Por que o Padre André Eduardo Guimarães abriu seu livro sobre Mircea Eliade com a frase de um médico mineiro — e o que um conto de 1962 ainda pergunta a quem se olha no espelho
por Juvenil Alves
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Em poucas palavras: “O espelho”, conto de João Guimarães Rosa publicado em Primeiras Estórias (1962), narra a experiência de um homem que decide investigar o que existe por trás da própria imagem — e desmonta o rosto, camada por camada, até o vazio, antes de entrever um rosto nascente. Neste ensaio, releio o conto em três chaves — psicanalítica, filosófica e religiosa — a partir de um reencontro pessoal: estudando Mircea Eliade, voltei ao livro de um professor da minha juventude, o Padre André Eduardo Guimarães, e reencontrei ali, aberta como epígrafe, a frase de Rosa sobre o milagre que não estamos vendo. A pergunta que conduz o texto: por que um sacerdote e filósofo, escrevendo sobre o sagrado, escolheu o médico de Cordisburgo para abrir a casa? Minha hipótese: porque ambos investigavam a mesma experiência — o invisível não está fora do mundo; está camuflado no que parece ordinário, imóvel e até vazio.
O Padre André Eduardo Guimarães foi meu professor quando eu ainda era muito jovem. Datilografei seus manuscritos, ouvi nomes e conceitos que, naquele tempo, passavam por meus dedos mais depressa do que entravam em minha compreensão. Quase cinquenta anos depois, voltei àquilo que ele escreveu — em parte pelo estudo de Mircea Eliade a que tenho me dedicado, em parte para reencontrar, por meio dos livros, um mestre que já não posso interrogar pessoalmente. Há perguntas que fazemos cedo demais e respostas que só se deixam ouvir quando envelhecemos.
O livro é O sagrado e a história: fenômeno religioso e valorização da história à luz do anti-historicismo de Mircea Eliade. O Padre André não chegou a vê-lo publicado: morreu tragicamente, num acidente, e a obra veio à luz em 2000, apresentada por Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues — que também foi meu professor, de lógica e de dogmática, quando era bispo auxiliar de Porto Alegre. Reler um livro póstumo de um professor é uma experiência estranha: a voz continua fazendo perguntas, e já não há como devolvê-las.
Foi nessa releitura que encontrei Guimarães Rosa. Ou, talvez seja mais exato dizer: fui encontrado por ele. Antes mesmo do sumário, abrindo o volume como uma chave deixada na porta, estava a frase: “Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.”
Eu já a conhecia como se conhecem tantas frases célebres: separada da casa em que nasceu, repetida em imagens, legendas e calendários. Mas ali, como epígrafe de um estudo sobre o sagrado, ela não parece comparecer como consolo fácil — e Rosa tampouco a escreveu para decorar a resignação. No conto “O espelho”, ela vem depois de o narrador anunciar que vai se reportar ao transcendente, com o aviso de que os fatos — e até a ausência deles — são a ponta de um mistério. O milagre roseano, portanto, não é a interrupção espetacular das leis naturais que premiaria quem espera. Pode ser aquilo que já está acontecendo sem conseguir atravessar os hábitos do nosso olhar.
Daí a pergunta que conduz este texto: por que o Padre André — sacerdote, filósofo, estudioso de Eliade, sobre quem já contei nesta casa por que Padre André Eduardo Guimarães escolheu seu autor de vida — abriu justamente com um médico mineiro que escrevia estórias? Não posso atribuir a ele uma intenção íntima que já não está aqui para confirmar. Posso formular uma hipótese de aluno que envelheceu: ele encontrou em Rosa uma expressão literária, brasileira e existencial daquilo que Eliade tentara demonstrar pela história das religiões. O sagrado não desaparece quando o mundo deixa de reconhecê-lo. Ele se camufla.
O que acontece no conto “O espelho”?
O conto está em Primeiras estórias, de 1962 — o “amarelinho”, como Rosa o chamava. Um narrador sem nome dirige-se a um interlocutor instruído — “o senhor” — e promete relatar uma experiência. O texto assume por vezes o tom de ensaio, quase de investigação científica; mas o que ele examina não pertence à óptica. O narrador quer saber o que existe para além da figura devolvida pelo vidro.
