O homem que se fecha na pura imanência não escapa de si — condena-se a produzir-se sem descanso. Entre a razão que se abriu ao Logos e a sociedade do cansaço, um diálogo que ninguém marcou e a história realizou
por Juvenil Alves
Em poucas palavras: neste ensaio o leitor vai encontrar o núcleo do pensamento de Joseph Ratzinger sobre o Logos — a razão criadora e relacional que funda o real —; a sua crítica à razão que se autolimitou ao mensurável e à “ditadura do relativismo”; e o encontro inesperado com Byung-Chul Han, o filósofo coreano-alemão da sociedade do cansaço: o esgotamento psíquico, a autoexploração e as bolhas digitais como o cenário histórico em que a advertência ratzingeriana ganha extraordinária força explicativa — sem um sentido recebido, existir vira produção ininterrupta de si.
Hoje eu quero conversar com o nosso leitor a partir de uma provocação que me chegou, em síntese, de um teólogo amigo, leitor desta casa: e então, Juvenil Alves, o senhor que escreveu sobre a Infância de Jesus de Ratzinger — quando vai enfrentar o Ratzinger filósofo, o do Logos e da razão? Aceito a provocação, e aceito-a dobrada: não vou apenas expor o pensamento do teólogo que se tornou Bento XVI; vou testá-lo contra o diagnóstico mais agudo que a filosofia contemporânea produziu sobre o nosso esgotamento — o de Byung-Chul Han. E adianto a tese, porque o leitor desta casa sabe que não escondo o jogo: Byung-Chul Han não prova a metafísica de Ratzinger. Faz algo talvez mais interessante para um ensaio: descreve uma sociedade na qual a advertência ratzingeriana sobre o eu fechado em si adquire extraordinária força explicativa. A sociedade do cansaço não é a demonstração do Logos; é o cenário histórico em que a ausência de um sentido recebido se torna o trabalho exaustivo de fabricar-se sem descanso.
Antes de avançarmos, vale compreender o que Ratzinger entende por Logos
A palavra é grega e o leitor a conhece do prólogo de João: no princípio era o Logos — o Verbo, a Palavra, a Razão. Mas convém precisar, porque tudo se decide aqui. Na Introdução ao Cristianismo, de 1968 — o livro que fez do jovem professor de Tubinga uma referência —, Ratzinger sustenta que a opção cristã fundamental é a escolha do primado do Logos sobre a mera matéria e sobre o mero acaso: crer significa afirmar que na origem de tudo não está o irracional que casualmente produz sentido, mas o Sentido que livremente cria — uma Razão que não é cálculo frio, e sim razão criadora e amante, pensamento que é, ao mesmo tempo, relação. Por isso, para Ratzinger, o Deus cristão não se reduz ao motor imóvel da metafísica aristotélica nem ao arbítrio puro dos voluntarismos: é Logos — e um Logos que é diálogo, porque é trinitário. Daqui decorre a antropologia inteira: se a origem é razão relacional, o homem — criado por essa razão e para essa relação — só se entende de fora de si: é estrutura de abertura, ser-de-relação, criatura cuja verdade não se fabrica, recebe-se e responde-se. A fórmula com que sintetizo essa antropologia — síntese minha do conjunto, não transcrição — é simples de enunciar e abissal de pensar: o homem não se possui senão recebendo-se.
Armemos o silogismo ratzingeriano, no gosto desta casa. Premissa maior: se o fundamento do real é o Logos criador e relacional, então a razão humana é participação — feita para conhecer a verdade e para a relação que a excede. Premissa menor: uma razão que se autolimita ao mensurável e se fecha à transcendência amputa a própria abertura constitutiva. Conclusão: o homem da imanência pura não fica livre de Deus — fica prisioneiro de si, condenado a extrair de si mesmo o sentido, o valor e a justificação que nenhum eu finito consegue produzir. Registro, por honestidade de método, o estatuto do argumento: a premissa maior é metafísica — para o leitor que não a partilha, o encadeamento vale como hipótese hermenêutica, não como demonstração; e é exatamente como chave de leitura que o poremos à prova. Guarde o leitor a conclusão, porque é dela que Han oferece o cenário.
