Depois de um término, dizemos “não odeio mais, só não quero saber” — e tratamos a frieza como prova de cura. Mas a psicanálise desconfia: o ódio ainda concede importância ao outro, e a indiferença nem sempre é o que parece
por Juvenil Alves
Em poucas palavras: a frase “o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença” é uma intuição poderosa, não uma verdade clínica. Ela acerta ao perceber que o ódio ainda prende o outro à nossa vida psíquica; erra quando transforma a indiferença em prova automática de superação. Neste ensaio uso Freud como espinha dorsal — o amar não tem um único contrário — e Fromm como porta de entrada, para mostrar que existem várias indiferenças: a que pode acompanhar o desinvestimento, a que se defende, a que pune e a que empobrece. O verdadeiro fim de um amor talvez não seja a frieza, mas a liberdade.
Penso numa cena que se repete, com pequenas variações, em muitas separações — e que qualquer um de nós já presenciou, ou protagonizou. Alguém fala de um casamento que terminou e resume o próprio estado de espírito mais ou menos assim: “Olha, eu não odeio mais. Sinceramente, não sinto nada. Nem faço questão de saber se está bem.” E costuma dizer isso com um certo orgulho, como quem exibe um diploma de cura. Quem ouve tende a concordar, aliviado. Mas fica no ar uma dúvida — e é ela o tema deste ensaio: será que “não sentir nada” é mesmo o fim do amor, ou às vezes é o disfarce mais convincente de que ele ainda organiza tudo por dentro?
A frase que aquela pessoa encarnava tem uma versão célebre: o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença. Ela circula em redes sociais, em legendas de fotos, em conselhos de amigos bem-intencionados. E ela é poderosa por uma razão legítima: percebe que o ódio, longe de ser o oposto do amor, ainda concede ao outro uma importância enorme — quem odeia continua vinculado. Mas essa mesma frase se torna enganosa no instante em que transforma a indiferença em prova automática de cura. Porque, como a psicanálise ensina há mais de um século, nem toda indiferença é ausência de amor. Algumas são o amor vestido de armadura.
Quem disse que o contrário do amor é a indiferença?
Convém começar desfazendo uma atribuição equivocada, porque ela é repetida à exaustão: não há base documental confiável para atribuir a frase a Erich Fromm, e a formulação literal não se encontra em A Arte de Amar. O que a conferência localiza é uma ocorrência precoce e literal no psicanalista vienense Wilhelm Stekel: na edição inglesa de The Beloved Ego, de 1921, lê-se que o oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença — e que o oposto do sentimento só pode ser a ausência de sentimento. Isso comprova que a fórmula já circulava no campo psicanalítico naquele momento, embora não baste, por si só, para declarar Stekel o seu inventor absoluto. O que se pode afirmar com segurança é que a formulação não nasceu como conselho amoroso.
Décadas depois, foi Elie Wiesel, sobrevivente do Holocausto, quem tornou a indiferença um dos grandes temas morais do século XX. Seu nome ficou mundialmente associado a essa denúncia, sobretudo no discurso The Perils of Indifference, “Os perigos da indiferença”, pronunciado na Casa Branca em 12 de abril de 1999 — ainda que a fórmula literal sobre o amor costume ser vinculada a declarações anteriores dele, e não àquele discurso. Para Wiesel, de todo modo, a indiferença não era um tema de relacionamentos: era uma questão ética e política. O oposto do amor, no seu vocabulário, era a frieza diante do sofrimento do outro — a neutralidade que permite a barbárie, o dar de ombros diante do vagão que passa. Repare no deslocamento que a cultura fez: uma denúncia moral sobre a nossa responsabilidade diante da dor alheia foi transferida, aos poucos, para o campo dos términos amorosos e das mágoas privadas. O ganho foi a beleza da síntese; o risco foi confundir dois planos que não são o mesmo.
