Santo Agostinho: o homem que se tornou uma pergunta

Santo Agostinho filosofia teologia ensaio Juvenil Alves.
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O mal que não é coisa nenhuma, o tempo que mora na alma, a verdade que habita dentro — a metafísica de Agostinho, e a vida da qual ela foi arrancada

por Juvenil Alves Ferreira Filho — Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista · Escritor

Humanidades · Julho de 2026

Prefere ouvir? O episódio está abaixo:

Em poucas palavras: Aurelius Augustinus — nascido em 354 na África romana, morto em 430 enquanto os vândalos cercavam Hipona — foi o pensador que deslocou o centro de gravidade da filosofia do cosmos para a alma. Em três movimentos que se exigem mutuamente, ele propôs: o mal não é coisa nenhuma, mas ausência e desvio; o tempo não é externo, mas distensão da própria consciência; e a verdade não mora lá fora, mas no homem interior — e transcende o homem interior. Este ensaio percorre esses três movimentos e os enraíza na vida da qual foram arrancados: a infância em Tagaste, a conversão no jardim de Milão, a janela de Óstia partilhada com Mônica, a cidade sitiada e os salmos nas paredes do quarto. Porque em Agostinho, mais do que em quase qualquer outro, o pensamento e a ferida são a mesma coisa.

Hipona, 430

No fim de agosto de 430, a cidade portuária de Hipona, na costa da Numídia romana, estava cercada pelos vândalos. Dentro das muralhas, num quarto, um bispo de setenta e cinco anos morria devagar. Possídio, amigo e primeiro biógrafo, registrou o que viu: o velho pedira que os salmos penitenciais de Davi fossem copiados e afixados nas paredes do quarto, para lê-los e chorar. Do lado de fora, acabava um mundo — o mundo romano-africano que o formara, com suas escolas de retórica, suas basílicas, suas bibliotecas. Do lado de dentro, um homem fazia a única coisa que sempre soubera fazer diante do que não entendia: convertia o assombro em oração e a oração em texto.

Convém ser exato sobre os sitiantes, porque o detalhe diz muito. Os vândalos não eram hordas pagãs sem religião: eram cristãos de confissão homoiana, a vertente que a história chamaria de ariana. A cidade de Agostinho não estava sitiada pela barbárie sem Deus; estava sitiada por outra maneira de dizer Deus — o que é, para um teólogo, uma ironia consideravelmente mais amarga. E convém registrar que ela resistiu: o cerco duraria quase catorze meses, e Agostinho morreu por volta do terceiro — Hipona ainda permaneceria sitiada por muitos meses depois da morte do seu bispo.

Aurélio Agostinho morreu em 28 de agosto de 430. Os livros sobreviveram ao cerco. E é por causa deles, dezesseis séculos depois, que este texto existe.

Uma aula de metafísica

Eu não conheci Agostinho pela religião. Conheci-o pela filosofia — e faz diferença.

Foi numa aula de metafísica, na PUC de Minas Gerais, com o padre Lauro Palú, da Congregação da Missão — um lazarista, filho da família religiosa de São Vicente de Paulo, aquela que casou como poucas o serviço aos pobres com a formação do clero e o ensino da filosofia. Registro desde já a natureza do que conto: é lembrança minha, de estudante, guardada por décadas. Não há gravação daquelas aulas, e o que retenho com nitidez não é um conjunto de frases. É um quadro-negro.

