Por que colecionamos? O que os objetos que guardamos dizem sobre quem somos

Coleção de pequenos objetos coloridos organizados em prateleira luz suave sem texto colecionismo identidade Juvenil Alves.
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O Apego Humano · Post 4 de 6 · Série: O Apego Humano

O colecionismo não é acumulação. É autobiografia em três dimensões. O que você guarda conta quem você foi, quem você é e quem ainda pretende ser

por Juvenil Alves

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Em poucas palavras: colecionar não é guardar coisas. É construir uma narrativa de identidade com objetos como capítulos. O filósofo Jean Baudrillard descreveu o colecionismo como a única prática em que o homem exerce soberania sobre o tempo — porque a coleção tem um passado (o que já tenho), um presente (o que procuro agora) e um futuro (o que ainda não tenho). Neste quarto texto da série O Apego Humano, Juvenil Alves explora por que o colecionismo atravessa gerações, classes e culturas — e o que os objetos que acumulamos revelam sobre a história que contamos para nós mesmos.

Meu pai guardava moedas.

Não era um colecionador no sentido técnico — não consultava catálogos, não frequentava feiras numismáticas, não tinha lupa nem caixas especializadas. Mas havia, na gaveta da mesa do escritório, um envelope pardo que continha moedas de países que ele nunca visitou, algumas com caras de reis que nunca existiram para ele exceto naquele metal.

Quando morreu, aquele envelope passou para mim. Não sabia o que fazer com ele. Mas não consegui descartá-lo.

Levei anos para entender por quê. O envelope não era uma coleção de moedas. Era uma coleção de histórias que meu pai nunca me contou sobre si mesmo. Cada moeda era um capítulo de uma autobiografia que ele nunca escreveu.

Guardar objetos é uma forma de escrever.

O que Baudrillard viu nas coisas

Jean Baudrillard, filósofo francês, publicou em 1968 O Sistema dos Objetos — sua tese de doutorado orientada por Henri Lefebvre. É um livro sobre o consumo, sobre os objetos e sobre o que eles fazem com as pessoas que os possuem.

Num capítulo que permaneceu como referência no debate sobre colecionismo, Baudrillard propôs uma distinção que ainda não foi superada: os objetos têm duas dimensões. A primeira é funcional — um martelo serve para pregar, uma faca serve para cortar. A segunda é passional — os objetos podem ser desviados de sua função e tornar-se suporte de afeto, de memória, de identidade.

A coleção, para Baudrillard, é o território onde o objeto perde inteiramente sua função e assume inteiramente seu valor de signo. Uma moeda que não circula, um Labubu que não é brinquedo, um selo que nunca foi colado num envelope — todos são objetos que escaparam da função e se tornaram outra coisa.

O que se torna?

Baudrillard responde com precisão: torna-se espelho. O colecionador não coleciona objetos. Coleciona a si mesmo por meio dos objetos. Cada peça da coleção é uma frase da autobiografia que ele escreve sem perceber.

A soberania sobre o tempo

Há uma observação de Baudrillard que me parece a mais importante de todo o capítulo sobre colecionismo.

Ele escreve que o colecionismo é a única prática em que o homem exerce soberania sobre o tempo.

Explico.

O tempo humano é marcado pela perda. O passado foi e não volta. O futuro ainda não é e pode não vir. O presente escorrega entre os dedos no instante em que é percebido. Viver é, em boa parte, aprender a suportar a impermanência.

A coleção oferece uma solução simbólica para esse problema.

Numa coleção, o passado está presente: é o que já tenho. O presente é ativo: é o que procuro agora. O futuro é concreto e antecipável: é o que ainda não tenho mas sei que existe. O tempo deixa de ser uma corrente que escoa e se torna uma estrutura que posso habitar.

A coleção incompleta é essencial para isso. Uma coleção completa é um museu. Uma coleção incompleta é uma vida com direção.

Isso explica por que colecionadores raramente são pessoas satisfeitas com o que já têm. A satisfação cancelaria o projeto. O que mantém o colecionador vivo — no sentido psíquico do termo — é a falta que ainda existe, o capítulo que ainda não foi escrito.