Por que Fromm entra nesta conversa
Se Fromm não escreveu a frase, por que começar por ele? Porque ele explica, melhor do que ninguém, por que o amor não é uma preferência sentimental que se liga e desliga. Em A Arte de Amar, de 1956, Fromm sustenta uma tese que desloca todo o problema: o amor não é primariamente um sentimento que nos acontece, mas uma atividade, uma orientação do caráter. Amar, para ele, se sustenta em quatro pilares — cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento. Não é o arrebatamento de quem “cai” apaixonado; é a capacidade, trabalhosa e madura, de se manter voltado para o bem do outro.
Essa definição tem uma consequência direta para a nossa pergunta. Se o amor é uma capacidade ativa, então o seu contrário não pode ser simplesmente um sentimento oposto, como o ódio. O contrário de uma capacidade é a sua ausência, o seu bloqueio, a sua atrofia. E aqui Fromm faz uma observação que ilumina o ensaio inteiro: quem afirma amar intensamente uma única pessoa e permanece indiferente a todo o resto do mundo, dizia ele, não ama de verdade — vive antes uma forma de apego ou de egoísmo ampliado. Ou seja: para Fromm, a indiferença já era suspeita — mas a indiferença ao mundo, e não a serenidade de quem encerrou um vínculo. Guardo a distinção, porque ela será decisiva.
Freud: o amor não possui um único contrário
Chegamos ao núcleo teórico, e a ele devo a maior parte do que penso sobre o assunto. Num texto de 1915, Pulsões e seus destinos, Freud faz algo que poucos dos que citam a frase da indiferença conhecem: ele observa que o amar pode assumir três relações de oposição — dependendo do eixo em que o observamos.
Explico em prosa, sem o esquematismo árido do original. Num primeiro eixo, o mais óbvio, amar se opõe a odiar: é a polaridade dos afetos, o calor contra a hostilidade. Num segundo eixo, amar se opõe a ser amado — a polaridade da atividade e da passividade, de quem investe e de quem recebe o investimento. E há um terceiro eixo, o mais interessante para nós: quando consideramos a relação entre o eu e o mundo externo, o amor e o ódio, tomados em conjunto, opõem-se a um terceiro termo — a indiferença. É que ambos, à sua maneira, são formas de se importar, de estar ligado ao objeto. Isso não os torna idênticos: Freud atribui a cada um origens distintas e chega a sustentar que o ódio é, na relação do eu com o mundo externo, mais antigo que o amor.
Percebe a sutileza? No plano dos afetos, o contrário do amor é o ódio. Mas no plano da ligação com o mundo, amor e ódio partilham um traço — os dois mantêm o objeto vivo dentro de nós — e o que se opõe a ambos é a retirada, o descolamento, o não investir. É daí que nasce a intuição verdadeira da frase popular: ela percebeu, sem saber, este terceiro eixo freudiano. O ódio ainda é uma forma de importância; a indiferença, nesse sentido preciso, é a sua suspensão.
Mas — e este “mas” é o coração do ensaio — Freud é prudente onde a frase é categórica. Nesse eixo, a indiferença pode representar ausência ou suspensão de investimento no objeto. Mas convém não confundir planos: uma coisa é o não investimento, outra é a retirada de um investimento que existiu, outra ainda é a defesa que se disfarça de frieza, e outra a apatia. Nenhuma delas se deduz da conduta externa de alguém. Que uma pessoa diga que não sente nada não prova que não sinta. A indiferença declarada e a indiferença real podem ser coisas muito diferentes — e distinguir as duas é quase todo o trabalho.
É possível amar e odiar a mesma pessoa?
A resposta da psicanálise é: não só é possível, como é frequente nos vínculos intensos, e tem nome — ambivalência. O termo foi cunhado pelo psiquiatra Eugen Bleuler e incorporado por Freud para descrever a coexistência de tendências afetivas opostas dirigidas ao mesmo objeto: algo que qualquer pessoa honesta reconhece na própria experiência. Amamos e nos irritamos. Idealizamos e responsabilizamos. Desejamos a presença e, no instante seguinte, precisamos de distância.
