Um morre em Londres em 1939. O outro, no Gargano, em 1968. A data é a mesma. Os corpus não se tocam. O século XX leu a ferida em duas línguas que não se traduzem. Este ensaio não as traduz
por Juvenil Alves Ferreira Filho — Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista · Escritor
Humanidades · setembro de 2026
Em poucas palavras: Francesco Forgione, Padre Pio de Pietrelcina, nasceu em 25 de maio de 1887 e morreu em San Giovanni Rotondo na madrugada de 23 de setembro de 1968. Sigmund Freud nasceu em 6 de maio de 1856 e morreu em Maresfield Gardens, 20, Londres, na madrugada de 23 de setembro de 1939. A memória litúrgica do primeiro e o aniversário da morte do segundo caem no mesmo dia do almanaque. Não há carta, citação ou encontro. Freud não nomeia Forgione. O Epistolario de Pio não nomeia Freud. O que o calendário junta é o que o século já tinha separado: de um lado, estigma, direção espiritual, sacramento, milagre como figura jurídica da causa dos santos; de outro, sintoma, transferência, associação livre, ilusão no sentido de 1927. Juvenil Alves escreve na interseção que o ofício pede — teologia e psicanálise — e recusa o empate. O ensaio define, data e deixa o hiato.
O almanaque é um instrumento pobre e, por isso mesmo, honesto.
Ele não interpreta. Aproxima. No dia 23 de setembro a Igreja latina lê a memória de um capuchinho do Gargano. No mesmo número do mês, a historiografia da psicanálise marca o fim de Freud. Blogs transformam a coincidência em duelo ontológico. A historiografia primária não conhece esse duelo. Juvenil Alves parte do fato magro: duas mortes, duas línguas, nenhum texto cruzado.
Quem quiser o confronto terá de montá-lo com os corpus, não com o santo do dia.
O que a data não autoriza
Não autoriza diálogo. Varredura das Gesammelte Werke, da Standard Edition, do epistolário com Oskar Pfister e das biografias de Ernest Jones e Max Schur não devolve o nome Francesco Forgione. A edição italiana em quatro volumes do Epistolario de Padre Pio (Edizioni Padre Pio) devolve Teresa, João da Cruz, os diretores Benedetto e Agostino. Não devolve Viena.
Não autoriza destino. A justaposição 23/09 como “conflito do século XX” não existe na literatura anterior ao almanaque contemporâneo. Tratar a rima do calendário como tese é numerologia com timbre de Humanidades.
Não autoriza vencedor. Cura, neste ensaio, não é variável. Confissão não compete com análise. Diretor espiritual não é analista mal nomeado. Milagre no processo de canonização não é ato falho teológico.
O único cruzamento documental que o dossiê sustenta tem nome e data: Agostino Gemelli, 1920-1921. Médico, frade, fundador da Universidade Católica do Sagrado Coração, adversário explícito do paradigma do inconsciente. Não examina as feridas — Pio exige autorização do Santo Ofício; a exposição não ocorre — e mesmo assim redige o Votum que aplica a Pio a categoria de personalidade histérica e de simulação neuropática. Ali as duas línguas se tocam. Ali as duas línguas se corrompem: a clínica sem exame, a teologia lida como diagnóstico.
O resto é paralelo.
Fichas. Só o que o argumento usa
Francesco Forgione. Pietrelcina, 25 de maio de 1887, filho de Grazio Forgione e Maria Giuseppa De Nunzio. Noviciado capuchinho em Morcone, 6 de janeiro de 1903. Votos solenes, 27 de janeiro de 1907. Ordenação em Benevento, 10 de agosto de 1910. Convento de Nossa Senhora das Graças, San Giovanni Rotondo, julho de 1916. Correspondência de 1911 já registra dores e sinais temporários. Em 20 de setembro de 1918, no coro, relata o aparecimento visível de feridas nas mãos, nos pés e no lado. As lesões permanecem, segundo o relato conventual e os laudos da década seguinte, ao longo de cinco décadas. Desaparecem, segundo a mesma documentação, nos dias que antecedem a morte, sem o tecido cicatricial que o exame de 1919 havia procurado. Morte: 23 de setembro de 1968, por volta das 2h30, na cela. Beatificado por João Paulo II em 2 de maio de 1999. Canonizado pelo mesmo pontífice em 16 de junho de 2002.