Dos selos do avô ao Labubu da neta

Há uma continuidade geracional no colecionismo que nem sempre é percebida porque os objetos mudam enquanto a estrutura permanece.

O avô colecionava selos. A mãe colecionava discos. O pai colecionou fitas VHS e depois DVDs. O filho coleciona cards de personagens. A neta coleciona Labubus.

Os objetos são completamente diferentes. A prática é idêntica.

Em todos esses casos: um objeto que pode ser singular ou comum, raro ou abundante. Um sistema de classificação que o colecionador desenvolve e domina. Uma comunidade de pessoas que compartilha o interesse e os critérios de valor. Uma narrativa de busca com passado, presente e futuro.

O que muda de geração para geração não é o impulso de colecionar — é o objeto que melhor captura, para aquela geração, a tensão entre o pertencimento e a singularidade.

Os selos conectavam o avô ao mundo em expansão, às potências coloniais, à vastidão do que existia além da cidade onde vivia. Os Labubus conectam a neta a uma comunidade global de pessoas que partilham um código estético e um modo de habitar o afeto.

O impulso é o mesmo. A linguagem mudou.

A coleção como mapa de identidade

Susan Pearce, museóloga britânica, passou décadas estudando por que as pessoas colecionam. Em Collecting in Contemporary Practice (1998), ela descreve o colecionismo como uma das principais práticas humanas de construção de identidade — ao lado da narrativa verbal, do vestuário e da escolha de relacionamentos.

Pearce identificou três modos de colecionismo que correspondiam a três relações diferentes com a identidade.

O primeiro modo é o souvenir: o objeto que marca uma experiência pessoal. A pedra trazida da praia, o programa do concerto, o Labubu comprado em Xangai. Esses objetos são memórias externalizadas — eles guardam o que a memória pode perder.

O segundo modo é o fetiche: o objeto que encarna um valor ou uma qualidade que o colecionador admira ou deseja ter. O colecionador de livros raros que nunca os lê. O colecionador de arte que não sabe bem explicar por que aquela peça específica. O objeto não é admirado pelo que faz — é admirado pelo que representa.

O terceiro modo é o sistemático: a coleção como projeto de conhecimento e domínio. O filatelista que estuda a história de cada emissão. O numismata que conhece a genealogia de cada moeda. A colecionadora de Labubus que acompanha cada lançamento da Pop Mart e conhece de memória as raridades do mercado secundário.

Na prática, a maioria das coleções combina os três modos. Mas um deles tende a dominar — e identificá-lo é identificar algo sobre quem coleciona.

O que você guarda revela o que você precisa

Há uma leitura psicanalítica do colecionismo que não pode ser ignorada nesta série.

Freud associou o impulso de colecionar ao prazer anal — a retenção, a acumulação, o controle. É uma leitura que envelheceu mal nos seus termos clínicos, mas que preserva algo verdadeiro: o colecionismo é uma forma de exercer controle num mundo em que o controle é limitado.

Mas há uma leitura mais contemporânea e mais fina, proposta por Werner Muensterberger em Collecting: An Unruly Passion (1994), psicanalista que tratou colecionadores por décadas. Muensterberger propõe que o impulso de colecionar emerge, frequentemente, em momentos de vulnerabilidade emocional — perdas, transições, instabilidades. O objeto que se acumula oferece a sensação de recuperar algo que foi perdido ou de preencher algo que faltou.

Não é acumulação por acumulação. É uma resposta ao vazio.

Isso não significa que todo colecionador está traumatizado — significa que toda coleção guarda, entre os objetos, a história das necessidades de quem a formou.

O envelope de moedas do meu pai guardava algo que nunca saberei identificar com precisão. Mas sei que ele nunca me mostrou aquelas moedas enquanto viveu. Guardava para si a história que elas contavam.

Depois que ele foi, passou para mim sem legenda.

O Labubu como autobiografia portátil

Voltemos ao Labubu, mas agora com os olhos do colecionismo como narrativa de identidade.

