempo de revisar sua escolha para 2026. Mas essa revisão precisa ser técnica, fundamentada em projeções realistas de receita, custos e margem.
Reúna-se com seu contador. Simule cenários. Considere não apenas a carga tributária nominal, mas o impacto no fluxo de caixa, a flexibilidade operacional, a capacidade de reação a imprevistos. E, se possível, busque uma segunda opinião jurídica — porque a interpretação de despesas dedutíveis, a compensação de prejuízos e a aplicação de benefícios fiscais exigem olhar atento à legislação.
Lembre-se: a escolha errada não se corrige no meio do ano. Você ficará 12 meses convivendo com as consequências. Melhor investir algumas horas agora do que amargar alguns meses de aperto depois.
Conclusão
A matemática entre Lucro Real e Lucro Presumido mudou porque o Brasil mudou, a economia mudou, sua empresa mudou. O regime que funcionou até aqui pode não ser o mais adequado daqui para frente. E essa não é uma decisão que se toma sozinho, nem que se posterga.
Tributação é parte de um sistema maior — que envolve fluxo de caixa, gestão, compliance, estratégia. Tratar cada peça isoladamente é receita para desequilíbrio. E há mudanças legislativas no horizonte que podem alterar ainda mais esse cenário. Por isso, convido você a aprofundar essa reflexão e entender como cada escolha tributária se conecta às transformações que estão por vir.
Aviso
Este conteúdo tem caráter informativo e educacional, não constituindo consultoria jurídica ou contábil específica. Para decisões sobre regime tributário, consulte profissionais habilitados que possam analisar seu caso concreto.
Para compreender o panorama completo das mudanças tributárias que podem impactar sua decisão entre Lucro Real e Presumido, leia o artigo sobre PL 1087/2025: A Maior Reforma dos Últimos Tempos — Papai Noel para Alguns e Remédio de Madrasta para Outros.
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