Sigmund Freud. Freiberg in Mähren (Příbor), 6 de maio de 1856. Medicina em Viena. Salpêtrière, Charcot, 1885-1886. Studien über Hysterie, com Josef Breuer, 1895. Die Traumdeutung, frontispício de 1900, saída no fim de 1899. IPA, Nuremberg, 1910. Ruptura com Adler, 1911; com Jung, 1913-1914, esta última, no registro do próprio Freud, por dessexualização da libido e por regresso ao que ele lia como misticismo. Carcinoma de células escamosas no palato e na mandíbula, 1923; mais de trinta intervenções; a prótese que ele chamou de “o monstro”. Anschluss, 1938; saída orquestrada com Marie Bonaparte, Jones e Max Schur. Maresfield Gardens, 20. Morte: 23 de setembro de 1939, por volta das 3h.
Dois anos se espelham sem se explicar.
Em 1910, Pio é ordenado e a IPA se funda.
Em 1923, Freud recebe o diagnóstico e o Santo Ofício publica, em 31 de maio, o decreto que declara non constat de supernaturalitate dos fatos atribuídos a Padre Pio — não consta o caráter sobrenatural — e restringe o contato dos fiéis. AAS, vol. 15, 1923. Grau institucional.
Definições. Sem este bloco o paralelo é jornalismo
Estigma, no corpus teológico, não é ferida estranha. Do grego stigma, marca. Fenomenologia mística, visível ou invisível, na qual o corpo é lido como participação nas chagas da Paixão. A Congregação para as Causas dos Santos não toma o estigma como prova de santidade. Neuropatia, fraude e sugestão permanecem hipóteses admissíveis no plano empírico. A chaga, no processo, não canoniza.
Milagre no processo de canonização é figura jurídica, não crônica piedosa. Evento que não fundamenta a virtude — a virtude já teve de ser atestada — e que a certifica sob perícia: súbito, completo, duradouro, sem explicação terapêutica suficiente no caso. Os milagres admitidos na causa de Pio (Consiglia De Martino, no rito da beatificação; Matteo Pio Colella, no rito da canonização) operam nesse critério. Não operam como laudo das chagas de 1918.
Histeria, em Freud e Breuer, 1895, é psiconeurose cujos sinais corporais — paralisia, anestesia, cegueira — não encontram lastro inflamatório ou lesional correspondente e se leem como conversão de conflito recalcado. O termo clínico posterior abandonou essa entrada. Usá-lo em 2026 como se fosse o DSM é anacronismo. Usá-lo em 1921, como Gemelli, é o vocabulário da época, aplicado, no caso Pio, sem a inspeção que o próprio vocabulário exigiria.
Inconsciente, no sistema Ucs, não é o esquecido. É instância dinâmica, atemporal, alheia à contradição lógica, habitada por moções expulsas do campo da consciência que continuam a investir energia e a buscar via — sonho, lapso, sintoma.
Transferência (1912) é a atualização, na pessoa do analista, de moções arcaicas endereçadas às figuras primárias. É provisória. O estatuto técnico pede que se dissolva. Não pede docilidade perpétua.
Direção espiritual é relação hierárquica de discernimento e obediência. O dirigido cede o juízo próprio sobre as moções da alma. A finalidade não é dissolver a autoridade; é ordenar a ascese. Quem traduz diretor por analista apaga os dois ofícios.
Discernimento de espíritos, na tradição que Inácio formula e que o convento capuchinho pratica, distingue origem das moções — humana, diabólica, divina — pelo fruto e, de modo decisivo no caso Pio, pela obediência ao prelado quando o fenômeno é testado. Sem esse critério, o ensaio fala de “obediência” como psicologia da submissão. No corpus, é prova.
Ilusão, em Die Zukunft einer Illusion (1927, GW XIV), não é Irrtum. Freud: chamamos de ilusão uma crença quando, em sua motivação, a realização de um desejo (Wunscherfüllung) desempenha o papel principal. A religião, nesse livro, é lida como neurose obsessiva universal na medida em que responde ao desamparo (Hilflosigkeit) com a figura do pai que ampara. Pfister responde no ano seguinte: a análise dissolve a religiosidade infantil; não atinge, para o pastor, o núcleo ético da fé adulta. Freud concede o respeito e não concede o horizonte.
Recalque (Verdrängung) é a operação que recusa à consciência a moção cuja satisfação colidiria com o imperativo do Eu. Sintoma é formação de compromisso: o desejo não passa reto; passa disfarçado, e o disfarce dói.
Quem troca ilusão por mentira, inconsciente por esquecimento, estigma por histeria e direção por transferência já escreveu outro artigo.