Quem pendura um Labubu na bolsa está sinalizando pertencimento a uma comunidade que reconhece aquele código. Está dizendo algo sobre si mesmo sem usar palavras. Está exercendo a singularidade dentro do pertencimento — porque cada Labubu tem suas especificidades, e a escolha de qual personagem exibir é uma escolha de autorrepresentação.

É o mesmo gesto do jovem que usava um botton de banda no colete. Do executivo que usa um relógio específico. Da professora que expõe um determinado objeto na mesa do escritório. Todos estão colecionando — e exibindo fragmentos da coleção como fragmentos de identidade.

A diferença do Labubu é que ele comprime essa sinalização num objeto pequeno o suficiente para ir a qualquer lugar. É uma autobiografia portátil. Um capítulo de identidade no formato de chaveiro.

O que a coleção incompleta nos ensina

Termino com uma observação que parece paradoxal e talvez não seja.

O colecionador mais saudável, psiquicamente, não é o que completou a coleção. É o que sabe conviver com a incompletude sem ser consumido por ela.

A coleção completa é um arquivo. A coleção incompleta é um projeto. E projetos mantêm as pessoas vivas — no sentido em que Winnicott descreveria: em contato com o desejo, com a antecipação, com o espaço potencial onde o futuro ainda não chegou mas já pode ser imaginado.

O envelope de moedas do meu pai nunca foi completado. Nenhum critério claro o governava. Não havia um sistema que definisse o que incluir e o que excluir. Era uma coleção que não sabia que era uma coleção.

Talvez por isso tenha sobrevivido a ele.

No próximo texto desta série: o apego a figuras não humanas na era do isolamento afetivo — o que o pet de apartamento, o bebê reborn e o Labubu têm em comum, e o que essa proliferação de objetos de afeto diz sobre o vínculo humano em 2026.

Pontos principais

  • A tese de Juvenil Alves neste ensaio: colecionar não é guardar coisas — é construir uma autobiografia em três dimensões. O colecionismo é a única prática em que o ser humano exerce soberania sobre o tempo: o passado está presente na coleção, o presente é ativo na busca, o futuro é concreto no que ainda falta.
  • Baudrillard descreveu a coleção como o território onde o objeto perde sua função e assume seu valor de signo. O colecionador não coleciona objetos — coleciona a si mesmo por meio dos objetos. Cada peça é uma frase da autobiografia que ele escreve sem perceber.
  • O colecionismo atravessa gerações com a mesma estrutura e objetos diferentes. Dos selos do avô ao Labubu da neta, o impulso é idêntico: um objeto que captura a tensão entre pertencimento e singularidade, numa narrativa com passado, presente e futuro.
  • Susan Pearce identificou três modos de colecionismo: o souvenir (memória externalizada), o fetiche (valor ou qualidade admirada) e o sistemático (projeto de conhecimento e domínio). A maioria das coleções combina os três — e identificar qual domina revela algo sobre quem coleciona.
  • A coleção incompleta é essencial para a saúde psíquica do colecionador. Uma coleção completa é um arquivo. Uma coleção incompleta é um projeto — e projetos mantêm as pessoas em contato com o desejo, com a antecipação, com o futuro que ainda pode ser imaginado.

Perguntas frequentes

Por que as pessoas colecionam? O colecionismo é uma das principais práticas humanas de construção de identidade. Susan Pearce identificou três motivações centrais: guardar memórias (souvenir), encarnar valores admirados (fetiche) e exercer domínio sobre um campo de conhecimento (sistemático). Mas há uma dimensão mais fundamental: a coleção oferece soberania sobre o tempo, convertendo a impermanência em estrutura habitável com passado, presente e futuro.

O que Baudrillard disse sobre colecionismo? Em O Sistema dos Objetos (1968), Baudrillard descreveu a coleção como o território onde o objeto perde sua função e assume seu valor de signo. O colecionador não coleciona objetos — coleciona a si mesmo por meio dos objetos. Cada peça é uma frase da autobiografia que ele escreve sem perceber. A coleção é espelho.