O ponto de partida é um susto. Num lavatório público, ao levantar os olhos, ele vê de relance no espelho um rosto desagradável, quase repulsivo — e só depois percebe que aquele rosto era o seu. Esse instante inaugura a investigação: se a imagem que reconheço como “eu” pode subitamente aparecer como a face de um estranho, que segurança tenho de que o espelho me revela? Aquilo que chamo de meu rosto é meu rosto — ou é apenas a forma à qual me habituei?
O narrador passa então a retirar da imagem as camadas que julga não pertencerem ao seu ser mais verdadeiro: os traços herdados da família, as semelhanças sociais, as expressões esculpidas pelos afetos, até o componente animal que acredita reconhecer em si. Não quer melhorar a aparência; quer chegar ao que restaria depois de removidas as aparências. A experiência cobra o seu preço: um dia, a figura desaparece. A superfície continua diante dele — e devolve o vazio. Onde deveria haver um eu, não há ninguém.
Tempos depois, atravessado pelo sofrimento e pelo amor, algo reaparece: uma figura ainda incompleta, delicada, como o rosto de uma criança por nascer. E o conto termina sem doutrina, devolvendo ao interlocutor — a nós — uma pergunta sobre a própria existência: chegamos, realmente, a existir? Rosa não escreve uma teoria da identidade. Ele coloca a identidade em experiência: o leitor entra no conto pensando que possui um rosto e sai perguntando se possui um ser.
O espelho mostra quem somos — ou aquilo que aprendemos a reconhecer?
A primeira perturbação psicanalítica do conto é fundamental: ninguém nasce reconhecendo a própria imagem. O eu não chega pronto; organiza-se lentamente, pelo corpo, pela linguagem, pelos afetos e pelo olhar do outro. A criança recebe um nome antes de saber pronunciá-lo; é descrita antes de poder descrever-se; descobre quem é numa rede de palavras e expectativas que a precede.
Jacques Lacan tornou célebre a ideia do estádio do espelho: a criança encontra na imagem refletida uma unidade que ainda não experimenta no próprio corpo — a figura oferece forma, contorno, coerência. Essa conquista, porém, contém uma alienação original: para dizer “eu”, o sujeito identifica-se com algo que está fora dele. Uma imagem.
Convém não transformar Guimarães Rosa em discípulo de Lacan — literatura não precisa ilustrar teorias, e os grandes textos sempre excedem as doutrinas que usamos para lê-los. Ainda assim, o encontro é fecundo, porque o narrador roseano faz o percurso do espelho de trás para diante: se o bebê lacaniano ganha um eu ao identificar-se com a imagem, o homem do conto desmonta o eu ao desidentificar-se dela, camada por camada — e o desfecho confirma o que a psicanálise suspeita: retiradas todas as identificações, não sobra um “eu verdadeiro” escondido embaixo. Sobra o vazio. O eu era as camadas.
Todos conhecemos versões domésticas dessa vertigem. Olhar uma fotografia antiga e pensar “aquele sou eu”, embora quase nada em nós permaneça idêntico — o corpo mudou, convicções morreram, desejos nasceram; mesmo assim, costuramos as descontinuidades e lhes damos um nome próprio. A identidade é necessária, sem ser transparente. Em Freud, essa fresta tem nome: o inquietante — o familiar que retorna como estranho. É o que acontece no lavatório do conto: o rosto próprio, objeto mais íntimo e repetido do mundo, aparece como presença estrangeira. O espelho deixa de confirmar e começa a interrogar.
Uma análise, aliás, também pode começar assim. A fala habitual perde, por um instante, a inocência: a pessoa ouve a si mesma dizendo o que sempre disse e, subitamente, escuta outra coisa — uma repetição, uma defesa, um desejo que não pretendia confessar. Yudith Rosenbaum observou que o percurso do narrador se aproxima do trabalho do sujeito em análise: ver o que habitualmente não se vê e deixar de ver aquilo que parecia evidente. Guimarães Rosa faz com a imagem o que a psicanálise faz com a palavra: retira-lhe a aparência de evidência.
Por que o narrador precisa apagar o próprio rosto?