O que cada corpus faz com o mesmo vocabulário humano
O quadro não produz equivalentes. Produz o mapa da ausência de equivalentes.
Corpo ferido. No corpus capuchinho e no magistério que lê Pio, o corpo pode ser lugar de participação na Paixão. A dor, unida, não é saldo clínico; é matéria de uma teologia da expiação que este ensaio registra como doutrina do corpus, não como tese do autor. No corpus de 1895, o corpo que padece sem lesão correspondente converte: a paralisia fala o que a palavra não disse.
Culpa. De um lado, ruptura objetiva com a lei divina, contrição, sacramento. De outro, Schuldgefühl: tensão que o Supereu exerce sobre o Eu. Uma culpa se confessa. A outra se interpreta. Os verbos não se substituem.
Fala. Penitência é ato com forma jurídica e efeito sacramental. Associação livre é regra técnica para desestabilizar a censura. Ambas exigem fala. Não exigem o mesmo ouvinte e não prometem o mesmo ato.
Autoridade. O diretor representa uma vontade que o dirigido não elege. O analista é tela. A transferência que o institui é o material mesmo do trabalho e deve caducar.
Milagre e ato falho. O primeiro, no processo, é irrupção que a perícia não reduz à terapêutica aplicada. O segundo, em 1901, é irrupção do recalcado na vida cotidiana. Um atesta, no rito romano, uma virtude já demonstrada. O outro denuncia um desejo que a consciência não assinou.
Diabo e pulsão. Satanás, no relato conventual e na teologia moral que Pio opera, é inimigo pessoal. Pulsão de morte, em 1920, é tendência da vida ao inorgânico. Não há equivalente técnico. Quem escreve “o diabo de Freud” já saiu dos dois livros.
Silêncio. No Gargano sob sanção, recolhimento e cumprimento do decreto. No divã, resistência. O mesmo recorte de som. Dois diagnósticos.
Obediência. Virtude cuja heroicidade o processo de Pio tomou como eixo. Do lado analítico, a subserviência ao Supereu é material, não ideal.
Cura. Salus, no registro teológico, não se esgota no órgão. A frase de 1895 — trocar a miséria histérica pela infelicidade comum — recusa a salvação como meta da clínica.
Morte. Dies natalis contra fim orgânico. Em setembro de 1939, Freud evoca o pacto firmado com Schur em 1929. Com anuência de Anna Freud, Schur administra morfina. Jones e o próprio Schur documentam o gesto. O estatuto moral do gesto não é objeto deste ensaio. O fato é: a dor oncológica e a necrose não foram deixadas a seguir o curso até o último limite da consciência. Em setembro de 1968, o relato conventual descreve o terço na cela. Dois regimes da dor terminal. Nenhuma moral da história.
1918-1923. O corpo na mesa do médico e na mesa do Santo Ofício
Em 20 de setembro de 1918 as feridas se tornam visíveis. Em 1919 o convento e Roma mandam médicos.
Luigi Romanelli, hospital de Barletta, maio de 1919: perfurações, ausência de pus, de inflamação clássica, de tecido que o classificasse. Declara-se sem rubrica fisiológica.
Amico Bignami, patologia em Roma, julho de 1919: ceticismo declarado. Hipótese de foco necrótico e de manutenção das bordas pelo iodo. Ataduras lacradas por oito dias. Ao romper o lacre, as feridas seguem; o diagnóstico orgânico final não vem.
Giorgio Festa, outubro de 1919 e julho de 1920: recusa a tese cáustica simples; registra o que a literatura da época chamou de osmogenesia; assume origem não redutível ao protocolo que aplicou.
Agostino Gemelli, abril de 1920: a inspeção presencial falha. O Votum de 1921, contudo, circula. Histeria. Autolesão. O vocabulário de 1895, sem o exame de 1895.
Em 2007, Sergio Luzzatto (Padre Pio: Miracoli e politica nell’Italia del Novecento, Einaudi) reabre o expediente da farmácia: requisição de ácido fênico e de veratrina, via Maria De Vito, em 1919. No inquérito, Pio afirma uso para esterilizar seringas na gripe espanhola e, quanto à veratrina, brincadeira de convento. Grau: controverso. O ensaio registra o arquivo. Não fecha a etiologia.