Talvez você esteja se perguntando onde entra a famosa “ditadura do relativismo”
Convém explicar, porque a expressão foi mais citada do que compreendida. Na homilia de 18 de abril de 2005 — véspera do conclave que o elegeria —, o cardeal Ratzinger descreveu o caminhar rumo a uma “ditadura do relativismo, que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades”. Repare o leitor: a frase não é uma queixa moralista contra a diversidade de opiniões; é um diagnóstico lógico. Onde a verdade é declarada inacessível, não nasce a tolerância — nasce um novo absoluto, o eu; e o eu absoluto, longe de libertar, tiraniza, porque tudo passa a depender da sua produção incessante de si. E em Regensburg, no discurso de 12 de setembro de 2006 — lembrado pela polêmica errada e esquecido pela tese certa —, Bento XVI completou o quadro pelo outro lado: criticou a autolimitação moderna da razão, que reduziu a racionalidade ao único modelo empírico-matemático e expulsou da universidade as perguntas pelo sentido, pelo bem e por Deus. O resultado é uma razão amputada convivendo com religiosidades irracionais — e um homem que, tendo encolhido a razão ao mensurável, precisa buscar no próprio desempenho mensurável a resposta às perguntas que proibiu a si mesmo de fazer.
Eis o aprisionamento na imanência: não uma cela imposta de fora, mas um horizonte que se fechou por dentro. O homem pós-metafísico não deixou de ter as necessidades que a transcendência respondia — sentido, justificação, reconhecimento, perdão; apenas transferiu para si mesmo, e para os seus artefatos, a obrigação de as satisfazer. É aqui que a história marcou o encontro que ninguém agendou.
É aqui que o caso se torna mais interessante: entra Byung-Chul Han
O filósofo sul-coreano radicado em Berlim, que lecionou filosofia e estudos culturais na Universidade das Artes de Berlim, tornou-se a voz mais lida do diagnóstico contemporâneo com uma trilogia de pequenos livros de lâmina: Sociedade do Cansaço (2010), Sociedade da Transparência (2012), Psicopolítica (2014) — e, adiante, No Enxame e A Expulsão do Outro. A sua tese central: passamos da sociedade disciplinar, que dizia “você deve”, à sociedade do desempenho, que sussurra “você pode”. O sujeito contemporâneo não é mais oprimido por um senhor externo: tornou-se empresário de si mesmo, explorador e explorado na mesma pele — e a autoexploração, nota Han, é mais eficiente que qualquer chicote, porque se traveste de liberdade. Os adoecimentos da época — depressão, burnout, o esgotamento que dá título ao livro — não são, para ele, patologias da repressão, como no século de Freud: são patologias do excesso de positividade — categorias que Han maneja como crítica filosófico-social, não como clínica médica —, o colapso de um eu obrigado a produzir-se, exibir-se, otimizar-se e superar-se sem nada que o descanse. E o algoritmo — a imagem do carcereiro é minha, não dele — governa essa prisão pela sedução: é o que Psicopolítica descreve como o poder que já não precisa proibir; No Enxame mostra a comunicação digital sem rosto; e as bolhas autorreferenciais consumam o que A Expulsão do Outro nomeia — e, sem o outro, não há quem me receba, me contradiga, me perdoe ou me dê o que não posso dar-me.