O padre Palú gostava de escrever no quadro em grego. E havia, naquele gesto, uma ironia que só entendi depois: era um teste. Alguns de nós tínhamos saído havia pouco do Seminário Santo Antônio, em Juiz de Fora, e chegado à PUC — e o lazarista queria saber o que o seminário havia posto dentro daqueles rapazes. Eu podia acompanhá-lo por um acaso da minha formação: em Juiz de Fora, aprendera a ler grego com Dom Geraldo Maria de Morais Penido — o primeiro arcebispo da cidade, biblista formado no Pontifício Instituto Bíblico de Roma, um homem para quem a língua do Novo Testamento não era ornamento de erudito, era instrumento de trabalho. De modo que, num dia que nunca esqueci, quando o professor de metafísica se voltou para o quadro e escreveu uma linha em caracteres gregos, eu pude lê-la. A linha, tal como permaneceu na minha memória — e como hoje a reconstituo —, era esta:

Διὰ τί ἡ ἐμὴ καρδία οὐχ εὑρίσκει ἀνάπαυσιν ἐν οὐδενὶ τῶν ὄντων;

Por que o meu coração não encontra repouso em nenhum dos entes?

Li. O padre Palú se surpreendeu — não esperava, creio, que o teste fosse vencido tão depressa, e um professor que se surpreende é um espetáculo que nenhum aluno esquece. Quanto a mim, fiquei com uma indagação que não fiz em voz alta, e que me acompanhou muito além daquela sala: por que ele não a escrevera em latim?

Levei anos para medir o que havia naquela linha, e para entender que a minha indagação de estudante já continha a resposta. A frase não é uma citação de Agostinho — Agostinho escreveu em latim, e o seu grego, diga-se, nunca alcançou a fluência de um Jerônimo; a posteridade acha graça nisso, e ele próprio reconhecia a limitação. O que o quadro trazia era outra coisa, mais fina: a primeira página das Confissões — fizeste-nos para ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em ti — despida da forma de oração e reformulada como pergunta, na língua e no vocabulário da metafísica grega. Τῶν ὄντων: dos entes, das coisas que são — o termo técnico com que a filosofia, desde Parmênides, nomeia tudo aquilo que existe. E ἀνάπαυσις, repouso, que é palavra do Evangelho: “vinde a mim… e encontrareis repouso para as vossas almas”. Numa única linha de giz, um professor lazarista havia fundido a ontologia grega, o Evangelho de Mateus e a inquietação agostiniana. Eis por que não em latim. Em latim, aquilo seria uma citação, e citação se reconhece e se arquiva; em grego, era um problema, e problema não deixa dormir.

Devo ao leitor a confissão do que aquele teste fez comigo — e ela passa por um caderno.

Eu era, e continuo sendo, um homem de Tomás de Aquino: a Suma ocupava então, como ocupa hoje, a maior parte das minhas horas de estudo. Disse-o ao professor, com a franqueza de quem se justifica — concentrava-me em Tomás. O padre Palú não discutiu. Convidou-me a estudar também Agostinho, com a mesma profundidade, e, tomando o meu caderno, escreveu nele três palavras em latim: Timeo hominem unius libri. Temo o homem de um só livro.

A lição foi boa para mim. Fui a Agostinho como quem obedece — e fiquei como quem descobre. Passei a estudá-lo como não estudava antes, primeiro para responder à pergunta do quadro, depois porque a pergunta se multiplicava em outras. E havia nisso uma justiça secreta que só percebi mais tarde: foi em grande parte por Agostinho que Tomás conheceu o seu Platão, e o tomista que sobe até as fontes encontra o africano sentado na margem. As contagens registram cerca de três mil cento e cinquenta e seis menções a Agostinho só na Suma Teológica — mais do que a Aristóteles —, o que faz dele a maior autoridade patrística invocada pelo Aquinate, quase sempre sob a fórmula reverente ut Augustinus dicit.

Anos depois, quis saber de onde vinha a frase do caderno, e a resposta me ensinou uma segunda lição. A tradição a atribui ao próprio Tomás de Aquino — mas ela não se encontra em nenhuma das suas obras. O rastro documental mais antigo até hoje localizado leva a um bispo anglicano do século XVII, Jeremy Taylor, que registrou em 1649 que Aquino teria empregado a fórmula. De modo que o lazarista me tirou da monocultura tomista invocando a autoridade de Tomás, numa frase que não é de Tomás. Tripla ironia — e a lição valeu assim mesmo, valeu com a etiqueta trocada. Guardei as duas coisas: o conselho e a suspeita. Este ensaio é filho dos dois.

