Série Mircea Eliade: O Sagrado — II · O historiador das religiões que fez do sagrado uma pergunta para o homem moderno
por Juvenil Alves Ferreira Filho — Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista
Humanidades · Série Mircea Eliade: O Sagrado — II · Julho de 2026
Antes de avançarmos nesta série, é preciso apresentar o autor.
Mircea Eliade não é um nome familiar para o grande público brasileiro. Não pertence ao grupo dos filósofos mais citados em conversas comuns. Não é teólogo de catecismo, nem santo, nem padre, nem fundador de escola espiritual. Também não é um pensador fácil de classificar.
E, no entanto, poucos autores do século XX foram tão importantes para recolocar a questão do sagrado no centro das Humanidades.
Eliade nasceu em Bucareste em março de 1907 — dia 13 no registro civil, dia 9 na data que ele próprio celebrava, escolhida pelo pai para coincidir com a festa dos Quarenta Mártires de Sebaste. Já no nascimento, o calendário sagrado disputava com o calendário profano. Morreu em Chicago, nos Estados Unidos, em 22 de abril de 1986. Foi escritor, ensaísta, romancista, professor universitário e, acima de tudo, historiador das religiões. A Universidade de Chicago o registra como professor da Divinity School e do Committee on Social Thought entre 1957 e 1986, período em que sua influência internacional se consolidou.
Mas dizer que Eliade foi “historiador das religiões” ainda é pouco. Ele não estudava as religiões apenas como quem organiza documentos antigos, costumes exóticos ou sistemas de crenças. Ele queria compreender o que acontece quando o homem encontra o sagrado.
Essa é a palavra decisiva: sagrado.
O autor do sagrado e do profano
O livro mais conhecido de Eliade é, provavelmente, O Sagrado e o Profano. Nele, o autor procura mostrar que o homem religioso não vive no mundo da mesma maneira que o homem puramente secularizado. Para o homem religioso, o espaço não é homogêneo, o tempo não é indiferente, os ritos não são simples gestos simbólicos e os mitos não são meras fábulas primitivas.
Há lugares que se tornam centro. Há momentos que se tornam origem. Há gestos que repetem acontecimentos fundadores. Há objetos que deixam de ser apenas objetos.
Para Eliade, o sagrado se manifesta. E quando se manifesta, rompe a superfície comum do mundo.
Essa manifestação do sagrado recebe um nome técnico em sua obra: hierofania. A palavra significa, em termos simples, “manifestação do sagrado”. Uma pedra, uma montanha, uma árvore, uma fonte, um templo, um altar ou um rito podem tornar-se, para determinada comunidade religiosa, algo mais do que aquilo que parecem ser. Não porque deixem de ser materiais, mas porque passam a revelar uma realidade outra.
Em Eliade, sagrado e profano não são apenas categorias abstratas: são modos de ser que atravessam a experiência humana. O sagrado se manifesta em objetos, mitos e rituais — e essa manifestação é a hierofania.
Essa ideia será central em toda a nossa série.
Eliade não era teólogo
Aqui é importante evitar uma confusão.
Mircea Eliade não era teólogo católico. Também não escrevia como apologeta cristão. Sua formação veio do mundo cultural romeno, marcado pelo cristianismo ortodoxo, mas sua obra acadêmica se moveu na História das Religiões, na fenomenologia, na hermenêutica simbólica e na comparação entre tradições religiosas.
Ele estudou religiões arcaicas, mitos de origem, xamanismo, yoga, símbolos cósmicos, religiões orientais, cristianismo, ritos de iniciação, imagens do centro do mundo, tempo sagrado, espaço sagrado e estruturas simbólicas presentes em povos e culturas muito diversas.
Por isso, não convém chamá-lo simplesmente de “filósofo” ou “teólogo”. Ele tem algo de filósofo, porque sua obra toca a questão do ser, do sentido e da verdade. Tem algo de teólogo, porque pensa o sagrado com seriedade incomum. Tem algo de antropólogo, porque observa ritos, símbolos e mitos de muitos povos. Tem algo de escritor, porque sua prosa é marcada por imaginação, literatura e memória.
Mas sua classificação mais correta é esta: Mircea Eliade foi um historiador das religiões e intérprete do sagrado.
A Enciclopédia Britânica o apresenta como um dos estudiosos da religião mais influentes do século XX e um dos grandes intérpretes do simbolismo religioso e do mito.
O que Eliade queria combater
Eliade escreveu contra uma tendência muito forte da modernidade: a tentativa de reduzir a religião a outra coisa.
Para alguns, a religião seria apenas projeção psicológica. Para outros, construção social. Para outros, instrumento político. Para outros, resíduo primitivo de uma humanidade que ainda não teria chegado à ciência. Para outros, alienação.
Eliade não negava que a religião pudesse ter dimensões psicológicas, sociais, históricas ou culturais. Mas recusava a ideia de que ela pudesse ser inteiramente explicada por essas dimensões.
Esse é seu ponto mais importante: o sagrado deve ser compreendido a partir daquilo que nele é sagrado.
Essa posição é chamada, muitas vezes, de anti-reducionismo. A religião não pode ser esgotada pela sociologia, pela psicologia, pela economia, pela política ou pela história. Ela precisa ser compreendida também em seu próprio plano de sentido.
É esse o núcleo que orientará toda esta série: em Eliade, o sagrado não aparece como ilusão psicológica ou fase ultrapassada da cultura, mas como realidade dotada de sentido próprio, manifestada por meio de hierofanias, mitos, símbolos e ritos.