A esta altura, você poderia me indagar: mas Han é um pensador pós-metafísico, sem o Deus de Ratzinger — que direito temos de casá-los? O direito que a lógica dá. Ponha as duas peças lado a lado e veja o encaixe. Ratzinger, especulativamente: o eu que se fecha à transcendência terá de extrair de si o que só a relação dá — e desabará sob o peso. Han, descritivamente: o eu contemporâneo, senhor absoluto de si, produz-se sem descanso, perdeu o outro, e se esgota. Lida a partir de Ratzinger, a sociedade do desempenho parece ser exatamente o que acontece quando a criatura relacional tenta viver como causa de si mesma. Na interpretação que proponho, o burnout não é apenas um acidente da economia digital: pode ser lido como uma das faturas antropológicas de uma cultura que obriga o eu a justificar-se sozinho. E até o detalhe sugere o parentesco: Han, sem fazer da fé cristã o fundamento explícito de seu diagnóstico — e sem adotar a resposta teológica de Ratzinger, que a sua formação, aliás, conhece —, termina os livros reivindicando realidades que a tradição do Logos também reconhece como abertura para além do eu: a alteridade, a contemplação, a demora, a festa, a indisponibilidade. Não é prova; é encontro de diagnósticos — e o encontro independente é o que um ensaio pode honestamente oferecer.
Gostaria de lhe mostrar por que isso não é apologética barata
Devo ao leitor as fronteiras, porque ensaio sério não anexa pensadores vivos a bandeiras alheias. Han não é cripto-cristão, e nada aqui o batiza à força: a sua argumentação publicada não depende de confissão religiosa, e as suas saídas passam pela contemplação e pelo pensamento oriental. Tampouco Ratzinger “previu o Instagram”: a sua crítica mira estruturas do espírito, não aparelhos. O que este ensaio sustenta é mais preciso e mais interessante: a convergência independente de dois diagnósticos — um deduzido da metafísica do Logos, outro construído como crítica filosófico-cultural do presente — sobre o mesmo ponto: o eu que perde a relação com o que o excede não ganha autonomia; ganha uma fábrica de si que nunca fecha. Quando dois instrumentos tão diferentes medem a mesma febre, a febre provavelmente existe. E o leitor desta casa reconhece o parentesco com o que já escrevi por aqui: a encíclica que pediu o desarmamento da IA denuncia a mesma redução da pessoa a fluxo de desempenho; e o artigo do Credo mostrou o avesso exato da autoprodução — creio na remissão dos pecados: a existência de um lugar onde o homem não precisa produzir a própria justificação, porque a recebe. A confissão, em chave cristã, interrompe a lógica da autojustificação: nela o perdão não é produzido pelo desempenho — é recebido como graça; não terapia de produtividade, mas o único tribunal onde o desempenho não é a moeda.
O que fica — sem consolo fácil
Permita-me fechar como a matéria pede: sem receita. Ratzinger não oferece a fé como técnica de bem-estar — oferecê-la assim seria rendê-la à própria lógica do desempenho que se critica; e Han não oferece a fé de modo algum. O que a leitura cruzada dos dois entrega é uma lucidez incômoda — e digo-o na leitura cristã que assumo: a prisão da imanência não se abre por dentro, porque o carcereiro é o preso; toda “solução” que o eu produzir será mais um produto do eu — mais um andar da mesma fábrica. Se há saída, ela terá a estrutura do que Ratzinger chamou Logos e Han, sem saber o nome, chamou de outro: algo que vem de fora, que não se rende ao cálculo, que me recebe antes de eu render. A posição deste autor, ao fim do percurso, é a de quem habita as duas margens — a filosofia que diagnostica e a fé que responde — e sabe que ninguém atravessa a ponte por procuração: entre a fábrica de si, que não fecha nunca, e a palavra que precede todo desempenho, a escolha continua sendo, como em 1968, a decisão fundamental de cada existência. O Logos não disputa mercado com o algoritmo. Ele apenas permanece — esperando, na origem, que o homem exausto se lembre de que não se fez a si mesmo.
Referências: Joseph Ratzinger, Introdução ao Cristianismo (1968) · Homilia da Missa pro eligendo Romano Pontifice, 18 de abril de 2005 (“ditadura do relativismo”) · Bento XVI, Discurso na Universidade de Regensburg, 12 de setembro de 2006 · Prólogo do Evangelho de João · Byung-Chul Han, Sociedade do Cansaço (2010), Sociedade da Transparência (2012), Psicopolítica (2014), No Enxame (2013), A Expulsão do Outro (2016). As sínteses são fiéis às obras; não se reproduzem citações literais extensas.