A presença de sentimentos contraditórios, isoladamente, não autoriza diagnóstico algum — peço que o leitor não se assuste nem se rotule; ela faz parte da complexidade da vida afetiva. A dependência, a frustração inevitável, o ciúme, a perda: tudo isso faz emergir afetos contraditórios num vínculo intenso. A pessoa amada é também, com frequência, a que mais nos fere, justamente porque lhe demos o poder de nos ferir. Amar é ter baixado a guarda diante de alguém — e essa mesma vulnerabilidade é o que torna possível o rancor. Não existe amor adulto que não conheça, em algum momento, o seu avesso.
O ódio ainda mantém um vínculo?
Sim — e esta é uma das intuições mais valiosas por trás da frase popular. Quem odeia continua investindo energia no outro. Continua pensando nele, remoendo, ensaiando conversas que não terá, medindo o que diria se o encontrasse. O ódio ocupa a casa inteira. Nesse sentido preciso, o ódio ainda é um vínculo — pode manter o objeto intensamente presente na vida psíquica. Isso não o transforma em amor: revela apenas que a relação ainda conserva força organizadora.
Mas aqui preciso fazer a ressalva que separa a psicanálise séria da frase de rede social, e peço ao leitor que a guarde com cuidado: vínculo não é sinônimo de amor. Que o ódio prenda não significa que o ódio ame. É perfeitamente possível permanecer fixado, dependente, obcecado por alguém sem que sobre nada do cuidado, do respeito ou do desejo de bem que definiam o amor em Fromm. Por isso eu jamais escreveria a frase perigosa que anda por aí — “quem odeia ainda ama”. Não. Quem odeia ainda se importa, ainda está preso, ainda não se soltou. Isso é muito diferente de amar. Confundir as duas coisas é o tipo de romantismo que mantém gente presa a relações que já deviam ter terminado, esperando que a raiva do outro seja amor disfarçado. Não é. Costuma ser só a dificuldade de ambos em desinvestir.
Luto: o que significa “desinvestir”
Para entender o que precisa acontecer no fim de um amor, Freud nos deixou um texto insubstituível: Luto e melancolia, de 1917. A lição central é que a separação externa não coincide com o término psíquico. O casamento acaba no papel, a pessoa muda de cidade, os contatos cessam — e, no entanto, por dentro, o objeto continua ocupando o centro. O fim jurídico ou social de uma relação é uma data; o fim psíquico é um processo, e costuma ser bem mais lento.
Esse processo é o que Freud descreve, num modelo metapsicológico clássico, como trabalho de luto: reconhecer a perda e retirar aos poucos a energia psíquica que mantinha o outro no comando da nossa vida interior. Digo modelo, e não cronologia obrigatória, porque cada luto tem o seu ritmo, e a elaboração pode transformar a relação com a memória sem apagar todo afeto. É um trabalho — palavra exata — porque custa, dói e leva tempo. E aqui está o ponto que a frase popular não alcança: o resultado de um luto bem elaborado não precisa ser a indiferença glacial. Pode ser serenidade. Pode ser memória sem ferida. Pode ser até gratidão, e a capacidade de recordar sem a compulsão de voltar. Desinvestir não é apagar. É deixar de ser governado.
As várias indiferenças
Chego à seção que considero a mais importante deste ensaio, porque é onde a frase simples se desdobra na sua verdadeira complexidade. Para fins deste ensaio — e não como classificação clínica fechada —, proponho distinguir quatro situações diferentes que, na linguagem cotidiana, recebem o mesmo nome de indiferença. Apresento-as como leituras possíveis, jamais como diagnósticos de ninguém.
Há a indiferença real: aquela em que o outro, de fato, perdeu centralidade. Não mobiliza mais desejo intenso, nem raiva, nem vigilância. A pessoa pensa no ex de vez em quando, sem que isso lhe custe nada, como pensa numa cidade onde já morou. Esta é a indiferença que a frase celebra — e ela existe, é o desfecho tranquilo de muitos lutos bem-feitos.