O gesto do narrador tem linhagem ilustre: separar o essencial do acidental, o ser de suas máscaras — a velha aspiração do conhece-te a ti mesmo. O método que ele adota também tem nome antigo: é a via negativa dos místicos, a apófase — aproximar-se do que importa negando o que ele não é, despojando imagem após imagem, até o silêncio. A pergunta que o conto leva ao limite, porém, é a que a tradição nem sempre teve coragem de fazer: quem somos, depois que retiramos tudo o que recebemos dos outros? Se eliminarmos a herança, a língua, a memória, os vínculos, as marcas do sofrimento e as imagens que os outros fizeram de nós — encontraremos uma essência pura, ou não restará ninguém?
Aqui está, a meu ver, uma das forças filosóficas do conto: Rosa não aceita nem a superfície nem a fantasia de uma essência disponível. A imagem social não esgota o sujeito; o sujeito, por sua vez, tampouco existe como pedra preciosa intacta sob as influências do mundo. Tornamo-nos alguém na relação com aquilo que não somos. O espelho, portanto, mente e diz a verdade ao mesmo tempo: mente quando pretende que aquela figura plana e momentânea seja o ser inteiro; diz a verdade quando expõe que precisamos de mediações para nos encontrar — não vemos diretamente nem o próprio rosto. Na linguagem de Paul Ricoeur: a compreensão de si exige um desvio pelos símbolos, pelos textos, pelo outro. O caminho mais curto entre o eu e o eu não é uma linha reta — é uma interpretação. Por isso “O espelho” é, mais que uma estória sobre a visão, uma hermenêutica do sujeito: seu narrador não pergunta “como pareço?”, e sim “o que em mim é capaz de existir para além das minhas parecenças?”.
O rosto infantil do final: regressão ou nascimento?
Depois do vazio, o rosto volta — e volta como algo nascente, o que faz toda a diferença. Uma leitura apressada veria ali uma volta à infância, como se a verdade do sujeito estivesse preservada num passado puro, anterior às máscaras. Rosa me parece menos ingênuo. O rosto infantil aparece depois da travessia: entre o primeiro rosto e o último houve estranhamento, disciplina, perda, sofrimento e amor. A criança que surge sugere menos um retorno cronológico do que um nascimento possível.
E o amor ocupa aí um lugar decisivo. O narrador não recupera a imagem por força de uma técnica solitária; algo nele se reorganiza depois de ser atingido pela vida e pelo vínculo. Em uma leitura lacaniana, o eu se constitui também no campo do outro; Rosa parece acrescentar que ele pode renascer quando encontra um olhar que não o reduz à aparência. Há pessoas que nos transformam em retratos: fixam-nos num erro, numa função, numa antiga versão de nós mesmos. E há outras que, sem negar nossa história, nos devolvem a possibilidade de ainda não estarmos terminados. Talvez amar seja, entre outras coisas, recusar que o outro coincida definitivamente com a sua imagem. O rosto infantil do conto seria, assim, menos a recuperação de uma identidade perdida do que a abertura de uma identidade possível.
Onde Mircea Eliade entra nessa estória
Eliade dedicou a obra a compreender a experiência do sagrado sem reduzi-la a erro, ilusão, patologia ou produto social. Para ele, o sagrado manifesta-se no mundo por meio de realidades concretas — uma pedra, uma árvore, uma casa, um rito. A manifestação do sagrado — a hierofania — não elimina o objeto comum: a pedra continua pedra e, para quem participa da experiência, torna-se também outra coisa. O paradoxo é constitutivo: o transcendente revela-se no imanente; o extraordinário assume a matéria do ordinário.
Na leitura crítica de Eliade, parte da modernidade secularizada passou a reconhecer como plenamente real sobretudo aquilo que pode medir, explicar e utilizar. O resultado, ensina ele, não é o desaparecimento do sagrado — é a sua radical camuflagem. Continuamos cercados de símbolos, ritos, buscas de centro e promessas de renovação, embora já não reconheçamos sua estrutura religiosa. E é nesse ponto que a frase de Rosa deixa de ser bela coincidência e se torna chave hermenêutica: o “nada” pode ser o nome que damos àquilo cuja significação perdemos; o milagre pode estar ausente da nossa percepção, e presente na realidade. Não vemos porque aprendemos a procurar o sagrado apenas no estrondo e na exceção.