O Santo Ofício não precisou fechá-la para agir. Em 31 de maio de 1923, non constat de supernaturalitate. Em julho de 1924, reforço do isolamento. Em 23 de maio de 1931, sob o cardeal Donato Sbarretti, cassação das faculdades ativas: missa pública e confissões. Reclusão de fato. Em 1933-1934, Pio XI devolve, em etapas, missa e confessionário, com a fórmula posterior de que fora “mal informado”. Em 1960, sob João XXIII, o visitador Carlo Maccari interroga a Casa Sollievo della Sofferenza, o tempo da missa, o isolamento. Em 1964, Paulo VI suspende o que restava.
Em direito canônico da época, a medida é ad cautelam. Não é sentença de fraude lavrada. Não é canonização antecipada. É interdição precautória diante de culto que a autoridade ainda não rege. A tradição de discernimento — João da Cruz, Inácio — lê a submissão ao prelado falível como critério do próprio fenômeno. O Epistolario documenta a fórmula que o processo depois tomou como prova: a vontade da autoridade como vontade de Deus. A Congregação, ao fim, não beatifica a dermatologia. Beatifica, em 2 de maio de 1999, e canoniza, em 16 de junho de 2002, um elenco de virtudes cujo centro visível nas atas é essa obediência.
A cardiognosia — a fama de ler a consciência no confessionário — permanece no registro da devoção. O Positio não a toma como fato demonstrado. Este ensaio também não.
Freud no papel. 1907, 1927, 1930, 1939
Em 1907, Zwangshandlungen und Religionsübungen: o cerimonial do obsessivo e o rito da religião se parecem o bastante para Freud escrever que a neurose é uma religiosidade privada e a religião, uma neurose obsessiva da humanidade. A frase é de sistema, não de reportagem sobre um frade.
Em 1927, a ilusão. Não o erro. O desejo que organiza a crença. A ciência como horizonte que deveria, no futuro da civilização, dispensar o consolo. Pfister, Die Illusion einer Zukunft, 1928: aceita o dissolver do infantil; recusa o encerramento do espiritual no neurótico.
Em 1930, Das Unbehagen in der Kultur: a cultura paga a coesão com renúncia; a agressividade que não se descarrega volta como Supereu; a culpa é o preço. A religião, nesse livro, não é o único dispositivo desse preço. É o que o maximiza quando converte o desejo não ato em pecaminosidade plena.
Em 1939, Der Mann Moses: Moisés egípcio, parricídio, recalque coletivo, retorno do recalcado sob forma de monoteísmo. A egiptologia não sustenta o enredo. O ensaio não o reabilita. Registra o que a última obra revela do método: a mesma máquina do sintoma aplicada à história.
Ricoeur, De l’interprétation (1965), coloca Freud — com Marx e Nietzsche — na hermenêutica da suspeita: o símbolo é lido como disfarce. A correção de Ricoeur, que este ensaio apenas aponta, é que o símbolo também institui sentido; não só encobre. Vergote, Guilt and Desire (1988), fura Totem e tabu no ponto lógico: para haver culpa do parricídio, a Lei já teve de operar. A religião, então, não pode ser só produto tardio do remorso.
Ratzinger, em Einführung in das Christentum (1968), atravessa o reducionismo imanente de passagem. Não é monografia sobre Freud. Não será citado como se fosse.
Padre Pio no Brasil
Um parêntese que o ensaio deve ao leitor brasileiro.
O Brasil é o maior país católico do mundo em número absoluto de fiéis. E Padre Pio ocupa nessa devoção popular um lugar singular: capelas com sua imagem nas periferias de Belo Horizonte, do Rio, de São Paulo; grupos de oração que levam seu nome; famílias que guardam a fotografia com os estigmas como se guarda um ícone doméstico. Essa presença não é folclore. É o sinal de que o capuchinho do Gargano atingiu, décadas depois de sua morte, um público que nunca viu a Itália e que não lê o Epistolario em latim.
O que esse público recebe, em geral, é a figura taumaturga: o milagre, a cura, o bilhete enviado ao confessionário. Recebe raramente o que este ensaio tentou oferecer: a figura histórica, o processo canônico, as sanções, a obediência documentada. São dois Padre Pios. A devoção popular não está errada em sua afeição. Está incompleta no que sabe sobre aquele a quem é fiel. Este texto pertence à segunda parte.
O que o ensaio não costura
Há tentação, neste gênero, de fechar com uma terceira língua — “ferida da alma”, “escuta”, “mistério do homem” — que abrace o confessionário e o divã. Juvenil Alves não a escreve.
A confissão tem forma, ministro, efeito. A associação livre tem regra, frequência, fim de análise. O silêncio de 1931 não é resistência. A transferência não é direção. O milagre do processo não autentica 1918. O non constat de 1923 não autentica Bignami. Gemelli não é Freud em Roma. Luzzatto não é o Santo Ofício.