Era assim que Agostinho entrava naquela sala: pela porta dos problemas, não pela porta da biografia. Não vinha o santo dos vitrais, nem o convertido do jardim de Milão, nem o autor de máximas de devocionário. Vinha o filósofo que se pergunta o que é o mal, se o mal existe; o que é o tempo, se o passado já não é e o futuro ainda não é; onde habita a verdade, se os sentidos enganam. Este ensaio faz o caminho de volta. Parte da metafísica que aprendi naquela aula e desce até a carne de onde ela veio. Porque a marca própria de Agostinho, o que o separa de quase todos os filósofos que li depois, é exatamente essa: nele, nenhuma tese é anterior à ferida.

A África antes da Europa

A descida começa pelo mapa — porque até o mapa foi deformado pela posteridade.

Agostinho nasceu em 13 de novembro de 354 em Tagaste, na província romana da Numídia, hoje Souk Ahras, na Argélia. Estudou em Madaura e em Cartago. Ensinou em Cartago, Roma e Milão. E depois voltou — para Tagaste, para Hipona — e nunca mais saiu. Fora um intervalo italiano de cinco anos, a vida inteira desse homem transcorreu no norte da África. A tradição europeia que o adotou como pilar preferiu esquecer isso, e pintou-o com feições e cenários que nunca foram os seus: bispo de catedral gótica, doutor de biblioteca renascentista. Agostinho foi um intelectual romano-africano, formado nas escolas de uma província que não era periferia inculta, mas celeiro do Império. A africanidade de Agostinho não é bandeira a agitar nem detalhe a suprimir. É o chão de onde ele falou.

A promessa de explicar o mal

Aos dezenove anos, em Cartago, a leitura de um livro mudou a direção da sua vida — e não era a Bíblia. Era o Hortensius, de Cícero, um elogio da filosofia hoje perdido, que acendeu no estudante de retórica o desejo da sabedoria. A primeira conversão de Agostinho foi filosófica, não religiosa. Quem esquece isso não entende nada do que veio depois.

Da mesma época é a mulher. Agostinho uniu-se, aos dezessete ou dezoito anos, a uma companheira com quem viveu cerca de quinze anos em concubinato — instituto que o direito romano tolerava como união monogâmica de fato entre pessoas de classes desiguais, impedidas do matrimônio pleno. Dela teve o único filho, Adeodato, “dado por Deus”. O nome dela, ele nunca escreveu. Quando a ambição de um casamento vantajoso em Milão exigiu a separação, ela voltou à África jurando não conhecer outro homem, e ele registrou nas Confissões que o coração ficou rasgado, ferido, vertendo sangue. Ela atravessou a obra do maior escritor do seu século como uma presença sem nome — e há mais verdade em manter o silêncio dele exposto, como cicatriz, do que em costurá-lo com um nome que ninguém lhe deu.

Foi o mal que levou Agostinho ao maniqueísmo, onde permaneceu nove anos como “ouvinte”. A religião de Mani oferecia ao jovem exatamente o que a fé simples da mãe não oferecia: uma explicação racional do mal. Dois princípios coeternos, a Luz e as Trevas, em guerra cósmica; o mal como substância real, ativa, invasora. E, de contrabando, uma absolvição: se o mal que faço é obra do princípio das Trevas alojado no meu corpo, então quem peca não sou exatamente eu. Para um homem jovem, brilhante e incontinente, era uma teologia sob medida.

O sistema ruiu por dentro. Agostinho confrontou a cosmologia maniqueia com a astronomia da época e encontrou erros; foi ao encontro com Fausto de Milevo, o bispo maniqueu anunciado como o homem que responderia a tudo — e encontrou um retórico encantador e vazio. A decepção com Fausto é um dos episódios mais instrutivos das Confissões, porque nela Agostinho aprendeu a distinguir, para sempre, a eloquência da verdade. Ele, professor de eloquência.