Acrescento uma camada que ilumina o conto por dentro. Eliade estudou, em dezenas de culturas, a estrutura dos ritos de iniciação: separação, provação, morte simbólica e renascimento — o iniciado morre para o que era, atravessa o escuro e retorna outro, com olhos novos. Releia agora o conto com essa lente: a separação (o homem que se aparta do consenso de que o espelho diz a verdade), a provação (a disciplina de subtrair as camadas), a morte simbólica (o dia terrível do espelho vazio — a morte da imagem que ele chamava de eu) e o renascimento (o quase-rosto, a vida nascente do outro lado do nada). “O espelho” é um rito de iniciação em prosa — a iniciação sem tambores, camuflada no cenário menos exótico possível. O espelho é objeto profano por excelência: está no banheiro, no corredor, no lavatório público; serve à higiene, à vaidade, ao controle da aparência. Em Rosa, essa coisa banal abre uma fenda metafísica e, sem deixar de ser vidro, torna-se limiar — o gesto que Eliade passou a vida descrevendo nas religiões, realizado aqui pela literatura.
Por que o Padre André abriu com Guimarães Rosa? Uma hipótese de aluno
O Padre André poderia ter aberto seu livro com um teólogo, um místico, um filósofo sistemático. Escolheu, antes do sumário, a frase de um médico de Cordisburgo — e vejo nesse gesto algumas razões que se encadeiam.
Rosa recusa-se a reduzir a realidade ao imediatamente verificável, e faz isso sem fugir do mundo: seu sertão é o concreto aprofundado até revelar as suas vertigens — bichos, rios, veredas, doenças, jagunços e crianças permanecem radicalmente terrenos, carregando uma espessura que o olhar utilitário não percebe. A essa recusa soma-se o valor da experiência: médico, diplomata, escritor, Rosa não tratou o mistério como desculpa para a ignorância — no conto, o narrador raciocina, observa, testa, duvida, e a razão, quando honesta, descobre que não é dona de todo o real. É possível que o Padre André, que estudou a crítica de Eliade aos reducionismos sem renunciar à exigência intelectual — tema sobre o qual também escrevi ao tratar da irredutibilidade do sagrado e de seus críticos —, tenha reconhecido nessa passagem uma disciplina intelectual semelhante à sua: não abandonar a razão, sem permitir que ela decrete inexistente o que não consegue capturar.
Os dois convergem, ainda, no símbolo. Para Eliade, o símbolo revela dimensões do real que não cabem em formulação puramente conceitual; para Rosa, a palavra literária modifica o olhar e torna perceptível o que a linguagem gasta encobriu. E há, por fim, uma razão brasileira, talvez afetiva: o Padre André não precisava importar todas as imagens com que pensaria Eliade. Rosa oferecia-lhe uma metafísica nascida em Minas, uma investigação do mistério no idioma das veredas — a prova de que o problema do sagrado não pertencia apenas aos templos antigos estudados pelo professor de Chicago, mas também aos nossos lavatórios, aos nossos sertões e ao rosto que todos os dias julgamos reconhecer.
Esta é a minha hipótese, oferecida com a modéstia de quem palpita sobre a biblioteca de um mestre: o Padre André abriu com Rosa porque percebeu nele uma testemunha independente da mesma profundidade humana que Eliade formulava em conceito. Onde o historiador das religiões descrevia a dialética entre manifestação e ocultamento, o contista narrava um homem diante de um vidro, incapaz de ver o milagre da própria existência.
O médico e o padre diante do que a ciência não esgota
Há algo especialmente bonito no fato de esse diálogo ocorrer entre um médico e um padre. Seria fácil distribuí-los em territórios opostos: ao médico, o corpo e os fatos; ao sacerdote, a alma e o mistério. Os dois desorganizam essa divisão pobre. Rosa levou para a literatura um olhar treinado para observar sintomas, formas e detalhes; o Padre André levou para o estudo do sagrado o rigor de quem sabia que a fé não autoriza a preguiça intelectual. Um manteve a concretude ao falar do transcendente; o outro manteve a razão ao falar de Deus. Ambos parecem dizer a mesma coisa: o mistério não começa onde o conhecimento termina. O mistério atravessa aquilo que conhecemos.