Por que a coleção incompleta é importante? Porque uma coleção completa é um arquivo. Uma coleção incompleta é um projeto — e projetos mantêm as pessoas em contato com o desejo, com a antecipação, com o espaço onde o futuro ainda pode ser imaginado. O que mantém o colecionador vivo, psiquicamente, é a falta que ainda existe, o capítulo que ainda não foi escrito.

Colecionismo tem relação com traumas ou perdas? O psicanalista Werner Muensterberger, em Collecting: An Unruly Passion (1994), observou que o impulso de colecionar emerge frequentemente em momentos de vulnerabilidade emocional — perdas, transições, instabilidades. O objeto acumulado oferece a sensação de recuperar algo perdido ou preencher algo que faltou. Isso não significa que todo colecionador está traumatizado — significa que toda coleção guarda, entre os objetos, a história das necessidades de quem a formou.

O Labubu é um objeto de colecionismo? Sim, no sentido pleno do termo. Ele combina os três modos de Pearce: é souvenir (memória de uma compra, de uma época, de uma experiência), é fetiche (encarna valores estéticos e culturais que o colecionador admira) e é sistemático (colecionadores acompanham lançamentos, raridades e o mercado secundário com precisão). É também autobiografia portátil: a escolha de qual personagem exibir é uma escolha de autorrepresentação.

Por que o colecionismo atravessa gerações? Porque a estrutura é sempre a mesma — objeto singular ou raro, sistema de classificação, comunidade de interesse, narrativa de busca — e o que muda é o objeto que melhor captura, para cada geração, a tensão entre pertencimento e singularidade. Dos selos do avô ao Labubu da neta, o impulso é idêntico. A linguagem mudou.

O que vem no próximo post desta série? No próximo texto de O Apego Humano, Juvenil Alves explora o apego a figuras não humanas na era do isolamento afetivo: o que o pet de apartamento, o bebê reborn e o Labubu têm em comum, e o que essa proliferação de objetos de afeto diz sobre o vínculo humano em 2026.


Humanidades e Lideranças · Belo Horizonte, outubro de 2026 · juvenilalves.com.br

Quem escreve

Juvenil Alves - jurista, teólogo, filósofo, psicanalista e escritor.

Nasceu em Abaeté, no interior de Minas Gerais. É filho de Juvenil Alves, alfaiate, e de Isabel Amélia, servente escolar. Foi nesse ambiente simples que aprendeu, desde cedo, o valor do trabalho, da disciplina, da educação e da responsabilidade.

Sua formação intelectual começou pela Filosofia  e pela Teologia e, mais tarde, encontrou no Direito o espaço emq ue essas reflexões passaram a dialogar diariamente com a vida concreta das pessoas, das empresas e das instituições. Desde então, nunca deixou de percorrer esse cruzamento.

Ao longo de mais de quatro décadas de atuação profissional, construiu uma carreira dedicada ao Direito Tributário e Empresarial, assessorando empresas, famílias e organizações em questões de alta complexidade. Paralelamente, manteve um estudo permanente das Humanidades, formando uma biblioteca construída ao longo de quase cinquenta anos de leituras, pesquisas e anotações.

Neste blog, reúne essas duas experiências. Escreve sobre Direito Tributário, Direito Empresarial, Reforma  Tributária, Filosofia do Direito, Filosofia, Teologia, Psicanálise, Liderança, Ética, Humanidades e Neurodiversidade. Não para oferecer respostas prontas, mas para investigar as ideias, os príncipios e os fundamentos que orientam as decisões humanas.

Os ensaios publicados aqui dialogam com autores clássicos e contemporâneos e procuram aproximar o pensamento filosófico da realidade jurídica, empresarial e social. Muitos deles integram projetos editoriais em desenvolvimento e servirão de base para futuras obras.

Este espaço nasceu da convicção de que a técnica, quando separada das Humanidades, empobrece o pensamento; e de que a Filosofia, a Teologia, a Psicanálise e o Direito continuam oferecendo instrumentos indispensáveis para compreender o ser humano, as instiuições e os desafios do nosso tempo.

Sem fórmulas. Sem juridiquês.

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