Há a indiferença defensiva: a frieza que protege contra uma dor ainda muito viva. Aqui, o “não sinto nada” pode ser uma parede erguida às pressas, precisamente porque atrás dela há sentimento demais. Às vezes é a pessoa que precisa repetir que superou — e a insistência, em certos casos, merece ser interrogada, ainda que também se possa falar de um término por hábito, por pressão social ou por simples contexto. Quem está de fato indiferente raramente precisa anunciá-lo.
Há a indiferença performática ou punitiva: o silêncio e o desprezo usados como mensagem. Deixar de responder para que o outro perceba. Exibir frieza para provocar efeito. E note o paradoxo: quem age assim ainda está endereçado ao outro — toda a encenação existe para ele, depende do olhar dele. Não há indiferença mais investida do que a que precisa ser vista. É uma conduta ainda dirigida ao outro e, por isso mesmo, o oposto da ausência de investimento — seja o que a alimente: raiva, ressentimento, desejo de controle, defesa ou medo.
E há, por fim, a indiferença como empobrecimento afetivo: aquela em que o não sentir não é liberdade nem defesa, mas um apagamento mais amplo — ligado a apatia, a retraimento, a estados que ultrapassam em muito o fim de uma relação e que um ensaio jamais deveria diagnosticar. Menciono-a apenas para não confundir a serenidade de quem elaborou com o adormecimento de quem, por sofrimento, deixou de conseguir investir em qualquer coisa. São opostos que se parecem por fora.
Klein, Winnicott, Lacan, Green: quatro luzes rápidas
Não vou submeter o leitor a um desfile de escolas, mas quatro autores acrescentam, cada um, uma frase que vale a pena.
Melanie Klein mostrou que amadurecer psiquicamente envolve integrar, numa só pessoa, o objeto que amamos e o que odiamos — parar de cindir o mundo entre gente inteiramente boa e inteiramente má. Formulações que pintam o ex como “um monstro completo” ou como “o amor da vida que se jogou fora” podem ser lidas, em chave kleiniana, como dificuldade de integrar as qualidades amadas e odiadas no mesmo objeto. Ver o outro em cinza, com virtudes e faltas, sem idealização nem demonização, já é um trabalho de luto adiantado.
Winnicott oferece uma analogia preciosa: autonomia não é indiferença. A capacidade de estar só, que ele tanto estudou, constitui-se na presença internalizada de um ambiente suficientemente confiável — e não significa deixar de precisar de vínculos, mas ter guardado o outro de maneira segura o bastante para que a ausência não vire colapso. Ficar bem sozinho depois de um amor não é, por si, ter ficado frio.
Lacan cunhou um neologismo que condensa o que dissemos sobre ambivalência: hainamoration, formado a partir de haine, ódio, e énamoration, enamoramento; em português, aparece com frequência como “amódio”. O termo aponta para a imbricação entre o enamoramento e o ódio: em certos laços intensos, os dois se enredam, como fios trançados no mesmo tecido.
E a partir do trabalho de André Green sobre o negativo e a função desobjetalizante, podemos distinguir duas coisas que se confundem: uma é elaborar um vínculo perdido; outra, muito diferente, é atacar a própria capacidade de se ligar a qualquer coisa — como se, para não sofrer de novo, a pessoa desligasse a tomada do desejo. A primeira é saúde. A segunda é um empobrecimento radical da capacidade de investir. Nem toda frieza pós-separação é uma; algumas são a outra. E só o tempo, e às vezes uma boa escuta, distinguem.
O amor e a indiferença nas redes sociais
Trago a questão para onde ela hoje mais aparece. Bloquear e desbloquear. Vigiar o perfil às escondidas. Publicar a indireta calculada. Medir curtidas, interpretar visualizações, encenar uma ausência que é, na verdade, um recado. As redes sociais deram à velha dança do amor e do ódio um palco novo — e criaram um problema que já explorei no ensaio sobre Lacan e o desejo: elas mantêm o objeto continuamente visível, o que, é razoável supor, pode dificultar o desinvestimento. Como fazer o luto de alguém que continua aparecendo no seu feed?