Um rosto pode ser descrito pela anatomia, medido pela biometria, reconhecido por um algoritmo. Nada disso responde se aquele rosto chegou a existir, no sentido proposto pelo conto. Uma vida pode ser registrada por documentos, exames e fotografias; nada disso assegura que o seu portador tenha se encontrado — ou tenha sido visto. A ciência explica muito sobre o espelho. Guimarães Rosa pergunta o que acontece com aquele que se olha. São perguntas diferentes; transformá-las em inimigas empobrece as duas.
Talvez o milagre seja ver
Depois de ler o Padre André, voltei ao conto. E depois de reler o conto, a frase já não me pareceu a mesma. “Quando nada acontece” não descreve, necessariamente, a ausência de realidade — pode descrever o fracasso do olhar. Esperamos que a verdade venha acompanhada de ruído, que o sagrado se anuncie pela ruptura, que a transformação seja imediatamente visível. Enquanto isso, o essencial talvez esteja acontecendo em silêncio.
Uma pessoa começa a deixar de repetir uma antiga violência. Um filho compreende, tarde, uma frase do pai. Um homem relê, quase cinquenta anos depois, o livro póstumo de um professor — e finalmente formula a pergunta que não soube fazer quando datilografava os manuscritos dele. Nada disso produzirá manchetes. Mas seria pouco chamar essas coisas de acontecimentos?
Eliade procurou o sagrado camuflado nas estruturas da existência. O Padre André lutou para preservar a sua irredutibilidade diante dos sistemas que pretendiam explicá-lo por completo. Guimarães Rosa colocou um homem diante do espelho e retirou, camada por camada, a segurança da sua imagem. Os três convergem numa advertência: a realidade é maior do que a parte dela que conseguimos ver. Talvez por isso o Padre André tenha levado o médico mineiro para dentro de seu livro — antes mesmo do sumário. Precisava de uma frase que não encerrasse o mistério num conceito. Precisava de literatura, essa linguagem que nos faz compreender antes mesmo de sabermos explicar.
E talvez eu tenha reencontrado a frase agora porque há leituras que também esperam a sua hora. Durante décadas, nada parece acontecer com certas palavras guardadas em nós. Um dia, porém, elas devolvem o nosso olhar. O espelho, então, já não confirma o rosto. Ele pergunta se começamos a existir.
Pontos principais
- A tese de Juvenil Alves neste ensaio: “O espelho” é um rito de iniciação em prosa — o narrador morre para a imagem que chamava de eu, atravessa o vazio e entrevê um rosto nascente; por isso um estudioso do sagrado abre seu livro com Guimarães Rosa: o conto realiza em literatura o que a hierofania é na religião — o sagrado camuflado no comum, o milagre presente no dia em que nada parece acontecer.
- O ensaio nasce de um reencontro: relendo O Sagrado e a História — obra póstuma do Padre André Eduardo Guimarães, professor do autor na juventude, cujos manuscritos ele datilografou —, o autor reencontra a frase de Rosa aberta como epígrafe, antes do sumário da edição da EDIPUCRS (2000).
- Na chave psicanalítica, o conto percorre o estádio do espelho de Lacan de trás para diante: desmontadas as identificações, não há um “eu verdadeiro” sob as máscaras — o eu era as camadas; o rosto próprio visto como estranho é o inquietante freudiano em experiência.
- Na chave filosófica, o método do narrador é a via negativa; com Ricoeur, o conto é uma hermenêutica do sujeito: não vemos diretamente nem o próprio rosto — o caminho do eu ao eu é uma interpretação.
- O rosto infantil do final sugere menos regressão que nascimento possível — e o amor é decisivo: amar é recusar que o outro coincida definitivamente com a sua imagem; a leitura das razões do Padre André permanece declarada como hipótese.
Perguntas frequentes
Qual é o tema principal do conto “O espelho”? A busca do sujeito por aquilo que seria o seu eu verdadeiro, para além da aparência, das heranças, das máscaras sociais e das identificações. O conto transforma o espelho em instrumento de investigação psicológica, filosófica e metafísica.