O mal não é coisa nenhuma

A resposta que o maniqueísmo não deu, Agostinho encontrou em Milão, nos “livros dos platônicos” — traduções latinas de Plotino e, provavelmente, Porfírio. E aqui chegamos ao primeiro dos três teoremas metafísicos que sustentam a obra inteira.

O mal não é substância. Não é coisa, não é força, não é princípio rival do bem. Tudo o que existe, na medida em que existe, é bom — porque o ser, enquanto ser, é dom e é ordem. O mal é privatio boni: privação de um bem que deveria estar presente. A cegueira não é uma coisa que se acrescenta ao olho; é a ausência da visão que o olho deveria ter. O mal é parasita do bem — precisa do bem para existir, como o buraco precisa do tecido.

À primeira audição, parece um truque de lógica para livrar Deus da autoria do mal. É muito mais. É a demolição de todo dualismo. Se o mal não é substância, então não existe natureza má, não existem homens ontologicamente maus a exterminar. Existem bens desordenados, vontades desviadas, amores fora do lugar. A consequência ética é imensa: o inimigo nunca é um demônio; é um semelhante amando errado. E a consequência para quem examina a própria consciência é mais incômoda ainda: o mal que faço não vem de uma força alheia. Vem da minha vontade.

Agostinho verificou essa tese em si mesmo no furto das peras, no livro II das Confissões. Adolescente, com um bando de companheiros, roubou peras de um pomar vizinho — não por fome, não por gosto, pois as frutas foram atiradas aos porcos. Roubou pelo prazer de roubar. O episódio é o experimento decisivo da teoria do mal: a vontade é capaz de aderir ao que a diminui, de preferir a sombra de um bem ao bem inteiro.

E é dele a imagem que amarra a metafísica à vida: pondus meum amor meus — o meu peso é o meu amor; por ele sou levado aonde quer que eu vá. O amor é a gravidade da alma. A pergunta moral nunca é se amamos, porque amamos sempre. É o que amamos, em que ordem, com que peso.

Querer e não querer

Se o mal é desordem da vontade, a pergunta seguinte é inevitável: e por que a vontade não se ordena sozinha?

O livro VIII das Confissões contém a resposta, e é a página mais psicanalítica escrita na Antiguidade. Agostinho, intelectualmente convencido do cristianismo, moralmente incapaz de aderir, descreve a experiência de mandar em si e não ser obedecido. “Eu queria e não queria. Era eu que queria, era eu que não queria: eu, eu mesmo.” Não duas almas em guerra, como queriam os maniqueus; uma só vontade, dividida contra si, empenhada pela força do hábito.

O ser humano não é movido pelo que sabe. É movido pelo que ama, e o que ama nem sempre obedece ao que sabe. Sócrates errou; Agostinho viu.

A cena do jardim de Milão, em 386 — a voz de criança cantando tolle, lege, “toma e lê”, o códice de Paulo aberto ao acaso, a paz súbita — deve ser lida com os dois olhos. O essencial não está na coreografia, e sim no que a cena significa dentro do problema da vontade: a libertação não veio de um esforço final e heroico do querer, mas de um deleite dado, que fez pender a balança. A vontade não foi vencida; foi curada. A isso ele chamará graça.

Volta a ti

Do fundo dessa vontade dividida sobe o segundo teorema, numa frase do De vera religione: não saias de ti; volta a ti; no homem interior habita a verdade.

É preciso limpá-la de dois mal-entendidos. Ela não é convite ao subjetivismo nem ao isolamento introspectivo. O movimento agostiniano tem dois tempos, e o segundo é o decisivo: entra em ti, e depois transcende-te a ti mesmo, porque o que encontras dentro aponta para cima. A interioridade, em Agostinho, não é um quarto fechado; é um limiar.