Mas o critério, aqui, precisa de sobriedade — e recuso os diagnósticos fáceis. Um bloqueio não tem significado universal. Pode ser proteção legítima de quem precisa parar de se ferir. Pode ser limite necessário. Pode ser punição endereçada. Pode ser a muleta de quem tenta não recair. O gesto isolado não revela nada; o que importa é outra coisa, invisível na tela: quanta energia psíquica continua organizada em torno daquela pessoa. Vigiar o perfil do ex todo dia com o coração disparado revela que o vínculo ainda mobiliza; bloquear pode ser sinal da mesma mobilização — ou, ao contrário, o limite necessário para que a elaboração avance. E deixar de checar porque perdeu a graça pode ser o sinal mais silencioso de liberdade. A rede mostra o gesto; o investimento fica por baixo, invisível na tela.
O verdadeiro fim do amor: indiferença ou liberdade?
Volto, na conclusão, àquela cena da pessoa que anuncia com orgulho não sentir mais nada. O que se poderia responder a ela é a distinção que este ensaio inteiro tentou construir: tudo depende do que esse “nada” significa. Se for a serenidade de quem elaborou, de quem pode lembrar sem doer e reconhecer o que houve de bom sem querer de volta — então sim, chegou ao fim, e é um belo fim. Mas se for uma parede, uma performance, um “não quero saber” que precisa ser repetido para se sustentar — então o vínculo talvez ainda não tenha sido elaborado. O amor pode ter acabado, e mesmo assim a ferida, a raiva ou a necessidade de resposta continuarem organizando a vida psíquica.
Por isso eu diria que a frase popular está meio certa, que é o pior lugar para uma frase estar. A indiferença pode ser o contrário do amor, sim — no sentido preciso de que o objeto perdeu importância psíquica. Mas ela não é, por si só, sinal de saúde, de superação ou de maturidade. Frieza não é prova de nada. O fim psíquico de um amor não acontece quando o outro deixa de existir para nós, mas quando ele deixa de comandar o nosso desejo, a nossa raiva e a nossa repetição. O ódio ainda prende; a indiferença às vezes esconde; só a elaboração liberta.
E talvez seja essa a correção que faltava à frase célebre. O fim de um amor não se prova pela frieza que exibimos, e sim pela liberdade de seguir vivendo sem precisar apagá-lo. Amar bem, no fundo, inclui saber terminar bem: lembrar sem obedecer, reconhecer sem retornar, desejar de novo sem repetir.
Pontos principais
- A tese de Juvenil Alves neste ensaio: o fim psíquico de um amor não acontece quando o outro deixa de existir para nós, mas quando deixa de comandar o nosso desejo, a nossa raiva e a nossa repetição — o ódio ainda prende, a indiferença às vezes esconde, só a elaboração liberta.
- A frase “o contrário do amor é a indiferença” não é de Erich Fromm; foi consagrada por Elie Wiesel em sentido moral e político (sobre a indiferença diante do sofrimento), não como conselho amoroso.
- Freud mostra que o amar assume três relações de oposição: a odiar, a ser amado e — no eixo da ligação com o mundo — à indiferença, pois amor e ódio, embora de origens distintas, são ambos formas de se importar.
- Amar e odiar a mesma pessoa é a regra, não a exceção: chama-se ambivalência, e não é patologia. Mas “o ódio ainda é um vínculo” não significa “quem odeia ainda ama” — vínculo não é amor.
- Existem várias indiferenças: a real (liberdade), a defensiva (dor ainda viva), a performática/punitiva (ainda endereçada ao outro) e a do empobrecimento afetivo — e elas se parecem por fora.
Perguntas frequentes
Quem criou a frase “o contrário do amor é a indiferença”? A ocorrência literal mais precoce que se documenta está em The Beloved Ego, de Wilhelm Stekel (edição inglesa de 1921), onde se lê que o oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença. Isso não prova que Stekel a tenha concebido primeiro, mas mostra que já circulava no meio psicanalítico. Elie Wiesel, décadas depois, associou seu nome à denúncia moral e política da indiferença.