Em que livro foi publicado “O espelho”? Em Primeiras estórias, de João Guimarães Rosa, publicado em 1962 — coletânea de vinte e um contos, central na obra do autor.
A frase sobre o milagre que não estamos vendo é de Guimarães Rosa? Sim, pertence ao conto “O espelho”. Seu sentido se aprofunda no contexto: o narrador anuncia que falará do transcendente e afirma que os fatos — e até a ausência deles — são a ponta de um mistério. Não é o fecho do conto, como muitos supõem, mas parte da advertência inicial.
Onde a frase aparece no livro do Padre André Eduardo Guimarães? Na edição da EDIPUCRS de O sagrado e a história (2000), a frase de Rosa comparece antes do sumário, abrindo o volume como epígrafe.
Qual é a relação entre “O espelho” e a psicanálise? O conto questiona a identificação do eu com sua imagem — tema que dialoga com o narcisismo, o inquietante freudiano e o estádio do espelho de Lacan. Yudith Rosenbaum aproximou o percurso do narrador do trabalho do sujeito em análise: ver o que habitualmente não se vê e deixar de ver o que parecia evidente.
O narrador encontra sua verdadeira identidade no final? Rosa não oferece resposta definitiva. O rosto infantil que reaparece pode representar um nascimento psíquico — uma identidade possível, alcançada depois do sofrimento e do amor. O final preserva a pergunta em vez de encerrá-la.
O que é a via negativa mencionada no ensaio? É o método apofático de místicos e filósofos: aproximar-se do essencial negando o que ele não é, despojando conceitos e imagens. O narrador do conto aplica esse método ao próprio rosto — e descobre o preço dele.
O que Mircea Eliade tem a ver com Guimarães Rosa? Eliade estudou como o sagrado se manifesta e se camufla em realidades profanas (as hierofanias) e descreveu a estrutura dos ritos de iniciação — morte simbólica e renascimento. O conto de Rosa faz um objeto cotidiano abrir-se para uma experiência transcendente e percorre, em prosa, a estrutura iniciática. A aproximação é interpretativa, não afirmação de influência direta.
Quem foi o Padre André Eduardo Guimarães? Sacerdote, filósofo e estudioso brasileiro de Mircea Eliade — e professor do autor deste blog, que na juventude datilografou seus manuscritos. Faleceu tragicamente, em acidente; sua obra O sagrado e a história foi publicada postumamente pela EDIPUCRS em 2000, com apresentação de Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues, então bispo auxiliar de Porto Alegre.
Guimarães Rosa era mesmo médico? Sim. Antes da diplomacia e da consagração literária, João Guimarães Rosa, nascido em Cordisburgo, Minas Gerais, formou-se em medicina e clinicou no interior mineiro — experiência que marcou seu olhar sobre rostos, corpos e mistérios.
Leituras para continuar
ROSA, João Guimarães. “O espelho”. In: Primeiras estórias (1962) · GUIMARÃES, André Eduardo. O sagrado e a história: fenômeno religioso e valorização da história à luz do anti-historicismo de Mircea Eliade. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000 (a frase de Rosa comparece antes do sumário) · ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano · ROSENBAUM, Yudith. “Notas sobre o conto ‘O espelho’, de Guimarães Rosa”. Ide, São Paulo, v. 31, n. 47, p. 84–87, 2008 · ROHDEN, Luiz. “Faces filosóficas de ‘O espelho’ de J. G. Rosa”. Revista da ANPOLL, v. 2, n. 24, p. 333–356, 2008. DOI: 10.18309/anp.v2i24.47.
Nota de rigor: este ensaio distingue três níveis — o dado verificável de que a frase pertence ao conto “O espelho”; a sua presença como epígrafe, antes do sumário, na edição da EDIPUCRS (2000) de O sagrado e a história, conforme o exemplar consultado pelo autor; e a interpretação autoral, declarada como hipótese, sobre as razões da escolha. Interpretações de obras literárias são sempre plurais — e a melhor resposta ao conto continua sendo lê-lo. Leia outros ensaios da série sobre Mircea Eliade e o sagrado na seção Humanidades do Blog Juvenil Alves.
Juvenil Alves Ferreira Filho Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista · Escritor
Humanidades · Belo Horizonte, agosto de 2026 · juvenilalves.com.br