O argumento mais famoso desse caminho é o si fallor, sum — se me engano, existo —, formulado na Cidade de Deus, livro XI. Doze séculos antes de Descartes, o núcleo do argumento já estava escrito. A diferença está na direção: para Agostinho, descobrir que existo é o ponto de partida para transcender-me rumo a Deus; para Descartes, é o ponto de partida para construir um sistema filosófico autossuficiente.

É dessa interioridade que nasce a frase que virou lema sem perder a verdade: tornei-me para mim mesmo uma grande questão. Factus eram ipse mihi magna quaestio. O homem que ensinou o Ocidente a olhar para dentro não encontrou lá dentro um espelho límpido. Encontrou um abismo — e teve a honestidade de dizê-lo.

O que é o tempo?

Quem entra em si, como Agostinho manda, encontra lá dentro uma coisa que não esperava encontrar: o tempo. O terceiro teorema está no livro XI das Confissões, e começa com a confissão filosófica mais citada da história: o que é o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; se quero explicá-lo a quem pergunta, não sei.

O passado já não é. O futuro ainda não é. O presente, para ser tempo e não eternidade, precisa passar. Agostinho desloca o centro do problema: o tempo articula-se na alma. Existe um presente das coisas passadas, a memória; um presente das presentes, a atenção; um presente das futuras, a expectativa. O tempo é distentio animi — distensão da alma, o esgarçamento pelo qual a consciência retém o que passou, atende ao que passa e antecipa o que vem.

A fenomenologia do século XX — Husserl, Heidegger, Ricoeur — reconheceu nessa análise o seu próprio ponto de partida. Ricoeur, em Tempo e narrativa, argumenta que os enigmas irresolvíveis da aporia agostiniana sobre o tempo só se deixam atar quando o ser humano se volta para a narrativa como o recurso que confere inteligibilidade ao vivido. Contamos histórias porque o tempo desfaz; e o tempo que contamos é sempre, secretamente, o tempo que não conseguimos segurar.

Se o tempo é distensão da alma, então a dispersão não é um acidente da vida moderna: é a sua estrutura. Agostinho diagnosticou no século IV a doença que o nosso século, com outros instrumentos, apenas agravou.

A janela de Óstia

Há um lugar nas Confissões onde os três teoremas deixam de ser tese e viram cena.

Ano de 387: Óstia, o porto de Roma, uma casa de passagem, uma janela sobre um jardim interior. Agostinho, recém-batizado, espera o navio para a África com a mãe. Os dois conversam, sozinhos, sobre como será a vida eterna dos santos — e a conversa vira subida. Percorrem, degrau a degrau, tudo o que é: as coisas corpóreas, a terra, o mar, o ar, o céu com seus astros; passam além, pela própria alma; e ultrapassam a própria alma, até tocar, num ímpeto do coração, por um instante que não se mede, a Sabedoria que não passa. E suspiram. E voltam ao ruído da boca, onde a palavra começa e acaba.

Repare o leitor em quem sobe: não o filósofo sozinho no gabinete, mas um professor de retórica recém-convertido e sua mãe, lado a lado, na mesma janela — a demonstração silenciosa de que essa metafísica não é privilégio de quem leu Plotino. Dias depois, Mônica adoeceu. Morreu ali mesmo, em Óstia, aos cinquenta e seis anos, longe do túmulo que preparara para si na África — e disse ao filho que isso já não importava: nada está longe de Deus.

Mônica me acompanha desde antes de eu saber quem ela era. Quando eu era criança, minha mãe, Isabel, rezava conosco, todos os dias, um terço completo. Criança cansa, e muitas vezes eu dizia que não queria rezar naquela hora. A resposta vinha sempre, mansa e inegociável: se Santa Mônica rezou pela conversão de Santo Agostinho, eu continuarei rezando por você. Só décadas depois, lendo as Confissões, encontrei a cena que a sustentava sem que ela soubesse. Minha mãe nunca leu essa página. Não precisava. As mães sabem.