É por isso que Eliade interessa tanto a filósofos, teólogos, cientistas da religião, antropólogos, psicanalistas, historiadores, estudiosos do mito e leitores preocupados com a crise espiritual da modernidade.
O mito não é mentira
Um dos maiores equívocos do leitor moderno é pensar que mito significa mentira.
Para Eliade, nas sociedades tradicionais, o mito não é uma invenção qualquer. O mito é uma narrativa sobre a origem. Ele conta como uma realidade passou a existir: o mundo, a morte, a sexualidade, o trabalho, a agricultura, o casamento, o sacrifício, o templo, a realeza, a cura, a doença, o tempo, a ordem.
O mito, nesse sentido, é uma “história verdadeira” para quem vive dentro daquele universo religioso. Verdadeira não no sentido jornalístico ou documental moderno, mas no sentido de revelar o fundamento de uma existência.
Por isso, o mito não é apenas contado. Ele é reatualizado.
Quando um rito repete um mito, o homem religioso não está apenas recordando o passado. Ele está tentando voltar ao tempo forte das origens. Está tentando tocar novamente o momento em que algo recebeu sentido.
Essa ideia será decisiva quando falarmos do “eterno retorno”, do tempo sagrado e do chamado “terror da história”.
O problema da história
Eliade fascina, mas também incomoda.
Ele fascina porque devolve dignidade intelectual ao sagrado. Mostra que a religião não é apenas superstição, atraso ou infantilidade. Ela é uma forma de organização do mundo, da memória, do corpo, do espaço, do tempo e da esperança.
Mas ele incomoda porque, em muitos momentos, parece valorizar mais o tempo mítico das origens do que a história concreta dos acontecimentos. Para o cristianismo, isso é um problema sério.
A fé cristã não se funda apenas em arquétipos ou ciclos cósmicos. Ela se funda em acontecimentos: Abraão, Moisés, os profetas, a Encarnação, a Cruz, a Ressurreição, a Igreja, a esperança escatológica.
Por isso, Eliade é um interlocutor precioso e perigoso para a teologia cristã. Precioso porque ajuda a compreender o símbolo, o rito, o sagrado e a permanência do religioso. Perigoso porque obriga a perguntar se a história está sendo iluminada ou diminuída pelo mito.
Foi exatamente esse ponto que tornou Eliade tão importante para o Padre André Eduardo Guimarães, cuja obra O Sagrado e a História será retomada nesta série.
Um autor indispensável, mas não ingênuo
Nenhuma apresentação honesta de Eliade pode esconder sua controvérsia política.
Na juventude romena, ele esteve próximo de ambientes nacionalistas de extrema direita e do universo político ligado à Guarda de Ferro. A própria documentação biográfica da Universidade de Chicago registra a influência de Nae Ionescu, a relação com o movimento legionário romeno e a prisão de Eliade em 1938, junto a líderes desse movimento.
Isso precisa ser dito com sobriedade.
Não se lê Eliade como quem canoniza um autor. Também não se deve descartá-lo com ligeireza. Grandes autores, muitas vezes, chegam até nós com grandeza e sombra. A maturidade intelectual consiste em não confundir estudo com adesão, nem crítica com cancelamento.
Eliade deve ser lido com admiração e vigilância.
Admiração pela força de sua obra. Vigilância por causa de suas generalizações, de seus limites metodológicos e de sua biografia política.
Por que ele ainda importa?
Eliade ainda importa porque a modernidade não eliminou o sagrado. Apenas mudou suas formas de aparição.
O homem contemporâneo pode não usar mais a linguagem religiosa tradicional, mas continua procurando centros, ritos, símbolos, pertencimento, iniciações, experiências de transformação, lugares especiais, objetos carregados de sentido e narrativas capazes de organizar o caos.
Basta olhar ao redor.
Há peregrinações seculares. Há rituais de consumo. Há templos esportivos. Há liturgias políticas. Há mitologias empresariais. Há gurus de performance. Há experiências de êxtase em shows, estádios, terapias, movimentos de massa e redes digitais. Há uma fome de sentido que a linguagem técnica não consegue saciar.
Eliade nos ajuda a perguntar: quando o homem moderno diz que não precisa mais do sagrado, ele realmente deixou de ser religioso — ou apenas deslocou o sagrado para outros lugares?
Essa é uma pergunta incômoda. E talvez por isso mesmo seja necessária.
Como ler Eliade nesta série
Nesta série, não leremos Eliade como discípulos obedientes. Também não o leremos como acusadores apressados.
Vamos lê-lo como se lê um autor importante: com atenção, gratidão, desconfiança e coragem.
Atenção, porque seus conceitos são complexos. Gratidão, porque ele nos devolve uma linguagem para falar do sagrado. Desconfiança, porque todo sistema interpretativo tende a exagerar o próprio alcance. Coragem, porque o tema exige atravessar regiões difíceis: mito, religião, história, política, fé, símbolo, rito e modernidade.
Este texto é apenas uma apresentação.
Nos próximos, entraremos nos conceitos fundamentais: sagrado e profano, hierofania, mito, rito, tempo sagrado, espaço sagrado, homo religiosus, símbolo, anti-historicismo e cristianismo.
Por ora, basta guardar isto: Mircea Eliade foi o pensador que, no coração do século XX, insistiu em uma ideia que a modernidade tentou esquecer — a de que o homem não vive apenas de fatos, funções e utilidades.
Ele vive também de sentido.
E, quando o sentido toca o mistério, o sagrado volta a falar.
Juvenil Alves Ferreira Filho
Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista
Humanidades · Série Mircea Eliade: O Sagrado — II · Belo Horizonte, julho de 2026 · juvenilalves.com.br