Erich Fromm escreveu essa frase? Não há base documental confiável para atribuí-la a Fromm, e a formulação literal não foi localizada em A Arte de Amar. Fromm escreveu sobre o amor como atividade e orientação do caráter, o que se aproxima do espírito da frase — mas o aforismo não é dele.
O que Freud diz sobre amor e ódio? Em “Pulsões e seus destinos” (1915), Freud apresenta três relações de oposição do amar: a odiar (afetos), a ser amado (atividade e passividade) e — tomando amor e ódio em conjunto — à indiferença (relação do eu com o mundo). Ele atribui a amor e ódio origens distintas, e chega a considerar o ódio mais antigo nessa relação com o mundo externo.
Quem odeia ainda ama? Não necessariamente. Quem odeia ainda está vinculado e investe energia no outro — mas vínculo não é amor. É possível permanecer fixado ou obcecado sem qualquer cuidado, respeito ou desejo de bem, que são o que caracteriza o amor.
É possível amar e odiar ao mesmo tempo? Sim. Chama-se ambivalência e é frequente nas relações intensas: a coexistência de tendências afetivas opostas dirigidas ao mesmo objeto. A mesma pessoa pode ser amada e responsabilizada, desejada e rejeitada. A presença desses sentimentos, isoladamente, não autoriza diagnóstico — faz parte da complexidade da vida afetiva.
A indiferença significa que a pessoa superou o término? Nem sempre. A indiferença pode ser real (o outro perdeu importância), mas também pode ser uma defesa contra a dor, uma punição endereçada ao outro ou um empobrecimento afetivo mais amplo. A frieza declarada não prova superação.
Fingir indiferença revela sentimento? Frequentemente, sim. A indiferença que precisa ser exibida — pelo silêncio ostensivo, pela frieza demonstrada — ainda está endereçada ao outro e depende dele. Quem está verdadeiramente indiferente raramente precisa anunciar.
Bloquear alguém é indiferença ou proteção? Pode ser as duas coisas, ou nenhuma. Um bloqueio pode ser limite legítimo, proteção contra a recaída, punição ou tentativa de não vigiar. O gesto isolado não tem significado universal; o que importa é quanta energia psíquica ainda gira em torno da pessoa.
O que é desinvestimento libidinal? É a retirada gradual da energia psíquica que mantinha alguém no centro da nossa vida interior — o cerne do trabalho de luto descrito por Freud. Desinvestir não é apagar o outro nem odiá-lo: é deixar de ser governado por ele.
Qual é o sinal de que um vínculo foi elaborado? Não é a frieza, e sim a liberdade: poder lembrar sem sofrer, reconhecer o que houve de bom sem querer de volta, e seguir a vida sem que o outro comande o desejo, a raiva ou a repetição.
Este ensaio oferece uma leitura psicanalítica e reflexiva; não é diagnóstico nem substitui acompanhamento psicológico. Se o luto de uma relação se tornou sofrimento persistente, procurar uma escuta profissional é um gesto de cuidado. Leia outros ensaios sobre desejo, vínculo e vida contemporânea na seção Humanidades do Blog Juvenil Alves.
Referências essenciais: STEKEL, Wilhelm. The Beloved Ego: Foundations of the New Study of the Psyche. Trad. Rosalie Gabler. London: Kegan Paul, 1921. FREUD, Sigmund. Pulsões e seus destinos (1915); Luto e melancolia (1917). FROMM, Erich. A Arte de Amar (1956). KLEIN, Melanie. Amor, culpa e reparação; Inveja e gratidão. WINNICOTT, D. W. A capacidade para estar só (1958); O uso de um objeto (1969). LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 20: Mais, ainda. GREEN, André. A mãe morta, in Narcisismo de vida, narcisismo de morte. WIESEL, Elie. The Perils of Indifference (Washington, 1999).
Juvenil Alves Ferreira Filho Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista · Escritor
Humanidades · Belo Horizonte, agosto de 2026 · juvenilalves.com.br