Quando viajo e a escala me deixa em Fiumicino, algumas vezes prefiro ficar em Óstia. Sento-me diante do Tibre. Vejo o rio correr em direção ao mar. E penso que foi por aquelas margens que um professor de retórica e sua mãe esperaram um navio. O navio levaria Agostinho de volta à África. Mônica não embarcou. Há hospedagens mais cômodas para uma escala. Não conheço nenhuma com vista melhor.

Dois amores, duas cidades

Em 410, Roma foi saqueada por Alarico. A resposta de Agostinho levou treze anos e vinte e dois livros: a Cidade de Deus, escrita entre 413 e 426.

Está no livro IV, capítulo 4 a página que todo jurista deveria ler uma vez por ano: removida a justiça, que são os reinos senão grandes bandos de ladrões? Capturado um pirata, Alexandre, o Grande, perguntou-lhe com que direito infestava o mar. E o pirata: com o mesmo direito com que tu infestas a terra; mas, porque o faço com um barco pequeno, chamam-me ladrão; porque tu o fazes com uma frota, chamam-te imperador. O que distingue o Estado da quadrilha não é a força, não é a escala: é a justiça.

O fundamento dessa crítica está no livro XIV, capítulo 28: dois amores fundaram duas cidades — o amor de si até o desprezo de Deus, a terrena; o amor de Deus até o desprezo de si, a celeste. Um povo é o conjunto de seres racionais unidos pela comunhão das coisas que amam — e para saber o que um povo é, basta olhar o que ele ama.

Ao negar que qualquer império — inclusive o império cristão — seja a realização do Reino, Agostinho dessacraliza o poder de uma vez. O Estado não é divino nem diabólico: é uma administração da paz possível num mundo desordenado. Toda politização integral da fé e toda sacralização integral da política encontram nesse livro a sua refutação antecipada.

As feridas

O homem que dessacralizou o poder também o usou, e é preciso dizer como.

Diante do cisma donatista, Agostinho começou preferindo a persuasão. Mudou. Passou a justificar a intervenção do Estado contra o cisma, apropriando-se da frase do Evangelho de Lucas: compelle intrare, obriga-os a entrar. Opôs-se à pena de morte, e pediu moderação. Mas a justificação estava dada, e seria retomada e muitas vezes desfigurada pelos defensores posteriores da coerção religiosa. Não o absolvo porque era homem do seu tempo — outros, no tempo dele, pensaram diferente. Registro a ferida como ele registrou as suas: por escrito.

O que ele não disse

Poucos autores sofreram tanto nas mãos dos devocionários e, agora, das redes.

“A medida do amor é amar sem medida” não é de Agostinho: é de São Bernardo de Claraval, oito séculos depois. “Roma falou, o caso está encerrado” é distorção do que ele disse no Sermão 131. E “ama e faze o que quiseres” é autêntica — está no comentário à Primeira Carta de João —, mas significa o inverso do salvo-conduto em que a transformaram: quando o amor que rege a vontade é a caridade verdadeira, o que dela nasce não pode ser senão bom. Não é a dispensa da lei; é a sua interiorização completa.

A única defesa é voltar ao texto — e Agostinho merecia leitores que ao menos conferissem a fonte.

Hipona, outra vez

Agosto de 430: o bispo morrendo com os salmos pregados na parede, a biblioteca que ninguém sabia se sobreviveria ao assalto. Sobreviveu. Possídio encerrou a biografia do amigo com um inventário — o homem partiu, os livros ficaram, e neles Agostinho continuará vivo para quem o quiser ler. Foi a profecia mais certeira do século V. A Hipona romana desapareceu; o Império desapareceu; a própria África cristã que o formou seria varrida em poucos séculos. O que atravessou não foi a pedra. Foi o texto.

E aqui posso, enfim, responder à pergunta do quadro. Por que o coração não encontra repouso em nenhum dos entes? Porque não foi feito para os entes. A resposta está na primeira página das Confissões: fizeste-nos para ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em ti. Nenhum ente sacia porque a sede não é de entes. A inquietação não é defeito da máquina; é a assinatura do Artífice.