Pontos principais
- A tese de Juvenil Alves neste ensaio: Han não prova a metafísica de Ratzinger — descreve a sociedade em que a advertência do teólogo sobre o eu fechado em si adquire extraordinária força explicativa: sem sentido recebido, fabricar-se vira trabalho sem descanso.
- Para Ratzinger, crer é optar pelo primado do Logos: a origem do real é razão criadora e relacional — e o homem, criatura dessa relação, não se possui senão recebendo-se.
- A “ditadura do relativismo” (2005) e Regensburg (2006) são as duas faces do mesmo diagnóstico: onde a verdade é inacessível, o eu vira o último absoluto; onde a razão se encolhe ao mensurável, o desempenho vira a última resposta.
- Han: da sociedade disciplinar (“você deve”) à sociedade do desempenho (“você pode”) — o sujeito empresário de si, autoexplorado, esgotado, fechado nas bolhas onde só encontra o próprio reflexo.
- A convergência é independente — e por isso interessante: não demonstração, mas notável capacidade explicativa; sem a transcendência relacional, a fábrica do eu não fecha nunca.
Perguntas frequentes
O que significa o Logos no pensamento de Ratzinger? É a Razão criadora e relacional que está na origem do real — o Verbo do prólogo de João. Crer, para Ratzinger, é optar pelo primado do Logos sobre a matéria e o acaso: afirmar que no princípio não está o irracional que casualmente gera sentido, mas o Sentido que livremente cria e se relaciona.
O que Ratzinger quis dizer com “ditadura do relativismo”? Na homilia de 18 de abril de 2005, descreveu a instalação de um relativismo “que nada reconhece como definitivo e deixa como última medida apenas o próprio eu”: não uma defesa da tolerância, mas a entronização do eu como absoluto — que, em vez de libertar, obriga o sujeito a produzir sozinho o sentido que não recebe.
Qual a tese central de Byung-Chul Han na Sociedade do Cansaço? Que passamos da sociedade disciplinar, do “você deve”, à sociedade do desempenho, do “você pode”: o sujeito tornou-se empresário de si, explorador e explorado na mesma pele, e os adoecimentos da época — burnout, depressão — são patologias do excesso de positividade, o colapso do eu obrigado a produzir-se sem limite.
Byung-Chul Han prova a visão de Ratzinger? Não — e o ensaio não afirma isso. A obra de Han é crítica filosófico-cultural, não demonstração empírica de uma metafísica. O que existe é convergência interpretativa: o cenário que Han descreve é aquele em que a advertência de Ratzinger sobre o eu fechado na imanência revela notável capacidade explicativa.
O que liga Ratzinger a Byung-Chul Han? Uma convergência independente: Ratzinger deduziu da metafísica do Logos que o homem fechado na imanência desabaria sob a própria autoprodução; Han descreveu, em chave filosófico-cultural, o esgotamento do sujeito de desempenho. Han não faz da fé o fundamento do seu diagnóstico — e é exatamente a independência dos caminhos que torna o encontro digno de ensaio.
O que é o “aprisionamento na imanência”? É o horizonte que se fecha por dentro: o homem que declara inacessível a transcendência não elimina as necessidades que ela respondia — sentido, justificação, perdão —; transfere-as para si mesmo e para os seus artefatos, condenando-se à produção incessante de si. O algoritmo e a bolha de identidade são, nessa leitura, os carcereiros suaves dessa prisão.
Este ensaio integra a Série Ratzinger do Blog Juvenil Alves. Leia outros ensaios de filosofia, teologia e cultura na seção Humanidades.
Juvenil Alves Ferreira Filho Jurista · Teólogo · Filósofo · Psicanalista · Escritor
Humanidades · Belo Horizonte, agosto de 2026 · juvenilalves.com.br