O que permanece, e basta, é o hiato que o século XX não resolveu e que o almanaque de 23 de setembro apenas ilumina sem explicar.
Um homem constrói uma ciência da fala para que o sintoma deixe de ser a única língua do recalcado, e morre pedindo que a dor oncológica não alongue a consciência além do pacto.
Outro homem deixa que a autoridade lhe tire o confessionário e a missa visível, devolve as faculdades quando a mesma autoridade as devolve, e morre no convento onde as feridas, segundo o relato, já não estão.
Eles não se leram. Nós os lemos no mesmo dia. Isso não os aproxima. Aproxima o leitor da obrigação de não misturar os dicionários.
Pontos principais
- A tese de Juvenil Alves neste ensaio: 23 de setembro é coincidência de almanaque. O debate verdadeiro é de corpus — estigma e sintoma, direção e transferência, milagre processual e ato falho, ilusão de 1927 e non constat de 1923 — e não se decide com a data.
- Freud não cita Pio. Pio não cita Freud. O cruzamento documental é Gemelli, que usa histeria sem examinar as chagas.
- A Congregação não canoniza as feridas. Canoniza virtudes; a obediência às sanções é o eixo visível das atas. Padre Pio foi beatificado em 1999 e canonizado em 2002 por João Paulo II.
- Ilusão, em 1927, não é erro. Inconsciente não é esquecimento. Histeria de 1895 não é diagnóstico de 2026.
- Etiologia das chagas: laudos de 1919 incompatíveis entre si; arquivo Luzzatto controverso; ensaio não fecha.
Perguntas frequentes
Padre Pio e Freud se conheceram ou se leram? Não há documento que o ateste. A varredura das obras e das correspondências relevantes devolve ausência.
Por que o 23 de setembro? Memória litúrgica de Pio e data da morte de Freud (1939). Pio morre no mesmo dia do calendário, em 1968. Não há tradição historiográfica anterior que trate a coincidência como tese.
Padre Pio é reconhecido pela Igreja como santo? Sim. Foi beatificado por João Paulo II em 2 de maio de 1999 e canonizado pelo mesmo pontífice em 16 de junho de 2002. O processo de canonização reconheceu virtudes heroicas e dois milagres submetidos a perícia. As chagas de 1918 não foram objeto da canonização.
O que é estigma para a teologia? É a fenomenologia mística, visível ou invisível, na qual o corpo é lido como participação nas chagas da Paixão de Cristo. A Congregação para as Causas dos Santos não toma o estigma como prova de santidade: neuropatia, fraude e sugestão permanecem hipóteses admissíveis no plano empírico. A chaga, no processo canônico, não canoniza.
A Igreja declarou sobrenaturais as chagas? Em 1923 o Santo Ofício declarou que não constava o caráter sobrenatural. A canonização posterior não toma as chagas como prova. O processo reconheceu virtudes, não dermatologia.
O que a canonização reconheceu? Virtudes heroicas e, no rito, dois milagres submetidos a perícia médica. Distinto do laudo de 1918-1920 sobre as chagas.
Freud reduz toda religião a erro? No texto de 1927, reduz a um tipo de ilusão: crença cuja mola é a realização de desejo. Pfister discute o alcance. Ricoeur discute o método. Ilusão, nesse texto, não é sinônimo de mentira.
Este ensaio indica confissão ou análise? Não.
Humanidades · Belo Horizonte, setembro de 2026 · juvenilalves.com.br
Fontes: Freud, Studien über Hysterie (1895); Die Traumdeutung (1900); Zur Psychopathologie des Alltagslebens (1901); Zwangshandlungen und Religionsübungen (1907); Zur Dynamik der Übertragung (1912); Totem und Tabu (1912-1913); Jenseits des Lustprinzips (1920); Die Zukunft einer Illusion (1927, GW XIV); Das Unbehagen in der Kultur (1930, GW XIV); Der Mann Moses (1939) · Jones, The Life and Work of Sigmund Freud, vol. III (1957) · Schur, Freud: Living and Dying (1972) · Pfister, Die Illusion einer Zukunft (1928) · Ricoeur, De l’interprétation (1965) · Vergote, Guilt and Desire (1988) · Epistolario de Padre Pio, Edizioni Padre Pio · AAS 15 (1923), decreto de 31 de maio · Luzzatto, Padre Pio: Miracoli e politica nell’Italia del Novecento (2007) · Congregação para as Causas dos Santos, ritos de 1999 e 2002.