O resto — a vida desordenada, a mulher sem nome, o filho morto, o pomar, o jardim, a janela de Óstia, o cerco — está nos livros que sobreviveram. Era tudo a mesma coisa. Em Agostinho, foi sempre tudo a mesma coisa: um homem que se tornou uma pergunta para si mesmo e teve a coragem de não abandonar a pergunta. Dezesseis séculos depois, ela continua aberta. E continua sendo nossa.

Juvenil Alves Ferreira Filho Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista · Escritor

Humanidades · Belo Horizonte, julho de 2026 · juvenilalves.com.br

Pontos principais

  • A tese de Juvenil Alves neste ensaio: em Agostinho, pensamento e ferida são a mesma coisa — a metafísica do mal, do tempo e da verdade não nasceu em gabinete, mas de uma vida em que a inteligência e o desejo colidiram durante décadas.
  • O mal não é coisa nenhuma: não uma substância, não uma força rival de Deus, mas uma ausência, uma desordem, uma adesão ao que é menor.
  • O tempo é distentio animi, distensão da alma: o passado existe como memória, o futuro como expectativa, o presente como atenção — e a dispersão entre os três não é um acidente da vida moderna, mas a estrutura da condição humana.
  • A interioridade agostiniana tem dois tempos obrigatórios: entra em ti, e depois transcende-te a ti mesmo. A alma que para no eu pratica o orgulho; a que prossegue encontra, no fundo de si, o fundamento que não fez.
  • A distinção uti × frui (usar × fruir) é a chave de toda a ética: as criaturas são para ser usadas na peregrinação; só Deus é para ser fruído como fim.

Perguntas frequentes

Quem foi Santo Agostinho? Aurelius Augustinus nasceu em 354 em Tagaste, na África romana (atual Argélia). Filho de Mônica, cristã fervorosa, e Patrício, pagão tardio. Estudou retórica em Cartago, ensinou em Roma e Milão, converteu-se ao cristianismo em 386 e foi ordenado sacerdote em 391 e bispo de Hipona em 395, cargo que exerceu até a morte, em 430.

Por que Agostinho é chamado de Doutor da Interioridade? Porque foi ele quem formulou, de forma sistemática e existencialmente vivida, o preceito de que a verdade não mora fora do sujeito, mas no homem interior. A fórmula do De vera religione — Noli foras ire, in te ipsum redi; in interiore homine habitat veritas — não é convite ao subjetivismo, mas ao movimento que entra em si para transcender-se.

O que Agostinho quis dizer com “o mal não é coisa nenhuma”? Para Juvenil Alves, esta é uma das teses mais difíceis e mais libertadoras de Agostinho: o mal não tem substância própria, não é força rival de Deus. É ausência de bem, desordem, adesão ao que é menor.

Como Agostinho define o tempo? Com uma das perguntas mais famosas da filosofia: “Que é o tempo? Se ninguém me pergunta, sei; se quero explicá-lo a quem pergunta, não sei.” Sua resposta é que o tempo é distentio animi — distensão da alma. Só há três tempos: o presente do passado (memória), o presente do presente (atenção) e o presente do futuro (expectativa).

O que Agostinho tem a ver com Descartes? Doze séculos antes de Descartes, Agostinho formulou o si fallor, sum — se me engano, existo. O núcleo do argumento é o mesmo do cogito ergo sum. A diferença está na direção: para Agostinho, descobrir que existo é o ponto de partida para transcender-me rumo a Deus; para Descartes, é o ponto de partida para construir um sistema filosófico autossuficiente.

O que é o ordo amoris — a ordem do amor? É o princípio ético central de Agostinho: amar as coisas na medida certa, na hierarquia certa. O pecado surge quando fruímos o que deveria ser usado como meio, e usamos como meio o que só pode ser fruído como fim.

O que é a Cidade de Deus? É a grande obra político-teológica de Agostinho, escrita entre 413 e 426 em resposta ao saque de Roma por Alarico (410). É uma leitura de toda a história humana à luz de dois amores — o amor de si até o desprezo de Deus (cidade terrena) e o amor de Deus até o desprezo de si (cidade celeste).

Agostinho influenciou pensadores modernos? Sim. A distentio animi influenciou diretamente Husserl e Heidegger na filosofia do tempo; Paul Ricoeur, em Tempo e narrativa, partiu da aporia agostiniana; Hannah Arendt escreveu sua tese sobre o conceito de amor em Agostinho; Charles Taylor, em As fontes do self, reconhece nele a origem da interioridade moderna ocidental.

Como Agostinho concilia livre-arbítrio e graça? Com enorme dificuldade — e ele próprio o admite. A vontade humana é real e livre; mas, depois da Queda, ela está tão inclinada para o mal que só a graça divina a pode reorientar. A fórmula que escandalizou Pelágio foi: da quod iubes et iube quod vis — dá o que ordenas e ordena o que quiseres.

Por que ler Agostinho em 2026? Porque Agostinho foi o primeiro a descrever com precisão a estrutura da dispersão da consciência, a tensão entre o que queremos e o que fazemos, e a incapacidade do eu de ser o fundamento de si mesmo. Tudo isso fala com intensidade peculiar num tempo em que a atenção é a commodity mais disputada e a identidade, o projeto mais instável.

Leituras e fontes: Agostinho, Confissões · A Cidade de Deus · De vera religione · De magistro · Comentário à Primeira Epístola de João · Retractationes · Possídio, Vita Augustini · Peter Brown, Augustine of Hippo · Serge Lancel, Saint Augustine · Hannah Arendt, O conceito de amor em Santo Agostinho · Paul Ricoeur, Tempo e narrativa · Charles Taylor, As fontes do self · Kate Cooper, Queens of a Fallen World (2023) · Catherine Conybeare, Augustine the African (2025)

 

Quem escreve

Juvenil Alves - jurista, teólogo, filósofo, psicanalista e escritor.

Nasceu em Abaeté, no interior de Minas Gerais. É filho de Juvenil Alves, alfaiate, e de Isabel Amélia, servente escolar. Foi nesse ambiente simples que aprendeu, desde cedo, o valor do trabalho, da disciplina, da educação e da responsabilidade.

Sua formação intelectual começou pela Filosofia  e pela Teologia e, mais tarde, encontrou no Direito o espaço emq ue essas reflexões passaram a dialogar diariamente com a vida concreta das pessoas, das empresas e das instituições. Desde então, nunca deixou de percorrer esse cruzamento.

Ao longo de mais de quatro décadas de atuação profissional, construiu uma carreira dedicada ao Direito Tributário e Empresarial, assessorando empresas, famílias e organizações em questões de alta complexidade. Paralelamente, manteve um estudo permanente das Humanidades, formando uma biblioteca construída ao longo de quase cinquenta anos de leituras, pesquisas e anotações.

Neste blog, reúne essas duas experiências. Escreve sobre Direito Tributário, Direito Empresarial, Reforma  Tributária, Filosofia do Direito, Filosofia, Teologia, Psicanálise, Liderança, Ética, Humanidades e Neurodiversidade. Não para oferecer respostas prontas, mas para investigar as ideias, os príncipios e os fundamentos que orientam as decisões humanas.

Os ensaios publicados aqui dialogam com autores clássicos e contemporâneos e procuram aproximar o pensamento filosófico da realidade jurídica, empresarial e social. Muitos deles integram projetos editoriais em desenvolvimento e servirão de base para futuras obras.

Este espaço nasceu da convicção de que a técnica, quando separada das Humanidades, empobrece o pensamento; e de que a Filosofia, a Teologia, a Psicanálise e o Direito continuam oferecendo instrumentos indispensáveis para compreender o ser humano, as instiuições e os desafios do nosso tempo.

Sem fórmulas. Sem juridiquês.

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